Universo da obra
Universo da obra
Nota editorial. Tradução/adaptação editorial Literunico em português, preparada a partir da tradução inglesa em domínio público de H. R. James para The Consolation of Philosophy. Boécio faleceu em 524; H. R. James faleceu em 1931. A base textual está livre no Brasil pelo critério de vida do autor/tradutor mais 70 anos.
Livro I — A Filosofia visita o prisioneiro
Eu, que outrora compunha cantos com ardor alegre, sou agora forçado, em lágrimas, a iniciar versos de tristeza. Eis que as Musas, rasgadas as vestes, ditam palavras de dor; e os cânticos que acompanham minha mão escrevem com lágrimas verdadeiras.
Nenhum temor pôde afastá-las de meu caminho. Elas foram a glória da juventude; agora consolam o destino do velho. A velhice, apressada pela dor, chegou antes do tempo; cabelos brancos caíram sobre minha cabeça, e a pele, frouxa, treme no corpo gasto.
Feliz é a morte dos homens quando não se intromete nos anos doces, mas vem quando é chamada muitas vezes pelo sofredor. Agora ela fecha os ouvidos aos miseráveis e, cruel, recusa-se a fechar os olhos que choram.
Enquanto a fortuna infiel me favorecia com bens passageiros, uma hora triste quase me submergiu. Agora, porque ela mudou seu rosto enganoso, minha vida se arrasta com tardia demora. Por que, amigos, tantas vezes me chamastes feliz? Quem caiu assim jamais esteve firme.
Enquanto eu meditava em silêncio essas coisas e, com o estilete, marcava em letras minha queixa chorosa, pareceu-me que uma mulher de olhar venerável estava acima de minha cabeça. Seus olhos ardiam com brilho mais que humano; sua cor era viva e sua força intacta, embora tão cheia de anos que não se poderia crer que pertencesse ao nosso tempo.
Sua estatura era difícil de discernir. Às vezes se recolhia à medida comum dos homens; outras vezes parecia tocar o céu com o alto da cabeça. Quando a erguia mais, penetrava o próprio céu e desaparecia dos olhos dos que a contemplavam.
Suas vestes eram tecidas com fios finíssimos, trabalhados com arte delicada e matéria imperecível. Ela mesma, como depois soube, as havia tecido com as próprias mãos. A beleza dessas vestes estava coberta por certa obscuridade, como acontece com imagens antigas escurecidas pela fumaça.
Na borda inferior lia-se, bordada, a letra grega pi; na superior, a letra theta. Entre as duas, viam-se degraus como de uma escada, por onde se podia subir do sinal inferior ao superior. Contudo, mãos violentas haviam rasgado essa roupa, e cada uma levara o pedaço que pôde.
Na mão direita ela trazia alguns livros; na esquerda, um cetro. Quando viu as Musas da poesia ao lado de meu leito, ditando palavras à minha dor, seu rosto se acendeu, e os olhos, antes serenos, inflamaram-se de severidade.
“Quem permitiu”, disse ela, “que essas pequenas cortesãs de teatro se aproximassem deste enfermo? Elas não apenas não trazem remédio para suas dores, como ainda as alimentam com doces venenos. São elas que sufocam com as paixões estéreis o fruto da razão e acostumam a mente dos homens à doença, em vez de libertá-la.
Se vossas seduções afastassem de mim algum profano, como costuma acontecer, eu talvez suportasse com menos indignação. Mas agora este homem foi nutrido nas escolas eleatas e acadêmicas. Afastai-vos, sereias doces até a perdição, e deixai-o a meus cuidados e aos meus remédios.”
Aquela companhia, censurada assim, baixou os olhos, enrubesceu de vergonha e saiu tristemente. Eu, porém, cujos olhos estavam escurecidos pelas lágrimas e não podiam distinguir quem era aquela mulher de tão imperiosa autoridade, fiquei atônito, voltado para o chão, esperando em silêncio o que ela faria.
Então ela se aproximou e sentou-se à beira de meu leito. Vendo meu rosto abatido pelo luto e inclinado à terra, lamentou a perturbação de minha mente com estes versos:
“Ah, como a mente mergulha em abismo profundo quando abandona sua própria luz e se dirige às trevas exteriores. Quanto mais se dilata em cuidados terrenos, tanto mais se obscurece e perde o céu que possuía.
Este, antes livre para percorrer os caminhos do céu aberto, contemplava o brilho do sol rosado, observava a lua fria, media os cursos das estrelas errantes e encerrava em números o retorno de cada astro.
Buscava as causas dos ventos violentos, do mar inquieto, do espírito que move o mundo, e perguntava por que o sol mergulha nas ondas do ocidente para renascer no oriente. Agora jaz, a luz da mente apagada, o pescoço pesado por correntes, o rosto inclinado para a terra que o oprime.”
Assim falou aquela mulher. Depois, voltando-se para mim com olhar brando, tocou meu peito e disse: “Não é tempo de queixas, mas de remédio. Primeiro devo conhecer a causa da tua doença. Estás atordoado e esqueceste quem és. Por isso te abate a confusão. Mas ainda há em ti uma centelha, embora coberta, que pode reacender-se.”
Diálogo entre o autor e a Filosofia sobre fortuna, felicidade, mal, providência e liberdade. Clássico preservado com edição livre indicada.
Critério de domínio público no Brasil: direitos patrimoniais por vida do autor mais 70 anos, contados de 1º de janeiro do ano seguinte ao falecimento. Tradução H. R. James, falecido em 1931; livre no Brasil desde 2002.
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