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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 3 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 1 — Capítulo III — Saída Ao Encontro

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Cerca de meia hora depois montavam a cavalo no pátio do edifício, debaixo da chuva, que ainda batia com toda a fúria, Maurício, seu índio, o Gil, e mais sete cavaleiros, jovens paulistas, que de bom grado se ofereceram a acompanhá-lo.

Ainda restava um pouco da luz do dia.

Embuçados em compridos capotes e com o rosto coberto por largos chapéus de feltro desabados, bem armados e apercebidos contra qualquer emergência, ei-los que galgam pelas colinas fronteiras ao morro do Lenheiro em direção ao sul de Minas, por onde esse dia devia ter chegado, vindo de São Paulo, o capitão-mor Diogo Mendes.

A tempestade amainara, porém o céu continuava negro, e a noite descia escuríssima sobre a terra.

Caminhavam silenciosos, e com a maior presteza, que permitiam a escuridão e os péssimos, estreitos e esburacados caminhos. Digo mal, não eram caminhos, eram leitos de enchurradas, que ainda desciam aos borbotões do alto dos espigões.

Assim foram andando. A noite já ia avançada, e eles apenas haviam caminhado cerca de duas léguas, galgando e descendo colinas escabrosas, transpondo grotões profundos, vencendo atoleiros, e vadeando córregos cheios, com água pelos arreios, apenas alumiados por alguns escassos relâmpagos, que lançava de tempos a tempos a tempestade que se dissipava ao longe.

Nada tinham ainda encontrado, e Maurício desesperava entregue a mais viva inquietação.

— Meu Deus!... que será feito deles?... deviam chegar hoje sem falta, a não haver algum grande contratempo... Pode acontecer tanta coisa por esses sertões!... Que noite medonha!... Tais eram as exclamações, que de quando em quando Maurício ia soltando aos ventos da noite para desabafar suas inquietações, enquanto seus companheiros, descuidosos e indiferentes à sorte do capitão-mor, só tratavam de tanger para diante.

— Deixa-te de cuidados e lamentações — exclamou por fim o Gil, um dos mais resolutos e queridos companheiros de Maurício.

— Eles não podem correr risco algum; foi a chuva que os atrasou. Mas seja como for, já agora toquemos para adiante até romper o dia, e mais ainda se for preciso. Mais tarde ou mais cedo, hoje ou amanhã, havemos de encontrar por força o teu capitão-mor, salvo se caiu no inferno.

— Enquanto a mim — atalhou outro, bem pouco se me dá que ele tenha caído no inferno, no papo de alguma onça, ou nas unhas do gentio. Que o leve o demo!... esses cães de emboabas é que deviam agora andar por estes ermos à cata de seu capitão-mor... cambada de poltrões! Mas enfim eu não sou homem, que me negue a uma empresa destas, principalmente convidado por Maurício.

— Também eu é por sucia — acudiu um terceiro — e por servir ao nosso amigo Maurício, que aqui me acho, e nenhum empenho tenho de ver a cara do tal capitão-mor, de quem Deus me guarde.

— Nem eu tão pouco — retrucou um quarto, mas confesso, que tenho grande desejo de ver a carinha da filha, que dizem ter um rosto lindo como o de um anjo, e alma boa como de uma santa.

— Oh! se é linda! — gritou da retaguarda um quinto; — lembro-me de a ter visto uma vez em São Paulo na igreja dos Jesuítas. É uma formosura pasmosa! nunca vi coisa que mais me enchesse os olhos. De boa mente eu me sujeitaria a passar trinta noites de azares como esta e piores ainda para conseguir um beijo, um beijo só nas rosas daquela boquinha encantadora... A estas palavras, Maurício, que já os escutava com impaciência, abafou um rugido de cólera, e se não fora a escuridão da noite, tê-lo-iam visto passar alternativamente do vivo rubor da indignação, prestes a fazer explosão, à palidez marmórea da cólera concentrada.

Nesse momento acabavam de descer o lançante de um grande morro, e acharam-se à boca de espessa mata, por onde o caminho se enfiava por um trilho estreito, que se perdia na escuridão impenetrável.

Ao chegarem à entrada daquele antro pavoroso, os cavaleiros, tocados de súbito e passageiro terror, estacaram e hesitaram um momento.

— Cruz! que brenha medonha! exclamou um.

— Parece a boca do inferno — observou outro.

— Será possível, que seja por aí o caminho? — refletiu um terceiro.

— É por aí mesmo que bem o sei eu; — bradou o Gil — toca para diante; agora não há mais

que recuar, nem que se abram diante de nós as

gargantas do inferno. E picando o cavalo arrojou-se para a entrada da mata.

— Espera, Gil — gritou Maurício.

— O Antônio, que enxerga no escuro melhor que um

gato do mato, e além disso tem faro de cão, e

ouvido afiado como o do veado, que vá adiante

e nos sirva de guia. Anda, Antônio; toca

adiante.

O índio esporeou o cavalo, e penetrou na

mata. Após ele os outros cavaleiros desapareceram um por um naquela escuridão medonha.

As patas dos cavalos quase não faziam ruído

algum sobre o chão úmido e mole; e quem

visse aquela troça de cavaleiros embuçados em

mantos negros desaparecendo um após outro silenciosamente na escuridão da selva, cuidaria

estar vendo uma turma de duendes esvaecendo-se

por encantamento.

Por uma picada cheia de atoleiros e buracos,

atravancada de tocos e raízes foram avançando

lenta e cautelosamente no meio da mais completa

escuridão, que nem permitia enxergarem-se

uns aos outros, posto que marchassem sempre o

mais unidos que era possível, e guiando-se apenas

pelo ruído dos passos do cavalo do índio, o qual também os orientava com a voz, para que se não metessem em algum precipício.

Assim foram avançando com muito custo e vagar, e teriam se internado coisa de um quarto de légua pela mata, quando o índio estacou de repente.

— Esperem lá — disse ele com mistério e precaução.

— Ao que parece, estou ouvindo voz de gente.

Os cavaleiros pararam instantaneamente como tocados por uma vara mágica. Vozes humanas naquela solidão profunda, à tais desoras, no seio de uma floresta primitiva, apenas tocada pelo pé do homem, devia com efeito causar mais estranha impressão no espírito daqueles denodados cavaleiros, do que se ouvissem os rugidos do tigre, ou os urros da suçuarana.

Posto que tivessem saído de propósito ao encontro do capitão-mor, estavam longe de pensar, que se tivesse abalançado a penetrar â tais horas com sua família no medonho labirinto daquela espessa mata, que a eles mesmos tinha inspirado pavor.

Portanto não deixaram de experimentar a mais ansiosa emoção, quando afiando o ouvido com toda a atenção, e suspendendo até a respiração para melhor escutarem, sentiram uns sons como de voz humana chegarem confusos e interrompidos a seus ouvidos.

Um calafrio percorreu todo o corpo de Maurício, que tremeu pelos perigos, a que estavam expostos o capitão-mor e sua filha, e deu graças à Providência, que lhe inspirara o pensamento de sair ao seu encontro a despeito da tormenta e da escuridão da noite.

— É com efeito gente, que fala por esse caminho além — diz ele.

— Avancemos mais um pouco, porém, com a maior cautela, a fim de melhor escutarmos, e depois... iremos ao encontro de quem quer que seja. Porém cautela!... bem pode ser alguma horda de bugres, ou quadrilha de bandidos. Vamos!... De feito avançaram mais uns cem passos com a maior precaução e silêncio, que lhes foi possível. As vozes iam-se tornando cada vez mais distintas.

Pararam de novo a um sinal de Maurício. Ouviam já perfeitamente tudo.

Eram um homem e uma mulher, que falavam, e pareciam estar parados.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

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