Universo da obra
Universo da obra
Ao sair da gruta, Tiago deixara Antônio sob a ameaça de mais de vinte punhais que se brandiam furiosos por cima da cabeça do infeliz caboclo e contava como certo que cairia vítima daqueles selvagens. Ora, cumpre saber que o mameluco, além do ódio que votava ao gênero humano em geral, guardava para Antônio um quinhão um pouco mais avultado. Provinha isto principalmente de um fato muito recente, cujo resultado ainda lhe doía nos costados. Tiago também se agradara da gentil e interessante Judaíba e, um dia em que se metera a engraçado junto dela, tendo até o atrevimento de dar-lhe um beijo de surpresa, Antônio, a quem a índia já tinha avisado de suas más intenções, teve a fortuna de pilhá-lo em flagrante e, ali mesmo, aos olhos de Judaíba, antes que ninguém pudesse acudi-lo, passou-lhe uma boa sova de chicotadas, socos e bofetadas. Pode-se ajuizar quanto seria violento o ódio do mameluco, assanhado pelo incentivo da vingança. Dissimulou seu ressentimento, aguardando o primeiro ensejo favorável para vingar-se, dando-lhe cabo da vida. Sabedor das circunstâncias particulares por que o índio era retido na gruta, usou do pérfido ardil que o vimos empregar para sacrificá-lo. Com esse ardil também imolava Maurício, a quem igualmente votava profundo rancor, em razão da altivez e desprezo com que sempre o tratara, por conhecer-lhe a índole perversa e abjeta.
Por outro lado, Tiago, que nenhuma afeição nem benevolência sentia pelo capitão-mor nem por pessoa alguma de sua família, votava a Fernando ódio entranhável, não só pela aversão natural que todo escravo, mesmo o de boa índole, tem a seu senhor, como porque Fernando, senhor tão imprudente como desumano, ao passo que lhe dava excessivas confianças e toda liberdade, não deixava também de açoitá-lo cruelmente pela mais leve falta. Portanto, o mameluco folgaria infinitamente se o visse cair trespassado aos golpes dos revoltosos, embora com ele tivesse de ver sucumbir também o capitão-mor, sua família e todos os emboabas. Assim, para saciar seus instintos perversos, convinha-lhe atraiçoar a uns e a outros, mas de um modo incompleto, de sorte que pudessem vir às mãos e degolar-se uns aos outros com todo furor. Só assim seu espírito satânico poderia exultar e tripudiar entre o sangue e as lágrimas alheias.
Dadas estas explicações, voltemos à gruta, onde deixamos ardendo o tição fatídico, que devia decidir da sorte de Antônio e de Maurício. Gil, Bueno, Calixto e mais alguns paulistas, que se interessavam pelos dois e não podiam ainda acreditar na deslealdade de Maurício, tinham os olhos pregados naquele lenho sinistro, notando com angustiosa ansiedade os estragos da chama inexorável que o devorava com terrível presteza. Só desviavam dele os olhos de quando em quando para dirigi-los à entrada da gruta, a ver se nela assomava o vulto do amigo. Todos os demais insurgentes, em inquieta expectação, vinham também de quando em quando examinar o tição. Mudos, ou murmurando apenas em voz baixa, estavam diante daquela acha de lenha como diante de formidável pitonisa que acabavam de consultar e que, sentada sobre a trípode, rodeada de chamas, ia em breve proferir a sentença que decidiria da sorte de dois homens.
Já cerca de uma hora tinha-se escoado; do tição só restava uma pequena extremidade, e Maurício não aparecia. Nunca, para Gil, o tempo volveu-se com tamanha rapidez. Inquieto e agitado, saía às vezes de junto do fogo e se dirigia à porta da gruta, olhava, espiava, escutava através da escuridão e silêncio da noite, e daí a instantes voltava de novo torvo e abatido para junto do fogo a contemplar os progressos da chama no maldito tição. Já se arrependia e maldizia-se pela facilidade, com que havia consentido no prazo fatal proposto pelo negro. Do tição já não restava senão um toco abrasado a desfazer-se em cinzas. Mais alguns minutos, e Antônio ia cair aos golpes daqueles sicários, e Maurício estava para sempre perdido. Enfim uma brasa incinerada e mortiça era o único resto daquele lenho a luzir como o débil fulgor de uma esperança prestes a esvaecer, ou como o olhar embaciado e frouxo do agonizante. Os punhais e os zagaias já lampejavam ameaçadores em redor do pobre caboclo adormecido.
— Acorda, camarada! - bradou o negro.
— Não quero que morras dormindo; era o mesmo que continuar a dormir.
— Ainda não — gritou Gil colocando-se de um salto junto de Antônio.
— Um momento ainda; um momento só!... olhem ainda resta uma faisca: deixemo-la apagar-se. O ouvido de Gil sempre atilado e alerta tinha percebido ao longe um rumor surdo como o tropear de um cavalo a galope. Esse rumor, do qual até ali só ele se apercebera, ia-se avizinhando e tornando mais distinto, ao mesmo tempo que a fisionomia de Gil até ali torva e sombria ia se reanimando e expandindo, como o céu gradualmente se ilumina ás aproximações do dia.
— É ele!... não ouvem! ei-lo que chega! - exclamou Gil com a mais entusiástica e jubilosa emoção. Todos os olhos voltarão-se imediatamente para a entrada da gruta, onde um momento depois assomou a figura de Maurício, que entrava a passos precipitados.
— Eis-me aqui, camaradas! - exclamou ele desembuçando o capote e lançando-o sobre uma pedra.
— Antônio, Gil, Bueno, eis-me aqui, meus bravos amigos!...
— Qual o motivo por que tanto te demoraste! — perguntou Gil.
— Ah! Maurício! Maurício! tua demora nos ia sendo fatal!...
— Oh! perdão Gil; não foi por culpa minha... um triste acontecimento me forçou a demorar... Saibam que o Minhoto foi assassinado, e...
— Disso bem sabemos nós — replicou o negro.
— Como assim? - perguntou Maurício.
— Fomos nós, que o matámos.
— Deveras!... pois fizeram mal! foi uma imprudência, que nos vai criar novas dificuldades; devemos acabar com eles todos de um só golpe.
— Mas que remédio tínhamos nos senão alinhavá-lo, meu branco? Ele veio descobrir nossa toca, e ia nos entregar ao capitão-mor. Realmente o Minhoto tendo saído a caçar, como já sabemos, com mais alguns companheiros dirigiram-se para o lado da gruta até as margens de Rio d'Elvas, pequeno afluente do Rio das Mortes, que passa a pouca distância dela. Tendo lançado os cães ao mato aconteceu saltar um veado na espera, onde o Minhoto se achava sozinho. Este atirou e errou; com o estrondo do tiro seu cavalo, que estava atado a um arbusto, espantou-se, quebrou as rédeas, e deitou a fugir. O Minhoto pôs-se a correr por muito tempo debalde atrás deles, passou córregos, varou capões, transpôs morros, sem nunca poder apanhar o maldito cavalo, que sem correr muito contudo não permitia pôr-se-lhe a mão. Enfim completamente desorientado e morto de fadiga o perdeu de vista, e andou vagando à toa, até que por uma fatal casualidade foi parar à entrada da grande gruta; contemplou-a por algum tempo cheio de assombro e terror. Aplicou o ouvido, e como ouvisse lá por dentro um como rumor de vozes humanas, amedrontado como se achava, voltou-lhe as costas e desatou a correr fugindo daquele antro pavoroso. Desgraçadamente para o Minhoto nesse momento vinha saindo da caverna um dos insurgentes, que ali estavam de guarda e quis a má estrela do Minhoto, que fosse o seu próprio escravo, o negro mina Joaquim. Apenas divisou aquele vulto que fugia, o negro levou os dedos à boca, e saltou um assobio estridente. Imediatamente acudiram mais alguns companheiros. Correrem atrás d' ele, agarrarem-no, cozerem-no a facadas, sem ao menos darem tempo ao mísero de implorar compaixão, foi obra de poucos momentos. Nem podia ser por menos, que era essa a ordem expressa e terminante, que haviam recebido de seus chefes. Qualquer pessoa suspeita ou mesmo estranha à insurreição, que caísse na desgraça de aparecer pelas vizinhanças da gruta, devia sofrer imediata execução. O negro Joaquim, na feroz sofreguidão, com que se atirou àquele ato de vandalismo, só reconheceu seu senhor, quando este trespassado de uma infinidade de golpes exalava o último suspiro.
— Ah! era Vm, meu senhor!...- exclamou ele com mostras de grande pesar.
— Se eu soubesse, não o teria matado tão depressa... queria perguntar-lhe certas coisas... mas... o feito está feito!... Depois de conferenciarem um momento entre si os assassinos tomaram o cadáver aos ombros, e o foram lançar em lugar o mais afastado possível e bem patente, para que o achassem logo, e não fossem a força de procurá-lo descobrir o seu misterioso refúgio. Feito o que, deram pressa em recolher-se. De feito meia hora depois aí o foram encontrar os companheiros, e conduziram a povoação pela maneira, que sabemos. Inteirado Maurício deste sucesso explicou lambem em poucas palavras, como o assassinato do Minhoto o tinha impedido de comparecer na hora aprazada; esta explicação acabou de desvanecer completamente todas as desconfianças dos insurgentes.
— Agora, meus camaradas — terminou ele — estou inteiramente à sua disposição. Só vos peço um dia, o dia de amanhã até a meia-noite. É preciso tomar ainda certas medidas para sermos bem sucedidos nesta nossa arrojada empresa. Daí em diante não sairei mais daqui; minha morada será esta caverna, e dela não sairemos senão para lavarmos todas as nossas injúrias e afrontas no sangue de nossos opressores. Não sei por que razão meus amigos desconfiaram de mim. Tenho talvez cem vezes mais razão do que todos, que aqui se acham, para odiar do fundo d'alma essa gente maldita, que nos quer esmagar. Eles me têm feito gemer com o coração torturado entre mil angustias, e com as faces ardentes dos mais infamantes ultrajes. Ninguém, eu vos juro, ninguém tem mais sede do que eu, do sangue de nossos perseguidores. Esta linguagem fogosa acabou de extinguir naqueles ânimos grosseiros e fanáticos, tão fáceis de inflamar-se em ódio e desconfiança, como em entusiasmo e dedicação, o último resquício de indisposição, que porventura ainda sentiam contra Maurício. Antônio cheio de jubilo e exaltação saltou ao colo de seu amo.
— Bravo!... muito bem, meu amo! exclamava, e voltando-se com ar triunfante para os insurgentes, que o rodeavam: — Então?! - lhes dizia na embriaguez de um nobre e intimo prazer; — queriam me matar, corja de loucos!... não lhes dizia eu, que meu amo, que aqui está em meus braços — estão vendo agora bem?... que meu amo... era mais fácil o dia tornar-se noite, do que ele atraiçoar-nos... Todos os que eram hostis a Maurício e a Antônio, não excluindo o negro sentinela, que tão desapiedado se mostrara contra eles, foram se lançar aos pés deles pedindo-lhes perdão. Gil lembrando-se do que havia conchavado com seu amigo, aproveitando-se daquelas boas disposições levantou sua voz sempre respeitada.
— Camaradas!... Maurício já aqui está conosco. É o melhor desmentido, que se pode dar àqueles, que ainda ousarem julgá-lo desleal e traidor. Entretanto ele corre mais perigo do que qualquer de nós, e é o alvo principal das iras dos emboabas, e nenhum de nós deseja mais do que ele sacudir o jugo desta canalha de além-mar, que nos quer tratar como escravos. Até aqui tenho sido vosso cabeça na falta de Maurício, que não podia estar sempre conosco; agora ele deve ser nosso comandante, porque ele conhece melhor do que nós a povoação e o inimigo, que temos de atacar, e tem muito mais juízo, prudência, e habilidade do que eu, e portanto proponho Maurício para nosso chefe; aceitam?...
— Aceitamos! aceitamos! — bradaram todos.
— Viva Maurício!... Viva! viva!... Passado aquele momento de exaltação e entusiasmo, Maurício disse aos insurgentes: — Meus amigos, a noite já vai muito adiantada; por hoje nada mais podemos fazer... é preciso que nos dispersemos... Amanhã sem falta à meia-noite aqui me acharei.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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