Universo da obra
Universo da obra
Mais de um mês de inalterável tranquilidade passou-se no povoado de São João del-Rei.
Tão diuturna tranquilidade a todos agradava, menos a Fernando, que via com desgosto fugirem-lhe todas as ocasiões de perseguir Maurício. Infelizmente, para fazer o mal elas não se fazem esperar por muito tempo.
Fernando e Afonso ocupavam o mesmo aposento na casa do capitão-mor, o que lhes dava azo de poderem palestrar à vontade nas horas vagas da noite ou do dia, e fazerem-se mútuas confidências. Fernando tomara a seu cargo acabar de perverter a alma do jovem primo, já bastante estragada pelos mimos e condescendências paternas, e ia conseguindo maravilhosamente o seu fim.
— Onde estiveste ontem à noite até tão tarde, que nem vi quando chegaste? — perguntou Fernando a seu primo uma manhã ao acordar.
— Oh! Se soubesses, ficarias com inveja, Fernando — respondeu Afonso, acordando e espreguiçando-se voluptuosamente.
— Por quê?
— Porque estive em casa de uma menina bonita... oh!... Fernando... bonita como os amores!...
— Oh! Deveras!... sim!... pois isso por aqui é fruta bem rara. Quem é?... como se chama?... onde mora?...
— Oh! Que gana de saber tudo a um tempo!... pois não te conto nada.
— Forte criança!... receias acaso que eu vá tirar-te do lance?... bem sabes que a minha posição, e ainda mais o amor que consagro à tua irmã, não me permitem meter-me em empresas de certa ordem... Anda lá; conta-me quem é a rapariga. Em vez de te estorvar, talvez te possa ajudar em tua empresa.
— Prometes não contar nada a meu pai?...
— Ora, essa é boa!...— retorquiu Fernando, rindo-se, e, levantando-se da cama, foi sentar-se à do primo, que ainda estava entre os lençóis, e disse-lhe, afagando-lhe a cabeça:
— Toma juízo, rapaz... que interesse posso eu ter em levar tais ninharias aos ouvidos de teu pai?... Temos coisas mais sérias em que pensar. Deixa-te de tantas precauções e, sobretudo, tem confiança em mim e conta-me quem é a rapariga.
Afonso, em razão de sua pouca idade, pois contava apenas vinte anos incompletos, tinha ainda certo recato e timidez e, em razão de sua índole, que não era má, respeitava ainda ao pai seu tanto ou quanto. Foi, portanto, com algum acanhamento e receio que revelou ao primo a existência dessa moça, por quem começava a tomar-se de amores.
— Chama-se Helena — disse.
— E onde mora?...
— Nas abas daquela serra — respondeu o moço, indicando com a mão o rumo da serra do Lenheiro, que ainda não tinha nome.
— A casinha onde mora está situada perto de uma fonte, e o lugarzinho é muito bonito. Quando a vi pela primeira vez, estava lavando roupa. O pai dela é um ferreiro; decerto o conheces, Fernando... o mestre Bueno?...
— Oh! Muito!... então a menina é filha de mestre Bueno!... um paulista velho e casmurro como trinta diabos!... conheço-o muito, e já ouvi falar nessa rapariga; dizem que é muito bonitinha a filha do tal bronte...; deve ter muitos amantes...
— Muitos, Fernando; e é isso que me amofina.
— Em pouca água te afogas; pois que tem isso?... é muito natural; aqui não há mulheres; é «populus virorum... res unius aetatis», como diz o teu Floro, falando dos fundadores de Roma. Quero dizer que nesta terra quase tudo é homem e rapaziada nova e bem-disposta, e, portanto, uma menina bonita por aqui é osso a que se atiram mais de trinta cães... uma cáfila de perros que só com um grito os podemos enxotar... Mas vamos ao caso; quais são esses amantes?
— Eu sei lá...; um magote de farroupilhas que não conheço e que andam sempre a rondar por perto da casa de mestre Bueno, como zangões em volta da colmeia... Um deles bem conheço eu... um rapazete que não sai de lá, e dizem que até mora lá com eles, por nome Calixto...
— Ah!... conheço...; e mais quem?...
— O Gil...
— O Gil também?!...— exclamou Fernando, erguendo-se com alegre surpresa.
— Bom!... bom!... não está mal escoltada a pequena...
— O Minhoto...
— Também?!... coitado!... aquele pobre diabo mete-se em quanta alhada há por esse mundo. Há de ser bem feito que os paulistas lhe arranquem o couro, que de cabelos não lhe acharão um fio. Mas vamos adiante, Afonso, quem mais?
— Os mais não conheço...
— Não anda por lá o Maurício?
— Pode ser; mas nunca o vi por lá. Passo muitas vezes a cavalo pela casa de mestre Bueno; quase sempre vejo Helena ou na fonte, que fica mesmo pertinho da casa, ou na varanda cosendo; mas nunca me atrevi a apear-me, porque meu pai não gosta que me meta no meio de semelhante gentalha. Mas ontem perdi a paciência e deitei para longe os escrúpulos... arre lá! Pois a gente há de viver aqui como quem está no seminário dos Jesuítas em São Paulo!... aqui não há saraus, nem teatros, nem cursos como lá; não se vê senão poviléu e gentalha; com quem a gente há de divertir-se senão com as rapariguinhas do povo?...
— Tens razão.
— Apeei-me a pretexto de descansar e beber um pouco d’água, e lá fui deixando-me ficar até horas mortas... A companhia estava muito divertida. A Helena canta...
— Ah!... e que pretendes fazer, meu rapaz?...
— Não sei, primo; tenho medo de me envolver com essa canalha.
— Se não tens ânimo de suplantar essa corja de maltrapilhos, o que vais fazer lá?...
— Tenho medo de desgostar a meu pai.
— Forte poltrão!... não pareces filho do capitão-mor Diogo Mendes. Maior desgosto teria ele se soubesse que és tão pusilânime.
— Que estás dizendo, Fernando! Eu, pusilânime?
— Sim, pusilânime, porque tens medo de uma meia dúzia de ciganos. Pois bem! Fica em casa comendo biscoitos e deixa-me lá ir, que eu saberei haver-me com eles; irei requestar a menina e, depois de enxotar todo esse bando de rufiões, tu poderás possuir a tua Helena, eu te afianço; mas há de ser em segunda mão.
— Fernando!... não me repitas isso!...— bradou o moço, erguendo-se de um pulo em pé sobre a cama.
— Se o tentares, em vez de rufiões me acharás à tua frente, a mim sozinho, ouviste, Fernando?...
— Bravo!... assim é que te quero ver — replicou Fernando, sorrindo.
— Nada receies da minha parte; eu estou gracejando. Tudo isto por aqui é nosso; podes ir, andar por meio deles, entrar-lhes pela casa dentro; mas não te humilhes, nem te acovardes diante desses perros, porque... ai daquele que faltar ao respeito ao filho do capitão-mor Diogo Mendes!...
— Ao vil que me desrespeitar — retrucou vivamente o mancebo — eu, sem socorro de mais ninguém, saberei dar a competente resposta.
Falando assim, Afonso espumava, trincava os dentes e crispava os punhos, como se já estivesse sendo vítima de algum insulto. Saltou da cama, vestiu-se e penteou-se à pressa.
— Apenas acabarmos de almoçar — disse a seu primo —, monto a cavalo e lá estou em casa do ferreiro. Já agora hei de levar a cabo esta aventura, dê no que der.
Fernando exultou vendo a disposição do rapaz.
— Temo-la travada — pensou ele.
— Este amor do menino há de produzir seus frutos. É o verdadeiro pomo de discórdia... Uma Helena pôs a Grécia em conflagração. Outra Helena vai dar aqui o mesmo resultado. O ponto é eu saber aproveitar-me das circunstâncias. É uma ratoeira em que tenho de apanhar todos esses insolentes paulistas, sem excetuar o seu altanado chefe Maurício... oh! que sim!... como as outras mariposas, ele há de procurar o fogo em que há de arder.
De fato, Afonso, terminando o almoço, montou a cavalo e dirigiu-se sozinho para a serra do Lenheiro.
Apesar do estimulante que Fernando lhe aplicara e que produziu o passageiro arreganho que acabamos de ver, Afonso, talvez em razão de sua pouca idade, à medida que se ia aproximando da casa de mestre Bueno, sentia-se cada vez mais indeciso e acovardado e retardava de mais em mais o passo de seu cavalo. Ia estudando pelo caminho um pretexto plausível com o qual pudesse, sem despertar suspeitas, apresentar-se em casa do velho ferreiro, em presença do qual, a seu despeito, não podia deixar de sentir certo respeito e acanhamento. Caçar por esses lados era absurdo; o caminho, que trepava por aquela escabrosa encosta, muito mal dava trânsito a cavaleiros até a casa do ferreiro. Só lá iam os que tinham relações de amizade com mestre Bueno ou alguma obra em sua oficina. O que iria Afonso lá fazer que não denunciasse o intento de ver Helena? O jovem fidalgo já tinha esgotado os recursos de sua imaginação. A primeira vez, de fato, lá fora parar transviado ou passeando a esmo, a fim de conhecer os arredores da povoação. A segunda vez lá fora de propósito para beber água da fonte, que achara mui fresca e saborosa, mas não para ver Helena. A terceira fora arrebatado pelo cavalo, que, tomando o freio entre dentes, lá o havia levado mau grado seu; também o cavalo parecia ter gostado muito da água da tal fonte. A quarta vez tinha ido para apreciar a bonita perspectiva que dali se gozava e, ao mesmo tempo, beber ainda um pouco daquela deliciosa água. Agora, pela quinta vez, o que iria ele lá fazer?... Preocupado com este gravíssimo problema, ia ele andando vagarosamente e, largando as rédeas sobre o pescoço do animal, deixava-o ir à sua vontade.
— Oh! Bem achado! — exclamou por fim, batendo na testa.
— Vou ajustar com o ferreiro o conserto e fabrico de ferramentas para meu pai. Que excelente pretexto!... não sei como há mais tempo não havia atinado com ele!
E, tomando as rédeas e esporeando o cavalo, pôs-se a trotar resolutamente pelos estreitos trilhos que, galgando a encosta, conduziam à casa do ferreiro.
A casinha de mestre Bueno era, na verdade, como dissera Afonso, situada em um mui aprazível e pitoresco recanto. Estava assentada em uma pequena esplanada natural, que ficava a meia altura da montanha, à maneira de um terraço ou belvedere, de onde se gozava a vista de toda a povoação e de extensos horizontes. A fonte, que jorrava a um lado, a alguns passos de distância, e que, caindo dos topes vizinhos em argentadas e brilhantes espadanas, vinha espreguiçar-se em límpido tanque alcatifado de variegado e cintilante cascalho, dava alegria, vida e fresquidão à interessante choupana. Consistia esta, pela frente, em uma varanda aberta entre dois pequenos quartos. Um destes era a tenda, onde o ferreiro tinha a sua forja; comunicava com a varanda por uma porta quase tão larga como ela e tinha na frente uma janela que tinha mais largura que altura. Para o interior havia mais alguns cubículos, onde, à exceção dos donos da casa, ninguém mais penetrava.
A varanda servia de sala de visita, onde mestre Bueno se entretinha com seus fregueses e amigos.
Habitavam este casebre mestre Bueno, sua filha e Calixto. Não nos ocuparemos do primeiro, que já é nosso conhecido antigo.
Calixto, que também o leitor já viu no dia da grande caçada do capitão-mor, era um jovem paulista, afilhado e protegido de mestre Bueno, belo rapazinho, cheio de vigor e atividade, que muito ajudava seu velho protetor nas rudes lidas de seu ofício.
Tendo ficado órfão de pai e mãe em mui tenra idade, o bom velho havia tomado a seu cuidado a criação do menino desvalido e, a par de uma boa educação moral, a única que lhe podia dar, ensinou-lhe o ofício de ferreiro e o levou consigo para São João del-Rei, juntamente com Helena, único resto de sua família. Calixto habitava o quarto fronteiro à tenda e contíguo à varanda.
Helena era uma linda menina, de quinze a dezesseis anos, de porte mediano e do mais gentil e gracioso tipo caboclo. O rosto redondo era da mais mimosa cor de jambo; as feições, regulares e delicadas; a boquinha sempre risonha era uma rubicunda e fresca rosa entreabrindo-se aos primeiros fulgores da aurora; o colo perfeitamente modelado meneava-se flexível como o da meiga rola sobre o curvo e voluptuoso seio; os olhos, não muito grandes, eram pretos, vivos, travessos e de uma extraordinária cintilação. Os cabelos negros e corredios seriam muito compridos se ela não tivesse o costume de apará-los ao rés dos ombros, a fim de não a estorvarem na incessante lida de seus fragueiros trabalhos; mas ela os encaracolava nas pontas com os próprios dedos, e eles lhe desciam em graciosas espirais, como serpentes negras a beijar-lhe as espáduas.
Helena era a lavandeira, a costureira e a cozinheira da casa, e também acompanhava seu pai ao mato, quando este ia preparar o carvão necessário à sua forja, e de lá voltava trazendo um bem pesado feixe de lenha sobre a donosa cabecinha.
O leitor já deve estar adivinhando que Calixto e Helena, criados juntos desde a infância naquela vida retirada, inocente e laboriosa, deviam amar-se inevitavelmente com aquele amor puro, ingênuo e cheio de confiança, que se insinua no coração quase sem ser sentido e que se torna, por fim, ardente, profunda e inextinguível paixão.
Quando Afonso chegou à casa do ferreiro, estavam ele e seu afilhado na tenda, ocupados em forjar uma grossa alavanca. Calixto tocava o fole, enquanto Bueno, com os músculos dos braços arregaçados, amparado com um comprido avental de couro, que lhe descia do pescoço até abaixo dos joelhos, com a tisnada catadura alagada em suor, empunhava a tenaz, caldeando uma pesada barra de ferro em brasa. Helena cosia na varanda.
Afonso apeou-se e, dirigindo-se para a janela, debruçou-se sobre ela.
— Bom dia, mestre Bueno — disse, cumprimentando.
— Oh! Bom dia, meu moço... então anda passeando?... Como vai o papai?...— respondeu indiferente o ferreiro, sem olhar para o moço e sem se distrair um instante do seu trabalho.
— Meu pai vai bem, mestre; e é por mandado dele que venho procurá-lo.
— Pois aqui estamos às ordens — e, dizendo isto, o velho bronte agarrou com a mão direita um pesado malho e, com a esquerda, empunhando fortemente a tenaz, arrancou do fogão a pesada barra de ferro e, com rápido movimento, levou-a à bigorna. No mesmo instante, Calixto, largando o fole, empunhou outro martelo, e começaram ambos o tan-tan-tan infernal das tendas de ferreiro.
— Arreda, moço!... Não vá se queimar! — bradara Bueno antes de começar a malhar. Mas Afonso, que talvez nunca tivesse visto funcionar uma forja, não compreendeu a necessidade de subtrair-se incontinenti ao turbilhão de fagulhas ardentes que, ao choque dos martelos, saltavam da bigorna como de uma cratera em erupção e se expandiam em derredor como um repuxo de fogo.
Afonso deu um grito e saltou para longe da janela. Uma chuva de chispas abrasadas tinha-lhe chamuscado as mãos e o rosto.
— Eu bem o avisei, meu moço — gritou o ferreiro —, mas vossas mercês pateteou; a culpa não é minha.
Falando assim, o velho levava outra vez o ferro à fornalha e, com a chegadeira, cobria-o bem de brasas, enquanto Helena acompanhava os gemidos de dor do mancebo com uma alegre, interminável e sonorosa gargalhada, a que servia de baixo marcante o ronco do fole, que recomeçava a funcionar com redobrado furor.
— De que estás aí a rir-te, menina? — ralhou o velho lá da tenda, sem deixar o serviço.
— Pensas, então, que isso não dói e que a mão de um fidalguinho é como a nossa, toda encoscorada e chamuscada de fogo?... Cuida antes em ver aí um bocado de azeite para untar na mão desse moço.
Helena calou-se, correu ao interior da casa e, daí a pouco, voltou com uma xícara contendo um pouco de azeite doce e uma pena, e dirigiu-se a Afonso a fim de aplicar-lhe o linimento receitado por seu pai. Tudo isto fez de modo mui cortês e atencioso, porém com tal cara de riso sufocado que o mancebo, corrido e desatinado, nada quis aceitar, asseverando que nada sofria, e, de fato, a coisa era muito insignificante. Quase sem se despedir, montou a cavalo e retirou-se muito envergonhado e com muita raiva... de quem?... De si mesmo, por certo, pois ninguém o havia ofendido. Ninguém!... que digo eu?... A risada de Helena o havia ofendido mil vezes mais que as fagulhas ardentes que lhe haviam salpicado as mãos. É este um fenômeno moral de que é escusado dar explicação aos leitores, e creio que nem mesmo às leitoras. Um namorado quereria antes receber uma rija bofetada das delicadas mãos de sua amante do que ser vítima de uma gargalhada de seus lábios alegres e rubicundos. Os lábios de uma moça amada são como as pétalas de uma flor, que contêm em seu cálice o veneno que nos mata e o perfume que nos embriaga. O sorriso é o perfume; a risada é o veneno.
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