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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 33 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 2 — Capítulo VIII — Indícios e Suspeitas

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Diogo Mendes e Fernando ficaram impressionados e pensativos com as informações, que lhes trouxeram os apreensores de Judaíba a respeito do lugar, onde a acharam, e das pessoas, com quem a encontraram. Fernando, ou porque de fato receasse algum plano de sublevação, ou porque não quisesse deixar passar ensejo algum de chamar o ódio e a desconfiança sobre Maurício, Gil e todos os paulistas, procurava fazer compreender ao capitão-mor todo o alcance de um fato, que simples na aparência todavia bem considerado dava lugar a graves suspeitas a respeito dos indivíduos, que ali se achavam reunidos.

— Este fato, senhor — dizia Fernando em tom convicto e veemente — é para mim sintoma evidente, de que esse seu tão estimado Maurício não é estranho ao ódio e rancor, que nos votam seus patrícios. Trama-se alguma coisa, acredita-me; Maurício e seu amigo Gil são homens perigosos entre essa chusma de paulistas aventureiros, e de bugres turbulentos e indomáveis; são bandidos, que por maneira alguma se querem submeter ao jugo das leis, homens sem família, sem lar e sem pátria, capazes de pôr tudo a ferro e fogo para sacudirem o jugo da autoridade, e se enriquecerem sem trabalho à custa de roubos e depredações. Senão diga-me, senhor capitão-mor, com que fim poderiam estar reunidos a tais desoras esses homens em casa do velho ferreiro, que de certos dias a esta parte deve nos trazer atravessados na garganta, bem como o seu companheiro, que não pode levar-nos a bem o conservarmos em nosso poder a sua amazia?..

— São amigos, Fernando — respondeu tranquilamente o capitão-mor, cuja natural bonomia e seguridade era difícil de se abalar.

— São amigos, estariam conversando e fazendo o seu serão em muito boa paz; não vejo nisso nada de extraordinário.

— Mas como a índia foi direito lá ter?... adivinhou acaso, que eles lá se achavam L. esta fuga da índia não lhe parece a vossas mercês um fato conluiado talvez entre ela e Antônio?

— Oh! por esse lado não tenha receio algum, meu caro sobrinho — replicou suspirando o capitão-mor, que bem sabia o verdadeiro motivo do desaparecimento de Judaíba.

— Com que fim viria o Antônio roubar-me a índia, se ele tinha entrada franca nesta casa?...

— Com que fim!... esperam talvez colher dela informações que sejam úteis a seus planos, ou talvez pô-la a salvo para melhor poderem nos atacar. A própria Helena, se não tivéssemos o cuidado de encerrá-la todas as noites, talvez também já se tivesse evadido.

— Já te disse, Fernando; não te dê cuidado a fuga da índia; eu sei a que ela é devida.

— A que é pois?...

— Depois o saberás;... um motivo insignificante... ralhei com ela pela primeira vez... sabes como é tímida... fugiu de medo.

— Ah! mas as palavras insolentes do Gil, e o atrevimento do bugre, que não queria entregá-la?...

— O Gil é conhecido como um estouvado, um fanfarrão, que não sabe o que diz; o bugre sempre é um bugre.

— E vossas mercês sempre será um cego, porque não quer ver.

— E vossas mercês, à força de querer ser lince vê demais, vê até o que não existe. Não pode ver dois ou três paulistas juntos, que não enxergue por detrás deles o fantasma da conspiração, que tanto o aterra. Pois bem, já que assim o quer, esperemos, que os acontecimentos lhe venham abrir os olhos talvez já quando o mal não tenha remédio, quando o ferro e o fogo rodearem esta habitação, quando..

— Ora deita-te de tolas apreensões — interrompeu o capitão-mor com uma grossa risada; — na fuga de uma pobre índia enxergaste um trama, o que mais não verás?... Quanto a mim, enquanto Maurício estiver a meu lado, nada receio da parte dos paulistas; eles o estimam e respeitam muito, e &Maurício, estou certo, nunca será contra mim.

— Meu Deus! que estulta e invencível cegueira a deste velho! - murmurou Fernando consigo.

— Senhor — continuou em voz alta — é deplorável o engano, em que se acha. Esse Maurício, em que tanta confiança deposita, será talvez o primeiro a atraiçoá-lo.

— Maurício! impossível! um mísero órfão, a quem estendi a mão para tirá-lo do nada, e que me deve tudo quanto é, Maurício, que eu criei em minha casa como um filho!... não creias tal, Fernando!... Maurício tem muita lealdade e nobreza d'alma e não será capaz de tão infame aleivosia.

— Espere os fatos, já que assim o quer; a 'Víbora, que vossas mercês acolheu no seio, não tardará a fazer sentir o veneno de seu dente.

— E quem te assegura isso? como saber? - perguntou o capitão-mor um pouco abalado pela insistência e tom de convicção, com que falava Fernando.

— De nada sei positivamente; mas há certos sintomas, que não podem enganar. vossas mercês há de ter notado a submissão toda aparente, com que estes paulistas se curvam há dias a esta parte a todos os bem merecidos rigores, a que os temos sujeitado, eles de ordinário tão turbulentos e altaneiros. Desde a prisão de Calixto e Helena nada se rosna, não há o menos sussurro, a menor manifestação de descontentamento da parte desse bando de aventureiros até aqui tão intratáveis e arrogantes!... Gil não fala mais em reclamar Judaíba, que diz ser sua; e que segundo afirma vossas mercês, fugiu tomada de um medo pueril. Bueno e Calixto também não se queixam, e nem se lembram de nos pedir a liberdade da filha e amante, que está em nosso poder, e andam por aí taciturnos e amuados, sabe Deus com que intenções. Quem nos diz, que esses homens ferozes, que nada têm a perder e de tudo são capazes, não andam por aí em conciliábulos noturnos e clandestinos tramando a nossa perdição!?... Não duvido, que a fuga da índia nada signifique, mas a reunião desses homens a tais desoras em casa de Bueno... isto significa muito, e eu como que ouço através desse silêncio um murmúrio subterrâneo e sinistro, precursor de furiosa erupção.

— Bem vejo, que não deixas de ter bastante razão para assim pensar; — Refletiu o capitão-mor algum tanto abalado em sua seguridade pelas observações de seu secretário.

— Eu mesmo não tenho deixado de estranhar essa calmaria dos ânimos, que me parece fictícia, e não deixa de ter o que quer que seja de sombria e sinistra. Mas o de que não posso convencer-me, é que Maurício esteja envolvido...

— Por que não?... o que estaria ele então fazendo hoje em casa do ferreiro?.. O capitão-mor ficou pensativo e nada respondeu.

— Esse homem — continuou Fernando — é talvez o mais perigoso e terrível de nossos inimigos; tenho motivos poderosos para assim pensar, não só por ser ele o mais hábil e audaz, como por outras circunstâncias, que mais tarde vossas mercês saberá.

— Mas não podemos julgá-lo assim por tão fracas aparências: devemos procurar provas mais positivas.

— Quer vossas mercês que a árvore da traição dê todos os frutos para depois cortá-la?...

— Não, não; cortemo-la antes, que medre. Fernando, é nos mister toda a circunspecção, e vigilância; se descobrirmos o menor rastilho de sublevação...

— Bem sei, o que nos cumpre fazer — atalhou o arrogante secretário, cuja sobranceria subira de ponto desde que viu o capitão-mor um pouco abalado de sua natural calma e seguridade. Darei providências, que lhes farão arder nas mãos o facho, que preparam contra nós. Fernando saiu deixando o capitão-mor entregue a mil sinistras apreensões. Posto que a noite já fosse muito adiantada, não pode conciliar o sono. Os terrores, que Fernando lhe lançara no espírito, não eram sua única preocupação; o mau resultado de sua pretensão sobre Judaíba também muito o magoava.

— Todavia o caso não é ainda para desanimar — disse lá consigo depois de muito cismar — a menina é uma selvagem espantadiça, e ainda muito criança; que muito é que se arrepiasse à primeira ideia de um casamento!... pouco a pouco se há de ir domesticando, e acabará por familiarizar-se com a ideia... O Antônio é o mais sério embaraço, o Antônio, que ela parece querer bem... que belo rival tenho eu!.. mas esse, louvado Deus, está removido por si mesmo. Ele também era da troça da casa de mestre Bueno, vou exterminá-lo para São Paulo. Enquanto Diogo Mendes adormecia entre estes pensamentos, Fernando também em seu leito embalava-se entre sonhos de vingança e perseguição contra Maurício e todos os paulistas. Tanto tinha o primeiro de simples e confiante, como o segundo de fino, astuto e desconfiado.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

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