Leia agora
Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Universo da obra

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 27 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 2 — Capítulo II — Um Páris Mal Sucedido Com a Sua Helena

27 de 50 ≈ 11 min de leitura

No dia seguinte àquele em que Afonso passou pelo cruel desapontamento que acabamos de narrar, a uma formosa tarde sucedeu uma das mais magníficas noites tropicais. Um luar esplêndido argentava de luz maviosa o recente povoado e todos os seus pitorescos arredores. O Rio das Mortes apresentava, aqui e ali, entre os balseiros da várzea, o veio cintilante como escamas de prata da serpente gigantesca a esgueirar-se silenciosa por entre os matagais.

A serra de São José desenhava no fundo límpido e claro do firmamento o erguido espinhaço, semelhante ao dorso de um javardo colossal, esbatendo nos flancos ondulados a luz pálida e serena da silenciosa rainha das noites.

A população, satisfeita e um pouco tranquilizada com o sossego que gozava havia cerca de um mês, paulistas e emboabas, espairecia descuidada aos brandos raios da lua, misterioso e benéfico planeta que adormenta as paixões violentas, derrama eflúvios de paz sobre a face da natureza e coa nos corações o bálsamo de meigas e suaves emoções. Uns passeavam; outros, sentados tranquilamente ao poial de suas toscas vivendas, entretinham-se em alegres e mansas conversações; outros, aos sons da guitarra, entoavam maviosas cantigas em que suspiravam saudades da pátria distante ou amores ausentes.

Era da serra do Lenheiro e da casa de mestre Bueno que melhor se apreciava essa soberba perspectiva, e é para lá que levaremos o leitor.

Desde o pôr do sol, Calixto e Helena achavam-se sentados junto à fonte, sobre uma larga laje que lhes servia de sofá, tendo por espaldar um rochedo musgoso que se elevava alcantilado por detrás deles, e vendo a seus pés estenderem-se, por longes senfim, o povoado, os vales e as montanhas, rios e florestas. O sol acabava de atufar-se à sua direita entre nuvens de púrpura ardente, e, à esquerda, a lua erguia-se serena como fada amiga, com seu condão misterioso, derramando silêncio e plácida bonança pela face da criação. Calixto, ao depor o malho, fatigado, arquejante e coberto de suor, viera à fonte tomar o fresco, matar a sede e descansar um pouco ao suave bafejo das virações da tarde. Ali encontrou Helena, que, tendo estado a lavar roupa, também se sentara a descansar e a cismar, contemplando o maravilhoso painel que se desenrolava ante seus olhos.

A fonte era pertinho da casa, e Bueno, sentado à porta da varanda, os via muito bem; mas podiam falar a meia voz sem serem ouvidos. Entretanto, conservavam-se mudos; amavam-se muito, já o sabiam, e nada mais tinham que dizer-se, porém muito que sentir e gozar. Como que absorvidos em êxtase de puro e santo amor, em presença de tão grandioso e solene espetáculo, com as mãos enlaçadas, ouvindo o palpitar de seus corações e trocando olhares que diziam tanta coisa, estavam ali como dois esposos cuja união era abençoada pelo Eterno, tendo por templo o universo e por lâmpadas o sol e a lua suspensos nas extremidades do horizonte. No enlevo em que se achavam embebidos, apenas de quando em quando murmuravam uma exclamação de felicidade, um suspiro de amor, que se confundia com o soluçar da fonte vizinha marulhando entre os rochedos.

Caíra a noite, e alguns amigos e fregueses, aproveitando o belo luar, vinham trepando a encosta em demanda da casa de mestre Bueno. Muitos também aí vinham atraídos pelos lindos olhos de Helena. O próprio Gil, a princípio, também se deixara enlevar pelos encantos da gentil filha do ferreiro; mas, notando depois que ela e Calixto se amavam extremosamente e que seria uma indignidade de sua parte tentar perturbar uma tão santa e bela união, tratou de abafar logo sua nascente paixão; e, se continuava a frequentar a casa do ferreiro, era simplesmente por estima e amizade que consagrava tanto ao velho como a seu afilhado. Afonso, portanto, havia-se enganado com as aparências quando o indicara a Fernando como um dos amantes de Helena.

Outro tanto não acontecia ao Minhoto, que sentia pela gentil rapariga a mais louca e devorante paixão e que, a despeito de sua abjeta e repelente figura, fazia-lhe a corte e nutria esperanças de conquistar-lhe o coração. Tinha-lhe ela asco e aversão, que não podia dissimular, mas o seu estúpido adorador tinha demasiada confiança no poder do ouro e não desanimava.

Além destes, Helena contava mais uma boa meia dúzia de apaixonados, paulistas e portugueses, que alimentavam mais ou menos esperanças de agradar-lhe, conforme o maior ou menor grau de juízo e discernimento de que eram dotados. Bueno bem compreendia a razão daquele excesso de assiduidade de certa rapaziada em sua casa, mas, posto que sempre zeloso e vigilante, fazia-se de desentendido e sorria-se à socapa à custa dos pobres pretendentes, esperando desapontá-los todos solenemente em poucos dias, anunciando o próximo casamento de Helena e Calixto.

Estes, embebidos em seu mudo entretenimento, quase não davam fé do grupo de adventícios que, subindo a encosta, se iam juntando em casa do ferreiro. Mas, enfim, o tropear de um ginete que se avizinhava resfolegando lhes atraiu a atenção. Cavalgava-o um gentil e airoso mancebo que, a certa distância, apeou-se e dirigiu-se ao grupo que se achava em frente à casa.

— É ele!... é o filho do capitão-mor — resmungou Calixto.

— Não sei qual a razão por que esse fidalgote, de certos dias para cá, deu em frequentar tanto a nossa casa!...

— É rico, não tem que fazer — replicou Helena.

— Anda a passear e divertir-se.

— Divertir-se!... não é só isso, Helena; esse moço não vem aqui só por mero passeio... quer me parecer que ele gosta muito de ti.

— E que goste, que te importa isso?... não sabes que sou toda tua?...

— Bem o sei, minha Helena; não é por tua parte que eu temo; mas estes fidalgos são insolentes e atrevidos... ah! se ele um dia lembrar-se de te faltar ao respeito...

— Não tenhas susto; eu não lhe darei ocasião...

— Queira Deus! Queira Deus!... mas, Helena, vamos a nos recolher; este sereno pode fazer-te mal. Helena compreendeu, que não deviam ficar por mais tempo a sós retirados do resto da companhia, que se achava reunida em frente da casa, e ambos se recolheram. Como o luar estava mui claro, Bueno não havia aceso luz nem fogo, e seus hóspedes, uns debruçados no parapeito, outros do lado de fora conversavam e chalaceavam alegremente sobre diversos assuntos. Helena e Calixto recolheram-se e foram sentar-se a um canto da varanda, onde silenciosos e escondidos na sombra escutavam distraidamente a conversação dos circunstantes.

— Então o senhor seu pai já tem notícia da

boa têmpera de meus ferros — dizia mestre Bueno a Afonso, a quem fizera recolher-se à varanda; — pois saiba vossas mercês, que não lhe falaram mentira, e se quer ver com seus próprios olhos, eu tenho aí pronta muita ferramenta de roça e de mineração... mas está isto aqui tão escuro... aí nesse canto deve haver um banco; sente-se e tenha paciência de esperar um bocadito, enquanto vou lá dentro acender luz. Bueno entrou para o interior, e Afonso ás apalpadelas achou o banco, que era o mesmo em que Helena se achava sentada na outra extremidade, quase escondida na escura penumbra, a que de propósito se havia retirado. O jovem fidalgo reconhecendo-a sentiu extraordinário alvoroço de coração. Quis falar-lhe, mas sentiu-se tão acanhado, que não sabia o que dizer-lhe. Entretanto via, que a sua boa estrela vinha como que de propósito deparar-lhe aquela ocasião a mais azada possível; achavam-se. ali quase despercebidos em um canto da varanda, enquanto os circunstantes, sem darem fé deles, riam, chasqueavam, palravam em altas vozes. Ninguém os via, ninguém olhava para eles, â exceção do Minhoto, cujos olhos velhacos e ardentes os fitavam através das sombras. Essas sombras deram ao moço certa resolução e ousadia, de que seria incapaz em plena luz. Achegou-se um pouco para o lado de Helena, e pondo-lhe brandamente uma das mãos sobre o braço:

— Por ventura — perguntou-lhe em voz abafada — não é a linda Helena, que aqui estou vendo perto de mim?...

— Uma sua criada — respondeu Helena perturbada e inquieta querendo levantar-se.

— Oh! onde vai!... espere. Não pretendo fazer-lhe mal algum; só quero aproveitar a ocasião para dizer-lhe... que... que... morro de amores pela senhora.

— Obrigada, meu senhor; mas eu... não devo

lhe ouvir mais.

— Por que não'! -

replicou o moço detendo-a brandamente pelo braço. Sente-se aí; não seja cruel assim. Ande lá; deixe-me ao menos dar-lhe um beijo aqui às escondidas. Dizendo isto Afonso se abalançava a enlaçar um braço ao colo de. Helena, que em vão lhe resistia, e ia chegar-lhe os lábios à face, quando um punho de ferro interpondo-se subitamente entre os rostos de ambos com um forte murro na mandíbula fez voar no chão o mancebo com a boca ensanguentada.

— Toma! toma lá o beijo, fidalgote de uma

figa!... bradou ao mesmo tempo uma voz máscula e vibrante. Era Calixto, que ali se achava pertinho de Helena sentado sobre uma ruma de ferramentas quebradas, que ali estavam para concertar-se mesmo no ângulo da varanda. No escuro recanto, em que se havia acocorado, era impossível que Afonso o avistasse. Este levantou-se furioso, e arrancando a espada — naquele tempo nenhum fidalgo deixava de trazer espada à cinta — arrojou-se às cegas para o ângulo, de onde partira a mão, que tão cruelmente o ofendera. A espada cravou-se na parede, e ao mesmo tempo dois músculosos braços o agarraram por detrás.

— Prendam, prendam este insolente! -

gritava Afonso debatendo-se e forcejando por desvencilhar-se dos braços de Calixto. A este grito Bueno e seus hóspedes imediatamente acudiram e rodearam os dois contendores. Foi um tumulto e vozeria infernal. Os emboabas e à frente deles o Minhoto. queriam a todo transe levar Calixto preso à presença do capitão-mor.

— Que atrevimento! -

gritavam eles; — desfeitear por esta forma o filho de nosso capitão-mor!! Hás de ir ao tronco; desta vez não escapas, meu melquetrefe!

— Se o levarem preso — bradavam por sua parte os paulistas — nós também iremos presos com ele. Quem o mandou desrespeitar a filha do nosso amigo?! retire-se para a casa e deixe-nos em paz. Entretanto ambos os partidos procuravam apartar a briga e conter Afonso, que perdido de todo o siso com os olhos fervendo em lágrimas de raiva botava-se a Calixto como um possesso.

— Calem-se, meus senhores; — bradou Gil com voz atroadora.

— O ofendido aqui é somente o senhor Afonso, assim como foi ele, quem deu causa a todo este barulho. Ele que vá para a casa, e se quiser queixe-se a seu pai, que é quem pode dar ordens.

— Alto lá, senhor! -

retrucou Afonso sentindo despertarem-se lhe na alma sentimentos cavalheirescos.

— Este negócio deve-se decidir somente entre nós dois. Meu pai nada tem que ver com isto. O insolente, que traiçoeiramente me ofendeu, há de algum dia encontrar-se comigo, e hei de vingar-me como de um cão, que é. E também quero, que nenhum de vossas mercês, que aqui estão presentes, ponham a mão nesse biltre, que me ofendeu, e nem tão pouco, que digam a meu pai a mínima palavra a respeito do que acaba de suceder. Ouviram?... Os portugueses nada retrucaram a tão imperiosa imposição; na pessoa de Afonso respeitavam o capitão-mor. Os paulistas também aplaudiram ás palavras do jovem fidalgo.

— Este sempre mostra ser filho dos campos

de Piratininga! - diziam eles. Afonso sem mais proferir uma palavra apressou-se em montar a cavalo, e retirou-se precipi... tadamente.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 27 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capa de Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei
Continue a leitura Volume 2 — Capítulo II — Um Páris Mal Sucedido Com a Sua Helena Capítulo 27 · 27 de 50 · ≈ 11 min
Todos os capítulos 50 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir