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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 8 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 1 — Capítulo VIII — A Caçada

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O dia estava belíssimo; nem uma nuvem no céu, nem uma névoa no horizonte, o que permitia contemplar em todo o esplendor de sua beleza ao longe como ao perto as risonhas paisagens, que se estendem pelas faldas setentrionais da serra de São José.

Tinha começado o veranico de janeiro, essa curta primavera de quinze dias, que em nossos climas interrompe constante e regularmente o rigor das chuvas hibernais. O tempo portanto estava firme, e não havia a recear temporal algum. Contra os ardores da canícula os bosquetes do campo e as orlas dos capões ofereciam fresco e delicioso abrigo.

Transposta a ponte, o caminho seguia por algum tempo acompanhando o rio águas acima à sombra das matas, que lhe orlavam as margens. Mais além inclinando-se à esquerda trepava por uma extensa encosta ainda coberta de mato, e ia sair nas colinas descobertas; que ondulam aos pés da serra de São José.

São muito aprazíveis e pitorescas essas campinas ligeiramente acidentadas, e tapeçadas de viçoso capim, que ficam no sopé da serra. À vista daqueles campos, a fronte a mais turvada de cuidados se desenruga, o coração, por mais pejado que o tenhamos de angustias e dissabores, se dilata bebendo a longos tragos aquela aura suave e vivificante, inebriando-se nas ondas daquela luz, que enche a solidão de fulgores deslumbrantes.

A serra de São José terá talvez duas léguas de extensão desde'o lugar chamado Ponta do Morro até o ponto, em que ela, baixando-se com rapidez, some completamente para dar passagem ao Rio das Mortes, fonte do soberbo Paraná.

É um ramo isolado não sei de que sistema, porque neste núcleo central de montanhas da província de Minas não vejo que se possa achar sistema algum a não ser a falta absoluta de sistema. É um caos de serranias, um labirinto de vales. Os rios, que por aí têm sua origem, revolvendo-se em mil curvas, se vêem atrapalhados para acharem um caminho, que os leve ao oceano.

É assim que o Rio das Mortes, que é o mais remoto manancial do Paraná — tendo as fontes na serra da Mantiqueira — tão perto, quase à vista do Atlântico, se vê obrigado a dar uma volta de mais de quinhentas léguas para ir levar seu tributo ao seio do pai das águas.

O Rio Doce, que nasce nas montanhas do Ouro Preto, vê-se torturado entre montanhas e penedias, e se esforça como uma cobra esbordoada até ir achar muito longe o rumo, que a natureza lhe indicara a leste em direção a província do Espírito Santo.

A serra de São José não tem a catadura austera, sombria e enrugada da maior parte das montanhas do centro de Minas. É um respaldo elevado, bastante íngreme, deixando apenas aparecerem nuas aqui e ali as coroas de algumas penedias soterradas, e no mais coberto até o cimo de capim e vegetações rasteiras.

Na base tem grotas e capões, a cuja sombra nascem frescos e cristalinos regatos. Daí se estendem para norte leiras de campinas ondulantes — à semelhança de mamilas de uma leoa deitada — que descendo em suave declive vão morrer de encontro às colinas fronteiras.

À meia altura da serra corre à maneira de um friso - uma esplanada ou tabuleiro coberto de relva, longo, direito e quase perfeitamente nivelado. A vista daquele fenômeno, que se observa em muitas outras serras de Minas, acreditareis que ali é o leito abandonado de uma estrada monumental, que aí houve há séculos, talvez em eras antidiluvianas.

Para tornar mais plausível está conjectura, a esplanada se abate e alarga a medida que se avizinha do Rio das Mortes, perdendo-se nas baixadas selvosas, por onde ele corre nas imediações de São João del-Rei.

Nossa cavalgata, como íamos dizendo, largou o rio à direita, e depois de ter subido uma encosta coberta de mato, galgou a uma eminência descoberta, donde se divisava um magnífico horizonte. À esquerda estavam as formosas e risonhas ondulações das faldas da serra, e uma série de colinas, capões, morros e várzeas, que em sucessão infinda lá se iam perder em longes confusos e nebulosos; à direita os vales cobertos de sombrias e opulentas matas, por onde vinha se espreguiçando o caudaloso Rio das Mortes.

Leonor, que impressionada com os desagradáveis e nefastos acontecimentos de manhã, viera até ali sempre triste e silenciosa, sentiu-se reanimar, e o coração se lhe expandiu à vista daquele alegre e esplêndido panorama.

— Bonito! - exclamou a moça cheia de entusiasmo; — aqui sim, a gente pode divertir-se e caçar!... Olha, meu pai!... que bonitas campinas lá vão por aí além!... parece o acolchoado de um imenso espreguiçadeira...- É verdade, minha filha; isto é bem lindo

— respondeu maquinalmente o pai, que todo embebido com a caçada, pouco se importava com a paisagem.

— Então, Maurício!... já não é tempo de lançarmos os cães ao mato?...- Sem dúvida, senhor capitão-mor — acudiu Maurício; — podemos já soltar os cães. Aqui à esquerda é mata geral e afora dela muito morro. A caçada de mato é boa, mas além de perigosa não é muito divertida. O melhor é nós soltarmos os cães lá embaixo na mata, de maneira que façam lá um cerco e venham tocando os veados para estes capões, que vão beirando a serra. Há por aqui muito veado, e vossas mercês poderão ver do campo a caçada, e também, se quiserem, tomar parte nela e darem o seu tiro sem grande incômodo. Garanto-lhes que não lhes faltará em que atirar. Os veados aqui andam às manadas.

— Faz o que entenderes, Maurício - disse o capitão-mor; — e vamos com isto; mãos à obra quanto antes!

— Vou cumprir as suas ordens, senhor capitão-mor; mas será melhor que vossas mercês vão postar-se um pouco mais adiante lá naquele alto fronteiro. Dali se enxerga toda a beira do mato e é mesmo muito boa espera. É carreira certa de todos os veados, que saem da mata, e vindo pelo capão acima, saltam nesse campestre, atravessam-no, e vão afundar-se naquele outro capão, que lá está mais adiante.

— Pois vamos; vamos com isso quanto antes; não percamos tempo.

Maurício guiou a comitiva a uma eminência mais distante, da qual com efeito podia-se contemplar a seu sabor quase todo o teatro da caçada. Desse lugar descortinava-se toda a orla do capão e viam-se todas as esperas na extensão de cerca de meia légua.

Ali apearam-se junto a uma moita de pequenas árvores, que davam deliciosa sombra sobre o capim fresco e mimoso.

— Aqui, creio, que ficaram muito à vontade — disse Maurício.

— A sombra não é má, e se tiverem sede, aqui embaixo na cabeceira deste capão há água muito limpa e fresca.

Dito isto ordenou a Antônio e mais alguns paulistas, que conhecia por bons caçadores, que descessem a mata, e fossem destrelar os cães.

Estes imediatamente desceram com os cães pelo mesmo caminho, por onde tinham vindo, e desapareceram na mata. — vossas mercês não querem também ficar em alguma espera! - perguntou Maurício a Fernando e a Afonso. Eu não! Deus me livre, replicou Fernando... tenho lá paciência para ficar aí à estaca entregue a estas malditas vespas e mutucas, que desde pela manhã nos estão atormentando!... Se algum veado vier para minha banda, pretendo pegá-lo à unha de cavalo. O meu murzelo galopa furiosamente, e não me deixará ficar mal.

— Que esperança! - exclamou o capitão-mor sorrindo.

— Pensas que estás caçando em nossa terra a perseguir lebres e raposas por aqueles prados sem tropeços nem barrancos, e onde as florestas são limpas por baixo, que parecem um pomar. Mete-te nisso e verás o que acontece...- Ora, meu tio? respondeu o moço enfadado; — eu também tenho olhos para ver as coisas: deixe-me, que eu cá saberei haver-me.

— E eu cá também - acudiu Afonso; — como não estou para ficar de plantão para matar o tempo vou com o meu perdigueiro por esse campo a afora atirar algumas perdizes.

— Perdão, senhor Afonso — atalhou Maurício — só se vossas mercês for para bem longe, de modo que daqui não se ouçam os seus tiros. Os cães veadeiros ouvindo qualquer tiro acodem logo, desorientam-se e perdem o rastro da caça.

— Pois bem; irei para bem longe; lá por isso não seja a dúvida.

— Também não pode ser assim, meu filho — replicou o capitão-mor — quem há de ficar aqui comigo e com tua irmã? Demais não é prudente que te afastes muito assim sozinho.

— Pois não ficam tantos caçadores aí mesmo debaixo de suas vistas, meu pai?...- Fica, aí, menino; não quero que saias ao pé de mim; não faltará ocasião de caçares as tuas perdizes... Afonso contrariado mordeu os lábios com despeito.

— Que caçada enfadonha, meu Deus! - murmurava consigo; — se eu adivinhasse, por Deus, que cá não vinha.

Já alguns paulistas se achavam postados aqui e acolá ao longo do capão, que, partindo da raiz da serra ia por um suave declive perder-se na extensa mata, que orlava o rio.

Ocupavam as diferentes esperas, onde sabiam ser a carreira ordinária dos veados. Maurício ocupava a última espera, que ficava mais próxima à serra e ao lugar, em que se achava o capitão-mor.

Os emboabas com poucas exceções pouco se importavam com a caçada, e sem se arredarem muito espalharam-se em roda pelo campo. Uns deitaram-se com a face para o céu à sombra de qualquer arbusto, e cobrindo o rosto com o chapéu, puseram-se a dormir. Outros sonhando com o Eldorado andavam a esgravatar a terra pelo leito seco das enxurradas, esperando a cada momento encontrar um rico veio de ouro, ou um grosso diamante.

Em breve o eco das grotas e das valadas acordou repercutindo os primeiros latidos dos cães, que vinham rastejando a caça. Pouco a pouco esses latidos foram-se tornando mais frequentes e animados. A orquestra, que começara por uns sons frouxos, soltos e interrompidos, foi se avivando em um crescendo progressivo, e de repente converteu-se em um alarido estrondoso, imenso, atroador, cujos ecos se refrangiam sonoros e vibrantes pelas quebradas e grotões da serrania. Os cães tinham dado na moita dos veados e os traziam em fuga diante de se. Os caçadores preparados puseram-se em atitude de atirar, vigilantes e alerta do menor rumor. Os próprios cavalos erguendo a cabeça aprumaram as orelhas a escutarem aqueles ecos estranhos, que vinham perturbar o silêncio das brenhas.

Passados alguns minutos, depois que os cães encarrilhados nos rastos vinham no mais animado e brilhante toque pelo capão acima, ouviu-se um tiro ao longe. Era o caçador da primeira espera, que por certo lá tinha tombado um cabrito. Depois mais uma e mais outra detonação reboaram cada vez mais ao perto.

Por fim ressoou um último tiro mesmo na baixada da encosta, em que se achava o capitão-mor. Era Maurício, que, à vista dele e toda a comitiva, com um tiro certeiro, havia feito rodopiar pelos ares e tombar exânime um médio e formoso mateiro.

Daí a instantes três ou quatro veados, espantados e bufando, cortavam o campo aos pinotes e em diversas direções à vista de toda a comitiva e quase ao alcance de tiro.

O capitão-mor e Afonso dispararam suas armas; porém foram tiros perdidos.

— Oh! como são lindos!... como saltam ligeiros? - exclamou Leonor; — o que eu queria era pilhar um vivo!...- É o que eu vou fazer, bradou Fernando, e esporeando o cavalo partiu a toda brida atrás de um dos veados, sem atender aos chamados do capitão-mor e de outros, que procuravam dissuadi-lo.

O cavalo corria admiravelmente, e se fosse em uma campina mais espaçosa, talvez o gentil e ousado cavaleiro tivesse alcançado a sua presa, e agarrando-a pelos cornos teria vindo depô-la aos pés da dama de seus pensamentos. Mas o maldito veado pilhou logo o leito de uma vertente seca e embrenhou-se por entre a moita de pequenas árvores que a orlavam.

Na fúria do galope não reparava o cavaleiro no que ia por diante, e viu-se embaraçado por tal forma, que o cavalo já ia muito adiante, quando ele se achou suspenso no ar pendurado pelas mãos a uns galhos, a que a intuição rápida e instintiva do perigo o fizera agarrar-se.

Se tivesse cabelos compridos ficaria também suspenso por eles, como aconteceu a Absalão.

O capitão-mor e toda a sua gente, e também Maurício, que vinha chegando com um gordo veado à garupa, viram o perigo, em que Fernando se achava envolvido, Maurício e mais dois companheiros correram para lá.

Fernando achava-se bastantemente maltratado, todo arranhado e contuso, com as roupas rasgadas, enfiado e indeciso sem ao menos ter resolução para ir buscar seu cavalo, que se embrenhava pelo matagal.

— Peguem-me esse maldito cavalo! - bradou com voz áspera, apenas viu chegar Maurício com seus companheiros.

— Arre! com mil diabos!... por aqui nem sabem adestrar os cavalos!... são de cabeça tão dura como aqueles que os ensinam.

Maurício escutou sorrindo aquele remoque, e nem fez caso algum do tom arrogante, em que falava Fernando, em vista do humilhante e deplorável estado, em que o via.

— Tenha paciência, meu fidalgo — replicou-lhe friamente. Vamos já pegar o seu cavalo. É bom tomar dessas lições para se não meter mais em cavalarias altas. Já não é a primeira... Fernando bem compreendeu a terrível alusão. Mas naquele momento nada podia replicar. Calou-se e guardou mais aquela gota de fel no coração já tão saturado de ódio e perversidade.

Trouxeram-lhe o cavalo, e ele tornou a montar com ar altivo e desdenhoso, sem proferir uma palavra de agradecimento, e dando ordens, como se estivesse entre seus pajens.

Largando assim descortesmente aqueles, que o socorreram, meteu esporas ao cavalo, e foi a todo galope reunir-se ao capitão-mor.

Maurício com seus companheiros deixaram-se ficar mais atrás correndo a meio galope.

— Que atrevido! - dizia-lhes Maurício, vocês mal sabem que peste de emboaba está ali na pessoa daquele fanfarrão! é ele que está pondo a perder o capitão-mor. O capitão-mor tem boa alma, podem acreditar-me. Não é por ser meu benfeitor e quase um pai, que digo isto... não. Eu sempre o conheci amável, compassivo e generoso... até o presente não tinha queixa dele... mas esta manhã o desconheci... por uma brincadeira mandar pôr um homem no tronco!... ah! meu pobre Gil!...

— Meu caro Maurício, és muito moço, e não conheces os homens. Ele era bom e compassivo para contigo e para a gente de casa. Sabes lá o que ele faria por fora?... Demais, lá em São Paulo ele era um simples particular.

Nunca ouviste o ditado que diz - queres conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão?

— Tudo pode ser... mas enfim sou-lhe tão grato!... há de me doer muito na alma, se um dia me vir obrigado a ser contra ele. Se, porém, continuar a oprimir-nos, e nos entregar ao capricho desse maldito sobrinho, não sei... não sei o que farei...- Hás de sabê-lo, quando um dia tu mesmo fores a vítima...- Eu vítima!... como!...- Não sei, Maurício; bem conheço que a tua posição é bastante melindrosa... mas calemo-nos; já vamos chegando. Não faltará ocasião de conversarmos.

Calaram-se e apearam. Nesse meio tempo já tinham chegado os caçadores paulistas trazendo os seus despojos de caça, quatro gordos e luzidos veados mateiros, que o capitão-mor se extasiava em contemplar.

Fernando corrido e desapontado se ocupava em consertar o fato todo desarranjado, e desabafava seu despeito em falar mal da América. Afonso encostado a uma árvore palitava os dentes com ar risonho, pois aproveitando melhor o seu tempo tinha recorrido aos alforges das provisões, e acabava de comer salsichas, que havia regado com um bom copo de vinho, enquanto seu primo corria como um possesso atrás do veado.

O capitão-mor recomendava que tirassem com todo o jeito o couro dos veados, pois queria mandá-los de mimo ao governador da capitania.

Leonor descuidosa e prazenteira mirava e remirava os pobres animais, e ao mesmo tempo possuída de dó e compaixão ao vê-los ensanguentados e trespassados de balas exclamava: — Que lindos bichinhos!... coitados!... antes quisera vê-los vivos, e tê-los em meu terreiro!...- Isso é fácil, senhora; — acudiu Maurício. Não é custoso pegar um veadinho novo... eu lhe prometo um... eles acostumam-se muito bem em casa.

Olhe não vá acontecer-lhe o mesmo que a meu primo, disse Leonor sorrindo.

Não tenha susto, respondeu Maurício no mesmo tom.

— Eu conheço muito bem a nossa América, e sei em que me fio.

Fernando tragou em silêncio mais esta gota do fel da humilhação.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

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