Universo da obra
Universo da obra
Eram nove para dez horas. Havia aglomeração de povo, e reinava certo movimento e agitação dentro e fora da casa do capitão-mor, o que denotava algum acontecimento extraordinário.
De fato, a nova da prisão de Irabussú e sua filha, desde o romper da alva, percorria o povoado de habitação em habitação, excitando geral curiosidade e interesse. Há muito que a imaginação do povo andava preocupada com aquele bugre misterioso, que era tido por todos em conta de mandingueiro, e do qual não só as mulheres e crianças, como também muita gente de barba na cara, tinham medo como de coisa de outro mundo.
Grande número de pessoas do povo, movidas de curiosidade, iam-se agrupando no pátio e nas imediações da casa do capitão-mor, ansiosas por saberem o que quereria ele fazer com o índio e sua filha. Muitos também lá iam levados pelo desejo de conhecerem aquela estranha figura, que nunca tinham visto e de quem ouviam falar tantas e tão estupendas coisas.
Eram nove para dez horas da manhã. O capitão-mor achava-se em sua sala de audiência com Fernando, Afonso, um escrivão e mais algumas pessoas gradas, entre as quais se notava o Minhoto. Maurício e Gil acabavam de chegar, e ambos tinham tido ingresso na sala, um como interessado de alguma maneira no negócio de que se ia tratar, outro como pessoa da confiança e amizade de Diogo Mendes.
Ia este submeter Irabussú a um vigoroso interrogatório e proceder a uma minuciosa devassa sobre as minas de ouro de prodigiosa riqueza, das quais, conforme a denúncia do Minhoto, só ele, Irabussú, tinha conhecimento.
A sala de audiências, bem como a sala de visitas, a que era contígua, também se comunicava com a varanda por duas largas portas, que nesse dia estavam abertas de par em par. A espaçosa varanda ainda era estreita para conter a multidão que a invadia, e as duas portas não davam espaço bastante para tantos olhos curiosos. Tornava-se incômodo o tumulto e atropelamento de tanto povo.
Fernando, sempre precavido e desconfiado, entendendo que aquele ato não devia ser um espetáculo público, fez ver ao capitão-mor a conveniência de ser particular e secreta a devassa a que iam proceder. Este anuiu e mandou despejar a varanda e o pátio. O povo retirou-se descontente e murmurando, mas conservou-se em grupos pelas imediações, à espera ao menos de alguma notícia.
De espaço a espaço, entreabria-se o reposteiro de uma porta interior, e aparecia de relance, como um anjo entre nuvens, uma suave e formosa figura, que passeava pela sala um olhar inquieto e ansioso e desaparecia instantaneamente.
Aquela súbita aparição não escapava a Maurício, sobre o qual resvalava sempre um rápido e furtivo olhar. Fernando também a via de esguelha e mordia-se de raiva.
Fecharam-se as portas da sala, e nela ficaram somente, fora as pessoas já mencionadas, alguns emboabas amigos do Minhoto, que podiam dar esclarecimentos a respeito do negócio de que se ia tratar.
Daí a pouco, por ordem do capitão-mor, compareceram na sala Irabussú e sua filha, escoltados por quatro aguazis. A figura do velho bugre causou espanto a quantos ali se achavam, menos a Gil e Maurício, que já com ela estavam familiarizados. Aquele corpo alto e esguio, que mais parecia monstruoso manequim composto só de braços e pernas finas e nodosas, rematado por uma cabecinha leve, móvel e altiva, com dois olhinhos fundos, mas vivos e despedindo chispas chamejantes, e uma boca rasgada guarnecida de dentes amarelos, tudo isso coberto apenas por uma esquálida e grosseira tanga, que dos quadris lhe descia até os joelhos, dava ao bugre um aspecto sinistro e hediondo, e, no caso de existirem bruxos e feiticeiros, aquela figura quadrava-lhes perfeitamente. Os emboabas, que até ali apenas o tinham visto na sombra e de relance, transidos de terror, estiveram a ponto de fugirem espavoridos.
Com o vulto medonho e extravagante do velho pajé formava notável contraste o todo, em verdade selvático, mas assim mesmo belo e harmonioso, da jovem indígena. O porte esbelto, flexível e espigado justificava o apelido que lhe deram, derivado da gentil palmeira indaiá. Tinha a cabeça pendida sobre o seio, e uma cascata de cabelos negros e corredios ocultava-lhe quase inteiramente o rosto moreno e redondo, e via-se na sombra refulgirem-lhe os olhos tímidos e deslumbrados, como os da veada prisioneira que, do seio das selvas natais, se vê de repente transportada para os pátios do paço real. Vestia apenas uma saia, que lhe descia até pouco abaixo dos joelhos, e tinha os ombros e os seios envolvidos em uma grosseira manta de algodão. Mas assim mesmo era airosa e engraçada, e seu aspecto inspirava no mais alto grau interesse e comiseração.
Depois que entraram na sala os dois selvagens, a figura angélica, que de quando em quando entreabria o reposteiro, não saiu mais daí e fixou sobre eles um olhar cheio de assombro, interesse e piedade.
Ao encetar-se o interrogatório de Irabussú, suscitou-se logo uma grande dificuldade. O velho bugre, que havia sido aprisionado não havia ainda um ano, quase nada entendia da língua portuguesa. O capitão-mor, Fernando e o escrivão debalde procuraram dar-se a entender ao ancião das selvas. Este, além de compreender bem pouco do que lhe queriam explicar, de matreiro que era, ainda mais desentendido se fazia, pois bem sabia do que se tratava.
— Não há nenhum dos que aqui se acham presentes que entenda alguma coisa da língua destes tapuias? — interrogou o capitão-mor.
— Eu me entendo perfeitamente com Irabussú — acudiu Gil —; se vossas mercês o permite, posso servir de língua.
— Alto lá, senhor meu! Isso não pode ser — interveio o Minhoto. — vossas mercês é interessado e suspeito como o único que se aproveita da tal mina. Com a devida vênia, senhor capitão-mor, este senhor não pode nem deve entrar neste negócio.
O Minhoto já havia perdido a esperança de ser herdeiro da mina de Irabussú, mas ao menos queria impedir, por todos os meios ao seu alcance, que ela continuasse a enriquecer Gil, a quem, como sabemos, votava a mais entranhável aversão.
— Tem vossas mercês muita razão, senhor Minhoto — disse Fernando —; mas, em todo caso, é de absoluta necessidade que nos entendamos com este selvagem. Ninguém mais há por aí que entenda um pouco a língua dos bugres?...
— Eu compreendo sofrivelmente a língua dos carijós e botocudos — acudiu Maurício —, mas...
— Ah!... É verdade!...— atalhou vivamente o capitão-mor.
— Aí está Maurício, que já viveu no meio deles e os entende perfeitamente... Já nem me lembrava...
— Mas eu também, senhor — continuou Maurício respeitosamente —, sendo íntimo amigo de meu patrício Gil, parece-me que devo ser suspeito.
A esta observação, o capitão-mor e Fernando se entreolharam, como perguntando um ao outro o que fazer... Bem desejava Fernando arredar Maurício e Gil daquele negócio, de modo que nenhuma interferência nele pudessem ter; onde, porém, poderiam encontrar outros intérpretes?... Naquele povoado ninguém mais se apresentava à memória dos presentes que fosse capaz de desempenhar semelhante tarefa, a não ser Antônio. Mas este mesmo, por sua inteira dedicação à pessoa de Maurício, tornava-se igualmente suspeito.
— Acabemos com isto! — exclamou o capitão-mor resolutamente, depois de alguns minutos de consulta e hesitação.
— Também não sei a que vem tanto receio e desconfiança. Sejam os senhores Gil e Maurício os línguas. Estou certo de que nem um nem outro serão capazes de iludir ou inverter as perguntas e respostas, e nem vejo que interesse possam ter em semelhante velhacada.
— É verdade, senhor capitão-mor — disse Fernando, lançando um olhar altivo e ameaçador sobre os dois jovens paulistas.
— Por bem ou por mal, este bugre tem de nos dar conta da mina, se é que ela existe; e, se acaso estes senhores esperam nos embaçar, tanto pior para eles e para o seu bugre.
— Senhor capitão-mor — disse Maurício, levantando-se e dardejando um olhar de desprezo sobre Fernando —, pouco nos importa, a mim e a meu amigo, sermos ou não intérpretes neste negócio, e que Irabussú descubra ou não a sua mina. O que nos trouxe aqui foi o empenho de conseguirmos que estes dois pobres selvagens não sejam maltratados nem perseguidos. Todavia, se vossas mercês se digna aproveitar de nosso préstimo na presente conjuntura, damos nossa palavra de paulistas, juramos por nossa honra, que nada faremos para ocultar ou disfarçar a verdade; antes empregaremos todo o esforço para que ela seja conhecida.
— Creio muito na palavra honrada de ambos, e vamos por diante com este negócio — disse terminantemente o capitão-mor.
Esta lealdade e confiança de Diogo Mendes na palavra dos dois jovens não agradou muito a Fernando, que não pôde disfarçar um sorriso sardônico. Mas lá do seu reposteiro Leonor aplaudiu, com um sorriso angélico, as palavras de seu lhano e honrado pai.
— Maurício, vamos lá com isso — prosseguiu o capitão-mor.
— Pergunta a esse bugre se existe uma rica mina só por ele conhecida e de onde ele tira para seu patrão avultada quantidade de ouro.
Maurício dirigiu-se a Irabussú e, depois de ter dialogado com ele por alguns instantes em língua carijó, deu resposta afirmativa.
— Muito bem! — replicou o capitão-mor.
— Agora pergunta-lhe mais qual é, pouco mais ou menos, a porção de ouro que ele, segundo dizem, traz todos os dias a seu patrão?... Interrogado por Maurício, o índio agachou-se no chão e, unindo ambas as mãos, fez gesto de quem apanhava com elas um punhado bem cheio.
— É verdade, senhor capitão-mor — acudiu Gil.
— Dias há em que me traz mais de uma libra!...
— Apre! — exclamou o capitão-mor.
— Já não é tão pouco; mas disseram-me que trazia às vezes oito libras!...
— Exageram muito, senhor capitão-mor; esse mesmo que traz não é puro; vem misturado com bastante areia e esmeril, e nem é todos os dias...
— Não obstante, uma mina em que basta abaixar a mão para ir apanhando ouro aos punhados deve ser prodigiosamente rica; e, sendo trabalhada em regra, o que não produzirá!... A fisionomia de Diogo Mendes expandia-se, risonha e radiante de contentamento, com o bom resultado que iam tendo suas pesquisas. Fernando também sentia ofegar-lhe o peito na mais ansiosa expectativa, mas, hipócrita como era, procurava compor o rosto com a máscara da mais impassível gravidade, para que não lhe transluzisse nos olhos a voraz cobiça que lhe estirava o coração. O Minhoto mordia-se de raiva e de inveja, e veria com prazer Irabussú, com sua mina, soverterem-se para sempre nas profundezas dos infernos.
O capitão-mor mandou fazer mais algumas perguntas, a fim de inteirar-se minuciosamente daquele negócio, e a tudo o índio respondeu de acordo com o que já sabemos. Por fim, fez perguntar ao índio se estava disposto a mostrar o lugar onde achava tanto ouro.
— Não! — respondeu terminantemente o índio por órgão de Maurício.
Se Gil sabia do lugar da mina?
— Não!
Se nem a ele, Gil, quereria mostrá-la?
— Não!
Se ninguém mais sabia dela?
— Ninguém!
O capitão-mor mandou fazer ver ao índio que, se ele não quisesse por bem mostrar o lugar da mina, seria a isso constrangido.
— Só se me matarem — respondeu sem hesitar —; mas um morto o que poderá mostrar?
— Diga a esse bárbaro — exclamou Fernando, encolerizado — que não o mataremos, não; mas que, a poder de tormentos e torturas, havemos de arrancar-lhe o seu segredo.
Irabussú respondeu com toda a fleuma que seus irmãos do mato também costumavam proceder assim com os inimigos prisioneiros, mas não conseguiam arrancar nem um gemido a suas vítimas.
— Que cegueira! Que pertinácia brutal! — murmurou, assombrado, o capitão-mor.
— Se nada valem as ameaças — gritou Fernando, cada vez mais irritado —, passe-se às vias de fato!... A estas palavras, Gil empalideceu. O nobre coração do mancebo não podia conformar-se com a ideia de ver torturado aquele pobre velho, cujo único crime era a extrema dedicação que lhe votava. Quis, portanto, tentar em favor dele ainda um último esforço.
— Senhor capitão-mor — disse ele, levantando-se —, espero que não há de ser preciso pôr a tormentos este pobre bugre; se vossas mercês me concede licença, vou me entender com ele e talvez possa induzi-lo a mostrar a mina.
— Pois não! — acudiu o capitão-mor.
— É bem lembrado esse alvitre; talvez com vossas mercês ele se entenda melhor e se acomode, e eu muito estimarei que assim aconteça.
Gil aproximou-se do velho bugre e, em uma gíria mesclada de português e dialeto indígena, travou com ele um longo e animado diálogo, cujo sentido, ao menos por alto, não podia deixar de ser compreendido pelos circunstantes. Gil instava vivamente com o índio para que não se sujeitasse a tormentos por amor dele, e rogava-lhe, encarecida e fervorosamente, que mostrasse a mina aos emboabas; fazia-lhe ver que ele pouco se importava com ouro; que Irabussú já lhe tinha dado quanto era mister para passar o resto de seus dias na abastança. A estas acrescentava muitas outras razões e rogativas; o índio, porém, mostrava-se inabalável em sua resolução.
— Irabussú — dizia ele — não entrega o ouro de Tupá a esses filhos de Anhangá, não. Deixa-me morrer, branco; Irabussú está velho, já para nada presta. Se o ouro que Tupá lhe mostrou não for de Gil, de ninguém mais será. Irabussú bem sabe que, se ele der o ouro de Gil aos emboabas, eles, em troca, darão a Gil ferro e pau, tronco e algemas. Deixa, meu branco, deixa que me matem.
Falando assim, o velho fazia gestos e trejeitos medonhos, ora quase tocando ao teto com os compridos braços, ora agachando-se ao rés do chão, como uma armadilha de paus que se desconjunta e cai de chofre em terra. Os circunstantes olhavam com assombro e mesmo com terror os estranhos esgares e a enérgica e desconcertada mímica do selvagem.
Desalentado, sombrio e abatido, Gil deu conta, em poucas palavras, do mau resultado de sua tentativa.
— É escusado teimar com o bugre — disse com voz rouca e alquebrada —; não há nada que o faça ceder.
Entretanto, Fernando, impaciente e contrariado ao último grau com a obstinação do velho, pálido, imóvel e com as feições contraídas, refletia profundamente, pedindo ao seu coração duro e perverso alguma inspiração que o tirasse daquela dificuldade. Passaram-se alguns instantes de completo silêncio.
Por fim, Fernando, que estivera como absorto em suas reflexões, ergueu rapidamente a cabeça e, batendo de leve com os dedos na testa, como quem diz: — Achei!
— Continuemos, meus senhores — disse em voz alta —; é preciso deslindar este negócio. O que o velho não quer revelar, talvez a filha o saiba. Senhor Maurício, queira fazer-lhe algumas perguntas, e seja a primeira se ela conhece o lugar de onde seu pai tira o ouro que traz ao senhor Gil?... Maurício dirigiu a palavra a Judaíba, que respondeu com uma simples e formal negativa.
A esta resposta, Irabussú acrescentou ainda que o lugar do ouro só ele e Tupá conheciam.
— Pois bem! — prosseguiu Fernando, com voz rápida e imperativa.
— Agora pergunte-se ao velho se ele quer bem a sua filha? Esta ordem encheu de surpresa a todos que ali se achavam.
— Para que fim tal pergunta? — murmuraram entre si.
— É inútil fazer semelhante pergunta — observou Gil —; eu sei que ele é capaz de dar por ela mil vidas, se as tivesse.
— Tanto melhor! — ponderou Fernando consigo.
— É isso mesmo que eu quero.
— Seja embora inútil — continuou, dirigindo-se a Gil —, nenhum mal daí provém. Pergunte-se sempre.
O índio, por única resposta à pergunta feita por Maurício, enlaçou a menina com seus compridos braços e, voltando o rosto para os circunstantes, passou em roda um olhar torvo e ameaçador, como quem lhes estava dizendo: — Ai de quem nela tocar. Parecia pantera enfurecida, defendendo a toca onde tem os filhotes.
— Agora, senhor Maurício — continuou Fernando, sempre com o mesmo acento severo e inflexível —, explique-lhe que, se ele teimar em não querer mostrar o lugar da mina, terá de ver sua filha passar por todos os tormentos... Um sussurro de horror, partindo involuntariamente de todas as bocas, acolheu estas atrozes e sinistras frases. Todos, sem excetuar mesmo o Minhoto, fixaram em Fernando um olhar cheio de espanto e de terror.
Maurício e Gil já abriam a boca para protestarem alta e energicamente contra tão bárbara e revoltante ameaça, dispostos a impedir sua realização por todo e qualquer meio.
O capitão-mor mesmo, atônito e indignado a um tempo, ia estranhar ao sobrinho sua indizível crueldade e chamá-lo a sentimentos mais humanos.
Passaram-se alguns instantes de silêncio e estupefação.
Súbito, fez-se ouvir na sala uma voz fresca, argentina e vibrante.
— Não, não, meu pai! — exclamava ela.
— Não consinta em semelhante crueldade!... É demais... É abominável. Para atormentá-la, hão de também atormentar-me a mim!... Eis-me aqui!
Assim clamando, Leonor saíra de trás do reposteiro, donde estivera observando tudo, correra para o meio da sala e, de fronte erguida, com imponente e senhoril donaire, colocara-se diante de Judaíba, como para protegê-la dos tormentos de que se via ameaçada. Dir-se-ia o anjo custódio da pobre indiana, que, descendo do céu, vinha ampará-la com a sombra de suas asas.
— O que é isto, minha filha?
— O que é isto, senhora?! — exclamaram a um tempo o capitão-mor e Fernando.
— É o que tenho dito!...— replicou Leonor, com voz firme, e quedou-se imóvel, sem quebrar uma só linha de sua escultural e soberba postura.
Aquele formoso e altivo busto, alçando-se imperioso e meigo a um tempo sobre um colo alvo e admiravelmente torneado, aquele olhar firme e impávido em um mimoso rosto de donzela, o senhoril e nobre porte, a suprema graça que recendia de todo o seu ser, e sobretudo a santidade do motivo que lhe inspirava o arrojado procedimento, davam a Leonor naquele momento não sei que ar divino, que incutia respeito e admiração. Seu inesperado aparecimento veio ainda produzir um instante de silêncio e assombro geral; mas bem diferente desse que ainda há pouco haviam produzido as atrozes palavras de Fernando. Era um silêncio quase religioso, um assombro que parecia adoração.
O mesmo Fernando perdeu por instantes sua marmórea impassibilidade e, não podendo afrontar o olhar altivo e deslumbrante da moça, abaixou a fronte, confuso e humilhado. Mas não durou isto muito tempo; em breve o jovem fidalgo recobrou sua habitual fleuma e sobranceria e, voltando-se para o capitão-mor:
— Senhor — disse tranquilamente —, eu entendia que as mulheres não devem ingerir-se em negócios desta ordem...
— Bem sei, bem sei...— atalhou vivamente o capitão-mor, abafando a voz para não ser ouvido pelos circunstantes.
— As mulheres não devem intervir nestas coisas, mormente uma criança... Eu vou acomodá-la, e tu, Fernando, trata de concluir este negócio quanto antes, dê no que der; mas espero que essas tuas sevícias não passarão de ameaças; entendes-me?
— Perfeitamente — respondeu Fernando, enquanto lá consigo dizia: — Hei de fazer o que entender.
O capitão-mor deixou seu assento, dirigiu-se para o meio da sala e, tomando pela mão sua filha, disse-lhe baixinho e com voz meiga:
— Vamos, minha filha; aqui não é teu lugar. Tranquiliza-te; tudo isto não passará de ameaças.
— Meu pai me afiança?...
— Afianço-te; pois julgas-me capaz de consentir em tais crueldades?...
— Então vamo-nos, meu pai.
Leonor, pela mão de seu pai, desapareceu além do reposteiro, acompanhada dos olhares de todos, que, tomados de emoção e respeito, viram sumir-se aquela visão como havia aparecido, como um anjo entre nuvens.
Fernando viu-se, com íntima satisfação, desassombrado da companhia de Diogo Mendes e de sua filha, e podendo dar às pesquisas a direção que quisesse, tratou imediatamente de prossegui-las com novo encarniçamento.
Neste ínterim, Maurício e Gil haviam travado entre si este curto diálogo:
— Maurício, não posso mais conter-me nem suportar tantas atrocidades. Retiro-me neste instante; vou avisar Antônio e mais alguns companheiros; conforme o resultado...
— Espera um momento, Gil; vamos ver a resposta de Irabussú; conforme ela for, também sairei, e então veremos o que devemos fazer.
— Mas isso é perder tempo...
— Não, Gil; o negócio decide-se já... Escuta... Fernando nos fala...
— Senhor Maurício — dizia, com efeito, Fernando, em voz bem alta —, cumpre explicar a esse bugre o que eu há pouco disse a vossas mercês; lembra-se ainda?...
— Oh! Se me lembro! — respondeu Maurício, relanceando sobre Fernando um olhar que o fez estremecer, e deu-se pressa em falar a Irabussú.
Este, sabendo que sua filha seria atormentada se ele não revelasse o lugar da mina, deixou pender a cabeça para o chão, acocorou-se na sala e assim ficou largo tempo; gotas de suor lhe corriam pela testa, e o corpo se lhe agitava todo em tremores convulsivos. Silenciosos e na mais ansiosa expectativa, aguardaram todos a resposta do índio.
Por fim, Irabussú levantou-se e fez um aceno de cabeça a Maurício. Este aproximou-se.
— Irabussú vai mostrar a mina — disse o bugre.
— Quando?...
— Quando quiserem... O rosto de Gil desanuviou-se, e Maurício respirou profundamente, como se lhe houvessem tirado um rochedo de cima do coração.
Aquela resolução do índio vinha, com efeito, dissipar uma violenta e iminente catástrofe.
— Está resolvido a mostrar a mina — disse Maurício a Fernando.
— Quando?
— Hoje ou amanhã; quando quiserem.
— Ainda bem!...
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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