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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 20 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 1 — Capítulo XX — O Anjo do Lar e o Anjo das Selvas

20 de 50 ≈ 17 min de leitura

No dia seguinte, ao primeiro alvorecer da manhã, seis emboabas bem armados de escopetas, pistolas e zagaias, quatro a cavalo e dois a pé, acompanharam Irabussú, que saía da casa do capitão-mor para ir mostrar a mina oculta de espantosa riqueza, que era o pesadelo de toda aquela gente. Os dois peões iam aos lados do bugre, segurando as extremidades de uma grossa corda que lhe arrochava os pulsos. Os cavaleiros iam dois adiante e dois atrás. Para um velho bugre velhaco e feiticeiro como Irabussú, tais precauções não eram excessivas.

Fernando havia escolhido os mais resolutos e destemidos, os mais fiéis e dedicados dentre seus patrícios para aquela arriscada e melindrosa empresa. Bem vontade tinha ele de ir em pessoa e ser o primeiro a pôr a mão naquele Eldorado, que tanto lhe cativara a imaginação; mas teve receio e vergonha: receio, porque bem sabia que por aqueles arredores cruzavam hordas selvagens e temia que Irabussú não os quisesse envolver em alguma cilada; vergonha, porque desejara passar por desinteressado e não queria, por modo nenhum, que se atribuíssem os seus procedimentos à ganância de ouro. Entretanto, não deixou de dar ordens e recomendações muito terminantes e apertadas aos seus homens, sob severas cominações.

— Cuidado com o bugre!... Não facilitem!...— repetia-lhes uma e muitas vezes.

— Se o deixarem escapar, terão de sofrer por ele o castigo... Depois que mostrar a mina, tragam-me provas e marquem bem o lugar e o caminho. Mas, antes de tudo, não mostrem nada senão a mim. Havemos de lá ir apanhar todo o ouro que estiver à superfície, e a vocês tocará um bom quinhão; percebem?... Algumas pessoas, que já estavam despertas e viram passar o bugre com aquele sinistro acompanhamento, diziam entre si:

— Que quer dizer isto?... Irão enforcar o pobre diabo?... Anda, bruxo de mil diabos!... Vai para o inferno pagar teus malefícios!... As mulheres benziam-se, e os meninos, assustados e chorando, corriam para junto de suas mães.

Gil se achava em casa de Maurício, onde havia passado a noite, e estavam ambos naquele quarto muito nosso conhecido; dali espreitavam, com ansiosa curiosidade, a saída do bugre.

— Não posso negar — dizia Gil — que estou com bastante cuidado a respeito do meu velho bugre. Entretanto, lembro-me de que ele é fino e matreiro como raposa velha, e quer me parecer que, longe de ir mostrar ouro àqueles famintos emboabas, vai lhes pregar ainda alguma furiosa peça.

— Pior será isso; se ele escapar sem cumprir a palavra, então ai da pobre Judaíba!...

— Isso é verdade!... Irabussú não é capaz de desamparar a filha, nem que o façam em postas...

— Nesse caso, que remédio terá senão mostrar a mina?

— Eu sei lá!... Aquele bugre é manhoso e astuto, como ninguém faz ideia; às vezes eu mesmo quase acredito que deveras ele é feiticeiro ou tem pacto com o diabo. Oh!... Se pudéssemos acompanhá-los de longe!...

— Isso nunca!... Iríamos nos comprometer; Deus sabe o que sucederá!... Todo o mau resultado nos será atribuído. Fiquemos por aqui e esperemos; é o melhor partido que, por agora, podemos tomar.

— Tens toda a razão, Maurício; mas, entretanto, lá se vão assenhorear de uma fortuna que era minha e que eu comprei, sem o saber, por um ato de caridade cristã, livrando das garras da morte aquele pobre velho!... Que importa!... Fiquem esses miseráveis atolados em ouro, mas respeitem o meu velho amigo, o meu pobre bugre... senão... não me poderia mais vingar deles por meio desse ouro que me roubam. Mas ferro e fogo por toda parte existem, e ninguém mais me impedirá que... Os sentimentos generosos de Gil transbordavam no acento apaixonado e na expressão dos olhos, que se banhavam em lágrimas que ele não queria derramar.

Maurício o interrompeu:

— Tens razão, meu Gil!... Eu mesmo não sei o que faça, mas peço-te... espera...

— Irabussú já foi para o mato, de mãos amarradas, escoltado por seis emboabas... Que foram fazer dele?... Onde ficou Judaíba?... Hein!... Meus brancos?... Essa rápida e brusca interrupção à conversa dos dois paulistas foi feita por Antônio, que, desde a véspera, não pensava senão na sorte dos dois índios e entrara no quarto ofegante, com as narinas dilatadas e os olhos chamejantes.

Os dois moços compreenderam logo o que se passava naquela alma inquieta e ardente.

— Irabussú foi mostrar a mina aos emboabas — respondeu tranquilamente Maurício.

— Não te inquietes, Antônio; Judaíba está em casa de teu senhor velho.

— Ah!... Muito bem!... Muito bem! — exclamou Antônio, batendo palmas.

— Vou lá ver Judaíba... e de lá vou acompanhar aquela gente... Eu é que hei de descobrir a mina...

— Tu, Antônio!...— exclamaram ao mesmo tempo os dois moços.

— Sim, eu mesmo.

— Mas como?!...

— Ora! Eu cá sei!... Conheço aos palmos tudo isto aqui em roda. Deixem-me fazer o que entender.

— Tiveste ótima lembrança, Antônio — disse Gil.

— Tu és esperto, e, demais, ninguém desconfia de ti... Vai espiar o que eles fazem... Aqueles malditos são capazes de matar o pobre bugre; e, por seu lado, o bugre pode ainda usar de alguma artimanha, pregar-lhes algum logro, e só tu serás capaz de ficar senhor do negócio... Vai, Antônio; vai já.

Antônio olhou para Maurício, como quem lhe pedia o assentimento.

— Vai — disse-lhe também este.

— Vou já; mas primeiro vou ver Judaíba.

E partiu. Ao entrar no pátio do capitão-mor, o primeiro som que Antônio ouviu foi a voz argentina e suave de Leonor.

— Vai depressa à casa do Sr. Maurício — dizia ela da varanda a um de seus fâmulos — e chama cá, por ordem de meu pai, o índio Antônio. Que venha depressa, ouviste?...

— Antônio aqui está, minha senhora! — gritou Antônio.

— O que quer dele?...

— Ah!... Melhor! Melhor! — exclamou a moça alegremente.

— Parece que adivinhas, Antônio. Vem cá.

Antônio acudiu, galgando de três em três os degraus da escada da varanda.

Leonor, como vimos, desde a véspera tinha tomado vivo interesse e compaixão pelo velho bugre e, principalmente, por sua inocente filha. Repugnava-lhe ao coração sensível e benfazejo o bárbaro tratamento a que queriam sujeitar os dois míseros selvagens. Sabia muito bem que o principal autor daquelas crueldades era Fernando e que, se o capitão-mor lhes dava algum assentimento, era de muito mau grado. Depois que fora recolhida amorosamente por seu pai ao interior da casa, conversara largamente com ele, intercedendo pelos pobres selvagens e rogando-lhe, com lágrimas nos olhos, que em caso nenhum consentisse em pô-los a trato.

— Não te aflijas, querida filha — dizia-lhe o bom e carinhoso pai.

— Tudo isto não passará de meras ameaças, e nem creias que Fernando será capaz de pô-las em prática, e nem eu o consentirei. Entretanto, é preciso que o bugre nos descubra essa mina de incalculável riqueza!... Em honra ao nome que tenho e à posição que ocupo, não terei remédio senão empregar os últimos meios para fazer esse grande serviço ao meu soberano, a quem é meu dever servir e honrar!...

— Triste honra e triste serviço!... Então, para servir e honrar a esse seu soberano, meu pai, é preciso azorragar, esfolar, matar essa pobre gente do mato?!...

— És muito inocente, minha filha — replicou o pai, sorrindo.

— Não lhes queremos a vida, não; o que queremos somente é o ouro desta terra, do qual não conhecem o valor nem sabem aproveitar-se.

— Não é assim, meu pai; não sabiam, mas agora já sabem. Por que é que Irabussú esconde teimosamente a sua mina?... A seus irmãos, ele a esconderia?... Não, não, decerto!... Esconde-a porque percebeu que damos ao ouro um valor extraordinário, maior do que ele merece. Eles bem pouco se importam com ouro. Deixem-lhes a liberdade, deixem-lhes essas matas e esses rochedos em que nasceram, e eles estarão prontos a mostrar todas as minas deste país, que conhecem melhor que ninguém.

A gentil filha do Ipiranga parecia agitada por um espírito profético e era como um eco precoce da independência da América portuguesa proclamada nas campinas de sua terra natal.

As singelas e entusiásticas palavras da moça fizeram cismar por um momento seu velho pai.

— Anda cá, minha filha — disse ele, acordando de seu cismar e lançando o braço ao colo da menina.

— E se eu conseguir mandar para Portugal galeões atopetados de ouro?!... Minha casa será em breve uma das mais nobres do reino, e mais um brasão, mais um título heráldico virá adornar as armas de nossa família. Já com este meu braço concorri para escorar o trono de Sua

[trecho materialmente ilegível no fac-símile: duas linhas apagadas]

para encher-lhe o erário.

— É justo, meu pai; mas não se poderá conseguir isso sem maltratar tanto esses pobres selvagens?...

— Pode-se, minha filha, e tanto assim que lá se vai nos mostrar um riquíssimo tesouro, sem que seja preciso vexá-los. Mas, se forem precisos meios mais enérgicos, que remédio senão empregá-los!...

— Ah! Permita Deus que isso não seja preciso... Maltratar uma pobre caboclinha, que de nada sabe, de nada tem culpa!... Oh! Perdoa-me, meu pai, eu não quero mais ser sua filha, se vossas mercês consentir nisso!...

— Sossega teu coração, minha filha. Já te disse: são puras ameaças; isso não terá lugar. Pelo contrário, verás que as honras e riquezas nos entrarão pela casa adentro sem fazermos mal a ninguém.

— Mas, meu pai, pelo menos não fazemos mal a esse Gil...

— Mal a ele, minha filha?!... Ele é quem nos ia fazendo mal, esbulhando-nos de um direito que é nosso, tirando ou fazendo tirar ouro às escondidas. Ah!... Se eu quisesse usar contra ele do rigor das leis!... Mas não desejo exacerbar os ânimos mais do que já estão, nem reavivar esses ódios que, não sei por que fatalidade, existem entre nós, os portugueses, e os filhos desta terra... Enfim, Gil não continuará a enriquecer-se por esse modo ilícito, e é quanto basta... Ele por certo não esgotou a mina, que, se Deus for servido, há de ser explorada mais vantajosamente em benefício de El-Rei, de nós todos, e não dele só, como ele esperava, e como eu não posso consentir. Tranquiliza-te, minha filha, e esperemos até amanhã.

Ditas estas palavras, Diogo Mendes beijou ternamente sua filha na fronte e recolheu-se ao seu aposento.

Leonor esperou com impaciência o alvorecer do dia seguinte. Ansiava por ver de perto, com mais atenção, a pobre indiana e falar com ela alguma coisa, fosse o que fosse. Curiosidade infantil, comiseração e nobreza de alma, tudo influía para que ela desse aquele passo. Mas a figura esquálida e monstruosa do velho bugre lhe metia medo. Apenas, porém, na manhã seguinte, Irabussú saiu escoltado pelos emboabas, Leonor correu a pedir a seu pai que lhe deixasse ir ver a caboclinha.

— Que vais lá fazer, minha filha?... Ela não te entenderá, nem tu a ela. Bem viste como ainda está brutinha e arisca, que nem uma corça...

— Não importa, meu pai; quero ir vê-la de perto e domesticá-la, essa corça... Coitadinha!... Tão menina ainda!... Quase nua!... Tão desgraçada!... Não faz dó, meu pai?...

— Pois vai, minha filha — disse Diogo Mendes, sorrindo-se bondosamente.

— Mandarei abrir-te a porta da prisão e poderás soltá-la, pois não há necessidade alguma de ficar presa aquela pobrezinha, que nenhum mal pode fazer. Entretanto, é bom não deixá-la sozinha.

Leonor, acompanhada por uma escrava levando uma trouxa, entrou na prisão. Era esta uma sala espaçosa, toda entulhada de troncos, correntes, peias e instrumentos de suplício, e escassamente iluminada por uma pequena fresta aberta no alto da parede. A este salão meio subterrâneo e soalhado de lajedos, descia-se por uma estreita escada de pedra.

Judaíba estava sentada a um canto da sala sobre um cepo muito baixo, toda encolhida, com a cabeça metida entre os braços enrolados sobre os joelhos. Os cabelos bastos, corridos e muito compridos se lhe entornavam em redor do corpo, encobrindo-o quase todo, e lambiam o pavimento, à maneira dos ramos desgrenhados do salgueiro-chorão. Estava dormitando, ou absorta em profunda mágoa!... Leonor abriu de manso a porta da prisão, encaminhou-se para a índia, e bateu-lhe de leve no ombro. Judaíba acordou de seu letargo, levantou-se acelerada, murmurando palavras guturais e ininteligíveis com ar ameaçador. Leonor não se assustou; tomou a mão da jovem indígena, afagou-a, abraçou-a, e em poucos momentos fê-la sorrir. Mandou a escrava colocar perto dela o embrulho de roupas que lhe trazia, desatou-o e tirou alguns vestidos e enfeites de pouco valor, com que queria brindá-la.

Judaíba mostrou-se muito satisfeita, e manifestou por gestos e monossílabos o seu contentamento e gratidão; mas depois, pondo-se de joelhos e agachando-se sobre os calcanhares, cruzou os braços sobre o seio e, apontando para a porta por onde Irabussú partira, como quem perguntava: “Que é feito de meu pai?”, desatou a chorar.

Leonor compreendeu a mímica com a inteligência do coração.

— Ah!...— murmurou ela, com os olhos úmidos, dirigindo-se à escrava.

— Que pena eu não poder conversar com ela! Se aqui estivessem ao menos Maurício ou Gil, que entendem tanto a língua desta gente!... Leonor ficou um momento pensativa, enquanto Judaíba chorava. Depois, fazendo um brusco movimento, e batendo na testa:

— Ah! — exclamou.

— Achei!... E eu, que não me lembrava de Antônio!... Vou mandar chamá-lo... Dito isso, a moça saiu aceleradamente, deixando a escrava perto de Judaíba, dirigiu-se à varanda, e enquanto dava ordem para chamar Antônio, teve a fortuna de encontrá-lo entrando no pátio, como já vimos.

Leonor conduziu o índio à prisão, onde se achava Judaíba.

— Judaíba! — exclamou Antônio, correndo para junto da cabocla.

— Antônio! — gritou esta com um sotaque singular, entreabrindo não um sorriso, mas uma risada alegre, ingênua e desabafada como o trinar de um passarinho.

— Ah!... Então já se conheciam?...— falou Leonor, olhando para um e outra com surpresa e curiosidade.

— Conheço muito Judaíba, sinhá, é minha irmã do mato... Coitadinha!... Tenha pena dela... Ela é muito boazinha...

— Tenho muita pena, Antônio; por isso é que te mandei chamar... E tu também queres muito bem a ela?...

— Sinhá quer saber se eu quero bem a Judaíba?... Pois isso se pergunta!... Eu vou perguntar também ao senhor Maurício se ele quer bem à sinhá Leonor!... Aquela indiscreta, mas ingênua alusão do selvagem fez Leonor enrubecer até os olhos.

— Está bom!... Está bom!...— disse ela, procurando disfarçar o seu enleio.

— Eu te chamei, porque quero conversar com tua irmã, e ela não me entende, nem eu a ela...

— Pois fale, sinhá; eu vou dizer tudo tal e qual, sem tirar nem pôr uma palavra.

Começou então entre as duas o seguinte diálogo, que era transmitido de uma a outra por intermédio de Antônio:

— Como te chamas?...

— Judaíba.

— Judaíba!... É nome bem suave!... Quer morar comigo?

— Morarei onde estiver meu pai.

— Queres bem a Antônio?...

— Muito.

— Pois bem!... Eu quero que fiques comigo para te casar com Antônio; queres?...

— Sim; mas junto com meu pai...

— É isso mesmo que eu quero; teu pai volta hoje, e ficarão todos três aqui. Eu serei tua irmã, e te hei de tratar muito bem; não consentirei que ninguém faça mal nem a ti, nem a teu pai. Queres ser minha irmã?... Morar comigo, com teu pai, com Antônio, nós todos juntos!...

— Falta ainda uma coisa, sinhá — considerou Antônio.

— O quê? — perguntou Leonor.

— Para tudo ficar direito, falta aí o patrão...

— Qual patrão?...— replicou a moça, fingindo-se desentendida.

— Ora! O patrão moço, o senhor Maurício...

— Cala-te, Antônio; não se trata agora disso. Querem, ou não querem, o que eu propus?... É o que eu desejo saber.

— Ora! Pois precisa perguntar?... Eu respondo também por Judaíba... Queremos, queremos... Falando assim, Antônio agarrou na alva e delicada mão de Leonor, beijou-a com frenesi, e mandou Judaíba fazer o mesmo. Leonor não consentiu, e enlaçou-lhe o colo, dizendo:

— Abraça tua irmã!

— Vou-me embora — disse Antônio.

— Tenho hoje muito que fazer. Quando sinhá precisar de Antônio para conversar com a menina, mande chamá-lo, que de um pulo ele aí está.

Dito isso, trocou com Judaíba algumas palavras em língua indígena, e, em dois saltos, pondo-se fora da prisão, lá se foi correndo no encalço da escolta que acompanhava Irabussú.

Fernando e o capitão-mor, encerrados no gabinete deste, procuravam passar as longas horas daquele dia de inquieta expectativa tratando de diversos negócios; mas o velho bugre e sua prodigiosa mina de ouro, por mais que disso procurassem esquecer-se, voltavam teimosos à tela da conversação. Era uma preocupação tenaz, que se lhes agarrava ao espírito como ostra ao rochedo. Tal é a fascinação que o ouro, ainda mesmo sonhado, exerce sobre as imaginações!... A cada momento pensavam estar vendo os seus emboabas voltarem vergados com o peso de sacas de ouro, que já não se pesava, media-se às quartas e aos alqueires.

Também de sua parte Maurício e Gil aguardavam com não menos impaciência o resultado daquela singular pesquisa. Gil deixaria passar para as mãos dos emboabas todo o ouro do mundo, uma vez que o velho bugre, que por ele tanto se sacrificava, nada sofresse. Mas, por outro lado, estimaria bastante que o ardiloso índio ainda uma vez lhes malograsse as tentativas, e os deixasse completamente burlados, morrendo dessa sede fatal que a perspectiva de imensos tesouros lhes havia ateado no peito.

Maurício também desejaria ver os emboabas nadando em ouro, contanto que, com isso, se esquecessem de perseguir os seus patrícios, e fazia votos ao céu para que o bugre, mostrando essa mina fatal, que ameaçava pôr tudo em conflagração, fizesse desaparecer de entre eles mais esse pomo de discórdia.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

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