Leia agora
Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Universo da obra

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 15 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 1 — Capítulo XV — O Gato do Mato

15 de 50 ≈ 12 min de leitura

O Minhoto ficou muito desgostoso e contrariado com a notícia do mau resultado da diligência para agarrar Irabussú. Seus patrícios tiveram o mau gosto de levar-lhe essa notícia logo ao romper do dia. O Minhoto ainda estava deitado, e em jejum natural, quando lhe bateram à porta. Saltou da cama quase nu, embrulhou-se no capote, e foi abrir.

— Então?... que é do bugre?

— É escusado teimar, meu caro senhor...

— Que diz?!...

— É escusado teimar, o maldito bugre é bruxo.

— Bruxo!? Está bem!... Entrem que está fazendo frio... tomemos uma pinga e conversemos de portas adentro... hoje em dia os negócios não estão de se facilitar... Entraram os emboabas, que eram quatro, e mar colando broa fria com vinho zurrapa, conversavam sobre o caso.

— Senhor Minhoto, é como lhe eu digo; o bugre tem parte com o diabo; aquela almanjarra agachou-se por trás de uma moitinha assim... da altura de meu joelho, sumiu-se todo e quando de lá saiu, era um gato de mato.

— É tal e qual, senhor Minhoto, e que gato!... tinha olhos de fogo e tresandava a enxofre que tonteava...

— Que ele tem parte com o diabo não resta dúvida; mas eu sei um remédio muito bom para quebrar-lhe o encanto. Com esse ou ele há de arrebentar, ou o diabo lhe há de sair das tripas, quer queira, quer não...

— Também eu sei, um padre de boa vida para benzê-lo, e esconjurar o demônio...

— Para que padre, patrício? basta o cordão de São Francisco. Pegue-se aí um cordão bento de São Francisco, dobre-se em dois, e soltem com ele duas ou três lambadas no bruxo, e se ele não se entregar manso e humilde como um cachorro, o diabo que me entre também nas tripas...

— É verdade; lembrou bem, patrício. Eu já vi lá em nossa santa terrinha uma mulher, que tinha o diabo no corpo; berrava e pulava como cabra, trepava pelas paredes, andava por cima dos telhados, e fazia estrepolias, e diabruras, que era um desespero. Também diziam por lá, que ela virava coruja, morcego e outros bichos mais; mas lá isso eu nunca vi mas agora acredito, pois vi ontem com estes olhos o bugre virar gato de mato... Mas voltando ao caso, não houve reza, esconjuro, nem benzedura, que fizesse o diabo sair das entranhas da pobre mulher. Passou por lá um homem de Santarém, irmão leigo de um convento de São Francisco, que sabia muitas rezas e benzeduras, e para tirar o diabo do corpo não havia outro. Chamado para ver a mulher, apenas botou os olhos nela e que olhos, meu Deus!... parece que ainda os estou vendo!... grandes, arregalados!... mas como eu ia dizendo, apenas botou os olhos nela, a mulher caiu de joelhos tremendo, e suando; o diabo começou logo a berrar-lhe nas tripas; o velho irmão desatou logo da cintura o cordão de São Francisco, dobrou-o em três, e torceu-o bem torcido, e arrumou com toda força uma vergalhada nos costados da pobre mulher, e o diabo sempre a berrar... Chorava como criança, berrara como boi, grunhia como porco, balava como cabra, ou como ovelha, dava zurros como um asno, e enfim era uma coisa que espantava e ao mesmo tempo fazia a gente chorar de tanto rir... Neste ponto houve muitas risadas e galhofas, das quais é escusado dar conta ao leitor.

— Vamos ao resto da tua história. História, não; é verdade, pois eu vi...

— Pois vá lá...

— Pois aí vai — disse o contador da história depois de ter molhado a garganta.

— O velho soltou segunda vergalhada na cacunda da mulher, mas o diabo aí estava a berrar, a berrar... soltou terceira; a mulher levantou-se de um salto, e deu um pinote, que quase esbarrou com a cabeça no teto, e caiu no chão a fio comprido desacordada...

— Arre diabo!... S. Antônio! Cruz! Ave Maria!

— Ouvia-se um estouro, como de bomba, que rebenta...

— Santa Bárbara!

— E toda a casa ficou fedendo a chifre queimado... Quando a mulher voltou a si, estava livre do espírito mau! Isto eu vi com estes olhos!!

— Ah!... estão ouvindo!... Cordão de São Francisco no bugre!... e o único meio de pegá-lo!

— Mas ele é pagão.

— Que tem isso?... quem tem o diabo no corpo é pior do que pagão; tira-se o diabo do corpo até dos bichos.

— Aí não é que está a dúvida, meus amigos; como é que havemos de tocá-lo com o cordão, se ele se derrete como fumaça, e não há quem lhe ponha a mão nem de leve, quanto mais dar-lhe três boas vergalhadas?...

— Para tudo há remédio, homem. Um de nós fica de tocaia armado com o competente cordão; quando o bugre tiver passado, e for dando as costas, avança a ele por detrás, já está com as três lambadas no espinhaço e humilde e entregue como cordeirinho.

— Pois então vá você aplicar-lhe as lambadas.

— Eu não; sofro de reumatismo no braço, e não poderei puxá-las bem puxadas; aqui o compadre é que está mesmo no caso; é forçudo e animado.

— Eu!... Deus me livre!... Mandem-me entrar pela boca de uma onça, mas negócios com o capeta!... abrenúncio!...

— Então vá ali o Maneco, que é rapazinho bem disposto...

— Eu de noite não enxergo nada, nem um elefante, que esteja um palmo diante do meu nariz...

— Eu iria de boa vontade, mas estou ainda desensarado de umas maleitas, que tive; não posso apanhar sereno...

— Pior!... então quem há de ser?... Esta cena fazia lembrar os ratos de La Fontaine, que reunidos em conselho deliberavam atar um guizo ao pescoço de um gato, que fazia entre eles cotidianamente pavorosos estragos. Quando porém se tratou de pôr em execução o tão aplaudido alvitre, todos se recusaram. Zangado e roendo as unhas, o Minhoto guardando completo silêncio escutava a burlesca palestra dos emboabas, e dentro d’alma dava a mil diabos a poltronice e imbecilidade de seus patrícios.

— Basta, patrícios!... isto é uma vergonha!

— exclamou ele por fim.

— Pois vocês deveras ainda têm medo de bruxarias e coisas de outro mundo?!... Eu pensei, que vivia no meio de homens; agora vejo que ando a lidar com crianças, que ainda têm medo do papão. Que vergonha! com medo de um gato largarem mão do bugre, que tinham já nas garras!...

— Mas se o gato era o próprio bugre!...

— O próprio bugre!?... era o próprio diabo.

— E porque vossas mercês lá não estava, senhor meu; se estivesse, havia de correr como qualquer de nós.

— Eu correr de um gato! — redarguiu o Minhoto.

— Sou lá poltrão, como vocês?... ajustava-lhe um tiro na cabeça, e fosse gato, bugre ou o diabo, estava tudo acabado.

— Isso é bom de se dizer; o bicho não deu tempo nem de se engatilhar a pistola... Ora! ora! não deu tempo! — atalhou o Minhoto com sorriso de mofa.

— Que está a dizer, homem?... diga antes que vocês todos são uns miseráveis, que não podem com um gato pelo rabo. Ah! ah! ah! ah! continuou com uma gargalhada aplaudindo-se a si mesmo; — é deveras! não podem com um gato... ah! ah! ah!... o rifão vem mesmo de molde para vocês... E como não hão de os paulistas chacotear de nós, e fazer-nos negaças e desfeitas?... Com este desapiedado apodo os emboabas foram às nuvens e não fosse o Minhoto um homem de consideração em razão de seus haveres, e do favor que gozava junto do capitão-mor, ali mesmo ter-lhe-iam dado uma boa lição. E pois os emboabas corridos e indignados engoliram prudentemente o remoque, e contentaram-se em morder os próprios beiços.

— Pois haja-se vossas mercês lá com o seu bugre — ousou dizer um deles depois de alguns instantes de silêncio; — que eu cá juro não meter-me em tais alhadas. O que lhe eu digo é, que se nós não pudemos pegá-lo, muito menos vossas mercês.

— Ora pelo amor de Deus, não diga asneiras, homem!... pensa então, que sou algum toupeira, como vocês, que não enxergam um palmo adiante do nariz? e que não sei o que digo, nem o que faço?... Deixem, deixem o negócio correr somente cá por minha conta e risco; tanto melhor para mim! maior quinhão em toca, e quando vocês virem todo aquele ouro, que todos os dias vai para as algibeiras do Gil, cair-me cá no mealheiro, então é que vocês hão de torcer as orelhas comendo-se de inveja tarde e a más horas... e eu cá a me rir bem ancho e satisfeito...

— Que lhe faça bom proveito; mas tenho para mim, que vossas mercês há de pôr a mão naquele ouro, quando eu tocar as estrelas com o dedo.

— Ou quando me choverem diamantes do céu...

— Ou quando eu tiver galinhas, que me ponham ovos de ouro.

— Ou quando eu...

— Calem-se, senhores tagarelas! — interrompeu bruscamente o Minhoto — dentro em oito dias vocês verão; em menos disso espero lhes tapar a boca. Oh! a inveja e o arrependimento, que vão ter, já me enche de satisfação, e me regala cá por dentro. Oito dias somente, ouviram? esperem, e verão.

— Nessa não creio eu;... por que maneira!... não me dirá, senhor. Minhoto?

— Isso queriam vocês saber... tenho os meus planos;... ninguém os mandou serem tão poltrões e desajeitados?... vão-se, vão-se com Deus, que eu com vocês não conto mais. Os emboabas foram-se retirando, descontentes ao último ponto e despeitados com o Minhoto, que em verdade os havia tratado com o mais humilhante e protervo desdém.

— Que pedaço de malcriado não vai ficando este piegas, depois que tem um pouco de ouro! — iam eles conversando entre si pelo caminho.

— Cuida que tem o rei na barriga, e vai tomando assim ares de maioral... comigo está enganado; não aturo desaforos...

— Em má hora nos meteu ele nesta toleima de agarrar o bugre. Deixem-no estar, que ainda há de precisar de nós, e muito sem brio será quem ainda lhe escute as cantilenas.

— E o biltre a nos chamar de covardes!... ele, que é o rei dos poltrões, e que a noite não. é capaz de dar um passo fora de casa!...

— Deixem-no; ele está muito altanado cuidando que já tem nas unhas o ouro do bugre; mas desse está ele tão livre, como eu de herdar a coroa de Portugal.

— Ou como eu de ser imperador de Moirama. Assim chasqueando e maldizendo o Minhoto, os emboabas foram-se embrenhando por um caminho fundo entre duas barranqueiras, espécie de vala cavada pela roda dos carros e pelas enxurradas. Essa vereda estreita e profunda descia para o ribeirão, à borda do qual tinham eles suas habitações. Eis senão quando um vulto colossal saltando de um barranco a outro passou-lhes rapidamente por cima das cabeças como uma galhada de pau seco, que lá ia voando impelida pelo furacão.

— Santa Virgem!

— Misericórdia!

— Valha-me Nossa Senhora!

— Com mil diabos!... que é isso, que lá vai?!... exclamaram a um tempo os emboabas transidos de pavor.

— Irabussú! — respondeu de cima do barranco uma voz estridente, gutural, terrível. Benzeram-se os emboabas, e apertando o passo, o mais que podiam, não respiraram tranquilos, enquanto não saíram do caminho escavado, e não se acharam entre algumas casas, que haviam adiante. Olharam para todas as partes, tudo esquadrinharam com os olhos, e nem sombra viram de Irabussú. Acabaram de convencer-se de que era ele um duende, um ente sobrenatural, contra o qual nada podiam as forças, nem astúcias humanas. Estou certo que o leitor não será tão simples e crédulo como aqueles bons camponeses de Portugal, que tanto acreditavam em bruxarias e visões sobrenaturais. Todavia para que em seu espírito não reste a menor dúvida, é bom, que eu lhe conte antes de terminar este capítulo, como foi o caso do gato de mato. Irabussú naquele dia havia apanhado vivo em um laço, que armara no mato, um desses grandes gatos silvestres, antes pequena onça, a que chamam jaguatirica. Era moquém de que muito gostava, e ia conduzindo viva para casa presa em um forte balaio de taquaras. Ao ver-se atacado pelos emboabas o matreiro velho saltou rapidamente a esconder-se por trás de uma pequena moita de ramos, único abrigo, que encontrou mais perto; ali estendeu-se chato com o chão, de modo que ele com seus longos e descarnados membros, com todo o seu armamento de arco, flechas e manguala acachapando-se de chofre como um feixe de ossadas, sumiu-se como por encanto. Abriu com presteza o tampo do balaio, e ao mesmo tempo mordendo com força a cauda do animal, que saía pela extremidade oposta, o fez saltar sobre os emboabas furioso, com os olhos em brasa, pinoteando e soltando uivos horríveis. Graças a este ardil o bugre pôs em fuga precipitada os seus inimigos, e pôde entrar tranquilamente em casa de seu patrão.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 15 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capa de Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei
Continue a leitura Volume 1 — Capítulo XV — O Gato do Mato Capítulo 15 · 15 de 50 · ≈ 12 min
Todos os capítulos 50 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir