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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 31 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 2 — Capítulo VI — Começo de Conspiração

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É impossível descrever o estado em que Bueno e Calixto voltaram para casa. Iam silenciosos, arrancando das entranhas, de quando em quando, surdos e profundos suspiros. Nada tinham que dizer, nem explicar um ao outro; o fel que estava no coração de um também fervia no coração do outro; ambos esses corações sangravam igualmente ao golpe do mais vivo e cruel ultraje, e, sem se falarem, compreendiam-se admiravelmente. Assim foram caminhando sempre taciturnos, ora cabisbaixos e sombrios, ora fitando os olhos no céu como invocando o castigo de Deus sobre a cabeça de seus perseguidores.

— Que iremos fazer agora, padrinho? — perguntou Calixto ao chegarem em casa.

— Ainda perguntas! — replicou o velho.

— Que havemos de fazer senão armas!... armas bem fortes e aguçadas para rasgarmos o coração de nossos perseguidores. Nossas afrontas têm de ser lavadas no sangue do emboaba, meu filho, e isso mais breve do que pensas.

— Pronto! pronto! padrinho, mãos à obra! também eu, mais que ninguém, tenho sede desse sangue... Passaram-se alguns dias de morno e lúgubre sossego. Havia, entretanto, no fundo desse aparente remanso, alguma coisa como um sussurro surdo e profundo, que pressagiava próximo temporal. Fernando reativava suas medidas vexatórias contra os paulistas. As reuniões e caçadas lhes eram de novo proibidas, e só às escondidas e misteriosamente podiam agrupar-se para se queixarem dos males e perseguições que sobre eles pesavam, e consultarem-se sobre os meios de lhes opor um dique. Os forasteiros, tornados cada vez mais insolentes, provocavam e insultavam constantemente os paulistas. Estes, por conselho de seus chefes, procuravam conter-se e abafavam seu ódio; mas nem por isso deixava de ir todos os dias um deles, por delações de seus inimigos, encher a prisão e alisar o tronco. Gil julgava-se já desobrigado da promessa que fizera a Maurício, de nunca provocar, antes procurar acalmar as animosidades. Tornara-se, todavia, mais avisado e discreto, e tratava de preparar os elementos para uma resistência mais seria e bem combinada. De todos os seus patrícios, à exceção de Maurício, já não havia um só que não votasse mortal aversão a tudo quanto era português, e que não esperasse impaciente por um grito de revolta, viesse donde viesse, para lançarem-se como lobos esfaimados sobre os emboabas e estrangulá-los como a víboras. Estavam todos persuadidos de que, se não quisessem ser algozes, seriam inevitavelmente vítimas de seus adversários. Podiam contar também como auxiliares muitos escravos índios e africanos, que comungavam no mesmo ódio contra os emboabas e que estariam prontos a insurgirem-se ao primeiro sinal. Faltava-lhes, porém, combinação; faltava-lhes um chefe hábil e resoluto, que os pudesse levar à revolta com esperança de feliz resultado. Os elementos de discórdia se acumulavam de dia a dia e ameaçavam irromper em breve em terrível explosão. Gil bem o via e, atilado como era, bem compreendia que, se uma tal revolta viesse a rebentar por si mesma, sem combinação, sem plano traçado de antemão, em vez de melhorar a condição dos paulistas, viria, por falta de resultado, tornar ainda pior a sua já tão deplorável situação. Seu pensamento fixo foi, pois, organizar a insurreição de modo a garantir-lhe um pleno sucesso. Nesse intuito, dizia continuamente a seus conterrâneos impacientes: Esperem; tenham um pouco de paciência; preparem-se, que em breve tomaremos cabal desforra desses zangões. O chefe que se apresentava ao espírito de todos como o mais popular, simpático e hábil era seguramente Maurício; mas suas relações pessoais e seu fatal amor pela filha do capitão-mor o manietavam, sopeavam-lhe os brios de paulista e o tornavam suspeito à maior parte dos seus, com grande mágoa e desgosto de Gil. Esperava este, contudo, que os acontecimentos arrojariam por fim Maurício em hostilidade aberta contra o capitão-mor. A rivalidade e o ódio de Fernando não tardariam em cavar um abismo de separação entre ele e a família de Diogo Mendes. Este fenômeno, todavia, já por demais se fazia esperar. O negócio de Helena, tendo-se resolvido de uma maneira aparentemente pacífica, deixava Maurício nutrindo ainda suas vãs esperanças de quietação e concórdia, e sem ânimo de romper definitivamente com os emboabas. Também por seu lado, Gil, preso pela estreita e íntima amizade que o ligava a Maurício, via-se bastantemente embaraçado. Compreendia a melindrosa situação de seu amigo, e repugnava-lhe tomar uma atitude que o iria colocar em hostilidade contra ele, fazendo guerra de morte àqueles por quem Maurício tanto se interessava e a quem a todo transe procurava salvar do ódio de seus patrícios. Para ele era claro que Maurício tomava a seu cargo uma tarefa impossível, querendo, por meios regulares e prudentes, compor as animosidades e acalmar os ódios; mas o amor é cego, e uma alma que se alimenta essencialmente de amor nada julga impossível. Impacientado soberanamente, Gil, todavia, deliberou esperar mais algum tempo, certo de que da casa do capitão-mor não tardaria a partir contra Maurício alguma afronta que o fizesse voltar-se enfurecido contra aqueles a quem afagava. Por prévio ajuste, achavam-se reunidos na casinha de mestre Bueno este, Maurício, Gil, Calixto e Antônio. Era alta noite; em razão das medidas vexatórias e da espionagem exercida pelos agentes de Fernando, não podiam os paulistas reunir-se senão clandestinamente e com grandes precauções. O motivo que agora reunia os cinco personagens reclamava especialmente o maior segredo e circunspeção; iam tratar dos meios de se livrarem da opressão e vexames que os emboabas, cada vez mais ávidos e insolentes, faziam pesar sobre os paulistas; era já o começo de uma conspiração. A noite estava tenebrosa, e eles achavam-se na varanda e às escuras. Posto que a casinha fosse bastante afastada e segregada do resto da povoação, era de lá avistada, e qualquer luz ou fogo que acendessem àquelas horas poderia despertar suspeitas. O jovem Calixto, até ali tão lesto, jovial e expansivo, depois da afronta de que fora vítima e depois que não via mais Helena a seu lado, tornava-se sombrio e taciturno; aquele golpe o havia fulminado; em sua alma só havia rancor e pesadume, e mais parecia um ancião desventurado do que o belo e vigoroso mancebo de há poucos dias. O leitor não deve estranhar que Antônio, sendo um pobre índio escravo, tomasse parte em conchavo e deliberações de tanta importância e melindre como as de que se ocupavam nessa ocasião. O leitor terá compreendido que Antônio não era propriamente um escravo, mas o companheiro fiel, o amigo de Maurício. Discreto e perspicaz, além de fiel e dedicado, merecia-lhe toda a confiança. O capitão-mor, que era o seu verdadeiro senhor, ou porque pouco se importasse com Antônio, ou porque atendesse à afeição que desde menino o ligava a Maurício, o tinha inteiramente abandonado, e o índio, aproveitando-se desta liberdade, jamais se separara de seu patrão moço. A cooperação de Antônio na empresa a que pretendiam atirar-se era não só útil como mesmo indispensável.

— Creiam, meus patrões — dizia o velho ferreiro, batendo com a mão áspera e tisnada sobre o peitoril da varanda —, é só a força de ferro e fogo que estes lobos esfaimados de ouro nos darão sossego e liberdade. Já tenho mais de quarenta zagaias com suas competentes choupas bem aguçadas para vararem as tripas de quarenta emboabas, e estou consertando um resto de escopetas, punhais e espadas que aí tinha; por falta de armas não havemos de nos sair mal. Velho assim mesmo, ainda conto mandar ao inferno uma boa dúzia desses cães tinhosos.

— Cá por mim — exclamou Calixto —, só espero que se dê a voz de mata-amboaba. Ninguém mais do que eu tem sede do sangue desses malditos.

— E Antônio também está pronto — disse o índio a seu turno.

— Sua escopeta não nega fogo, e sua flecha, que vara o couro rijo da anta e da suçuarana, é capaz de trespassar dez emboabas de um só tiro. Mas contra meu patrão velho — Antônio não sabe mentir e fala com o coração na boca —, contra ele e minha sinhá Leonor, Antônio nunca há de levantar a mão. Ele é meu pai; foi ele quem me deu este irmão, que aqui está — terminou, apontando para Maurício.

— Ah! sim! — retorquiu vivamente Calixto, tu esperas ainda que essa mão que hoje te afaga te esbofeteie, para amanhã te vingares!... Espera, Antônio, espera, que não tardará a tua vez. Ainda arrancando-lhes o coração não cevo bastante o ódio que tenho a esses malditos. Se ainda se contentassem com o ouro que nos roubam... mas não; querem nos governar dentro de casa; querem ter o direito de vir requestar em nossas casas e, a nossos olhos, nossas noivas, nossas mulheres, nossas filhas, e, se os repelimos, somos castigados com prisão, com tronco, com bolos, além de no-las roubarem!... Ah! isto não se pode aturar por muito tempo sem rebentar de raiva e desespero!...

— Calixto diz a pura verdade — ponderou Gil.

— Aqui estão três que lá têm enclausuradas as suas amantes por um mero capricho de nossos tiranos. Maurício, julgas que jamais poderás obter a tua Leonor, por mais que ela te ame, sem mover guerra aberta e implacável ao capitão-mor, ou, pelo menos, a esse Fernando, que te a disputa com a superioridade que lhe dá o nascimento, o parentesco e a posição que ocupa junto a Diogo Mendes?... E tu, Antônio, saberás me dizer qual a razão por que nos não querem restituir Judaíba?...

— Não sei — respondeu o índio —, mas eu vou lá sempre, e sei que Judaíba é e será sempre de Antônio, e ai de quem tiver o atrevimento de querer tomar-lha!... Sinhá Leonor já prometeu que Judaíba havia de se casar com Antônio.

— Que esperança! — exclamou Gil.

— Não duvido que o capitão-mor condescenda com esse inocente desejo da filha; mas lá está o implacável inimigo de teu amo; lá está Fernando, que te detesta pelo simples fato de tua amizade e dedicação a Maurício, e Fernando é ali quem põe e dispõe de tudo. Dá graças a Deus, Antônio, se, abusando de sua simplicidade de selvagem, não tentarem pervertê-la...

— Não fale assim, meu branco — bradou o índio, levando a mão convulsa ao cabo da faca —; ai daquele que ousar tocar em um só fio dos cabelos de minha Judaíba! Esta faca irá beber-lhe todo o seu sangue.

— E tu, Calixto — prosseguiu Gil —, consentirás que lá fique a tua Helena em poder deles, em companhia de dois moços dissolutos e libertinos? Poderás dormir tranquilo um só momento, sem que te sangre o coração de rancor, de inquietação e de angústia mortal, enquanto a noiva de tua alma se acha entregue às mãos daqueles algozes, ladrões da propriedade, do sossego, da honra e da felicidade de nós todos?... Não, não pode haver mais contemplação; já demais temos tragado o fel da humilhação, do desprezo e da mais tirânica perseguição. Ficam-nos três partidos a escolher: ou havemos de nos retirar todos, abandonando à cobiça e ambição de nossos perseguidores estas ricas minas que nossos patrícios descobriram, arrostando mil riscos e fadigas; ou nos devemos entregar a eles como escravos, nós e tudo quanto é nosso, trabalhando para enriquecê-los, sujeitando-nos pacientemente ao tronco, aos bolos, aos açoites e a todas as ignomínias; ou, por fim, havemos de nos rebelar contra tão odioso jugo e obrigá-los, à viva força, a respeitar nossas pessoas e nossos direitos. Destes três alvitres, o primeiro iria satisfazer plenamente os desejos de nossos opressores; o segundo é impossível; nenhum de nós, eu o afianço, nenhum haverá que o não repila imediatamente e que não repute uma afronta só o propô-lo. Não nos resta, pois, senão o terceiro. Maurício, sombrio e triste, escutava silenciosamente aqueles desabafos de cólera e indignação, que rompiam dos lábios de seus amigos como lavas ardentes arrojadas de uma cratera em terrível explosão. Bem via que estava cheia a medida da longanimidade e paciência de seus conterrâneos e que não lhe seria mais possível opor um dique aos ódios que ameaçavam irromper com furiosa exaltação. Sua situação era a mais crítica e difícil que se pode imaginar. Homem de grande importância e altamente considerado entre seus patrícios, não podia conservar-se neutro em qualquer conflito que rebentasse entre eles e os emboabas; muito menos lhe era permitido abraçar o partido destes sem cobrir-se de opróbrio, incorrendo na mais infame deslealdade para com seus patrícios. Por outro lado estavam a gratidão e lealdade que devia a Diogo Mendes, e o amor extremoso, profundo, imenso, que consagrava à sua filha. Acabrunhado pela situação difícil e inextricável em que seu destino o colocara, Maurício, embaraçado, não sabia o que deveria dizer a seus companheiros, nem como acolher suas frases repassadas de ódio e espírito de vingança. Bem quereria guardar silêncio; mas esse silêncio seria mais significativo que tudo, e era forçoso que se explicasse francamente, a fim de não inspirar desconfianças.

— Meus amigos — disse ele por fim —, eu também participo de vossa indignação e ressentimento contra nossos opressores: o jugo, de fato, está se tornando insuportável, e não serei eu que tentará amortecer vossos brios de paulistas, aconselhando a humilhação e a ignomínia; não; mas espero que não porão em dúvida minha lealdade e dedicação, se eu lhes disser que ainda não perdi de todo a esperança de terminar pacificamente estas desavenças e opor, sem luta, um paradeiro aos vexames de que somos vítimas.

— Mas como!... como?... como?...— esta pergunta rompeu simultaneamente dos lábios dos companheiros.

— Como!... eu já lhes digo. Amanhã irei jogar a última cartada; procurarei o capitão-mor e lhe pedirei audiência particular; tentarei abrir-lhe os olhos, falando-lhe com toda a franqueza, expondo-lhe sem rebuço o que sinto. Pedir-lhe-ei que sejam postos em liberdade Helena e Judaíba, e que ponha cobro às insolências e desaforos de seus patrícios, que nos querem roubar a um tempo a fazenda, o sossego e a honra. Se me ouvir com atenção e benevolência, ainda o mal não é sem remédio; se, porém, fizer pouco caso de minhas advertências e requisições, fica-nos a liberdade de lançar mão de recursos extremos para nos desforçarmos e defender nossos direitos ofendidos e espezinhados. Portanto, lhes aconselho ainda um pouco de resignação e paciência. É só por um dia, meus amigos; espero que por tão pouco tempo não lhes será difícil conter sua justa impaciência.

Bueno e Calixto abanaram a cabeça.

— Vá lá, patrão — exclamou mestre Bueno —; é mais um dia perdido, mas... paciência!... Tão certo como eu ser filho de minha mãe, vossas mercês vai perder seu tempo; no entanto, para não perder de todo o meu, vou malhar os meus ferros e dar têmpera a nossas armas, porque estou certo de que só quando elas falarem o capitão-mor nos dará razão.

— Qual capitão-mor, padrinho! — retorquiu Calixto.

— Não há de ser ele que nos há de dar razão. Depois que lhe cortarmos a cabeça e a toda sua gentalha... Neste ponto, Calixto foi interrompido por um singular rumor que vinha do lado de fora da varanda. Era o tropel de uma pessoa que se avizinhava, arquejante e a passos acelerados. Ainda durava o sobressalto que, naquela ocasião, naturalmente produzira tão inesperado rumor, quando a pessoa que se avizinhava penetrou rapidamente na varanda. Todos, sobressaltados, levaram a mão às armas.

— Ah! és tu, minha Judaíba?! — exclamou Antônio, que, primeiro que todos, reconheceu a sua amante e, precipitando-se ao encontro dela, sustinha nos braços a índia quase a desfalecer de fadiga.

— O que te aconteceu?... Fala, Judaíba...; o que vieste fazer aqui?... A índia não respondia; arquejante e opressa de cansaço, deixou-se escorregar dos braços de Antônio e sentou-se no chão. Os circunstantes se acercaram dela, cheios da mais ansiosa curiosidade e inquietação, dirigindo-lhe perguntas sobre perguntas; mas a pobrezinha esteve por muito tempo a arquejar, sem nada poder responder. Enfim, depois de repousar alguns momentos, instada por Antônio, contou-lhe em poucas palavras e com voz entrecortada e balbuciante, em dialeto carijó, o que vamos narrar ao leitor mais por miúdo no seguinte capítulo.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

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