Universo da obra
Universo da obra
O delíquio a que de novo sucumbira Leonor, cruelmente sobressaltada com o estrondo da temerosa catástrofe que se despenhava sobre a casa paterna, não fora de longa duração. A vozeria e o estrugido infernal, que aturdia e abalava todo o edifício, em breve a fizeram voltar a si, como quem acordava de um horrível pesadelo. Ao abrir os olhos, viu ajoelhadas junto ao leito suas duas companheiras, Helena e Judaíba, que, trêmulas e transidas de pavor, lhe tomavam as mãos, banhando-as de lágrimas, e procuravam com carinho despertá-la do seu delíquio, que elas, ignorando o que sucedera, julgavam não ser mais que um profundo sono.
O interior da casa estava completamente deserto; os homens que nela habitavam achavam-se todos na varanda, empenhados no combate; as escravas, tomadas de pavor invencível, tinham-se escapado para o quintal ou refugiado no fundo das senzalas. As duas pobrezinhas, vendo-se desamparadas, vaguearam longo tempo desvairadas pelos ermos compartimentos da vasta habitação, como duas rolas prisioneiras, sem acharem por onde fugir nem onde abrigar-se das garras do gavião, que esvoaça ameaçador em volta de sua prisão. Não vendo uma só pessoa a cujo lado se asilassem e que pudesse alentá-las e protegê-las em trances tão horríveis, correram para junto de Leonor; bem viam que esta era também, como elas, uma fraca donzela que também precisava do apoio e proteção de um ser mais forte, mas viam nela como que uma natureza superior, um anjo de pureza e de bondade que, como em outras ocasiões já tinha feito, não deixaria de abrigá-las eficazmente à sombra de suas asas.
— Que é isto, meu Deus?!... Que estrondo é este?...— perguntou a moça ao despertar, erguendo-se sobressaltada.
— Ah! Senhora, não sabe?! — respondeu Helena.
— Estamos perdidas!... Briga-se aí fora a fogo e sangue... É uma guerra de morte!... Ah! Valei-nos, valei-nos por piedade...
— Ah! Já sei, já sei!... E meu pai?... E Maurício?... Onde estão?... Oh!... Meu Deus! Tende piedade de nós! — disse Leonor, passando pela testa a mão convulsa, como querendo reatar suas ideias perturbadas, e lançando para trás do colo as longas e negras madeixas que lhe obumbravam o rosto.
Leonor compreendeu logo todo o horror de sua situação, mas, em vez de esmorecer em presença da temerosa catástrofe que desabava sobre a casa paterna, ameaçando esmagá-la com todos os seus habitantes, sentiu-se revestida dessa resolução heroica, dessa sublime coragem, que é o apanágio das almas puras e elevadas nas ocasiões supremas.
— Minhas amigas — disse com voz firme e calma a suas duas companheiras —, tranquilizem-se; nenhum perigo corres, Helena, nem tu tampouco, minha Judaíba. São teus próprios parentes e amigos que as vêm arrancar desta casa, onde vivem prisioneiras e contra a vontade. Mas eu, meu pai, meu irmão... Ai de nós!... Seremos sacrificados sem remédio ao seu furor, se Deus não se amercear de nós e se não defendermos a nós mesmos... Fiquem neste quarto; não se arredem daí, que eu volto neste momento.
Ditas estas palavras, Leonor saiu rapidamente e dirigiu-se ao aposento do capitão-mor; estava ele deserto; seu pai ainda não fora ferido e combatia na varanda. Aí, entre diversas armas que examinou rapidamente, escolheu um pequeno e buído punhal e um florete; guardou aquele no seio e, empunhando este, dirigiu-se de novo à sua câmara.
— Para que essas armas? — perguntou Helena, atônita e consternada.
— Quer também arriscar-se?...
— Não tenhas susto, minha amiga — atalhou Leonor.
— Em primeiro lugar, vamos rezar e pedir a Deus que afaste de nós esta tormenta horrorosa. Se, porém, ele não se compadecer de nós, com esta espada irei combater e morrer junto de meu pai, e este punhal servirá para traspassar-me a mim mesma o coração, se tiver a desgraça de cair viva em poder deles.
— E por que razão — replicou Helena — não trouxe armas para nós também?... Ficaremos nós aqui a chorar e a rezar, enquanto a senhora, tão mimosa e delicada, vai combater?...
— Como?! Pois querem combater contra seus pais e seus amantes, que as vêm libertar?... Helena poderá combater contra Calixto, e tu, Judaíba, terás ânimo de cravar um punhal no peito do teu Antônio?...
— Que diz, senhora?! Pois esses também serão contra o senhor capitão-mor e contra a senhora?
— Pois quem mais senão eles?... Quem mais senão esses e outros muitos desgraçados, tão vexados e perseguidos por Fernando, poderiam revoltar-se contra meu pai?...
— Então também o senhor Maurício...— ia ponderar Helena.
— Maurício!...— atalhou Leonor, como assustada.
— Maurício!... Que disseste, Helena!... A filha do capitão-mor ficou por momentos imóvel e silenciosa, como fulminada por uma súbita e pungente ideia. Uma cruel suspeita lhe havia despontado no espírito. A linguagem obscura e misteriosa de seu amante nas entrevistas que com ela tivera, seu ar sombrio e preocupado, seu afastamento da casa do capitão-mor, suas resoluções reveladas a meio e em termos vagos e inquietadores vinham ter súbita e manifesta explicação naquela simples frase não terminada e ingenuamente proferida pela filha de Bueno. Em vão Leonor se esforçava por expelir da mente esse odioso pensamento; ele se apresentava teimoso, com todos os indícios da evidência, e o desventurado Maurício começava a ficar infamado até mesmo no espírito daquela por quem, nesse momento, arriscara a todos os azares não só a vida, como o nome e a reputação, expondo-os ao mais infamante e abjeto conceito. Poucos momentos durou o embate desses dolorosos e encontrados pensamentos; o tempo e a ocasião urgiam, e a resolução de Leonor tornara-se, se é possível, ainda mais inabalável. Queria ir morrer combatendo ao lado de seu pai, em defesa do lar doméstico, e a morte lhe seria ainda mais grata se a recebesse das mãos de Maurício; seria melhor que ele, que com sua infame perfídia vinha trazer-lhe o germe da morte aos seios do coração, lhe terminasse de um só golpe uma existência que a lembrança de tão mal empregado amor iria encher de remorsos, de opróbrio e de vergonha.
Passados estes curtos instantes de amarga reflexão, Leonor abriu um lindo oratório que aí tinha sobre um bufete de pau-selim, acendeu dois círios junto a ele, depôs a espada e o punhal sobre o tapete e ajoelhou-se.
— Vamos, minhas amigas, de joelhos! — disse às duas companheiras, com acento de voz meigo e calmo.
— Vamos rezar e rogar a Deus que nos proteja e ampare a nós e a todos os nossos.
Helena e Judaíba prontamente se ajoelharam aos lados de Leonor e, enquanto ali bem perto estrugia a fúria do combate vertiginoso entre pragas, gemidos e ranger de dentes, e corria sangue a jorros, aquelas três almas cândidas e puras, prostradas aos pés do Crucificado, erguiam ao trono de Deus a prece, única arma que pode desarmar a cólera celeste, e imploravam ao Deus de paz, de amor e de misericórdia que pusesse termo a tantos horrores e desgraças. Quem as visse ali mudas e consternadas, com as vestes em desalinho e os cabelos em desordem, julgaria estar vendo as três santas e piedosas mulheres que a lenda cristã nos apresenta ajoelhadas aos pés da cruz, erguendo olhares repassados de angústia e de dó para o corpo sangrento e macerado do Redentor do mundo.
Nessa piedosa e tocante postura veio Maurício encontrá-las. Com as mãos ensopadas em sangue ainda fumegante, não ousou penetrar naquele aposento, que parecia um santuário defendido pelos anjos; parou à porta e, contemplando por um instante aquele grupo angélico, adormeceu-se em sua alma a angústia e o desespero que a ralavam, para dar lugar a um momentâneo enlevo de ternura e amor, de respeito e adoração. Congratulou-se interiormente porque, se não fora ele, aquele santuário teria sido invadido, profanado e inundado em sangue, e julgou-se feliz por ter conseguido, com o sacrifício de toda a sua felicidade, de todo o seu futuro, expondo-se ao extermínio e ao ódio geral, salvar sua adorada Leonor. Enfim, rompendo o silêncio:
— Não rogueis mais por vós, senhora, nem por vosso pai — disse com voz branda, mas repassada de amargura.
— Estais salvos; rogai por mim, que estou perdido!... Perdido para sempre!... A esta voz, Leonor e suas companheiras voltaram o rosto e ergueram-se sobressaltadas.
— E a quem devemos a salvação? — perguntou Leonor.
— Em primeiro lugar — respondeu Maurício, apontando para o oratório —, a esse Deus de misericórdia, que não podia deixar de ouvir a prece de três anjos; depois, a este desgraçado, que vem pedir-vos perdão e dizer-vos um... derradeiro adeus!... Um eterno adeus ia Maurício dizer; mas esta cruel palavra amargava-lhe aos lábios e repugnava-lhe ao coração, em cujos seios pululava-lhe talvez ainda um germe de esperança.
O paulista não quis nem pôde dizer mais uma palavra. Os portugueses, que de todos os lados acudiam em socorro do capitão-mor, já começavam a invadir a casa. Maurício, deixando Leonor e suas companheiras atônitas e enleadas, sumiu-se da porta, entrou por uma sala da frente, abriu rapidamente uma janela e saltou à rua.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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