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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 9 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 1 — Capítulo IX — Fim da Caçada

9 de 50 ≈ 18 min de leitura

Já todos, à exceção de Fernando, contentes com o resultado da caçada, que havia corrido sem o menor perigo, sempre feliz, divertida e animada, se dispunham alegremente a voltarem para a casa.

— Acho muito cedo ainda para voltarmos, diz o capitão-mor consultando o relógio. É apenas uma hora. Se te parece, Maurício, iremos ainda ver se matamos mais algum veado.

— Pronto, senhor capitão-mor; isso é o que menos custa. Deste para aquele outro capão saltaram alguns três ou quatro, fora os que nós não vimos. Não podem estar longe: estão cansados e devem estar amoitados por aí mesmo; agora é que é o aproveitar. Da minha parte também estou com vontade de vingar o senhor Fernando da peça que lhe pregou aquele maldito veado.

— Lá por isso não se incomode, replicou Fernando trincando os dentes. Perdoo de bom grado ao pobre animalzinho; guardo a minha vingança para outras vítimas menos inofensivas.

Maurício bem viu que estas últimas palavras vinham sublinhadas para ele, mas fingiu não compreender.

— Não importa; redarguiu-lhe. Quero fazer umas botas do couro daquele diabo. Bem o conheci, é um mateiro atrevido, o chefe da manada, se me não engano...

— Está bem, Maurício; interrompeu o capitão-mor impacientado. Deixemos de parolagem; vamos; vamos levar a caçada adiante.

Reunidos de novo caçadores e cães, montaram aqueles a cavalo, e se encaminharam para as imediações do capão, em que se haviam mergulhado os veados que escaparam.

Imediatamente Antônio e seus companheiros de mato desceram ao capão e lançaram os cães. Estes, porém, recusavam-se obstinadamente a tomar rasto e seguir a batida dos veados. Davam alguns passos pelo mato adentro, e voltavam de novo para junto dos caçadores, de cabeça baixa, a cauda entre as pernas, o dorso arrepiado e soltando uns ganidos roucos e abafados.

Antônio logo compreendeu o que aquilo significava.

— Por aqui anda onça, disse ele a seus companheiros.

— E é mesmo, Antônio; procuremos o rasto e vamos a ela.

— Decerto, não serei eu que a deixe escapar. Mas esta cachorrada não presta; deixem-me chamar os meus onceiros mestres, que ainda não me chegaram.

Antônio levou os dedos à boca, assobiou e depois chamou pelos nomes os seus onceiros. Imediatamente acudiram aos pulos quatro formidáveis e truculentos molossos.

Não tardaram muito em dar no rasto da onça. Os cães eriçaram o dorso, e seguiram soltando uns latidos grossos e interrompidos. A turba dos veadeiros foi-lhes no encalço.

Antônio montou a cavalo e foi a toda pressa dar notícia a Maurício que os seus onceiros estavam no rasto de uma grande onça, que devia andar ali por perto, pois o rasto estava muito fresco, e saber dele se queria que lhe dessem caça.

Esta notícia derramou pavor imenso entre os emboabas, que ali se achavam todos reunidos em torno do capitão-mor, aflitos e agora mais que nunca aflitíssimos para voltar para a casa.

— Dar caça à bicha! Deus nos livre! Lá não me apanham. Nós viemos caçar veados e não onças; deixem isso lá para os bugres. Também já é tão tarde!... A que horas chegaremos a casa, se formos por esse mundo atrás da tal maldita? Em má hora apareceu semelhante peste! O tal caboclo que a descobriu, que lá se avenha com ela, que eu daqui não me movo senão para a casa.

Assim diziam eles entre si; e, como se a onça já ali se achasse ao pé deles, uns se avizinhavam de umas pequenas árvores que por ali havia, preparando-se para treparem; outros queriam já tomar o caminho de casa, mas, ao mesmo tempo, temerosos de se encontrarem com a bicha pelo caminho, deixaram-se ficar, e todos se agruparam em um bolo em roda de Maurício e Antônio, à maneira de uma ninhada de pintos que se encolhem reunidos bem juntinho da asa materna, quando ouvem o guincho do gavião.

Justiça seja feita ao capitão-mor, a Fernando, a Afonso, a alguns poucos portugueses mais, e mesmo a Leonor. Todos eles sentiram-se envergonhados à vista da pusilanimidade de seus compatriotas, e, como para os punir, deliberaram perseguir a onça e ordenaram que ninguém se retirasse.

Os emboabas obedeceram de mau grado e murmurando: prefeririam talvez ir ao tronco e tomar os bolos da lei do que ir se expor às garras de um bicho tão feroz.

— Se vossas mercês permite, disse Maurício dirigindo-se ao capitão-mor, nós vamos acossá-la, e, se ela der pau aqui por perto, terão vossas mercês mais esse divertimento.

— Divertimento! Safa! exclamou um emboaba. Vá vossas mercês só divertir-se, que eu não lhe invejo o regalito.

— Nem eu!

— Nem eu tampouco; depois de morta, sim, tenho vontade de vê-la.

— Lá isso também eu, que de tal bicho só tenho visto a pele.

— Não tenham medo, meus senhores, não há necessidade de se irem lançar às garras da onça. Além disso, a onça no campo, não estando acuada, não faz mal a ninguém.

— Eu, da minha parte, disse Leonor, confesso que não deixo de ter algum medo, mas, ao mesmo tempo, tenho a mais viva curiosidade de ver uma onça acuada no pau.

— Talvez hoje possa satisfazer sua curiosidade, minha senhora, replicou Maurício. Mas deste lugar isso não será fácil. Se apraz a vossas mercês, subamos até aquela assentada, que lá fica quase no meio da serra. Daquele alto se avista todo esse capão até uma grande distância. Se não puderem ver a onça, ao menos apreciarão melhor o toque dos cães.

— Tu, porém, deves ficar conosco, Maurício, disse o capitão-mor.

— Como vossas mercês determinar. Antônio e seus companheiros são de sobejo para perseguirem e matarem a bicha, e juro que, se os outros não puderem com ela, de Antônio ela não escapa.

Enquanto o índio descia ao capão e ia reunir-se a seus companheiros para perseguirem a onça, a comitiva do capitão-mor, por trilhos que Maurício conhecia, trepava com alguma dificuldade e lentidão por uma encosta íngreme, e galgava a uma esplanada que ficava quase a meio da serra. Formava ela parte do extenso friso de que já falamos, e que se estende ao longo da serra quase de uma extremidade à outra.

Para o lado de São João del-Rei, a esplanada continuava pelo viso da montanha, abaixando-se suave e progressivamente. Do lado oposto, porém, era bruscamente interrompida por um grotão profundo, ou um boqueirão estreito e despenhado, todo coberto de mato. Esse mato, continuando e se alargando pela serra abaixo, formava a cabeceira do capão por onde andava a onça que Antônio perseguia.

Era aquela esplanada coberta de grama espessa e rasteira, toda matizada de florinhas à semelhança de uma tapeçaria bordada. Mas essa tapeçaria estava toda ouriçada de lascas de rochedos agudos, que brotavam do chão.

Do lado da serra era limitada por uma linha de rochedos inacessíveis, de cujas fendas brotavam algumas árvores enfezadas, que penduravam sobre a esplanada seus galhos áridos e tortuosos. Pela frente e à esquerda eram despenhadeiros.

A comitiva, pela maior parte, conservou-se a cavalo sobre a esplanada, a fim de melhor contemplar a imensa e formosa perspectiva que tinham diante dos olhos, e devassarem a cavaleiro a extensa grenha do capão, teatro da caçada, que se estendia debaixo de seus pés, crespa e ondulada, à semelhança da lanuda carapinha do africano.

Quem da planície observasse aquele grupo de cavaleiros imóveis sobre o friso da montanha, cuidaria ver um baixo-relevo antigo esculpido por mão de mestre sobre cornija de um muro ciclópico.

O toque dos cães já se ia perdendo ao longe em ganidos roucos e interrompidos.

— Ainda não acuou, disse Maurício, e Deus queira que não vão parar muito longe.

— São apenas duas horas, disse o capitão-mor, depois de consultar o relógio; esperemos até as três; se até lá não tiverem dado conta de si, deixá-los-emos lá com a sua onça, e voltaremos para a casa.

Passaram-se alguns minutos de silenciosa expectativa. Pouco a pouco os latidos dos cães foram-se tornando mais claros e amiudados; dir-se-ia que vinham se avizinhando.

— Que te parece, Maurício? pergunta um dos paulistas que o acompanhavam. Não ouves?... Os cachorros estão tocando para trás... Está me parecendo que a onça está de volta.

— Bem pode ser, respondeu Maurício. Mas talvez a estejam acuando, e por isso latem mais alto... ou talvez seja o vento, que mudou... Escutemos.

Um emboaba que estava perto deles e ouviu a conversa enfiou com o caso, e, pálido de susto, foi-se a seus patrícios.

— Meus amigos, diz-lhes ele, estamos perdidos! A onça aí vem direitinho para nós.

— Deveras!... Quem te disse?

— Ora, quem?... Maurício e aquele sujeito... Eles lá estão à escuta, e eles lá se entendem...

— Mas eles não a viram; como sabem que vem para cá?...

— Eu sei lá... Enfim, eles ainda estão em dúvida; vamos escutar o que eles conversam... Os emboabas se acercaram dos paulistas, que estavam escutando e olhando com atenção para o capão, e guardavam com a maior ansiedade a primeira palavra que lhes rompesse dos lábios.

— Não há a menor dúvida! exclamou por fim um dos paulistas. A onça aí vem de volta; os cães a vêm tocando para trás.

— Pior é essa! murmurou um emboaba; que vem ela fazer cá?

— Vem procurar a morte, amigo, e seremos nós mesmos que havemos de matá-la.

— Eu não! vossas mercês lá que se arrumem.

Os emboabas, transidos de pavor, uns se conservavam cosidos com Maurício e seus companheiros; outros já se ensaiavam para, ao primeiro sinal de perigo, treparem nas pequenas árvores que ali se viam esparsas pela esplanada. Um deles, querendo campar de mais valente, preparava a carabina e dizia a seus patrícios:

— Vocês estão com medo sem verem de quê; deixem a bicha vir para cá. Se investir para mim de boca aberta, enfio-lhe o tiro com espingarda e tudo pela goela adentro.

Entretanto, os cães se aproximavam com rapidez, encostando-se cada vez mais à raiz da serra, o que denotava que a onça virá surdir bem perto do lugar em que se achava a comitiva.

— Talvez ela venha saltar aqui mesmo no meio de nós, disse Maurício em meia voz a seus companheiros, para não aterrar os circunstantes. A onça perseguida não gosta do campo, e para aquele lado é quase tudo campo só. É por isso que ela voltou, e sem dúvida é por este grotão o caminho que ela procura para sair na serra e descer por esta chapada afora até enfiar-se na mata. Com isto não contava eu... Estejamos alerta.

Maurício e os dois paulistas apearam-se e, com suas armas preparadas, puseram-se de observação à borda do grotão.

Daí a instantes ouviu-se o mato ramalhar entre estalos de paus secos. Um dos paulistas despejou um tiro à toa no fundo do grotão para espantar a onça, pois bem sabiam que era ela, a fim de que não viesse saltar entre os cavaleiros. Os mais valentes sentiam-se aterrados.

Os cavalos, bufando inquietos, de colo alçado e orelha a prumo, queriam quebrar as rédeas, e era a muito custo que seus donos conseguiam sofreá-los. Os emboabas, pela maior parte trêmulos e sem pinga de sangue, encolhiam-se todos e como que queriam sumir-se pela terra adentro.

Leonor, sem perder nada do vivo encarnado que o sol dos trópicos lhe acendia nas faces, sopeava com admirável garbo e seguridade o seu lindo e sôfrego ginete e, com um pouco de pavor, porém com mais curiosidade ainda, aguardava sorrindo o desfecho daquela temerosa cena.

O capitão-mor, Fernando, Afonso e os cavalheiros portugueses acercaram-se dela e formaram-lhe em torno um muro de defesa.

Um instante depois de ter reboado o tiro do paulista, um formidável e truculento canguçu amarelo mosqueado de grandes malhas negras surgiu à tona do matagal da espelunca e saltou no campo a uns cem passos do grupo dos caçadores, em um ângulo agudo que se formava no fim da esplanada entre a borda do despenhadeiro e os rochedos a prumo da serrania.

Saltando ali, o desígnio da onça era sem dúvida romper pela esplanada abaixo para ganhar a mata; mas, vendo tanta gente junta, trepidou por um instante, passou um olhar fosforescente sobre a turba dos cavaleiros e, imediatamente, encolhendo as orelhas e tornando-se esguia como uma cobra, em dois ou três arrancos galgou a penedia e se acocorou sobre o tronco tortuoso de uma árvore que se dependurava sobre a esplanada.

No mesmo instante, uma descarga de seis ou sete tiros rompeu sobre ela; mas com tal terror e precipitação foram dados, que nenhum pegou. A onça, talvez ofendida levemente, de um pulo assombroso caiu sobre a esplanada, passou como um raio por entre os cavalos e, em um momento, perdeu-se das vistas, deixando a todos ilesos, mas petrificados de susto.

Leonor achava-se montada, bem como o capitão-mor, Afonso, Fernando e outros muitos, e a muito custo conseguiam sofrear seus cavalos espantados ao último ponto com a presença da onça. Alguns emboabas, que não se tinham apeado, foram à terra e tiveram de voltar a pé, porque seus animais desembestaram pela serra abaixo, e não houve mais meio de pegá-los senão em casa.

Mas o pior não foi isso. O cavalo de Leonor, cada vez mais irritado, dava pinotes e saltos assustadores. Ela sustinha-se admiravelmente, procurando em vão domar e acalmar o seu ginete, de modo que faria inveja ao mais destro picador. O animal, porém, quanto mais reprimido e castigado, tanto mais se enfurecia e estava a ponto de despenhar-se com ela pelos abismos, ou de arrojá-la de encontro aos rochedos agudos de que o chão se achava alastrado.

O perigo crescia de instante a instante. Todos olhavam para aquele espetáculo aflitivo, estonteados e sem saberem o que fazer. O capitão-mor galopava em torno de Leonor, gritando na maior angústia:

— Acudam!... acudam minha filha!

Fernando se tinha apeado e atirava-se com todo o denodo e dedicação a ver se agarrava o cavalo pelas rédeas ou tomava sua prima nos braços.

Afonso lembrou-se de outro expediente. Picou o seu cavalo e, puxando dos coldres uma pistola, avizinhou-se de sua irmã e disparou um tiro na cabeça do cavalo de Leonor.

Infelizmente errou, e o cavalo continuava a pinotear, ficando quase a prumo, ora abaixando a cabeça e sacudindo-se com tal raiva, que parecia ter uma seta envenenada no lombo.

Aos dois cavaleiros, se bem que cheios de coragem e dedicação, faltava a principal qualidade, imprescindível na hora do perigo: o sangue-frio.

Maurício, no momento em que a onça havia pulado ao chão e corrido por entre os cavaleiros, tinha galopado um instante atrás dela para ver que rumo levava, mas estacou instantaneamente ouvindo os gritos da comitiva.

Quando olhou para trás, Afonso acabava de disparar o seu tiro inútil. A moça, agarrada às crinas do cavalo, balanceava-se no ar como por um milagre, pendurada sobre abismos.

Maurício arrojou para trás, a toda brida, o seu cavalo, desembainhou a comprida faca de mato, antes espada, e avizinhou-se. Procurou jeito e, vibrando uma cutilada certeira, cortou os nervos das pernas traseiras do cavalo. Este imediatamente afrouxou os movimentos, perdeu o jogo das pernas e foi-se deixando cair.

Lesta e ágil como quem se via livre de um grande perigo, Leonor saltou fora dos arreios; mas, um instante depois, pálida, extenuada e quase desfalecida, em razão dos sustos e dos supremos esforços que fizera, assentou-se sobre a relva. Esta cena passou-se em muito menos tempo do que levamos a contá-la.

Maurício deu a mão a Leonor e, ajudando-a a levantar-se, conduziu-a para seu pai, que já vinha correndo para ela.

Este, depois de a ter abraçado entre lágrimas, voltou-se para Maurício.

— Maurício, meu filho! — disse-lhe com o acento da mais terna efusão.

— Devo-te muito!... de dia em dia tu me dás novas ocasiões de abençoar o momento em que te recolhi em minha casa e te coloquei junto de mim... Agora acabas de salvar minha filha... de salvar a mim mesmo...

— Senhor capitão-mor, não fiz mais do que cumprir o meu dever — balbuciou Maurício, confuso e comovido.

— Muito mais do que o dever!... tens a nobreza d'alma e as ações generosas de um verdadeiro fidalgo. É pena que não o sejas. Mas eu te juro!... empregarei todos os meus esforços para que El-Rei te conceda os foros de fidalgo... ninguém mais do que tu o merece. Desejo recompensar-te pelo serviço imenso que acabas de prestar-me. Fala; o que desejas? Abre a boca, e serás servido.

O capitão-mor, que na expansão de sua gratidão começara revelando o lado belo e nobre de seu caráter, não pôde deixar de mostrar o reverso da medalha, o seu lado ridículo: a mania aristocrática.

— Para mim nada desejo — respondeu cortesmente Maurício —; estou contente com a minha sorte e a minha condição. Para minha recompensa basta-me a sua estima. Mas, se apraz a vossas mercês dar-me alguma prova de apreço por esse pequeno serviço, que era de minha obrigação, a única coisa que peço é...

— É o quê? Fala, Maurício; não te acanhes.

— É dar perdão e liberdade a meu amigo Gil.

— Pedes bem pouco, meu caro Maurício. Fica certo de que, apenas chegarmos em casa, teu amigo estará solto.

Esta tocante cena não agradou muito a Fernando, nem mesmo a Afonso.

— Meu pai está caducando — dizia Afonso em voz baixa a seu primo.

— Dar o título de fidalgo a um bandoleiro, só porque é bom caçador...

— Decerto pretende dar-lhe o título de onceiro-mor de Sua Majestade — retorquiu Fernando, galhofando.

— Ele que vá se fiando muito nesse aventureiro, que um dia lhe há de amargar a boca.

No entanto, Antônio, seguido de perto por mais dois companheiros, com os cavalos arquejantes e esbaforidos, acabava de assomar na esplanada.

— A onça espirrou por aqui, não, meu amo? — perguntou Antônio.

— Há poucos instantes — respondeu Maurício.

— Não estás vendo o esparrame que ela fez?...

— Chê!... Santa Virgem!...— exclamou o índio.

— Não é que a maldita aleijou o cavalo de sinhá Leonor!...

— Não foi ela; fui eu que cortei as pernas a esse medroso, que quase ia matando tua sinhá...

— Com medo da onça, não foi assim? Ah! Bichinha, hoje mesmo tu me pagas!...

— Bem, Antônio; não percamos tempo. Agora passa depressa os arreios do cavalo de D. Leonor para o teu e vai a pé atrás da onça. Encarrego-te de vingar-nos do perigo a que aquela maldita expôs tua sinhá e do susto que nos pregou.

— Eu que tenha as pernas cortadas como este pobre cavalo — disse Antônio, desempenhando com toda a presteza as ordens de seu amo —, se de hoje até amanhã não trago a pele daquela excomungada para minha sinhá botar os pezinhos em cima dela.

Os cães, que vinham chegando, ganindo e arquejando, com a boca aberta e a língua dependurada, em breve se encarrilaram de novo no rastro da onça, arrepiaram o dorso e, soltando uns latidos abafados, partiram como setas e desapareceram pela esplanada abaixo.

Antônio, a pé, com a escopeta ao ombro, saltando com a agilidade do gamo, correu após eles. Alguns paulistas quiseram acompanhá-lo.

— Não é preciso — gritou o índio, que já ia longe —; por aqui não há caminho para cavaleiro. Deixem-me, que eu só dou conta da bicha.

A comitiva desceu a rampa da montanha e, reunidos na campina todos os caçadores ao toque de buzina, voltaram tranquilamente para a povoação, levando em troféu os opimos despojos da caçada.

— Esteve muito boa e divertida a nossa caçada — dizia o capitão-mor.

— Mas aí por fim ia me custando a própria vida... Se não fosses tu, Maurício...

— Não fui eu, senhor capitão-mor. Foi Deus, que nunca se esqueceu de proteger os seus anjos.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

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