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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 35 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 2 — Capítulo X — Conciliábulo Na Gruta

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O leitor já conhece a curiosa gruta de estalactites, que demora como a légua e meia de São João del-Rei, gruta, onde Irabussú sumiu-se para sempre como por encanto com o segredo de sua mina de fabulosa riqueza, e onde para sempre ficaram sepultados cinco dos portugueses que o acompanharam. Mausoléu soberbo, magníficas catacumbas tiveram por jazigo as ossadas obscuras desses miserandos instrumentos da cobiça de seus dominadores. É para lá que vamos de novo transportar o leitor. Estamos em meio da noite, que sucedeu ao dia, em que Maurício teve a para ele tão desagradável conferência com o capitão-mor. No meio da sala, que se acha a entrada da maravilhosa caverna, está aceso um grande fogo; em torno dele sentados sobre pilares de estalagmites, que brotam do chão como bases de colunas derruídas, ou sobre blocos de estalactites despencados da abóbada acham-se alguns vultos embuçados em largas capas e com chapéus desabados sobre os olhos. Por sua atitude grave e sombria, pelo modo misterioso, com que falam entre si, bem se depreende que ali os reúne negócio delicado e de alta importância, e que interesse poderoso lhes preocupa profundamente o espírito. O clarão da fogueira lança reflexos avermelhados sobre rostos os mais divergentes entre si pelo tipo, pela cor e pela idade. A par do busto seco, rugoso e chamuscado de mestre Bueno fulgura o semblante altivo, fresco e animado do jovem Calixto, cujos olhos negros e espertos trocam cintilações com os prismas de estalactites, que lampejam pelas paredes da gruta. Junto do bugre disforme e trombudo, de fronte achatada, de olhar torvo e sinistro divisa-se a fisionomia franca, resoluta e expansiva de Gil, cujo rosto. alvo e regular se destaca vivamente no meio da espessa e negra barba. Antônio está entre um paulista de idade madura, de ar nobre e grave, e um negro mina de estatura colossal, cujos traços enérgicos e regulares abonam a inteligência, ânimo e altivez próprio dessa raça de africanos. Um pouco afastado e retraído para o fundo da gruta acha-se um cavalheiro em pé apoiando o cotovelo sobre uma estalagmite, que ali se ergue à guisa de mesa; tem o ar triste e acabrunhado, e escuta silencioso e pensativo. Distingue-se dos outros pelo porte esbelto, e pela elegância do seu trajo e de sua pessoa; o clarão da fogueira iluminava-lhe frouxamente a tez pálida, e ondeia reflexos bronzeados pelos anéis dos cabelos compridos e negros, que se lhe espalham por baixo do chapéu em volta de um pescoço digno do Apolo de Belvedere. Este cavalheiro é Maurício. Estes são os chefes ou personagens principais daquela reunião. Por detrás deles murmuram e remoinham como fantasmas pela penumbra da caverna muitos outros vultos falando entre si com voz abafada e misteriosa, e suas falas se. difundem em sons confusos pelo vão das profundas anfractuosidades como o surdo borborinho de uma catadupa subterrânea. As cintilações multicores das estalactites ao claro ondeante da fogueira, aquelas figuras sinistras e tão divergentes, umas sombrias e imóveis iluminadas de frente pelo fogo do centro, outras em lento giro desenhando-se indecisamente entre sombras, sumindo-se e reaparecendo pelos vãos dos profundos e tenebrosos recantos, davam à gruta um aspeto fantástico indescritível. Dir-se-ia o palácio subterrâneo de algum nigromante de Ariosto, povoado de sombras e duendes, ou um concílio dos espíritos das trevas convocados pelo condão de alguma fada em lúgubres e selváticos escondrijos. O espírito de insurreição de há muito que fermentava, e como que se organizava por si mesmo no seio daquela população oprimida. Em todos os corações levedava um ódio antigo e rancoroso contra os emboabas. O paulista, o indígena e o escravo negro a custo abafavam a sanha, que por isso mesmo se tornava mais violenta, esperando impacientes o dia da vingança. Os elementos estavam preparados para a mais horrível explosão, aguardando somente a mão audaz que lhes chegasse fogo. Gil entendeu, que era chegada a ocasião. Ele, como o leitor talvez ainda se lembra, no dia, em que visitou aquela gruta juntamente com Maurício e Antônio, tinha tido como um pressentimento, de que ela viria a servir um dia para couto e ponto de reunião das vítimas dos emboabas. Foi ele pois, que lembrou e levou a efeito aquela reunião no misterioso e ignorado escondrijo da gruta de Irabussú, logo que convenceu-se de que seu amigo Maurício não tinha outro remédio senão lançar-se nos braços da insurreição. Gil tinha em mestre Bueno um valente e ativo auxiliar, não só como hábil ferreiro e insigne armeiro, como porque ele conhecia e entretinha relações com todo o poviléu, paulistas, bugres e negros. Foi mestre Bueno quem passou a senha e a voz de alarma a todos os insurgentes, e lhes ensinou e guiou ao lugar, que lhes devia servir de ponto de reunião. Já de antemão tinha ele feito transportar para a caverna a favor das trevas da noite grande número de zagaias, catanas, pistolas e escopetas velhas, que de tempos a essa parte o previdente velho ia concertando e ocultando em sua oficina. Grande número de negros fugidos, que rondavam pelos arredores da povoação, foram avisados; tinham por chefe Joaquim, o mina hercúleo, de que a pouco falamos. Era ele escravo do Minhoto, bárbaro e desalmado senhor, cuja cobiça explorava o trabalho dos míseros cativos a tal ponto, que os sacrificava sem compaixão em pouco tempo; suas lavras eram um verdadeiro açougue de africanos e indígenas. Joaquim ativo, hábil e robusto era um excelente mineiro, e só ele apurava para seu senhor mais ouro do que três ou quatro de seus parceiros: mas nem assim era poupado mais de que os outros. Do seu trabalho dos domingos, que passava a faiscar pelas margens do ribeirão, ia formando um pecúlio com que pretendia libertar-se, como já tinha ajustado com seu senhor, e que ia depositando fielmente em mãos dele em muito boa fé. Quando completou a soma ajustada, o negro requisitou sua carta de liberdade.

— Ainda não Joaquim; — replicou-lhe o senhor com cínico despejo: - tu fazes muito pouco em ti; vales o dobro de ouro, que me tens dado: é preciso, que trabalhes mais um ano. O negro resignou-se, e sem se queixar trabalhou mais um ano; mas não satisfez ainda a insaciável cobiça de seu senhor. Revoltado com semelhante extorsão declarou que não queria mais liberdade, e teve a audácia de exigir o ouro, que já. tinha entregado. Em vez de ouro recebeu descomposturas e castigos. Mais ainda isto não foi tudo. O Minhoto possuía também uma linda crioula, a quem o negro consagrava a mais viva paixão, e que por seu lado correspondia-lhe com ardor. Era ela, Somente ela, quem fazia o pobre escravo suportar com resignação os rigores de tão bárbaro cativeiro. Um outro emboaba agradou-se sumamente da rapariga, e propôs a compra ao Minhoto, ficando tratado o negócio apesar do Minhoto pedir uma soma exorbitante. Informado disto Joaquim, que de mais a mais tinha boas razões para crer que o comprador a queria para sua amazia, no cúmulo da angústia e do desespero foi prostrar-se aos pés de seu senhor, pedindo-lhe com as lágrimas nos olhos, que não vendesse a crioula, que ele daria por ela todo o ouro, que já. tinha em suas mãos, e mais todo o ouro que tivesse aos domingos durante toda sua vida; e que se acaso não podia deixar de vendê-la, rogava-lhe por tudo quanto há sagrado que o vendesse também ao mesmo senhor. Foram inúteis as súplicas do pobre amante cativo; o desalmado senhor mostrou-se inexorável. Desde então o negro, até ali tão fiel, humilde e trabalhador, convertendo-se em tigre feroz concebeu ódio de morte por seu infame senhor e por tudo quanto era emboaba, e enquanto esperava o dia de uma vingança cabal assentou de prejudicar, o mais que podia, a seu senhor, já não trabalhando com a mesma diligência, já subtraindo, quanto podia, do ouro que tirava. Enfim para furtar-se aos castigos, em que incorria, fugiu e tornou-se chefe de quilombolas. Não menos descontentes e rancorosos andavam os míseros índios, que trabalhavam nas lavras dos emboabas, e que ainda eram, si é possível, mais maltratados que o escravo africano. Ainda este, cuja aquisição ficava um pouco mais custosa aos senhores, era algum tanto poupado, e recebia um tal ou qual tratamento. O pobre bugre porém agarrado facilmente nas florestas do país, à força ou iludido por qualquer quinquilharia, tratado como um cão gemia debaixo do mais rude trabalho, e era menos estimado do que um boi, do qual depois de morto ao menos a carne ainda é aproveitável. Ainda de mais a mais os índios eram vigiados e guardados com a mais restrita e rigorosa vigilância em razão do sobressalto, em que viviam os colonos com receio de que se unissem às grupos indígenas, que vagueavam pelas imediações, e tentassem algum de seus costumados e atrozes assaltos à povoação. O bugre, que vimos junto de Gil, era um desses desgraçados, que havia por longo tempo sofrido a escravidão dos brancos. Fora valente chefe de uma tribo caété, e havia se oposto corajosamente à entrada dos emboabas, que com Antônio Dias Adorno penetraram nos sertões de Ouro Preto. Derrotado porém e feito prisioneiro em um recontro com sua família e grande número de seus foi conduzido a São Paulo, onde esteve alguns anos, e daí foi levado a São João, para onde o seu senhor viera com outros aventureiros explorar minas de ouro. Aí Tabajuna — assim se chamava ele — viu morrer sua mulher e quase toda a sua família ao peso do mais cruel e rude cativeiro trabalhando incessantemente ao sol e à chuva. Uma linda filha, que lhe restava única consolação e companhia que lhe restava em seu cativeiro, foi cobiçada por um rico mineiro, e a título de doação foi arrancada a companhia de seu pai para ser entregue ao libidinoso senhor. Tabajuna era bastante vivo e inteligente; até ali sofrera com alguma resignação o rigor da escravidão, porque via a seu lado sua companheira e seus filhos. Quando porém todos estes lhe faltaram seu espírito entrou em sombrio desespero, sentiu ferver-lhe no peito sanha implacável contra tudo quanto era pele branca, e jurou por sua mulher e por seus filhos mortos no cativeiro, que havia de vingar-se da opressão e ignomínia, em que até ali tinha vivido. Logrou fugir a seu senhor, e embrenhando-se pelos sertões procurou empenhar seus irmãos das florestas em uma guerra de morte contra os emboabas. De feito capitaneou alguns bandos de selvagens, e fez incursões e devastações horríveis pelos novos estabelecimentos dos brancos no centro das minas. Por uma singular coincidência sucedeu chegar ele às imediações de São João del-Rei, disposto a tomar cruel vingança de seus opressores justamente na ocasião, em que os paulistas e os índios daquela localidade, cansados de opressão e martírio, se dispunham também à revolta. Bueno e Antônio, que o conheciam de São Paulo, já com ele se haviam entendido de antemão. Entre as figuras, que volteavam pela penumbra das profundas espeluncas, contavam-se numerosos companheiros do valente chefe. Gil foi o primeiro, que falou aos companheiros de revolta, não por certo com a solenidade e estudada eloquência dos clubes e reuniões dos povos civilizados, mas posto que em ar de conversa, exprimia-se com tanto fogo e vivacidade, que suas palavras e imagens pareciam coriscos, que ateavam labaredas de entusiasmo e coragem no ânimo de todos, que o ouviam. Pintou ao vivo os horríveis vexames e sofrimentos, a que os sujeitavam meia dúzia de portugueses, que queriam dominar toda a terra, e avassalar o gênero humano em seu exclusivo proveito. Não havia ali um só, que não trouxesse na face, no dorso, nas mãos, nos artelhos, ou mesmo no coração em traços ainda mais dolorosos a marca dos mais bárbaros e aviltantes ultrajes. Os ouvintes o interrompiam com retumbantes aplausos, que Iam morrer rugindo pelas soturnas e profundas cavidades do antro, como os gemidos da vítima amordaçada. Traçou depois um bem combinado plano de surpresa e de assalto, e fez ver, que uma sublevação tão motivada seria talvez desculpada pelo governo geral da capitania, o qual em vez de puni-los cuidaria talvez em remediar seus males. e protegê-los contra a tirania do capitão-mor, como já em outros lugares o tinha feito. Enfim se por acaso em consequência desse movimento viessem ainda persegui-los, ao menos estariam vingados, e não faltariam por esse vasto Brasil imensos e profundos sertões, onde poderiam passar o resto da vida, senão felizes e tranquilos, ao menos livres e independentes.

— Enfim, meus amigos — terminou ele — o que nos cumpre agora é esforçar-nos para que não seja malograda esta tentativa; é vibrar certeiro o golpe, para quebrarmos este jugo, que nos é impossível suportar por mais tempo. Embora tenhamos de sucumbir depois ao menos morreremos vingados!

— Sim! morreremos vingados! -bradou uma multidão de vozes, que os ecos refrangendo-se de furca em furca multiplicaram em milhares pelo côncavo das cavernas. Dir-se-ia que milhões de duendes respondiam das profundidades do abismo ao brado do paulista. Os outros chefes também falaram com entusiasmo, e tomaram parte ativa nas deliberações do conciliábulo, sem excetuar Joaquim e Tabajuna. Somente Maurício triste e acabrunhado conservou-se silencioso até o fim. Este procedimento produziu dolorosa impressão no ânimo de seus amigos, e não deixou de causar estranheza no espírito da maior parte dos insurgentes.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

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