Universo da obra
Universo da obra
Deixemos o infeliz Gil, essa primeira vítima da tirania do capitão-mor, sentado sobre o soalho de um calabouço com ambos os artelhos embebidos em uma grossa prancha de madeira, que se estendia ao longo do quarto, crivada de buracos, e onde havia cômodo para os artelhos e pescoço de muitos outros. Deixemos o nobre moço devorando sua raiva, e arrancando rugidos surdos, como o leão cativo.
Deixemos também em sua cama o pobre Minhoto, com uma costela quebrada, soltando urros de dor, vomitando pragas contra os paulistas, e dando a todos os diabos quanta caçada há por esse mundo.
Deixemo-los, visto que por agora não lhes podemos valer, e acompanhemos a brilhante montaria do nobre capitão-mor através dos montes e vales. brenhas e campinas. A cavalgata, ao sair do portão, ia com efeito guardando uma tal ou qual ordem processional, que dava-lhe ares de uma caçada real em miniatura, ou antes em caricatura.
abriam o préstito quatro batedores armados de grandes facas, foices e outras peças além das armas de fogo. Os dois da frente inchavam as bochechas soprando o como venatório, ou buzina.
Seguia-se o capitão-mor ao lado de sua filha, que atraía a atenção geral por sua formosura e porte donoso, e pelo garbo e desembaraço com que sabia. governar o seu lindo ginete.
Vinham imediatamente Fernando e Afonso, cujos luzidos trajes de caça e bonitos corcéis ricamente ajaezados faziam abrir a boca aos pobres sertanejos.
Sucediam-lhes alguns emboabas mais ricos, homens de fidalguia dúbia, mas que em todo caso formavam a aristocracia do lugar, e que sabiam cavalgar um pouco melhor do que Minhoto.
Atrás destes vinham os homens do povo, cerca de trinta cavaleiros brasileiros e emboabas promiscuamente. Estes tinham mais ares de aldeões, que iam a feira, do que de caçadores.
Maurício, a quem o capitão-mor tinha conferido as honras de seu monteiro-mor naquele dia, foi por este convidado a tomar lugar entre os fidalgos. Maurício recusou-se, pretextando que, como diretor da caçada, lhe era mister estar em toda a parte, e ficou entre o povo, mas colocou-se na frente para não perder de vista a filha do capitão-mor.
Rematavam o préstito camaradas, pajens e escravos índios e africanos, uns a pé, outros a cavalo, levando pela mão as matilhas treladas, as quais ganindo, uivando e ladrando formavam a mais apropriada orquestra para aquele saimento venatório.
Entre os pajens notava-se o índio Antônio, montando um robusto cavalo arreado apenas com uma enxerga sem estribos e puxando uma trela de dois lindos rafeiros.
Faltavam os falcoeiros com os seus falcões e nebris em punho.
Mas o espírito fértil do capitão-mor engenhou um meio de suprir essa falta. Ordenou que alguns de seus pajens levassem ao ombro ou ao punho araras e papagaios domésticos, a pretexto de que aquelas aves com seus gritos atrairiam os companheiros do mato, e assim aqueles que quisessem passarinhar, teriam com que se divertirem.
A população dos arredores, que já não era pequena, acorria em peso para gozar de tão estranho, quão curioso espetáculo, e se achava estendida em alas de um e outro lado do caminho. Era isso justamente o que queria o capitão-mor. Uns — principalmente os bugres — queriam ver que qualidade de bicho é um capitão-mor. Outros queriam ver a filha, pois a fama de sua beleza já corria mundo. Outros tinham especial curiosidade de ver o aparato da caçada, cujo programa, se bem que não impresso. há muitos dias andava de boca em boca excitando a expectativa geral.
— Queremos mostrar como se faz uma caçada em regra, dizia o capitão-mor todo orgulhoso, e não da maneira brutal por que elas aqui se fazem. Em São Paulo já quis ensaiá-la; mas aqueles paulistas são uns cabeçudos, uns emperrados... quando embicam para um lado, não há quem lhes torça o nariz. Aqui, porém, tendo a faca e o queijo na mão; quero doutrinar o meu povo.
O seu povo com efeito viu muita coisa, que lhe encheu os olhos; porém o que mais o surpreendeu e embasbacou, foi ver uma moça tão bonita, tão mimosa e tão bem trajada como a filha do capitão-mor, metida em uma caçada no meio de tantos homens através das brenhas selváticas e desertas.
Enquanto não saíram das ruas, antes caminhos ou avenidas da povoação, que era ainda um esboço informe, a cavalgata foi guardando mais ou menos a ordem marcada. Mas depois que se acharam no deserto, e se enfiaram no caminho, que serpenteando através de uma extensa planície coberta de arbustos e carrascais, vai ter ao Rio. das Mortes, tudo se desmanchou.
Os emboabas quase todos, uns de propósito e por medo, outros por diversos acidentes, foram-se deixando ficar em caminho.
Aqui um caiu à toa, e nunca mais pôde apanhar sua cavalgadura, que se embrenhou pelo matagal.
Acolá outro, a quem coubera por sorte um animal manhoso e empacador, cansado de esporeá-lo sem conseguir tangê-lo para diante, nem para trás, apeou-se desesperado, largou-o no caminho, e voltou a pé para a casa dando a todos os diabos o cavalo e a caçada.
Além,. um cavalo arisco e ligeiro, aborrecido da carga, voltou rapidamente sobre os pés, largou o cavaleiro de costas no chão, e disparou para trás a todo galope.
Enquanto os emboabas assim se iam ficando esparramados pelo caminho, os paulistas ao contrário se iam agrupando e isolando deles, a exceção de Maurício e mais dois outros fiéis companheiros seus, que se conservaram sempre a pouca distância do capitão-mor.
Maurício não podia abandonar a vanguarda, e tinha boas razões para isso. Não queria perder de vista a filha do capitão-mor, e não era isto só pelo amor de contemplá-la, mas principalmente para ampará-la de qualquer acidente, de qualquer perigo que a ameaçasse, fosse qual fosse a sua natureza. Bem sabia que alma perversa tinha Fernando; aquela cena sinistra da floresta, no dia da chegada do capitão-mor não lhe sabia da lembrança e o punha de sobre-aviso.
Demais disso era seu dever marchar sempre na frente, pois que ele e Antônio eram os únicos, que podiam servir de guia à comitiva, os únicos, que estavam práticos nas mal trilhadas veredas daquelas broncas e mal conhecidas paragens.
Maurício sempre previdente e acautelado agregara a se dois dos seus mais valentes e resolutos patrícios, e dos que mais lhe eram afeiçoados e mais confiança lhe mereciam. E que falta não lhe estava fazendo Gil, esse companheiro sempre tão fiel e dedicado!
O grupo dos paulistas, vendo-se livre dos emboabas, que iam ficando atrás, e achando-se bastantemente distanciados da comitiva do capitão-mor, que já ia longe diante deles, começou a desabafar seus ódios e ressentimentos.
— Para princípio não está mau, começou um. Principia pelo tronco por uma leve falta, se é que falta houve; por onde acabará ele?
— Pela forca de certo, meu caro, retorquiu outro. Preparemos nossas gargantas para a corda, ou quando não, aprontemos nossas espadas e escopetas para darmos cabo desta corja de emboabas.
— Isso sim; e devemos preparar também uma boa corda para a garganta daquele velho casmurro, que tanto berra. Que desaforo! Chamamos pícaros e malcriados, como se fôssemos negros de sua senzala!...- Isso ainda é nada! e o tronco no pobre Gil!... amanhã será bolos; depois açoites; e assim iremos de martírio em martírio até a forca. Nada! isto não vai bem; é preciso bater-lhe o pé.
— Quando ele estava hoje lá da varanda a nos xingar como a cães, estive por um triz a meter-lhe pela boca a dentro a bala de minha escopeta para fazê-lo calar.
— E eu, se não é o Maurício, que estava perto de mim a me puxar pelo braço e a dizer: — Tenham paciência! tenham paciência! - eu... não sei o que faria.
E não me dirão vocês que sal achou o Maurício naquele esturro de emboaba para andar-lhe fazendo tanta zumbaias?... estão vendo?... larga de nós, e lá vai juntinho com eles, que não se afasta um dedo.
— Você é bem simples; cuida então que é por amor dele?... tão asno não é o Maurício.
— Por amor de quem então?
— Por amor da filha, pateta; pois você não percebeu desde o dia da chegada...- Ai! ai! ai! pior é essa. Logo vi; não devemos mais contar com ele.
— Isso é que é; não viram como ele, que é todo lá do capitão-mor, deixou o Gil ir parar no tronco, o Gil, que é capaz de dar alma e vida por ele?
— Lâ isso não, patrício. Eu bem ouvi o Maurício querer punir por ele; mas a corja de emboabas com sua berreira nem o deixava falar.
— Seja lá como for, bradou com mais força uma voz, se Maurício é amigo deles, não pode ser a nosso favor, e em todo caso morram os emboabas, e leve o diabo ao Maurício.
Cala a boca, minha gente; deixem o Maurício; vocês não sabem em que talas ele se meteu. Deixem-no, que ainda um dia ele mesmo há de ir ao tronco, levar bolos da mão do capitão-mor, depois... talvez dançar nos três paus.
— Porque?
— Pois ainda perguntam?... por ter o atrevimento de andar fazendo fóscas à filha do capitão-mor.
— E há de ser bem feito...- Calem a boca; vocês estão falando à toa; eu conheço bem quem é o Maurício, e juro por minha alma, que ele não é capaz de ser contra nós...- E eu também! eu também! acudiram uma porção de vozes.
— Mas nem por nós...- Sempre por nós, eu o juro ainda...- E eu também! eu também! repetiram as mesmas vozes.
— Mas eu não era capaz de ter amor a filha do carrasco de meus patrícios, quanto mais de um meu amigo particular.
— É porque vocês nunca tiveram amor à mulher nenhuma, murmurou um belo e esbelto mocinho que pela primeira vez falava. Eu dou desculpa ao Maurício.
— Quem fala aí?... ah! é o Calixto!... logo vi que era algum namorado. Mas você, meu menino, quer bem a filha de um pobre ferreiro, nosso patrício, e ele tem amor a filha do homem, que nos quer levar todos a tronco, a bolos e a chicote. O Gil foi o primeiro, que tomou tronco, e você está me parecendo que será o primeiro a levar bolos.
O mocinho enraiveceu com o gracejo.
— E eu sangro a quem me vier dar bolos, bradou ele rubro de cólera.
— Se tiveres faca, se tiveres mão.
— Eu mordo.
— Quebram-te os dentes...- Eu morro de raiva, gritou o moço trincando os dentes e quase a chorar, como se já fosse uma realidade o caso figurado.
— Não, não morras já não, meu Calixto; temos ainda muito que fazer. É preciso viver ainda, e ver as coisas como marcham. Mas se as coisas continuarem como principiaram — continuou o mesmo interlocutor avolumando a voz — então meus amigos, em vez de morrermos nós, morra o capitão-mor.
— Morra! repetiram uma multidão de vozes.
— Morra tudo quanto é emboaba!
— Morra!...- Morra também Maurício, se com eles estiver!...-Morra!... Nisto ouviram o tropel de um cavaleiro, que lhes vinha a galope pela frente. Logo o reconheceram; era dos companheiros de Maurício.
Embriagados pelo ódio, aqueles paulistas, moços quase todos, nem se lembravam que poderiam ser ouvidos pelo capitão-mor, que talvez não andasse muito longe, e davam livre expansão ao seu ressentimento. Como de fato estava por bem pouco. Os dois paulistas, que iam na frente com Maurício, tendo-se atrasado um pouco para poderem conversar a seu gosto, começaram a ouvir a imprudente algazarra de seus patrícios. Um deles, homem circunspecto e respeitável, partiu a todo galope para atrás a fim de avisá-los e contê-los.
— Que é isto, patrícios! bradou-lhes ele apenas chegou à distância de poder ser ouvido. O capitão-mor vai aí muito perto, e está quase a ponto de vos ouvir, e...- E que nos importa a nós que ele nos oiça ou não! atalhou um com vivacidade. Tomara eu apanhá-lo a um canto, que hei de ensinar-lhe a não ser tão malcriado.
— Prudência, meus amigos! replicou o encontradiço, que já tinha parado diante deles; — prudência por agora! Nós todos temos motivo de sobejo para andar com esse homem pela gorja. O ultraje que nos foi feito por esse perro vil, não é coisa que se ature a sangue frio; ninguém mais do que eu o compreende, e queira Deus não seja o sinal para outros agravos e vexames ainda mais atrozes. Porém, por enquanto, paciência, meus amigos!... ainda não é ocasião de nos vingarmos; tudo tem seu tempo
O cavaleiro proferiu estas palavras em tom quase baixo, porém com voz seca e vibrante, com o acento da cólera concentrada. Pela figura, pelo porte e pela linguagem parecia ser homem de distinção, e dotado de nobres qualidades. Os cavaleiros o ouviram com respeito e abafaram suas vozerias.
— Sigam seu caminho, prosseguiu ele, e falem com a maior prudência e circunspecção; sou eu que lhes peço. Não há de tardar o dia de nosso desforço.
E esporeando o cavalo foi de novo a galope alcançar seu companheiro.
Os paulistas não berraram mais, e a comitiva foi marchando sem novidade até à beira do Rio das Mortes, onde o capitão-mor havia parado à espera do resto de sua gente, a fim de tomarem alguma refeição.
Havia aí já uma ponte de madeira, tosca mas solidamente construída pelos primeiros exploradores, um pouco acima da que atualmente existe. Era por essa ponte que os habitantes de São João, rodeando o topo ocidental da serra de São José, se comunicavam com os da povoação deste mesmo nome, onde já existia também um rico descoberto aurífero.
À sombra de um imenso e frondoso sicômoro ou gameleira, talvez coeva de Tamandaré, que ficava mesmo à entrada da ponte, o capitão-mor descansava com sua família e seus monteiros à espera da falange venatória.
Seriam oito horas da manhã. Teve-se de esperar mais de uma hora, apesar de não exceder a uma légua o caminho percorrido. Os paulistas pouco se demoraram. Os pajens com as matilhas também não se fizeram esperar por muito tempo. Os emboabas, porém, a exceção dos que vieram juntos do capitão-mor, foram chegando de espaço em espaço um a um, dois a dois, e no cabo de uma hora não haviam comparecido senão uns nove ou dez.
Assim, pois, a turma dos emboabas, que era superior em número, tendo perdido mais de metade pelo caminho, ficou sendo muito inferior a dos paulistas, dos quais nem um só desertou. Havia além disso a turba dos pajens, índios e camaradas, gente que não era lá muito afeiçoada aos emboabas.
Fernando atentou sobre este fato, e concebeu sérias apreensões. Os espíritos estavam irritados com os acontecimentos da manhã. Ele Fernando, tinha ouvido, se bem que mui confusamente, as vozerias dos paulistas. Seria bem faci a estes, aproveitando do favorável ensejo que a fortuna lhes deparava, vingarem-se cabalmente da. afronta, que nessa mesma manhã haviam recebido do capitão-mor.
Fernando, pálido e inquieto, observava os paulistas, como querendo sondar-lhes o pensamento, e vomitando mil pragas contra os fracos e pusilânimes patrícios, que assim os abandonavam em tão graves e delicadas conjunturas, mal podia disfarçar sua agitação,. e os cuidados que o preocupavam.
Bem mal conhecia ele esses valentes e leais conterrâneos de Bartolomeu Bueno, e não sabia que jamais seriam capazes de tão torpe e aleivoso atentado.
Bastava ir ali uma donzela, sua patrícia, para não cometerem o menor desacato, o menor ato violento.
Além disso lá estava Maurício, e posto que sobre sua cabeça começassem a pairar algumas suspeitas, era ele querido e respeitado entre os seus, e Maurício, só no último transe, só em desespero de causa, consentiria em qualquer ato de revolta contra o seu benfeitor, contra o pai de Leonor.
Mas Fernando, capaz de todas as perversidades e aleivosias, conforme a regra comum, julgava os outros por se, e portanto sua alma inquieta andava sempre entregue a mil receios e desconfianças. Tão forte era a sua apreensão, que esteve a ponto de chamar o capitão-mor de parte ponderar-lhe o caso, e fazer-lhe sentir a conveniência de deixar a caçada para outro dia, e voltar para a casa. Mas o orgulho sobrepujou ao medo; teve pejo de se mostrar covarde aos olhos de Leonor, e sobretudo de Maurício. Este porém, perspicaz e penetrante como era, bem estava percebendo a inquietação e o medo, que lhe torturavam a alma, e com isso saboreava um certo prazer maligno, que comunicava sorrindo a seus amigos.
Ao contrário o capitão-mor tranquilo e folgazão, com todo o descuido e segurança, não se preocupava senão com os cuidados de sua caçada.
Isto fazia raiva a Fernando, que dentro em se maldizia a cegueira do tio que não enxergava o terrível e iminente perigo, em que se achavam.
Apesar dos receios e sinistras apreensões de Fernando, das quais ninguém dava fé, feita uma ligeira refeição com as saborosas e suculentas provisões, que haviam trazido, a comitiva tornou a montar a cavalo, e transpôs alegremente a ponte.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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