Universo da obra
Universo da obra
No dia seguinte o arraial amanheceu em extraordinária agitação. O assassinato do Minhoto tinha enchido de pavor, consternação e sobresalto todos os emboabas. Receavam que fosse o prelúdio de mais matança, e os mais considerados e ricos de entre eles; apenas despontou o sol, se dirigiram à casa do capitão-mor, reclamando providências enérgicas e medidas de segurança, que pusessem suas vidas e propriedades ao abrigo de tão audaciosos e ferozes inimigos. Por seu lado o capitão-mor também andava em contínuo movimento dando ordens e ativando diligências a fim de descobrir o autor ou autores da morte do Minhoto. Ia-se instaurar uma imensa devassa, e fazerem-se as mais minuciosas pesquisas. Nenhum trabalhador livre ou escravo, nenhum paulista ou emboaba, de quem se pudesse esperar qualquer informação, pôde nesse dia ir ao serviço; todos foram intimados para a devassa. Na varanda e no pátio do edifício formigava gente de toda a qualidade. Via-se a figura do capitão-mor respeitável e simpática vociferando e dando ordens, entrando e saindo. Só Fernando parecia calmo e satisfeito no meio do geral rebuliço e inquietação. Sentia de feito dentro d'alma íntimo regozijo, que procurava dissimular com certo ar sombrio e preocupado. As coisas tocavam ao ponto, em que desejava vê-las. Que um levante se tramava era para ele coisa fora de toda a dúvida; os sintomas eram evidentes; o mameluco já o havia denunciado em parte, e a morte do Minhoto era por certo o prelúdio de atentados em maior escala. Mas arrogante e fanfarrão como era contava abafar com um grito a insurreição, e esmagar os revoltosos, cuja sorte julgava ter já fechada nas mãos. Todavia para salvar aparências não deixava de aprovar as medidas de cautela e segurança, que o capitão-mor ia tomando; mas por meios indiretos; — sempre fora esta sua linha de conduta — longe de procurar prevenir qualquer insurreição, se esforçava por provocá-la; folgaria, que ela se manifestasse por atos bem claros e positivos. Só assim poderia lançar a garra sobre a principal vítima, que queria imolar, e feri-la sem piedade. O assassinato do Minhoto abriu-lhe a porta para atos da mais violenta e brutal perseguição. Os paulistas aterrados trataram em grande parte de esconder-se. Os que o não puderam fazer, homens e mulheres, foram agarrados, sujeitos a bolos, açoites e torturas para confessarem, quem matara o Minhoto, se havia plano de revolta, e declararem quais os seus cabeças. Maurício, Gil e Antônio não podiam deixar de ser inquiridos. O capitão-mor deu ordem a Fernando, que mandasse trazê-los à sua presença.
— Para que fim t - perguntou Fernando.
— Que pergunta! - replicou crespamente o capitão-mor; — para dizerem o que sabem, está visto; e se também forem traidores, ai deles!...
— Pois também, Maurício — disse Fernando com acento da mais transparente ironia — o vosso fiel, e dedicado Maurício pode incorrer em suspeitas?...
— Se nos é fiel, muito serviço nos poderá prestar na presente conjuntura; se não é, talvez também já se tenha posto ao fresco, ou facilmente se trairá...
— É escusado mandar chamá-los. — atalhou Fernando incivilmente; — ou não serão encontrados, porque andam tratando de seus negócios.
— Fernando sublinhou esta palavra com certa inflexão irônica — ou se aqui comparecerem, será para vos embair de novo, como vos tem enganado até hoje. Demais, senhor capitão-mor, se os paulistas andam forjando uma revolta, quais podem ser os cabeças?...
— Que provas tem disso, Fernando?... queres que eu creia tão de leve em tão abominável aleive?...
— As provas não tardarão a aparecer do modo o mais patente e à luz do sol. Em vez de os inquirir, melhor seria agarrá-los desde já e trancá-los na masmorra; mas...
— Mas o que, Fernando?...
— Mas é melhor esperar, que arrojem de todo a máscara, com que até aqui se tem disfarçado em amigos.
— Não; melhor é prevenir o mal. Presos e castigados os chefes, os outros se submeterão...
— Mas prender e castigar a quem, e por que? Se ainda nenhuma prova positiva temos nem mesmo da existência de um plano de levante, como havemos de saber quais os chefes?... É preciso colhê-los a todos em flagrante, e é isso que espero conseguir em menos tempo do que vossas mercês pensa.
— Não te entendo; pois não me dizias a pouco, que tens certeza?
— Sim, senhor; certeza tenho-a eu, mas faltam as provas, sem as quais nada poderemos fazer regularmente. Tranquilize-se porém vossas mercês, que elas de hoje para amanhã aparecerão.
— Eu tranquilizar-me, quando, segundo afirmas com toda a segurança, sou alvo da mais revoltante aleivosia, quando sinto o seio mordido pela serpente, que nele abriguei... Oh! Fernando! Fernando! estás realmente certo?... não te iludem as aparências? ou embustes de algum inimigo de Maurício?...
— Esperemos, senhor; é por pouco tempo; eu o emprazo só até amanhã; suspenda até então seu juízo.
— Pois bem; suspenderei, e espero que a inocência ao menos de Maurício ficará patente.
— Ou sua traição desmascarada. Mui de propósito e refletidamente, Fernando se empenhara em pedir, que os dois jovens paulistas comparecessem à devassa. Semelhante medida os poria de sobre-aviso; logo que desconfiassem, que eram também alvo de suspeitas, procurariam por qualquer meio evitar o golpe certeiro, com que pretendia aniquilá-los. Cumpria-lhe pois deixá-los na descuidosa seguridade, em que os supunha, até que tivesse, como esperava, provas patentes e exuberantes, de que eles maquinavam às ocultas contra o capitão-mor e os portugueses, e para isso descansava na astúcia e habilidade satânica do seu mameluco. O dia quase todo passou-se em investigações, pesquisas e inquéritos. As mais fortes suspeitas do atentado da véspera recaíram sobre Calixto, o amante preferido de Helena, rival do Minhoto, e que com ele tinha querelas e ajustes de contas antigas. Calixto foi procurado pelos alguazis do capitão-mor por toda a povoação e suas imediações; não foi encontrado em parte alguma; novo e forte motivo de suspeição contra ele. Entretanto Maurício e Gil não se achavam em tão completa seguridade, como supunha Fernando. O próprio Tiago, de cujas manhas e habilidade ele esperava com tanta confiança o pleno sucesso de seus planos, já na noite antecedente, como sabemos, tinha posto de sobre aviso a todos os conspiradores. Em razão desse aviso, e também das perseguições resultantes do assassinato do Minhoto, nenhum deles nesse dia apareceu na povoação achando-se todos refugiados na caverna, à exceção de Maurício, Gil e Antônio. Este vagueava às escondidas em roda da casa do capitão-mor, como gato do mato, que negaceia uma pomba, por motivos, que daqui a pouco saberemos. Gil, pela mais extremosa dedicação a seu amigo arrostando uma situação perigosíssima instava em vão com ele para que deixasse quanto antes a povoação; Maurício porém quedo e inabalável em sua casa obstinava-se em ali permanecer até a noite. O sol já ia bem baixo no horizonte, e ainda Gil não pudera demover o amigo de seu pertinaz propósito.
— Só um cego — dizia-lhe Gil, não vê, que aquele endiabrado mameluco, que ontem não conseguiu vingar-se de ti, e de Antônio na gruta, e que de lá fugiu escurraçado, nos irá denunciar, se é que já não denunciou.
— Mas julgas, que se ele quisesse revelar alguma coisa já não o teria feito? e se o tivesse feito, estaríamos aqui ainda livres e tranquilos? - objetava Maurício procurando ainda razões especiosas para justificar sua fatal resolução evitando tocar no verdadeiro motivo, que ali o prendia.
— Não sei — respondeu Gil — mas daqui á noite ainda vai tempo, e Deus sabe o que acontecerá. Acredita-me, Maurício, não estamos aqui seguros, e considera, que conosco vamos sacrificar também nossos patrícios, que nos esperaram debalde.
— Vai tu só agora, Gil; se não me matarem ou prenderem, o que acho difícil, lá estarei antes de meia-noite. Vai; eu te peço, em nome deles e da nossa amizade. Quero ser o único sacrificado.
— E eu quero salvar-te a ti, e a honra de tua palavra, que é a de todos os paulistas.: — Deixem correr só por minha conta a minha vida e a minha honra.
— Que cegueira, meu Deus! - murmurou Gil na mais angustiosa impaciência; — Maurício, estarás louco?...
— Não sei... pode ser... mas sinto, que me é forçoso aqui ficar até a noite... ordena-me o coração, que fique aqui ainda, que não fuja...
— Senão, quando o raio cair-te em casa.
— Os raios do céu não podem ferir, quem procura amparar um anjo. Os raios da terra... esses não me fazem medo.
— Eis volta de novo a tua fatal loucura!.
— O que pretendes pois Maurício?... o que esperas?...
— Espero a noite, e a sombra dela pretendo conspirar contra o capitão-mor e sua filha para salvá-los a eles e punir nossos opressores.
— Salvem-se!... fujam! - bradou uma voz de uma pessoa, que entrava precipitadamente. Era Antônio, que vinha arquejante de cansaço.
— Que te dizia eu, Maurício!!...- disse Gil com acento indefinível. — vossas mercês. estão perdidos, se não fogem neste instante. Venho da casa do patrão velho neste momento; o maldito mameluco acaba de contar neste instante ao senhor Fernando tudo quanto estamos fazendo.
— Mas como pudeste lá ir! - perguntou Gil.
— Não se importe com isso, patrão. O certo é que Antônio lá esteve; ninguém o vio, e ele vio e ouviu tudo.
— Que mais esperas, Maurício? - disse Gil a seu amigo.
— Vamo-nos.
— D'aqui não saio, enquanto for dia — respondeu Maurício com acento de inquebrantável firmeza.
— Vai tu Gil; escapa ao ódio de nossos perseguidores; vai a caverna dirigir as coisas. Se a mão dos algozes não me apanhar, antes da meia-noite lá me acharei. Mas tu, Antônio, fica ainda um momento; preciso de ti.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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