Universo da obra
Universo da obra
É preciso explicar por que modo Antônio surpreendera Tiago denunciando a Fernando a conspiração. Lembra-se o leitor, que desde que Diogo Mendes se afeiçoara a Judaíba, sabendo que Antônio era seu rival, e rival preferido e muito amado da jovem carijó, exigiu de Maurício a entrega do índio, que era escravo seu. Avisado por Maurício, Antônio esperto e inteligente como era, sabendo que seria agarrado, removido para bem longe, e talvez mesmo vendido, julgou prudente acautelar-se, e só aparecia na gruta no meio dos insurgentes, na povoação somente a Maurício e Gil, isso mesmo com precauções, que ele bem sabia empregar com a maior astúcia e agilidade. Entretanto com cuidados e saudades de sua Judaíba rondava continuamente pelo povoado exposto ao maior perigo em dia claro, porque a noite devia achar-se na gruta. Na tarde, em que nos achamos, ele ansioso por falar a Judaíba, alentá-la, tranquilizá-la, comunicando-lhe seus planos e esperanças, penetrou ousadamente na casa do capitão-mor. A ocasião era propícia; a casa, que até ali se achava atulhada de gente em razão da devassa, agora achava-se quase deserta. A maior parte de seus habitantes inclusive o capitão-mor e seu filho tinham ido acompanhar ao último jazigo o cadáver do Minhoto, que ia ser sepultado com todas as honras devidas á sua posição pecuniária na capela, a qual ficava bastantemente distante. Antônio, como dissemos, penetrou ousadamente pela casa a dentro, foi até um pátio interior sem encontrar pessoa alguma, escondeu-se em uma cavalhariça, e aí escondido ficou espreitando as janelas, que davam para o pátio esperando ver Judaíba. Mas em vez desta viu assomar a uma das janelas o vulto de Fernando acompanhado de Tiago. Estavam em distância, que Antônio os podia ouvir perfeitamente.
— Que estás aí a dizer, maroto?... ah! se pretendes enganar-me! — dizia o fidalgo ao seu pajem.
— Não, senhor; desta feita descobri tudo, tudo. E quer vossas mercês saber ainda mais uma coisa?...
— O que?... fala depressa.
— O lugar, onde se ajuntam, pelos sinais não pode ser outra coisa mais do que a mina do tal Irabussú, e onde esse maldito feiticeiro enterrou-se para sempre com cinco dos nossos...
— Não me venhas pregar carapetões, que te passo a chicote, ouviste?... como podes saber? isso — Pois eu já não disse, que estive em uma grande lapa e no meio deles...
— É verdade!... tens razão! - murmurou Fernando como falando consigo.
— Oh! a gruta de Irabussú, e dentro dela Maurício e ouro!... a riqueza e a vingança! será possível!... Que achado, meu Tiago! - continuou voltando-se para o pajem com alegre vivacidade; — quantos proveitos!... se falar a verdade, sou capaz de te fazer príncipe... mas... onde é essa gruta!
— Dizer não é possível; ninguém é capaz de atinar com ela, por mais que se ensine; só eu mesmo indo mostrá-la.
— Pois hás de no-la mostrar hoje mesmo.
— Hoje, senhor!... não tarda a anoitecer; de dia mesmo é custoso, e de noite, a não serem eles, que já estão mestres no rumo, não há quem possa dar com a tal maldita buraqueira; só amanhã.
— Pois bem; amanhã pela madrugada sairemos com gente a dar no tal quilombo... mas ainda nada me disseste do levante; quais são os principais da troça!
— Alem do Maurício, lá está o altanado do Gil, e um certo bugre, chamado Antônio... vossas mercês bem o conhece por fora, mas não sabe que alma danada está ali, fica sabendo agora; mil forcas que houvessem para aquele diabo...
— Está bem! está bem!... quais eram os outros?...
— Os outros?... um velho ferreiro enfarruscado, o maroto do Calixto, que teve a petulância de...
— Depressa! dize os nomes e deixa-te de qualificações, e observações; eu os conheço a todos. Mais quem?...
— E mais um bando de bugres, e negros que não conheço.
— E eram muitos?
— Muitos!... nem nunca!... uma, duas a três dúzias de farroupilhas que vossas mercês com dois tiros esparrama num instante.
— Bem! vai-te embora. O mameluco retirou-se.
— Oh! que excelente achado! - continuou Fernando a falar consigo.
— Vou dar parte a meu tio, apenas chegar do enterro. Como há de folgar com semelhante notícia!... Terminando este breve monólogo Fernando também retirou-se da janela. Antônio não queria, nem precisava ouvir mais. Esquecido de Judaíba saiu de seu escondrijo, atravessou de novo a casa como um silfo invisível, ganhou a rua, e deitou a correr para a casa de Maurício com a velocidade do gamo, a dar o aviso, que já vimos. O capitão-mor não tardou, e apenas entrou em casa Fernando correu açodado a informá-lo do que acabava de saber da boca de Tiago. O capitão-mor escutou indignado as revelações de seu secretário, e como que lhe custava dar crédito ao que ouvia, apesar dos caracteres de máxima probabilidade e quase evidência, que acompanhavam aquela delação.
— Já e já — bradou em assomo de dolorosa indignação — quero vê-los aqui presos os três, Maurício, Gil e Antônio com os pés metidos em um tronco e o pescoço em uma golilha!... e ai deles, se for verdade! terão de pagar com a vida. Fernando triunfante intercedeu ironicamente: — Não podemos ainda acreditar tão de leve — disse com imperceptível sorriso de malignidade; — o dito desse maroto não é lá grande prova. Além disso se realmente estão tramando contra nós, havemos de apanhá-los todos de um só lance de rede. Para que assustá-los já?... deixá-los prosseguir.
— Então devemos esperar, que a traição se revele em traços de sangue!...
— Não se inquiete meu tio; está já preparada a rede, em que todos serão colhidos de um só golpe sem poderem tugir nem mugir. Amanhã ficaremos livres desses perros e vossas mercês desabusado de suas ilusões.
— Praza ao céu, Fernando!... mas Maurício! Maurício traidor!... meu coração revolta-se contra simelhante ideia! - murmurou o velho com voz dolente e abatida.
— Não! não!... quero que ele venha a minha presença; quero ainda uma vez ler em seu semblante; quero sondar-lhe o coração. Fernando, manda-lhe a casa dois ou três esbirros, e por bem ou por mal seja conduzido já a minha presença. Fernando não quis mais insistir; considerava já Maurício e seus amigos completamente perdidos e condenados sem remissão. Tudo quanto o jovem paulista pudesse alegar em sua defesa, não podia destruir as provas exuberantes, que já tinha contra ele, e outras, que impreterivelmente esperava colher depois do assalto, que projetava dar à caverna dos insurgentes na manhã do dia seguinte. A prisão de Maurício portanto em seu entender não podia mais deter a espada vingadora suspensa por um fio sobre a cabeça de seu rival. Demais calculava e com muito fundamento que em vista das ocorrências daquele dia nem Maurício nem nenhum de seus amigos seriam encontrados na povoação, o que convinha admiravelmente a seus planos. Portanto depois de ter cumprido imediatamente a ordem de seu tio, de novo voltou para junto dele. Via, que já era tempo de desfechar o último golpe, que tinha havia longo tempo de reserva para fulminar seu adversário, isto é, de revelar a Diogo Mendes a violenta paixão, que o jovem paulista sentia por sua filha Leonor.
— É tempo — dizia Fernando com hipócrita gravidade — é tempo de que vossas mercês seja informado de uma atroz particularidade, que parece até aqui ter ignorado, e que revela até que ponto chega a perversidade desse moço, que até hoje tem afagado como a um filho. O capitão-mor sem dizer palavra olhava atônito para seu sobrinho como pedindo explicação.
— Saiba meu tio — continuou Fernando — que esse aventureiro ousou levantar suas vistas até sua filha, que teve a infelicidade de inspirar-lhe a mais violenta e louca paixão. É por amor dela, dela tão somente, que não por afeto e gratidão a vossas mercês, que ele o acompanha e o tem servido sempre, não como o amigo desinteressado, mas como o cão esfaimado, que segue por toda parte a quem leva na mão um pedaço de carne. Até aqui nutria talvez esperança de que vossas mercês não lhe recusaria a mão de minha prima, ou projetava — quem sabe? arrastá-la ao opróbrio. Mas depois, que me vê a seu lado, seus planos são outros, e mais audazes e atrozes ainda. A fúria do ciúme corrói-lhe as entranhas, e procura levar a efeito seus planos tenebrosos a ferro, fogo e sangue. Não creia, que é por dedicação a seus patrícios, que ele abusando de sua simplicidade e fanfarronice os incita a se sublevarem contra o governo de vossas mercês; não: aproveita-se de algumas indisposições, e a pretexto de libertá-los de vexames imaginários intenta vir pisando sobre cadáveres com o punhal ensanguentado na mão arrancar-vos a filha para ir profaná-la em seu covil de salteador. Se não me acredita, espere os fatos; eles não tardarão. O capitão-mor escutava aterrado tais revelações, que nunca lhe tinham passado pela mente. Mas agora perpassando rapidamente pela memória todas as circunstâncias do passado, e as relações de sua filha com o paulista ia-lhe como que caindo uma névoa dos olhos, e entrevia toda a plausibilidade das coisas, que Fernando asseverava com a maior segurança. A dedicação de Maurício tinha de feito assomos de heroica exaltação e entusiasmo, que pareciam efeitos de um sentimento mais enérgico e violento do que a simples gratidão e amizade. E também lhe parecia que esse sentimento era correspondido, pois lembrava-se que Leonor testemunhava em todas as ocasiões pelo jovem paulista a mais viva simpatia, e sempre o acolhia com o mais fagueiro de seus sorrisos. Estremecia com a ideia da possibilidade de uma afeição recíproca entre os dois jovens, afeição, que agora julgava muito natural, mas que entretanto reputava uma calamidade. Aventurou-se todavia a perguntar a Fernando: — E Leonor! saberia ela desse afeto do paulista?... não lho levaria a mal?... A esta pergunta Fernando empalideceu; banhou-se-lhe em fel o coração, e por alguns instantes sentiu-se desconcertado.
— A esse respeito...- respondeu hesitando — nada lhe sei dizer... mas é impossível... julgo que a prima com sua natural candura e ingenuidade nunca suspeitou a ousadia do paulista. Tenho para mim, que ela vota-lhe a mesma estima, que tem ao seu caboclo Antônio; estima-o como a um cão fiel.
— Quem sabe, Fernando!!... olha, que Maurício possui dotes do corpo, do espírito, e mesmo do coração... ou ao menos certas exterioridades brilhantes, que bem podem fazer forte impressão na alma de uma donzela. Estas palavras foram punhaladas, que atravessaram o coração de Fernando, mordido cruelmente pela áspide do ciúme. Enfiado e mudo por alguns instantes mudou de cor duas ou três vezes, e por fim respondeu com mau modo: — Nesse caso, senhor capitão-mor, visto que esse cavalheiro possui tão brilhantes prendas, não sei o que faz que não lhe concede já a mão de sua filha. O capitão-mor ergueu a fronte com altivez e dignidade, e encarando seu sobrinho com sobrolho carregado: — Pretende acaso o senhor Fernando galhofar comigo em assunto tão melindroso, e que tanto me magoa o coração.
— Perdão, senhor! - respondeu Fernando curvando-se com fingida submissão — perdão! nem de leve eu pretendi molestá-lo. A credulidade de vossas mercês...
— Basta, senhor; não toquemos mais neste assunto. Já deu providências, para que Maurício seja conduzido á minha presença?
— Suas ordens estão dadas, e talvez já cumpridas. Quando este diálogo assim se terminava, já era quase noite fechada. Daí a poucos minutos os esbirros expedidos por Fernando voltavam trazendo a notícia de que a casa de Maurício se achava fechada, e que por toda a povoação não tinham podido encontrar nem a ele, nem a Gil, nem a nenhum de seus companheiros. Então penetrou no espírito do capitão-mor a plena e dolorosa convicção de que Maurício era traidor, e conspirava contra ele. Tudo, quanto Fernando há pouco lhe havia revelado, se lhe apresentou à mente com todos os caracteres da evidência. Foi terrível a crise produzida em sua alma por este doloroso golpe; toda a afeição, que votava ao mancebo, converteu-se de repente em rancor profundo; sua cólera não conhecia mais limites.
— Mil dobras de ouro! -bradou ele erguendo-se bruscamente e batendo de rijo com o punho sobre a mesa, junto a qual se achava sentado.
— Mil dobras a quem me trouxer a cabeça de Maurício!... Anda, Fernando, faze apregoar e publicar já por toda a povoação, que quem aqui me trouxer vivo ou morto esse infame salteador, receberá in continenti mil dobras.
— Não será preciso despender um real por sua cabeça — respondeu Fernando com toda a calma.
— Ele mesmo no-la entregará.
— Embora!... é preciso empregar todos os meios, para que não nos escape o traidor.
— Suas ordens serão cumpridas.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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