Universo da obra
Universo da obra
Na noite desse mesmo dia, em que uma borrasca serenou-se ao aceno de um anjo, Maurício, Gil e Antônio reunidos em casa do primeiro conversavam sobre os graves e estranhos acontecimentos daqueles últimos dias. Judaíba, Irabussú e sua prodigiosa mina eram pois ainda o objeto da conversação.
— Se quiserem — dizia Antônio — hoje mesmo posso ir mostrar essa mina.
— Para que tão depressa? — replicou Maurício; — se nos virem sair juntos do povoado, isso pode excitar desconfianças. Bem sabes como andam por aí de prevenção contra nós, graças às pérfidas insinuações de Fernando. Se não é o bom conceito, que o capitão-mor ainda faz de mim, e a nobre e corajosa conduta de sua adorável filha, em vez de nos acharmos aqui estaríamos agora na sala do tronco. Por ora
não convém lá irmos; é prudente deixar isso para mais tarde.
— Mas
não é preciso que nos vejam; a lapa não é muito longe; podemos ir e voltar na mesma noite.
— Embora, Antônio; Irabussú ainda pode aparecer ao menos a Gil; ninguém sabe se ele é vivo ou morto, e melhor é esperar mais alguns dias.
— Isso lá não sei, meu amo; seja lá como for, o certo é que mais tarde ou mais cedo Antônio deve achar essa endiabrada mina, se não leva o diabo Judaíba...
— Achar?! — exclamou Gil com surpresa;
— pois não sabes onde é ela?...
— A lapa sei eu muito bem onde é; mas mina de ouro ainda lá não vi. Sem dúvida deve ser lá por aquelas buracadas fundas e escuras, que não tenfim, e eu a dizer a verdade ainda não entrei muito lá por essas funduras.
Os dois mancebos conservaram-se por alguns instantes silenciosos e pensativos.
— Está me parecendo, Maurício — disse Gil por fim — que essa lapa é ainda uma formidável burla do velho bugre, ou que não é mais do que o sepulcro, onde levou a enterrar os desgraçados portugueses, que caíram na toleima de acompanhá-lo. Pensas justamente como eu; o que o bugre pretende é desorientar cada vez mais os emboabas, e se existe essa mina, que eles tanto cobiçam não é por certo lá nessa lapa.
— O que é que vossas mercês estão dizendo, meus amos?! — murmurou Antônio com voz consternada; — então ai da minha pobre Judaíba!...
— Sossega
teu coração, Antônio — disse-lhe Gil.
— Judaíba nada sofrerá; já não te dissemos, que D. Leonor a tomou debaixo de sua proteção! bem sabes quanto D. Leonor é boa, e quanto pode em casa do capitão-mor.
— Ah!... sim! D. Leonor! — acrescentou Maurício; — D. Leonor é um anjo de bondade, é uma santa; mas Fernando também pode muito, e Fernando é um algoz; por amor de um pouco de ouro seria capaz de matá-la...
— Que diz, meu amo?! — bradou Antônio levantando-se de um pulo do chão, onde se achava acocorado, rangendo os dentes e apertando convulsivamente o cabo da faca, que trazia ao cinto.
— Que diz?!... ai dele, se tiver o atrevimento de tocar um só fio dos cabelos de Judaíba!...
— E nós também — replicou Gil — nós aqui estamos para ampará-la, libertá-la ou vingá-la, no caso que aquele infame tenha o arrojo... mas não pensemos nisso agora, o que devemos fazer é empregar todo o esforço e diligência para descobrir a mina; se não pudermos achá-la, que remédio teremos senão lançar mão de outros recursos?...
— Ah! meus amos, eu falo com o coração nas mãos; se não fosse Judaíba, minha vontade era que essa mina se sovertesse nas profundas dos infernos. É por amor daquela coitadinha, que eu desejo achá-la. Em troco dela eu dava todo o ouro do mundo, se fosse meu.
— Havemos de lá ir, Antônio — replicou Maurício; — mas por agora não convém; Irabussú e os outros emboabas ainda podem aparecer; esperemos por mais três ou quatro dias.
Bem a seu pesar o índio resignou-se a esperar; aqueles três ou quatro dias de cruel inquietação, que ia passar, iam ser para ele um longo e terrível pesadelo. Entretanto esses dias passaram sem a menor novidade; de Irabussú e seus companheiros, apesar de continuarem as pesquisas, não houve mais nem notícia.
Na noite do quarto dia, quando já todos recolhidos às suas casas entregavam-se nos braços de Morfeu, Maurício e Gil guiados por Antônio, saíam a pé e misteriosamente do povoado e dirigiam-se à gruta de Irabussú. Iam bem armados, e munidos de instrumentos e de archotes de resina para bem poderem esquadrinhar todos os recantos e sinuosidades da espelunca, onde chegaram ao fim de duas horas de marcha difícil e penível. Entraram na caverna, e aí se demoraram largo tempo percorrendo-a e examinando por todos os escaninhos, em que lhes foi possível penetrar. Viram muita obra assombrosa da natureza, abóbadas, arcadas e colunatas de estalactites, átrios, aposentos, corredores e recessos profundos divididos entre si por enormes pilares de estalagmites. Pelo chão coberto de areia e folhiço nada viram, por mais que examinassem, senão fragmentos e detritos de pedra calcária, de ouro porém nem um grão, e nem sequer o mínimo indício de que ele por ali existisse.
Os dois jovens paulistas, que eram mui práticos e entendidos em matéria de mineração, desanimaram, e acabaram de convencer-se, que Irabussú os havia burlado a todos.
Uma coisa porém depararam, que os encheu de horror, e diante da qual teriam recuado em fuga precipitada outros quaisquer, que não fossem os nossos três intrépidos e resolutos aventureiros. Esparsos pelo pavimento foram encontrando aos pedaços os cadáveres dos míseros emboabas, estrangulados e meio devorados pelas onças e outros animais bravios. O ar frio daquelas abóbadas úmidas e a natureza calcária do terreno parece que os tinha preservado da podridão; o sangue ainda escorria dos membros dilacerados de alguns; como se houvessem expirado não há muito tempo, e toda a caverna exalava um forte cheiro de sangue e carniça fresca, como se ali acabasse de banquetear-se uma horda de antropófagos. Bem quereriam Gil e Maurício dar sepultura aos miserandos restos daquelas infelizes vítimas da cobiça; mas não lhes sobrava tempo nem mesmo para concluírem suas investigações; ainda ficavam por examinar muitos recessos e anfractuosidades quase inacessíveis, e onde só poderiam penetrar serpeando ou rastejando como as cobras e répteis. Desanimaram e pensando no lastimoso fim dos que os precederam na exploração daquela gruta fatal, deram-se pressa em sair dela convencidos de que só depois de muitos dias de pesquisas e explorações poderiam dar com a mina, caso tal mina ali existisse.
— Se Irabussú não aparecer mais entre os vivos — dizia Gil — resolvido a mostrar a mina, ninguém mais a descobrirá. Não há duvidar; o velho bugre embaçou-nos a todos, como já havia embaçado o minhoto, o capitão-mor e outros.
— Disso
estou eu também convencido — replicou Maurício; — não há por aqui nem a mais ligeira informação de ouro, e é evidente que Irabussú não trouxe aqui aqueles miseráveis senão para dar-lhes uma derradeira e tremenda lição, e esta foi de doer deveras.
— E o diabo é, meu amo — disse Antônio — que essa lição também nos vai doer bastante, pois ficamos sem mina, e eu sem a minha pobre Judaíba!... Nada! nada!... isto não pode ser; a mina deve estar por aí mesmo; hei de cá voltar, e tanto hei de escarafunchar por essas. buracadas, que hei de dar com ela, ainda que esteja lá nas profundas do inferno.
— É
tempo perdido, Antônio — falou Gil.
— Só Irabussú e Tupã; não te lembras, que ele assim dizia?... e ele não o dizia em vão. Mas não te dê isso cuidado, havemos de libertar a tua Judaíba, seja como for, e desgraçado de quem t'a quiser roubar! Mas meus amigos — continuou Gil dando à voz certa acentuação grave e solene — se aqui nesta gruta não encontramos ouro, quem sabe se um dia nela encontraremos coisa mais preciosa ainda!... sim, quem sabe se talvez bem cedo precisaremos do asilo destas furnas para amparar-nos da sanha de nossos perseguidores?!! Esta caverna, que serviu de túmulo a esses infelizes, pode ser para nós um refúgio sagrado, que o céu nos quis mostrar por intermédio do velho selvagem. Irabussú
enquanto vivo protegeu-me, e sacrificou-se para minha prosperidade; se ele
é morto, sua sombra, que deve habitar no seio deste covil medonho, aqui virá ainda para nos inspirar e alentar a fim de podermos resistir a nossos opressores, e proteger e amparar sua querida filha. Portanto, meus amigos, a ninguém revelemos a existência desta gruta; guardemos sobre ela o mais inviolável segredo.
Falando assim Gil parecia possuído de espírito profético; seus companheiros impressionados pelo tom solene e de sincera convicção, com que proferia aquelas palavras, o escutavam silenciosos e comovidos, como se ele estivesse lendo no livro do futuro.
— Sim, Gil; tens toda razão — disse Maurício com voz grave e melancólica depois de um momento de silêncio e emoção.
— O nosso futuro é de sombras, e Deus sabe se um dia somente nas cavernas poderemos achar abrigo para nos esquivar ao tronco e ao cadafalso!... Guardemos segredo, muito segredo, ouviste, Antônio?...
— Eu serei mudo como estas pedras — respondeu o índio.
Depois destes acontecimentos passaram-se longos dias uniformes e tranquilos no povoado de São João del-Rei. A população em geral parecia calma e satisfeita; os ódios e ânimosidades se iam pouco a pouco arrefecendo; os conflitos e pendências, que cotidianamente forneciam
novos - hóspedes à prisão e aos troncos do capitão-mor, iam-se tornando mais raros, e os mineiros em vez de se reunirem em grupos para se queixarem, querelarem, maldizerem e desabafarem nos rancores, entregavam-se regularmente todos os dias a seus trabalhos ordinários. Tudo parecia entrar naturalmente e sem esforço em uma fase de paz, segurança e atividade, que prometia um futuro desassombrado e sereno.
Judaíba, posto não fosse restituída a Gil, era bem tratada e estimada em casa do capitão-mor, onde Leonor a rodeava de cuidados e carinhos. Antônio, que ali tinha entrada franca e presenciava tudo, não podia também ter motivo de queixa nem de inquietação.
Gil por força das circunstâncias e por sua extrema dedicação aos interesses de Maurício via-se forçado a abafar seus ressentimentos e a dar por esquecidas as injúrias passadas.
Sentia porém que não poderia viver tranquilo por muito tempo em São João del-Rei; sua aversão aos emboabas era profunda e inextinguível; a seus olhos aquela calmaria dos ânimos era aparente e superficial, era apenas um sintoma de cansaço, uma intermitência passageira, que seria seguida de novas e violentas agitações. Bem via, que não faltariam pretextos, nem ocasiões aos emboabas para entrarem de novo em conflito com os paulistas.
Nenhum outro motivo senão a amizade, que consagrava a Maurício, podia dali em diante reter Gil em São João del-Rei; mas Gil compreendia também, que a sua residência ali longe de ser proveitosa ao seu amigo podia ao contrário lhe ser funesta, como por vezes a experiência o havia mostrado. Era portanto essa mesma amizade, que votava a seu patrício, que lhe impunha o dever de retirar-se.
Graças a Irabussú possuía já ouro bastante para passar a vida ao abrigo de necessidades, ou para ir a outras paragens tentar novos meios de aumentar seus haveres.
Portanto resolveu-se definitivamente a deixar São João del-Rei. Maurício não ousou opor-se a tão justificada resolução; bem lhe doía separar-se do amigo, que nas difíceis conjunturas, em que se achava, ia fazer-lhe a mais sensível e irreparável falta; mas conhecendo a índole fogosa e insofrida de Gil, não queria vê-lo exposto a novos vexames e perseguições.
Em outras circunstâncias Maurício teria acompanhado a seu amigo; mas seu destino o detinha com mão de ferro junto de Leonor e do capitão-mor. Ele se julgava ali colocado por vontade do céu como a salvaguarda, o amparo da segurança e da honra de Leonor contra os insolentes e brutais atentados de Fernando. Os anteriores acontecimentos o confirmavam nesta crença, e ele nutria a esperança de um dia libertá-la para sempre de seu odioso amante.
Além dessa, outra esperança, posto que mais tímida e vacilante, lhe sorria no porvir: era a posse de Leonor, e a certeza de ser por ela amado era o único alimento dessa suave mas débil esperança.
A primeira era uma missão a cumprir, missão que ele considerava como um dever imperioso que lhe fora imposto pelo céu.
A segunda era apenas um sonho d'alma, um anhelo ardente, uma aspiração louca talvez; mas era ela, que com mais força o prendia fatalmente junto de Leonor. O capitão-mor aplaudia-se interiormente pelo restabelecimento da paz e da harmonia entre seus governados, atribuindo-as a seu espírito reto e moderado, e a essas facilidades e condescendências, contra as quais tanto se revoltava seu orgulhoso e atrabiliário sobrinho. Entendeu portanto, que era tempo de afrouxar um pouco o rigor das providências, que Fernando lhe fizera tomar contra os paulistas, no intuito de manter a ordem e a segurança na povoação. O direito de se reunirem e outras mais liberdades lhes foram restituídas. Fernando
não quis se opor a esta medida; a ordem e a tranquilidade não convinham a seus planos, e ele ao invés de seu tio entendia que a subordinação e sossego, que a certo tempo reinava na povoação, eram devidos aos meios fortes e repressivos, que havia aconselhado.
— Melhor! — pensava ele consigo; — terão 'mais azo para porém as manguinhas de fora, e tornarem-se cada vez mais insolentes e insubordinados.
De feito o gênio da discórdia ainda não tinha apagado de todo o seu archote, e Fernando lá estava para avivar-lhe a chama preparando sutil e sorrateiramente novos elementos de desordens e conflagração.
A INSURREIÇÃO
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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