Universo da obra
Universo da obra
Ao romper do dia, que seguiu-se a essa noite angustiosa, toda a população amanheceu em alvoroço e ansiosa curiosidade. Mestre Bueno era um velho muito conhecido e geralmente estimado pelos habitantes do lugar, já como homem de bem, serviçal e prestimoso, já como hábilíssimo ferreiro, freguês quase exclusivo de todos os mineiros quer paulistas, quer forasteiros. Calixto também era estimado e benquisto de todos, à exceção de alguns rivais, pretendentes ao amor de Helena, que o olhavam de revés,. e o achavam de gênio sumamente áspero e assomado. Helena era uma pomba meiga e inofensiva, que se perturbava o sossego de alguns corações, era sem o querer, pelo encanto de seus olhares, e de sua figura sedutora. A todos pois devia afligir e consternar o funesto acontecimento daquela noite. Os serviços ficaram abandonados, as lavras desertas, e grande agitação se notava pelas ruelas da pequena povoação. Afonso acordando amargurado com a lembrança do desastrado acontecimento da véspera ruminou ainda antes de levantar-se uma multidão de ideias e planos desencontrados. Não podia deixar impune a cruel afronta, de que fora vítima, mas que gênero de vingança poderia tomar? eis aí o ponto, em que hesitava fazendo e desfazendo mil projetos sem saber em qual deles se fixar. Abandonar seu ofensor à cólera paterna e esperar da autoridade a sua desafronta parecia-lhe pouco nobre e indigno de um fidalgo; queria vingar-se por si mesmo e por suas próprias mãos mas como! iria provocar seu adversário a um duelo? mas seu pai lhe dizia muitas vezes, que a espada de um fidalgo não se arranca contra um mísero peão, e desonra-se medindo-se com a dele. O melhor e mais seguro meio de vingança, que se lhe oferecia ao espírito, era ferir o adversário na corda mais sensível de seu coração roubando-lhe a amante. Assim o amante em desespero infalivelmente o provocaria, e teriam de bater-se forçosamente, sem que ninguém pudesse intervir, e ou ele o mataria, ou lhe morreria ás mãos. Para levar porém a efeito semelhante plano surgiam mil dificuldades, e Afonso não atinava com os meios de obviá-las. Enfim já com o espírito fatigado e com a cabeça a arder entendeu, que devia abrir-se com alguém, que o orientasse no intrincado labirinto de seus pensamentos, e com quem melhor se poderia entender senão com o seu habitual confidente e conselheiro, seu primo Fernando? Foi este mesmo, quem provocou a confidencia.
— Então, Afonso — foi este o comprimento de bom dia, que Fernando deu a seu primo — então que diabo andaste tu fazendo ontem lá por casa do ferreiro? estás ainda muito bisonho no traquejo destas coisas. Se tivesses tomado primeiro algumas lições, não te sairias tão mal.
— Em que me saí mal por ventura? -
replicou vivamente o mancebo.
— Fui atacado por um cão, mas não me deixaram espancá-lo; eis aí tudo.
— Anda la — retrucou Fernando batendo amigavelmente no ombro do mancebo; — confessa, que foste bastante desajeitado, e que a coisa não te saiu muito airosa; isso porém não faz mal; tranquiliza-te, meu rapaz; sem o querer e assim atabalhoadamente preparaste o terreno de um modo admirável.
— Como?...
— Ora como!... esse insolente Calixto, que teve a petulância de tocar-te, terá de sofrer prisão por muito tempo, ou será degredado, o que é melhor ainda, e a tua Helena aí ficará a tua disposição livre e desimpedida do importuno jacaré, que tanto a vigia.
— Eis aí em que não posso consentir; meu
pai nada tem que ver com isto; foi uma insignificante pendência entre mim e um miserável perro; o ofendido fui eu só; a mim só compete desafrontar-me; não quero por modo nenhum que meu pai se meta nisto.
— Mas como, se é dever dele castigar esse
insolente?...
— Mas eu sou o ofendido, e perdoo ao meu
ofensor...
— Imbecil que tu és... então como falas em
vingança?
— A vingança fica a meu cargo, somente a
meu cargo.
— Mas de que maneira poderás vingar-te!... de nenhuma, e esse atrevido, que te pôs a mão na face, irá para os braços de sua Helena gozar de seu triunfo escarnecendo de ti.
— Por Deus, que não há de ser assim, Fernando!... hei de vingar-me, e hei de disputar-lhe a
todo transe mas sem auxílio de meu pai, nem de quem quer que seja.
— Mas por que meios, não me dirás!
— Não sei; o demônio da vingança e do ciúme
m'os há de inspirar.
— Não duvido — disse Fernando como a refletir; — e até, se me não engano, o tal demônio já te está inspirando. Com esse teu proceder estouvado e romanesco, sem o pensar vais preparando um plano, que pode surtir o mais completo resultado, e facilitar-te a mais cabal vingança no sentido, em que a queres.
— Deveras!!... mas... explica-te.
— Queres perdoar ao teu ofensor, não é assim?
— Quero, sim, para melhor poder vingar-me
dele.
— Pois bem; será perdoado em teu nome, e
estou certo, que esse perdão o humilhará e doerá tanto na alma como o mais rigoroso castigo.
— Embora. ra! tanto melhor.
— Esse maroto será perdoado e posto em liberdade, mas não sem levar antes uma formidável surra de bolos, que lhe sirva de lembrete
em todos os dias de sua vida para não cair n'outra.
— Mas eu já disse, que perdoo; não quero que
o castiguem...
— Não te importes com isso; esses bolos não
são por tua conta, são por conta de teu pai, que tem a restrita obrigação de corrigir as crianças turbulentas e malcriadas. Há de tomá-los, e depois será solto juntamente com o velho bronte.
— E a Helena?...
— Aí é que está o delicado do negócio.
Helena tem de ficar aqui detida por enquanto.
— Detida!?... mas por que motivo, se ela é
inocente?
— És muito simples, meu Afonso. Se ela
também ficar livre e solta, em que poderá consistir a vingança? conservá-la aqui é a condição essencial do plano, que deves seguir para possuir Helena, e vingar-te de Calixto. Só com esse fato ele ficará raivando, e rebentará de ciúme e desespero, e tu saborearás desde já os primeiros tragos de um princípio de vingança.
— Mas ela nenhum crime cometeu para
ser metida em prisão...
— Não há aí nenhuma prisão; fica simplesmente detida; morará conosco em vez de morar
com o pai e o amante, e nisso creio, que ela nada perde. Estando ela aqui fica ao teu cuidado empregar os meios à teu alcance para subjugar e vencer a isenção da menina. És um formoso Páris, e não te será mui difícil seduzir esta nova Helena, que aliás não é esposa de nenhum rei Menelau. Quanto a pretexto, isso nunca falta. Por ventura não se acha aqui há tanto tempo essa outra caboclinha, filha daquele maldito bugre feiticeiro?... que crime cometeu ela também; e que mal lhe faz o estar aqui. Além de tudo a casa do tal ferreiro estava se tornando um verdadeiro lupanar, um foco de desordem, tudo por causa dessa Helena, que para lá atraía uma corja de vadios. Eis aí um pretexto, senão um motivo muito justo para arredá-la dali. Por algum tempo estiveram os dois primos conferenciando sobre o assunto. Afonso, que conservava ainda no coração alguns restos de bons e nobres sentimentos, a princípio relutou em anuir ao plano de Fernando; mas este já com astuciosas e insinuantes considerações, já por meio de ridículo conseguiu com arte diabólica eliminar da consciência do jovem fidalgo os derradeiros escrúpulos, que aí restavam, e Afonso instigado pelo ciúme, pelo orgulho e pelo sensualismo, três móveis poderosos, que Fernando soubera admiravelmente estimular naquela alma jovem e inexperiente, acabou por achar excelente e abraçar com entusiasmo o pérfido e ignóbil meio de vingança, que lhe era sugerido. Deixando Afonso, Fernando foi conferenciar com o capitão-mor. Daí a uma hora pouco mais ou menos ambos eles se dirigiram ao salão, e mandaram vir a sua presença os três prisioneiros. Grande porção de povo se agrupava em torno do edifício rumorejando como ondas, que começam a agitar-se às primeiras lufadas de um furacão. Maurício, como prometera a seus amigos, também se apresentou e pediu ingresso na sala. O capitão-mor sentou-se à cabeceira de uma grande mesa, tendo Fernando à sua direita e Afonso à esquerda. Achava-se ali também um certo número de pessoas curiosas, que ansiavam por ouvir a sentença, que o capitão-mor lavraria contra o infeliz Calixto.
— Senhor Calixto — disse o capitão-mor em tom grave e solene — vossa mercê cometeu um crime atroz e gravíssimo, o qual segundo as nossas ordenações, deve ser punido com açoites, com degredo e confisco de seus bens, se os tiver. Dê porém parabéns à sua fortuna, e à generosidade do ofendido, que não quer que eu use para com vossa mercê do rigor das leis. Ouviu-se um murmúrio de aprovação; todos os peitos respiraram desafogados, e todos os olhos voltaram-se benignamente para Afonso.
— Ele portanto — continuou o capitão-mor — Ele lhe concede o perdão da ofensa recebida, e eu
também da minha parte, tendo em consideração a sua pouca idade, e o motivo da paixão, que o levou a esse ato de violência contra a pessoa de meu filho, quero usar para com vossa mercê de alguma clemência, e somente o condeno a oito dias de prisão, durante os quais todos os dias vossa mercê terá de ser castigado publicamente ali no meio do pátio com duas dúzias de bolos. A estas palavras um sussurro confuso, um frêmito de horror circulou por todos os assistentes. Calixto tornou-se lívido como um cadáver; os olhos se lhe escureceram, as pernas vacilaram, e a cabeça lhe andou à roda; foi-lhe mister encostar-se a Bueno, que estava junto dele para não cair. Helena soltou um grito de pavor, e Bueno· exalou um gemido surdo e ameaçador, como o rouco do sucuri no fundo da lagoa, quando ouve o trovão roncar ao longe.
— Mestre Bueno — continuou o capitão-mor — como nenhuma parte teve na pendência, seja
desde já posto em liberdade, e sua filha será detida por ora nesta casa até segunda ordem.
— Senhor capitão-mor — exclamou Bueno com voz angustiada, que vou eu fazer em minha casa sem minha filha e sem Calixto?... Sou um pobre velho; que por mim só nada valho. Ou restitua-me meus filhos, ou deixe-me também aqui ficar preso com ele.
— Não tem réplica — atalhou secamente o capitão-mor — estão dadas as minhas ordens. Não faltará quem o ajude, enquanto Helena e Calixto não voltam para sua companhia. E antes que alguém mais se lembre de por-lhe embaraços, desde já comece a execução da sentença. Esbirros! - disse o capitão-mor, levantando-se — ponham Bueno em liberdade, levem o delinquente para o pátio, e apliquem-lhe os bolos, a
que o condenei. A estas palavras seguiu-se por alguns momentos um silêncio fúnebre; uma espécie de estupefação apoderou-se da maior parte dos assistentes, que sentiam gelar-se-lhes o coração em um sentimento indefinível de terror, de pejo, de indignação e de assombro ao verem aquele belo e altivo adolescente condenado tão brutalmente ao mais bárbaro e ignominioso suplício. Foi o próprio Calixto, quem interrompeu aquele lúgubre silêncio.
— É debalde, senhor capitão-mor — rosnou ele com voz convulsa levantando ao céu os punhos trêmulos e crispados; — é debalde!... ninguém me tocará com esse vil instrumento!... podem picar-me em pedaços, eu não me sujeitarei. E lágrimas de fogo lhe saltavam aos pares dos olhos fuzilantes de cólera e desespero.
— Agarrem-no e cumpram a sentença — disse
terminantemente o capitão-mor dirigindo-se aos beleguins. Imediatamente estes agarram-se vigorosamente aos braços de Calixto e o vão arrastando para fora. Mal porém o paciente voltando as costas para a mesa tinha dado dois ou três passos cambaleantes pelo salão, seu corpo estirou-se rijo como barra de ferro, os dentes lhe rangeram horrivelmente, a fronte se lhe inundou em bagas de suor frio, os olhos se enrubeceram e dilataram como querendo saltar fora das órbitas, e ele teria cabido redondamente no pavimento, se os dois beleguins, que o agarravam, não lhe amparassem a queda. Não fora aquilo um simples desmaio; o pejo, o desespero, o furor impotente e concentrado tinham determinado no organismo do brioso e infeliz mancebo a mais horrível e violenta crise nervosa. Helena, que no auge da angústia e do terror contemplava aquela sinistra e dolorosa cena, solta um grito lamentoso, com os braços estendidos, avança dois passos para seu amante, vacila e cai também desmaiada. Aflito e pressuroso Bueno corre em socorro dela, e a levanta nos braços vigorosos. Aquele triste e angustioso espetáculo aterra e compunge todos os espectadores. O próprio capitão-mor condoeu-se dos míseros mancebos, e exprobrou-se a si mesmo sua dureza e crueldade. Os emboabas mesmo naquele momento esqueceram sua animosidade contra os paulistas, e acercaram-se dos dois jovens desmaiados cheios de solicitude e comiseração. Mas foi sobretudo no coração de Afonso, que essa deplorável cena produziu a mais amarga e violenta impressão. Não tinha ele ainda perdido os seus naturais bons instintos a despeito do cotidiano cuidado, que Fernando empregava para corromper-lhe o coração. Considerava que ele fora o provocador, a causa primordial e culposa daquele triste acidente, que sem ele não se teria dado, e sentia remorso, e pejo de si mesmo. Queria perdoar de todo, não como há pouco para ter ensejo de vingar-se por si mesmo, mas para reparar uma desgraça, que lhe pesava na consciência. Foi portanto impelido pela mais sincera e profunda emoção, que se resolveu a falar a seu pai intercedendo por suas desditosas vítimas.
— Meu pai — exclamou ele com voz comovida mas firme e resoluta — o perdão ou deve ser completo ou nenhum. Se julga que merece a pena da lei, aplique-a em todo o seu rigor; degrede esse moço. Mas se quer perdoar, como é o meu desejo, mande já pô-lo em plena liberdade, e quando não, castigue-me a mim também, que sou tão culpado como ele. Os circunstantes acolheram estas palavras com murmúrio aprovador. Fernando olhou de esguelha para seu primo.
— Que parvalhão! -
refletiu ele — mas enfim que me importa! pouco me embaraça, que esse biltre seja ou não castigado. Fique por cá a Helena, e as coisas irão seu caminho. O capitão-mor, que a muito custo representava o papel de homem severo e rigoroso naquele negócio, sentia abrandar-se a sua cólera, e folgou de achar um pretexto de mostrar-se mais humano e misericordioso.
— Pois bem — disse ele depois de ter conversado em voz baixa com Fernando por alguns instantes — acabemos com isto; já que assim o querem, soltem esse mancebo juntamente com o velho. Helena porém ficará por enquanto em nossa casa. Em vão Bueno rogou, e Maurício e o próprio Afonso intercederam, para que Helena acompanhasse seu pai; o capitão-mor entendeu que tanta condescendência era excessiva, e revelava nímia fraqueza de sua parte. Portanto mostrou-se inabalável, com o que Fernando, que o insuflava, muito folgou. Maurício, que ali viera também para interceder em favor das vítimas, viu com prazer aquele negócio terminar-se felizmente sem ser precisa sua intervenção. Helena com os socorros, que lhe prestaram, em poucos instantes recobrou os sentidos; mas Calixto hirto e lívido conservava-se imóvel estendido sobre o pavimento como um cadáver, a que só faltava a mortalha. Helena, mal abriu os olhos, lançou-se sobre ele ululante e em soluços, e com suas lágrimas e beijos conseguiu chamar à vida o amante, a quem socorros estranhos nada tinham aproveitado.
— Vai-te em paz, bom velho — disse o capitão-mor a Bueno; — não te dê cuidado a tua filha que aqui nenhum perigo corre, e nem será maltratada. Toma cuidado, em que tua casa não se torne mais ponto de reunião de vadios e turbulentos, e vai-te em paz tratar de forjar teus ferros.
— Sim, maldito emboaba — resmungou consigo o velho bronte; — esse será o meu cuidado; tratarei de forjar ferros bem agudos e temperados, que te rasguem as entranhas a ti e a todos os teus.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.