Universo da obra
Universo da obra
Depois de se ter separado de seu amigo, Gil não se dirigiu logo à gruta dos insurgentes. Graças às diligências e à dedicação de seu velho bugre, era possuidor de uma considerável fortuna, consistente, pela maior parte, em ouro bruto, em pó e em folhetas, e pouca coisa em moedas e joias de valor. Tendo de se entregar aos azares de uma insurreição, cujo resultado não era fácil de prever, e não sabendo qual seria no dia seguinte a sua sorte, queria pôr a bom recado esses valores, para que não caíssem nas mãos dos emboabas. Sabia que estes lhe desejavam todo o mal e muito se regozijariam com sua morte, não tanto pelo ódio que tinham à sua pessoa como pela inveja e gana que tinham de suas riquezas, as quais, segundo as crenças exageradas do vulgo, supunham ser dez vezes mais avultadas do que realmente o eram. Gil preferiria ver esses tesouros restituídos ao seio da terra, donde saíram, a entregá-los nas mãos ávidas de seus perseguidores.
Entretanto não via em torno de si um amigo, uma pessoa de confiança, em cujas mãos pudesse depositá-los. Maurício, Antônio e mesmo mestre Bueno, únicas pessoas a quem com segurança poderia confiá-los, andavam como ele foragidos e expostos aos mesmos azares e perseguições. Todos os outros seus patrícios, aos quais em último caso as entregaria, estavam nas mesmas condições. Depois de pensar algum tempo sobre o destino que lhes daria, tomou enfim uma deliberação que lhe pareceu excelente.
— Foi Irabussú que me deu estas riquezas — pensou ele —; e, segundo é crença geral, saíram da gruta onde ele morava, e mora ainda, segundo todas as aparências, se não é a alma dele que por lá anda aparecendo aos viventes. Vivo ou morto, ele deve zelar este ouro, que com tantos trabalhos e perigos soube alcançar para mim. Assim, pois, levemo-los de novo para lá; em nenhum lugar podem ficar tão bem escondidos e guardados como na própria mina donde saíram e debaixo das vistas daquele que as descobriu. Essa lapa, que nos tem até aqui abrigado da sanha de nossos perseguidores, também saberá resguardar nossas riquezas das garras de sua cobiça insaciável. Vamos! Gil formou um pacote de todo o ouro e joias que possuía, montou com ele a cavalo e partiu a trote largo para a gruta de Irabussú; seriam nove horas. Como costumava, tomou um caminho muito diferente daquele por onde marchava a coorte dos insurgentes. Sendo sua casa situada na extremidade oposta pelo lado do sul e em grande distância da quinta do capitão-mor, porém muito mais próxima da gruta, Gil tomou pelas colinas que dominam, pela margem esquerda, o vale do Rio das Mortes e, por um caminho mais curto e descampado, chegou à gruta. Enquanto para lá se dirigia, os insurgentes, escondendo sua marcha pelos grotões e vales cobertos de mato que acompanham o curso do rio, encaminhavam-se também com mais segurança e brevidade à casa do capitão-mor, que devia ser o primeiro e principal alvo de suas hostilidades.
Ao chegar à gruta, Gil ficou surpreendido de encontrá-la completamente abandonada. Não era possível que os insurgentes tivessem sido atacados e destroçados pelos emboabas; na gruta não havia nem o mínimo vestígio de combate: nem cadáveres, nem sangue; os fogos ainda estavam acesos, e nos objetos não se notava desordem alguma que fizesse suspeitar uma luta recente.
Mas não lhe foi mister refletir muito para atinar com o verdadeiro motivo daquele fenômeno. Logo compreendeu que a impaciência e a sofreguidão dos insurgentes, não achando quem as reprimisse, os levaram a antecipar o rompimento, sem esperarem por ele nem por Maurício, contra o qual talvez teriam surgido novas desconfianças. Este pensamento o encheu de inquietação, pois bem previa que aquele movimento sem direção, operado por uma horda ingovernável que só obedecia aos seus instintos ferozes e à sede de vingança, nenhuma probabilidade de feliz resultado podia oferecer.
Mas, como o mal estava feito e sem remédio, Gil, tomando um tição para alumiar seus passos, dirigiu-se aos mais escuros recôncavos da caverna, procurando um esconderijo onde depositasse o seu tesouro. Em uma espécie de corredor estreito e tortuoso, divisou um como nicho, cuja abertura não era grande, mas que parecia ter uma cavidade bastante profunda; por cima dele formava-se em relevo sobre o muro uma perfeita cruz de cintilantes estalactites; era um lugar bastantemente assinalado e com um sinal auspicioso. Estendendo bem os braços, que a custo podiam alcançar a altura do nicho, Gil aí atirou o pacote que continha suas riquezas. Depois, voltando-se para o interior da caverna:
— Irabussú — clamou em voz bem alta —, teu amigo Gil aqui vem entregar-te e confiar à tua guarda o tesouro que lhe deste. Se ainda és vivo, vigia-o bem, para que não caia em poder de nossos inimigos.
— Branco, vai-te em paz — mugiu uma voz pesada e lúgubre do fundo dos socavões.
— Ninguém tocará no teu ouro. Irabussú aqui fica para vigiá-lo. Vai-te, mas não me voltes aqui mais sem trazer a Irabussú sua filha Judaíba pela mão e o punhal tinto no sangue do emboaba.
O sangue gelou-se nas veias e os cabelos eriçaram-se de pavor ao mancebo, ouvindo, na medonha solidão daquela espelunca, os ecos sepulcrais dessa voz, que parecia falar das margens de um outro mundo. Sem mais ousar erguer a voz, apressou-se em sair da gruta e voltou a toda brida para a povoação pelo mesmo caminho por onde viera. Chegando em casa, ouviu os primeiros tiros e a vozeria e o estrondo do assalto dado à casa do capitão-mor. Largou o cavalo e para lá se dirigiu com a maior presteza que lhe foi possível. Já estando a entrar no pátio, viu Antônio, que do lado oposto vinha também correndo para o teatro do horroroso conflito.
— Que é de meu amo?
— Que é de Maurício?
Estas duas perguntas, que partiram ao mesmo tempo dos lábios de ambos, já continham em si a resposta; nenhum deles sabia de Maurício. Antônio, tendo-se separado da malta dos insurgentes, tinha ido em primeiro lugar rondar em torno da casa do capitão-mor, a ver se por qualquer meio obtinha notícias de Maurício; mas não avistou pessoa alguma, nem ouviu som de voz humana; todas as portas e janelas estavam trancadas, e tudo jazia em profundo silêncio. Dali dirigiu-se à casa de seu amo, que achou igualmente trancada e silenciosa. Pôs-se então a percorrer toda a povoação com a velocidade de um galgo, procurando por Maurício ou notícias dele. Cansava-se em vão nesta afanosa lida, quando ouviu os primeiros ruídos do assalto que começava; imaginou que Maurício também já talvez lá se achasse e, mesmo que não se achasse, a ele, Antônio, corria o dever de a todo transe defender Leonor contra a fúria dos insurgentes. Além do afeto e profunda veneração que o índio votava à jovem senhora, que sempre fora para ele um gênio protetor, um anjo de bondade, ele sabia que, defendendo Leonor, prestava a seu amo um serviço mais relevante do que se lhe tivesse salvado a própria vida e, portanto, sem hesitar um instante, correu para o lugar do perigo.
Encontrando-se com Gil, entraram ambos no pátio e viram na varanda, ao clarão do incêndio, a figura de Maurício, que, batendo-se em luta a mais desigual, estava prestes a sucumbir sob o número de seus agressores.
— É ele! É ele! — foram as únicas palavras que proferiram.
De um lance de olhos compreenderam que, se não lhe acudissem instantaneamente, Maurício impreterivelmente ia ser sacrificado. Batia-se este encantoado na extremidade da varanda, pelo lado da frente do edifício. Atravessar o pátio, subir a escada e prolongar a extensa varanda, entulhada de cadáveres, de gente fora de combate e de alguns combatentes feridos e destroçados, que se agitavam numa indizível confusão, mas que talvez quisessem opor-se à sua marcha, seria perder momentos preciosos. Achegaram-se rapidamente à varanda, cujo pavimento ficava elevado cerca de três metros acima do pátio, e foram colocar-se mesmo embaixo do lugar em que se combatia. Antônio encostou-se ao muro, e Gil, servindo-se dos ombros dele, escalou o peitoril e saltou dentro da varanda. Antônio, de um pulo de onça, atracou-se aos gradis e seguiu-o de perto.
Maurício, vendo surgirem como por encanto a seu lado aqueles dois valentes e dedicados amigos, únicos com quem poderia contar na cruel e difícil conjuntura em que se achava, criou alma nova e sentiu renascer em seu espírito a coragem e a esperança, e em seu braço todo o seu vigor e agilidade.
— Coragem, patrão! — exclamou Antônio, saltando dentro da varanda.
— Ocupe-se com esses — acrescentou, apontando para o lado de Fernando —, enquanto nós ficamos brincando cá com estes amigos.
Dizendo isto, ele e Gil, com a espada em uma das mãos e o punhal na outra, foram descarregando golpes desapiedados sobre os emboabas, que, a seu pesar, tiveram de recuar e abrir-lhes quadra para combater. Entretanto, Maurício, vendo-se livre destes, apertou com Fernando e um único companheiro que lhe restava ao lado; a este inutilizou desde logo com uma profunda cutilada no braço direito. Fernando bateu-se ainda por alguns instantes com o furor do desespero; mas, por fim, o paulista fez-lhe saltar a espada da mão, agarrou-o pelo punho e o obrigou a vergar-se de joelhos a seus pés.
— Não te mato, infame embusteiro — disse-lhe com voz rouca e abafada —, porque não quero manchar minhas mãos nesse sangue vil. Mereces morte mais afrontosa; um dia a terás...
— Larga-me, demônio — bradava o fidalgo, estorcendo-se e esforçando-se debalde por livrar-se da mão de ferro que lhe atracava o braço.
— Larga-me ou mata-me. Entretanto, uma turba de emboabas, vindos de pontos mais remotos, bem como as patrulhas que rondavam pelos arredores, acudiam de tropel por todos os lados em auxílio do capitão-mor, e alguns já entravam pelo pátio, gritando em brados furiosos:
— Morram!... Morram os paulistas! Morra Maurício!
Os paulistas que tinham escapado da carnagem, feridos, desanimados e extenuados de fadiga, debandavam-se por todos os lados, procurando a salvação na fuga.
Maurício viu com certo prazer travado de amargura que o capitão-mor e sua filha estavam salvos; ele, porém, estava perdido. Refletiu um instante e, no embate dos angustiados pensamentos que o torturavam, esteve a ponto de entregar o peito ao ferro do inimigo e terminar uma existência que dali em diante ia se lhe tornar mais que nunca insuportável. Repudiado pelos seus, que, iludidos pelas aparências, com razão o reputavam traidor; detestado pelos emboabas; execrado e amaldiçoado, como ia ser, por Diogo Mendes e por sua filha Leonor, cujo irmão acabava de sucumbir na ponta de sua espada, que mais lhe restava esperar neste mundo? Viver dali em diante era querer lutar contra a onipotência do destino que o perseguia; era tempo de morrer... Estes lúgubres pensamentos lhe atravessaram o espírito com a rapidez do relâmpago, mas também como o relâmpago, para logo se apagaram, cedendo o lugar a sentimentos mais cordatos e generosos.
Pensou que Deus não o havia salvado debalde, por intermédio de seus dois amigos, do iminente perigo que ainda há pouco ameaçava sua existência. Lembrou-se de Leonor, que talvez teria ainda necessidade de sua vida. Devia viver para ela e também não queria morrer sem o seu perdão. Cedendo a esta inspiração e vendo que se avizinhava o tropel dos emboabas:
— Gil! Antônio!... Salvem-se! — gritou a seus amigos.
— E tu, onde ficas? — perguntou Gil, o qual, bem como Antônio, jamais se resolveria a abandonar o amigo em meio de perigos.
— Por este lado — respondeu Maurício —, não tenho mais inimigo a combater. Por aqui mais facilmente me porei a salvo.
Tranquilizados com esta resposta, Gil e Antônio, rompendo por entre os emboabas, dos quais pelo menos metade já tinha caído a seus golpes, desceram aos pulos a escadaria, atravessaram o pátio com tal rapidez e sutileza que não puderam ser reconhecidos pelos que cruzavam aquele recinto em todos os sentidos, no meio de uma confusão indizível e geral consternação, e, saindo incolumes pelo portão, foram se postar em distância defronte do edifício; aí, protegidos pelas trevas, ficaram espreitando a saída de Maurício.
Este, voltando-se para Fernando, cujo braço tinha sempre apertado entre seus músculos de aço, alçando a espada, ia descarregá-la sobre a cabeça de seu perverso e pérfido rival; mas, vendo o inimigo inerme e abatido a seus pés, os magnânimos e cavalheirescos sentimentos de seu coração detiveram-lhe o braço.
— Fica-te, maldito! — disse, largando o braço de Fernando, que, ferido e quase exânime, lhe jazia aos pés.
— Tua vida me pertence, mas eu te emprazo para outra ocasião.
Disse e, entranhando-se pelo interior da casa, cujos compartimentos conhecia perfeitamente, dirigiu-se aos aposentos de Leonor.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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