Universo da obra
Universo da obra
Enquanto isto sucedia em casa do ferreiro, o capitão-mor, Leonor e Fernando achavam-se na varanda do grande pátio gozando tranquilamente o frescor e beleza daquela esplêndida noite de luar. Também Judaíba, a gentil carijó, ali se achava acocorada aos pés de sua jovem ama, a quem de dia em dia mais se afeiçoava, e com os olhos fitos nela já não parecia mais a ariranha selvática e arisca, mas sim a veadinha mansa, que segue todos os passos de sua dona, e lambe as mãos, que a afagam e alimentam.
— Falta-nos aqui Afonso; que é feito dele?
perguntou o capitão-mor.
— À tardinha saiu a cavalo — respondeu Fernando; — como o luar está bonito, anda a passear.
— Tenho notado, que de certos dias a esta parte o rapaz tem dado em muito passeador; não Maurício me deixa os cavalos sossegarem na estrebaria. Queira Deus não ande metido em cavalarias altas!...
— Não tenha receio, meu tio; Afonso é muito
cordato e até mesmo tímido. Não tenho medo, de que se meta em aventuras arriscadas.
— Não duvido; mas em uma povoação como
esta cheia de aventureiros audazes e turbulentos, um moço de sua idade e de sua qualidade a estas horas deve-se achar em casa. Não posso tolerar tais desmandos. Apenas o capitão-mor havia pronunciado estas palavras, entrava precipitadamente pelo portão do pátio um pequeno vulto embuçado em um capote, e subindo dois a dois os degraus da escadaria abre sem pedir licença a cancela da varan· da, e para esbaforido e arquejante em face do capitão-mor.
— O que é isto?... o que aconteceu?.. há alguma novidade? -
perguntaram a um tempo Diogo Mendes, Fernando e Leonor atônitos e sobressaltados; mas o Minhoto — pois era ele — que chegava pondo a alma pela boca, arquejava furiosamente e não podia desde logo satisfazer a ansiosa curiosidade dos interrogantes. Logo, que prorrompera o tumulto em casa do ferreiro, o abjeto e embusteiro emboaba, já com modo de que o barulho tomasse vulto e ele fosse vítima de alguma surra, já por desejo de fazer mal a Calixto, a quem não podia perdoar a decidida preferência, que lhe dava Helena, já por espírito de adulação querendo ser o primeiro a levar ao capitão-mor a denúncia da ofensa, de que seu filho fora vítima, esgueirou-se de entre os comparsas, e deitando-se a correr pelos estreitos trilhos desceu aceleradamente e aos trambolhões a serra do Lenheiro, e depois de levar bom número de quedas chegou enfim moído e estafado à casa do capitão-mor.
— Que temos de novo, senhor?... não nos
dirá enfim?... repetiu Fernando impacientado.
— Ufa!! -
bufou o Minhoto arquejando; — que caminhada!... estou a botar os bofes pela boca... mas enfim... como é para servir a vossas mercês... dou por bem empregado...
— O que há então!... fala de uma vez, homem...- Perdoem-me... não é nada menos que uma enorme desfeita,... que acabam de fazer... ao senhor seu filho.
— Uma desfeita!... a meu filho!...-
bradou o capitão-mor levantando-se exasperado.
— Oue está dizendo, senhor Minhoto!! isso é verdade!... Que te dizia eu há pouco, Fernando?... está vendo o resultado dos passeios?... mas diga já depressa, meu amigo — continuou voltando-se para o Minhoto — o que foi?... o que foi?... quem foi o atrevido?...
— Ah! meu Deus!... que terra de maldição!... murmuriou Leonor dentro d'alma.
— Nem um dia de sossego aqui se pode gozar.
— Que malvados, senhor capitão-mor — continuava o Minhoto.
— Mil forcas que houvessem...
— Deixemo-nos de exclamações. Quem foi, e
como foi isso? - atalhou Fernando.
— Foi em casa de mestre Bueno...
— Bom! -
refletiu Fernando.
— O rapaz afoutou-se enfim. O amor perdeu Troia...
— Ainda não há uma hora — continuou o Minhoto — o atrevido de um rapazola, que é ajudante do tal ferreiro, teve a petulância de levar as mãos à cara dele, à cara do senhor seu filho, entendeu, senhor capitão, e depois...
— Mentes, infame bafurinheiro! -
bradou uma voz de pessoa, que subia aceleradamente a escada da varanda. Era Afonso, que tinha chegado cautelosamente querendo recolher-se sem ser visto a fim de esconder sua afronta e meditar a vingança, que poderia tomar de seu ofensor. Mas o Minhoto o tinha antecipado alguns instantes, e o moço ouvindo do pátio a denúncia do embusteiro emboaba não pôde conter sua indignação. Todos olharam sobressaltados para a cancela, por onde Afonso entrava bruscamente.
— Meu pai — continuou o moço arrebatadamente — não acredite neste homem, que não quer mais do que prestar-lhe um serviço por meio de uma torpe delação. Não houve mais que uma simples altercação, e peço a meu pai, que se esqueça disso...
— Não, meu filho; — replicou gravemente o capitão-mor; — não posso e nem devo esquecer tão depressa. Dizes, que foi uma simples altercação; mas aqui o senhor, que presenciou a pendência, assevera, que foste ofendido. E depois após uma altercação virá outra, e após esta alguma coisa mais seria, e não serás respeitado, como deves ser neste lugar. Nada!... é preciso averiguar este negócio, e pôr cobro a que se não repitam mais. tais ocorrências. Fernando, manda vir já e já a minha presença todas as pessoas, que presenciaram o fato! Afonso e o senhor Minhoto devem bem saber, quais os que lá se achavam... Oh! Não, semelhante desaforo não pode ficar impune. O Minhoto ficara aturdido e como que embasbacado com o desplante enérgico, com que tão brusca e inesperadamente fora interrompido por Afonso; mas depois que ouviu o capitão-mor, e viu sua disposição, criou alma nova. É justo, é justo, senhor capitão-mor! - exclamou ele empertigando-se todo.
— Abra-se já uma devassa, e veremos quem fica mentiroso, com o respeito devido ao senhor seu filho... ele tem o coração bom demais... enfim, senhor capitão-mor, eu sei bem as pessoas, que lá se achavam, e...
— Basta, senhor! -
interrompeu o capitão-mor agastado.
— Eu sei bem o que devo fazer. Não há perder tempo, diga ao senhor Fernando os nomes das pessoas, que lá se achavam, para se darem as providências. Esta devassa, em que todos concordaram, e que Afonso em vão procurou obstar, vinha colocá-lo na mais triste e desairosa situação. O moço quereria a todo custo senão ocultar, ao menos atenuar a gravidade do desacato, de que fora vítima. Tinha gravado no coração o mais implacável ressentimento contra o seu agressor, e jurava dentro d'alma, que um dia havia desagravar-se, e tomar cabal vingança; mas, cavalheiro como era, não queria prevalecer-se da superioridade de sua posição, e tirar desforço por meio da autoridade, que seu pai exercia no lugar. Achava isto ignóbil, e contava vingar-se por suas próprias mãos. Mas a devassa, a que se ia proceder vinha burlar todos os seus planos e esperanças. Desesperado de raiva na impossibilidade de contestar, o que diriam as testemunhas, foi encerrar-se em seu quarto no firme propósito de não assistir à devassa. Daí a duas horas pouco mais ou menos achavam-se em presença do capitão-mor, além do Minhoto, Calixto, Helena, Bueno, Gil, e todos os mais paulistas, e emboabas, que tinham presenciado a pendência — umas dez ou doze pessoas — rodeadas de numerosos esbirros. A noite já ia
avançada, como bem pode calcular o leitor, e essa devassa a tais desoras tinha certo ar sinistro e inquisitorial. Interrogados por Fernando todos sem discrepância confirmaram o fato tal qual nós o deixamos narrado. Os paulistas porém procuravam atenuá-lo dizendo que Calixto apenas dera um leve empurrão em seu adversário a fim de impedi-lo de beijar a face de sua amante, e que se Afonso foi a terra, e ficou com o rosto pisado, foi por estar mal sentado no banco, em que se achava quase às escuras. Os emboabas pelo contrário procuravam inocentar a Afonso dizendo que não tinham visto coisa alguma, que pudesse dar motivo ao desacato praticado por Calixto. Toda essa divergência porém dos dois partidos desvanecia-se diante das declarações do indomável Calixto, que contestando a uns e a outros confessava franca e impavidamente toda a verdade. Por fim de contas ficava mais que averiguado, que Afonso fora vítima de um desacato público e aviltante, e que o autor desse desacato fora Calixto; atentado gravíssimo, contra o qual Fernando reclamou todo o rigor das leis.
— Podem todos retirar-se, que está bastantemente esclarecida a presente devassa — sentenciou gravemente o capitão-mor.
— Ficam porém em poder da justiça o autor do insulto, mestre Bueno e sua filha, para se proceder a ulteriores investigações a fim de se chegar ao conhecimento dos que foram ou não coniventes no crime de desacato contra a pessoa de meu filho, Calixto irá para o tronco, e os outros serão simplesmente conservados em prisão separada. E assim se fez. Era por esta forma rápida e sumaríssima, que se instruíam e sentenciavam os processos perante os capitães-mores sem apelação, nem agravo.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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