Universo da obra
Universo da obra
Enquanto estes fatos, de que viemos de dar conta, se passavam na povoação, sucessos não menos importantes se davam na gruta de Irabussú.
À hora em que Maurício era distraído violentamente de sua entrevista com Leonor pelos rumores do assassinato do Minhoto, os insurgentes, já reunidos em grande número, uns sentados em roda do fogo, outros movendo-se e conversando misteriosamente pelos recantos da caverna escassamente iluminados, esperavam com impaciência a vinda de Maurício e de Gil, seu chefe, que ainda não tinham aparecido.
Estendido sobre um grande pedaço de estalagmita a alguns passos da fogueira, fazendo travesseiro de um dos braços e com o rosto voltado para o fogo, Antônio dormia tranquila e profundamente. O clarão da fogueira iluminava-lhe as faces bronzeadas e os musculosos membros, que se desenhavam em linhas vivas e harmoniosas sobre a rocha branquicenta; dir-se-ia estátua de lavor admirável, moldada em bronze e servindo de ornato a um catafalco de mármore. Junto dele, um negro e um bugre, sentados no chão, um do lado dos pés, outro da cabeceira, o cotovelo firmado sobre a pedra que servia de leito ao prisioneiro e a cabeça encostada à palma da mão, formavam com Antônio o mais pitoresco e curioso grupo escultural. Estavam encarregados de guardar Antônio com a maior vigilância, a fim de estorvar-lhe qualquer tentativa de fuga. Se conhecessem bem o caboclo, se soubessem a que ponto chegava sua dedicação e lealdade e a confiança fanática que depositava em seu patrão, ter-se-iam forrado a tantas vigílias e precauções.
— Com mil diabos!... Que demora! — diziam os insurgentes impacientados.
— Isto ainda nos põe a perder; e, se nos acontecer algum transtorno, a culpa, já se sabe, é de Gil ou desse tal senhor Maurício, que só serve para nos atrapalhar. Não sei o que mais esperam.
— Com Maurício ninguém deve contar; a filha do capitão-mor o traz pelo beiço, e muito será que ele não nos entregue...
— Não digas isso!... Pois ele será capaz de deixar morrer esse pobre bugre, que por ele dá a cabeça?...
— Eu sei lá, homem!... O amor é mais forte que a amizade e, portanto, não é de admirar que ele cá não venha.
— Vem — afirmou um paulista no tom da mais firme convicção.
— Maurício é incapaz de uma traição; e, não vindo, ele seria duas vezes traidor: traidor à amizade, traidor a seus patrícios.
— E, vindo — replicou outro —, também será duas vezes traidor; atraiçoa a amizade do capitão-mor, que foi quem o fez gente, e o amor que tem à sua filha. Traição por traição, é bem possível que antes queira atraiçoar a nós.
— Com efeito!... Vejam em que talas está metido o pobre homem!... Não tem por onde se mexer...
— Talvez ache meio de safar-se sem trair a um nem a outros; não o julgo capaz de uma infâmia.
— Venha ou não venha, o certo é que não podemos contar com ele; mas o Gil... não sei por que tanto se demora... mas ei-lo que chega!... Ainda bem!... Já não nos falta tudo.
— Já não nos falta nada, deverias dizer.
De feito, Gil vinha entrando na gruta. Sua presença foi saudada com demonstrações de prazer e entusiasmo por aqueles infelizes, que suspiravam pelo momento de libertarem-se da bárbara opressão que os esmagava. Gil, vítima não menos perseguida e maltratada do que eles, jovem cheio de franqueza e lealdade, de altivez e resolução, inspirava-lhes a mais decidida confiança.
O primeiro cuidado de Gil foi perguntar por Maurício. Sabendo que ainda não era chegado, anuviou-se-lhe a fronte e tornou-se pensativo. Antes de sair do povoado para dirigir-se à gruta, tinha ido à casa de Maurício justamente ao tempo em que este galgava a serra do Lenheiro para dar aviso a Bueno e Calixto do que se passava. Gil, que ignorava ainda a terrível ocorrência dessa noite, não achando em casa o seu amigo, supôs mui naturalmente que já teria partido para a gruta e para lá botou-se também com toda a presteza. Pode-se imaginar qual não seria a sua inquietação e ansiedade, não o encontrando ali. Tinha plena e íntima convicção de que Maurício era incapaz de uma traição; mas a sua ausência incutia-lhe as mais graves apreensões, pensando em mil funestas eventualidades que poderiam motivar aquela falta. Não estando em casa, não se achando com Calixto ou Bueno, que ali estavam presentes, onde poderia ele achar-se? Não era possível ter-se transviado, ele que melhor que ninguém conhecia, não o caminho, que nenhum havia, mas a direção da gruta. Inquieto e altamente contrariado, Gil estava a ponto de sair de novo em procura do amigo; mas não o consentiram os companheiros, a quem o ar sombrio de Gil começava a inspirar graves desconfianças por conta de Maurício.
— Passamos bem sem ele — diziam —; um homem assim também, quando não seja um perigo, é sempre um estorvo em empresas desta ordem.
— E se nos atraiçoar? — dizia outro.
— Nunca o fará; eu o juro por minha alma — replicou Gil com vivacidade.
— E, se o fizer, tanto pior para ele; a vida lhe há de custar. Tenho pena é desse caboclo que ali está a dormir tão sossegado, coitado! E nem sabe quanto a cabeça lhe está mal segura sobre os ombros.
— É mais um penhor seguro — insistiu Gil — de que Maurício, mais tarde ou mais cedo, aqui se achará conosco, salvo se alguma fatalidade... O diálogo é neste momento interrompido pelo súbito e quase maravilhoso aparecimento de um vultozinho ligeiro, franzino e leve como um sagui, que saltou no meio deles como por encanto, sem se ver donde viera nem por onde havia entrado. Vinha extravagantemente trajado com roupa listrada de cores vivas e carapuça vermelha.
— Virgem santa!... Que é isto! — exclamavam, recuando espavoridos.
— É o capeta! Cruz!... Credo!... Ave-Maria!
E todos, aterrados, pensaram ver um duende ou o filho de Satanás em pessoa surgindo no meio deles.
— Não se assustem; sou eu — gritou o vulto, fazendo uma pirueta e dando uma gargalhada.
— Pois não conhecem o Tiago!...
— Fora! Fora este maroto! — bradaram alguns.
— Quem te chamou aqui, malandro?...
— Fora, não — replicaram outros.
— Acabemos com ele; se sair daqui, este patife é bem capaz de nos ir entregar.
Antes de prosseguirmos, digamos por que maneira o mameluco tinha vindo à gruta e quais suas intenções. Esse diabrete, que em tudo se metia imperceptivelmente como piolho por costuras, com o seu tino e perspicácia diabólica, tinha cismado, como já dissemos, que se tramava uma sublevação e comunicara a Fernando suas desconfianças. Instigado pela natural malvadeza e também pelas promessas do amo, assentou de seguir os vestígios da conspiração a fim de descobri-la a toda luz e entendeu que o verdadeiro meio para isso era procurar tomar parte nela. Uma vez conseguido isto, fácil lhe seria atraiçoar uma ou outra parte, ou a ambas. Como tinha cabimento em todas as casas, o velhaquete, assim como lisonjeava todas as paixões de seus amos, simulando por eles a mais submissa e afetuosa dedicação, entre os paulistas aplaudia-os e instigava-os em seus ressentimentos, mostrando-se um dos mais encarniçados inimigos dos emboabas, no que não mentia, pois o diabrete parecia odiar todo o gênero humano.
Para dar começo a seus planos, foi ter com mestre Bueno, com quem tinha relações antigas, e deu-se por sabedor de tudo. Com desmarcado atilamento e com instinto quase divinatório e, como se costuma dizer, plantando verde para colher maduro, mostrou que estava ao fato de quase tudo que se tramava.
Bueno, que conhecia o mameluco desde São Paulo e nunca se iludira a respeito de sua índole treda e perversa, ficou surpreendido e inquieto ao último ponto com as declarações do rapaz.
— E como soubeste disso tudo?...— perguntou-lhe com desconfiança.
O velhaquete deu-lhe a mesma resposta que já havia dado a Fernando:
— Tenho aqui um dedinho que me conta tudo. Mas não se assuste, meu velho; sou eu só, quem sei, eu só e mais ninguém, e juro-lhe que me arrancarão antes a língua do que uma só palavra a tal respeito.
— Olha que te matamos, se fizeres alguma tratantada!...
— Como hei de fazê-la, se eu quero também ser da partida e é para isso que o vim procurar?...
— Ah!... Tu queres ser dos nossos!... Hum! — resmungou o velho.
— Não sei!... Que mal te fizeram teus amos para seres contra eles?... Olha que os queremos matar a todos, um por um.
— Tal é também meu desejo; tenho sede do sangue dessa canalha. vossa mercê não faz ideia do quanto me fazem sofrer; se eu fosse lhe contar agora, seria um nunca acabar... Mais tarde lhe contarei tudo; mas diga-me, aceitam-me ou não? Olhem que posso ajudá-los mais do que ninguém.
— Disso estou eu certo; és o macaco mais ardiloso que conheço.
— Pois então?...
— Pois então... não sei o que te diga.
— Como não sabe?!... Não está tudo pronto?... Mais um companheiro, que mal faz?...
— Eu sei lá, rapaz; bem vejo que só a ferro é que se pode levar essa canalha, que nos quer pôr o pé no pescoço; mas, por ora, não sei de nada; vai-te com Deus!
— Não sabe!... Mas se eu lhe digo que sei de tudo.
— De que sabes, maldito?!...— bradou Bueno, perdendo a calma.
— Ora, de que sei!... Já não lhe disse?... Vocês, seja lá onde for, se ajuntam todas as noites, e decerto não é para nenhum folguedo. Se vossa mercê não quer ser da partida, eu cá hei de ser por força.
— Infame! — ia bradar o ferreiro com o punho fechado sobre a cabeça do mameluco; mas reportou-se a tempo, calou-se e ficou pensativo. Depois de refletir alguns instantes, convenceu-se de que não havia remédio senão admitir aquele novo adepto na sublevação que projetavam. Era um sócio perigoso, na verdade, mas como recusá-lo, se de tudo estava informado e tinha-se iniciado a si mesmo?... Tiago ficou, pois, inteirado da existência de um plano de revolta contra os emboabas, ou antes, suas suspeitas tornaram-se certeza; só lhe faltava saber o lugar onde se reuniam os insurgentes. Bueno não lho quis revelar, mas o matreiro caboclo jurou consigo que havia de descobri-lo. A poder de espionar fora de horas e de acompanhar, invisível como um silfo noturno, os vultos que via, na noite do mesmo dia em que estivera com Bueno, soube da existência e do caminho da caverna de Irabussú. No dia seguinte, lá foi de novo examiná-la melhor à luz do sol, por fora e em derredor, não ousando entrar por ter ouvido uns sons como de voz humana no interior. Depois, flanqueando o morro em cuja base se abre a gruta, galgou-lhe o tope; e, penetrando no mato que lhe cobre o cimo, aí examinou tudo com minucioso cuidado. Viu as frestas que se abriam na cúpula, notou as grossas raízes que árvores gigantescas embebiam pelas fendas dos rochedos e que, estendendo-se de alto a baixo pelo vão da abóbada como as cordagens de um navio, vinham cravar-se no chão úmido da gruta a beber o suco com que alimentavam, por cima de áridas rochas calcárias, a mais viçosa e robusta vegetação. Empoleirando-se em um friso dessas broncas claraboias que se abriam no cimo da cúpula e derramavam no interior uma frouxa luz crepuscular, agarrando-se às raízes e aos cipós e suspenso a vinte metros acima do chão, não sem grande perigo, pôde examinar a gruta e formar uma tal ou qual ideia de seu interior; e, o que mais é, pôde bruxulear e reconhecer naquela pavorosa penumbra alguns dos vultos que lá se achavam e ouvir-lhes as falas, pois falavam alto e bom som, na crença em que estavam de que era impossível que algum ser humano os pudesse ver ou ouvir.
Ali conservou-se largo tempo a espreitar e escutar; pelas conversas que ouviu, posto que mal e confusamente, e pelo que já sabia e desconfiava, ficou plenamente informado de todos os segredos da sublevação. Tinha conhecido perfeitamente não tanto a figura como a voz de Calixto, de Bueno e de outros paulistas, que, depois do assassinato do Minhoto, ali se conservavam noite e dia sem ousar voltar à povoação. Conheceu também Antônio e depreendeu de várias falas os motivos especiais por que Antônio ali se achava detido, a desconfiança que havia contra Maurício e várias outras particularidades. E assim ali ficou o perverso diabrete durante toda a tarde e um bom pedaço da noite, espiando e escutando para melhor inteirar-se de tudo, até o momento em que o vimos, escorregando por uma das raízes que se prendiam à cúpula da caverna, pular entre os insurgentes com toda a audácia e seguridade de quem tinha entre as mãos a sorte deles.
— Se soubessem o motivo que aqui me traz — respondeu ele às ameaças dos insurgentes —, em vez de me tocarem e quererem me matar, haviam de cair a meus pés, de joelhos, para me agradecer. Mas, se quiserem, matem-me, e verão o resto.
— Isto é um velhaco, um embusteiro de primeira força, que virá enredar-nos a nós todos. Nada de ouvi-lo; a melhor coisa que podemos fazer é enforcá-lo neste instante.
— Não, não — gritou Bueno —; melhor é deixarem-no falar; quem sabe o que será.
— Se me dão licença antes de me matarem, quero dar-lhes um aviso da maior importância.
— Qual é?... Qual é?...— perguntaram todos no auge da ansiedade.
— Pois saibam todos os que aqui se acham presentes que estão sendo atraiçoados — disse pausadamente o mameluco.
— Atraiçoados!... Tu mentes, mameluco!...
— É tão verdade como eu estar agora aqui — insistiu com firmeza o caboclo.
— O capitão-mor e Fernando, se ainda não sabem de tudo com certeza, pelo menos têm notícia deste levante e sabem muito bem quais são os cabeças.
— E qual será o denunciante?... Não sabes?... Qual o vil que nos atraiçoa?...
— Ora, quem é!... Pois ainda perguntam?!...
— Quem é?... Fala depressa, maldito!...
— Um que é carne e unha com aquele que ali está a dormir — respondeu o mameluco, apontando para Antônio, que, apesar de toda a algazarra, continuava a ressonar tranquilamente em cima de sua pedra.
— Mentes — bradou Gil —; Maurício nunca nos trairá!...
— Verão os que tiverem olhos para ver — respondeu com firmeza o mameluco.
— Morra o traidor!... Morra!...— vociferou uma multidão de vozes.
— Mas onde achá-lo agora?... Quem tem de pagar por ele é esse bugre que ali está a dormir. Bem feito!... Quem se sacrifica por um traidor é tão bom como ele.
— Pois morra o bugre!... Tão boa é a corda como a caçamba. Pague-nos o criado, enquanto não ajustamos contas com o patrão.
— Companheiro, acorda! — bradou um dos sinistros vultos que se achavam de sentinela a Antônio, sacudindo-lhe o braço.
— Que é isso lá, minha gente? — murmurou Antônio, erguendo-se sobre o cotovelo depois de esfregar os olhos e passeando em derredor de si as vistas turvadas pelos vapores do sono.
— Que é do patrão?... Não veio ainda?...
— Ainda não, e é por isso mesmo que te acordamos; mas é por pouco tempo, meu bugre, porque vais em breve pegar em um sono de que nunca mais acordarás.
— O que há de novo então, gente? — tornou Antônio a perguntar, já um pouco abalado com a vista de uma porção de facas e punhais que em torno dele se brandiam ameaçadores, entre imprecações e gritos de “morra!”...
— O que há de novo — replicou um, com uma das mãos agarrando-lhe o braço e tendo na outra alçado um punhal —, o que há de novo é que teu amigo nos atraiçoou, e é hora de morreres. Mas não te dê isso pena, porque te juramos que ele em breve se achará em tua companhia nas caldeiras de Satanás.
— Meu amo, traidor!... Quem lhes contou isso?...
— Ei-lo aqui!... Não conheces Tiago?...
— Tiago!... Oh! Se conheço; isso é o maior embusteiro e mentiroso que o sol cobre; já se sabe que é mentira.
— Olhem quem se atreve a desmentir-me!...— exclamou o mameluco, cada vez mais audacioso.
— Cala-te, bugre de uma figa; não sabes o que dizes... É mentira?!... E como é que eu, que não tenho mancomunado com nenhum de vocês, já sei de quase tudo?!... Não é verdade, mestre Bueno?...
— É verdade!... Infelizmente é verdade — respondeu o velho ferreiro com voz lúgubre e pesada.
— E alguém dos que aqui estão — continuou o mameluco — contou-me coisa alguma?... Respondam.
— Ninguém! Ninguém!... Eu não! Nem eu! Nem eu! — respondeu uma multidão de vozes.
— Então foi Maurício quem te contou?...
— Não, decerto, mas pior ainda; alguém que ouviu da boca dele e encarregou-me de espiar-vos; mas eu...
— Quem foi? Quem foi?... Fala de uma vez.
— Quem mais, senão o senhor Fernando!...
— Morra! Morra o traidor! — foi este o brado que retumbou horríssono pelas broncas abóbadas da caverna.
— É Antônio quem deve morrer — exclamou o índio, levantando-se calma e solenemente do seu leito de pedra —; e ele morre de coração alegre, porque morre por seu patrão. Mas, mesmo assim, com a morte diante dos olhos, Antônio jura por essa cruz de Cristo que Maurício não é traidor.
Dizendo isto, o índio beijava um pequeno crucifixo de prata que sempre trazia pendente ao pescoço.
Gil não podia ficar aquém da generosa dedicação do selvagem e, penetrado da mais íntima convicção, também jurou por sua cabeça que Maurício era incapaz de atraiçoá-los. Os outros, porém, à exceção de um pequeno número de paulistas que, conhecendo mais de perto Maurício, sabiam a que ponto chegava a nobreza e lealdade de seu coração, não puderam deixar de dar crédito aos veementes indícios e às fatais revelações que o condenavam. “Morram os traidores, tanto o escravo como o senhor!” era o grito que irrompia de quase todos os lábios.
— Matem-me — bradava Antônio, dominando com a voz toda aquela infernal celeuma.
— Matem-me, já disse; morro satisfeito por meu patrão; mas, antes de morrer, sempre lhes quero dar um derradeiro aviso. Não se fiem nesse perverso mameluco. Se não o querem matar, prendam-no, amarrem-no bem e não o deixem sair mais daqui. Quem desconfia de Maurício e de Antônio pode ter confiança nesse infame embusteiro que aí está?...
— Antônio fala com acerto — disse Bueno, folgando por achar um meio de livrarem-se daquela perigosa criaturinha que tanto o incomodava.
— Agarremos este velhaquete; eu bem o conheço. Embora seja verdade o que ele nos diz, não devemos nos fiar nele.
— Decerto, e o melhor meio de nos vermos livres dele é matá-lo, e já, antes que nos escape.
Quando, porém, todos o procuravam com os olhos, o veloz e esguio columim já se tinha esgueirado e sumido como uma sombra. Em vão o procuraram pelos recantos da caverna; não foi possível encontrar aquele silfo aéreo e veloz como o vento.
— Ah!... Mais um traidor que nos escapa — exclamou o negro que estava de sentinela a Antônio.
— Acabemos com este que aqui está, antes que também nos escorregue das mãos!...
— Morra! Morra! — responderam muitas vozes, e, ao mesmo tempo, alguns punhais fuzilaram sobre a cabeça de Antônio.
— É cedo ainda — gritou Gil, arrojando-se por entre a turba e, amparando Antônio com seu corpo, a fazia recuar com um gesto enérgico e imperioso.
— Daqui ao romper do dia temos muito tempo; esperemos ainda.
— Pois esperemos, meu branco — replicou o negro, acomodando-se —; esperemos; mas olhe bem — acrescentou, atirando ao fogo um grosso toro de lenha —, é só enquanto esse pau acaba de arder... Esse pau é a nossa paciência, que deve ter um fim. Se, quando ele ficar em borralho, Maurício não chega, Antônio morre.
— Pois seja assim — murmurou Gil.
— Seja assim — concordaram todos.
— Deixemos o tição arder — disse Antônio; e, recostando-se tranquilamente sobre seu leito de pedra, de novo adormeceu, enquanto todos, com ansiosa curiosidade, tinham os olhos fitos no tição, que se consumia crepitando com fatal celeridade.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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