Universo da obra
Universo da obra
Pavorosa e angustiada noite deviam passar os emboabas perdidos naquele antro medonho, mergulhados na mais impenetrável escuridão, e em companhia talvez somente de serpentes e panteras. Mas, visto que em nada lhes podemos valer, deixemo-los lá tateando às cegas, e amedrontando os ecos das cavernas solitárias com gemidos de angústia e urros de desespero, e vamos testemunhar a ansiosa inquietação que agitava os ânimos na povoação.
Depois de terem esperado em vão todo esse dia e a noite que se lhe seguiu, a volta do bugre e dos emboabas, o capitão-mor e Fernando deliberaram mandar grande número de cavaleiros cruzar o país em derredor, em todas as direções, à procura dos pobres emboabas, cuja demora já sumamente os inquietava. Por ordem do capitão-mor, todos os que tinham alguma cavalgadura, paulistas e emboabas, pajens e camaradas, saíram da povoação em grupos e derramaram-se pelos arredores. Debalde bateram campos e matos durante todo o dia; o sol já estava prestes a esconder-se no horizonte, e nem um só dos que compunham a malfadada expedição havia sido encontrado.
Fernando desesperava e andava como que corrido com o desastroso e miserando êxito de suas manobras.
O capitão-mor não se achava menos contrariado, porém consolava-se descarregando sobre Fernando toda a responsabilidade daquela malfadada tentativa.
— Não há dúvida, Fernando — dizia Diogo Mendes —; aquele bugre diabólico pregou-nos uma formidável embaçadela.
— Embaçadela que lhe há de custar bem cara, senhor meu tio — replicou com azedume o jovem fidalgo.
— Não pense vossas mercês que eu sou algum minhoto. Eu cá, por tão pouco, não perco as esperanças. Que a mina existe, não há dúvida; a prova real e palpável nós a temos nesse ouro que, como eles mesmos confessaram, de um dia para outro enriqueceu um pobretão. E, se ela existe, salvo o caso de se achar escondida nos abismos do inferno, há de ser descoberta.
— Às vezes isso é difícil, e até mesmo impossível. Os grandes tesouros nunca aparecem a quem os procura, e mostram-se por um feliz acaso a quem com eles nem sonhava. Devemos nos dar por felizes se os nossos homens não forem vítimas daquele maldito bruxo e da nossa imprudência e facilidade; pois é preciso convir, Fernando, que bem mal andamos nós em expô-los assim por esses desertos à disposição de um velho bugre matreiro.
— À disposição dele!... Não diga tal, senhor!... Ele é que ia à disposição de nossos homens, e nada havia a recear. Pois seis homens moços, robustos e bem armados não tinham nada que temer de um pobre velho desarmado...
— Mas astuto e matreiro como cem mil diabos. Cedo ou tarde havemos de saber o que houve, e então comigo terás de arrepender-te, porém tarde, do imprudente passo que demos inutilmente.
— Tudo pode ser, mas o velhaco do bugre, se também não se soverteu pelas entranhas da terra, há de receber o castigo que merece.
— Não tenhas esse cuidado; naquele, segundo creio, não havemos de pôr mais as vistas.
— Embora!... Aí estão a filha e o patrão; com esses me entenderei. É impossível que não saibam dar ao menos uma ligeira indicação do rumo em que existe a mina. Eu os forçarei a desembuchar o que souberem.
— Faze o que entenderes, Fernando; mas não sacrifiques mais inutilmente os nossos bons patrícios.
— Poupá-los-ei quanto puder, senhor, se bem que entenda que algumas arrobas de ouro valem bem o sacrifício de algumas vidas.
Também Maurício e Gil esperavam desde pela manhã, com não menos ansiedade, o resultado daquela singular expedição. Estavam em casa de Maurício, espreitando ora por uma, ora por outra janela, todas as avenidas que podiam devassar com as vistas.
Quando viram passar o dia e a noite sem que houvesse a menor notícia do bugre e seus companheiros, suas apreensões subiram de ponto.
— Que demora inexplicável! — dizia Maurício.
— Dar-se-á caso que os emboabas tenham dado cabo do bugre?...
— Para quê? — replicou Gil.
— Mais fácil é o bugre ter dado cabo deles. Aquele velho tem manhas e astúcias que nem o diabo. Às vezes, eu mesmo chego a acreditar que ele é realmente feiticeiro ou traz o diabo na mala.
— Mas Irabussú comprometeu-se a ir mostrar a mina por amor da filha; supões que seja capaz de abandoná-la a seus algozes?...
— Oh! Lá isso não!... Entretanto, os emboabas também receberam ordem terminante de não fazerem mal nenhum ao bugre. Se não há razão para crer que Irabussú acabasse com eles por qualquer modo, também não se pode supor que fosse vítima deles. Enfim, meu amigo, não sei o que pensar, nem como explicar esta demora, e estou aflito por ver em que dá tudo isto.
— E quem sabe, Gil?... Às vezes me vem à ideia que aqueles perros, logo que lhes foi mostrada a mina, acabaram com o pobre velho e...
— E o quê? — interrompeu Gil.
— O que lucravam eles com isso?...
— E lá ficaram explorando a mina às escondidas, o mesmo que fazia Irabussú.
— E depois?...
— E depois, quando tiverem colhido quanto ouro puderem carregar, pôr-se-ão ao fresco e fugirão para bem longe.
— Ah! ah! ah! — replicou Gil, rindo-se.
— Pois acreditas que aqueles poltrões sejam capazes de semelhante empresa, eles que não têm ânimo de ficar nem uma noite no mato e têm medo de bruxas e almas do outro mundo? O que está me parecendo é que eles lá ficaram mortos de puro medo. Enfim, só o teu Antônio poderá vir nos tirar de tantas dúvidas.
— É verdade; e ele mesmo já está nos tardando bastante.
— Olha, Maurício; lá vejo um vulto a pé, que vem descendo por aquele caminho... Estás vendo?... Quem sabe se é ele?...
— Onde?... Ah! Já vejo... Não é outro; é ele, é Antônio.
— Estás bem certo?...
— Que dúvida!... Eu conheço o meu índio a léguas.
— Bom! — disse Gil, saindo da janela e indo sentar-se, cheio de satisfação.
— Enfim vamos ter alguma informação. Se o bom do bugre ainda desta vez burla aqueles tratantes, estou meio vingado.
Eram nove horas da manhã; a população toda agitava-se em viva e curiosa expectativa; o desenlace daquele negócio interessava a muitos e preocupava a todos. Os batedores do capitão-mor já há muito se achavam em campo à procura dos perdidos, quando Antônio entrou na povoação. Como todos o supunham indiferente e até estranho às ocorrências que se davam, atravessou quase despercebido por entre muitos grupos e entrou em casa de Maurício, onde os dois jovens paulistas o esperavam com impaciência. Vinha esbaforido e estafado de vigília, fome e cansaço.
— Ufa!...— exclamou ele, deixando-se cair sobre um tamborete, apenas entrou no quarto de Maurício.
— Ufa!... Quando eu, que estou acostumado desde criança a rondar por esses matos, estou assim... façam ideia do que será daqueles pobres diabos... Aquele tio Irabussú com efeito tem o demônio nas tripas... Ufa!...
— Pobre Antônio — disse Maurício —, toma um gole de vinho e descansa um pouco para nos contares o que viste.
Maurício foi a um armário e trouxe a Antônio um copo de vinho e uma broa de milho. Este foi comendo, bebendo e contando ao mesmo tempo.
— Custou-me muita canseira, patrão — foi ele dizendo entre uma dentada à broa e um beijo ao copo —, mas o que posso afiançar é que descobri a melgueira; não é só Irabussú que é descobridor de mel.
— Deveras!... Descobriste, Antônio?...— exclamaram os dois moços.
— Por Deus, que nos está ouvindo?... E agora, quer Irabussú volte, quer não... E que é deles!... Ainda não vieram? — perguntou o índio, interrompendo-se bruscamente.
— Até agora ainda não, Antônio, nem notícia.
— Melhor!... Melhor!... Deus permita que nunca mais apareçam!
— Por que dizes isso, Antônio?...
— Porque então só eu ficarei sabendo da melgueira...
— Oh!... Na verdade...
— E nem que me matem, não hei de mostrá-la a emboaba nenhum...
— Está bem, Antônio — interrompeu Maurício —; mas primeiro conta-nos como foi isso; estou impaciente por saber o que lá viste.
— Eu já lhe falo — respondeu Antônio, engolindo o último bocado.
— Ao sair daqui, caí logo no rasto da gente, que eu ia farejando; e os fui acompanhando sempre à distância — já se sabe — e escondendo-me sempre o mais que podia. O tal meu parente é velhaco como um jacaré velho; andou com aquela pobre gente dando voltas à toa, à toa aí por esses matos. Quando eu cuidava que eles iam por aqui, já eles tinham tomado outro rumo muito diferente. Para poder varar mato, foram largando os cavalos pelo caminho. Vi-me zonzo com tantas voltas; mas ia tomando o rasto com todo cuidado e, às vezes, ouvia a fala deles. Fui andando atrás deles, escutando aqui, rastejando acolá, farejando mais adiante...
— Que dizes? — atalhou Gil.
— Pois também tem faro como cachorro?...
— Como não?... Bugre conhece no ar a catinga de sua gente... Mas, como ia dizendo, fui andando, fui andando atrás deles o dia inteiro. O sol já estava quase some, não some, quando eles desceram para uma baixada que fica à beira de um ribeirão. Era aí que estava a coisa...
— Que coisa?... A mina?...
— A mina, sim, senhor; é uma toca muito funda; eu já sabia dela, mas nunca me passou pela cabeça que ali houvesse ouro. É um ninho de onças; essas bichas muitas vezes me têm levado até lá. É um buraco que a gente entra por ele adentro, e nunca mais acha fundo.
— E eles entraram?...
— Entraram, e até eu vir-me embora ainda não tinham saído. Empoleirei-me sutilmente em cima de uma pedra escondida no mato e estive espiando tudo. Era à boca da noite; fizeram fogo, Irabussú acendeu umas taquaras e sumiu-se com eles pela furna adentro. Fiquei ali a noite inteira sem pregar olho, esperando que saíssem. Pouco depois que entraram, ouvi um estrondo que me pareceu um tiro que deram lá dentro, e pareceu-me também ouvir uns gritos; mas depois ficou tudo quieto e calado, e ninguém mais apareceu. É verdade que, lá pela madrugada, o sono me furtou e dormi um bocadinho com a cabeça encostada a um pau; mas eles não saíram, porque, apenas rompeu o dia, fui ver a entrada da furna e não vi rasto de quem saía. Eu estava morto de fome e de cansaço; vim-me embora. Também já sabia onde era a mina, e pouco me importava que o diabo levasse toda aquela gente.
— Mas Irabussú, Antônio? — perguntou Gil.
— Que será feito dele? Disseste que ouviste um tiro.
— Irabussú?! Oh! Esse não tem perigo; o que eu não sei é que fim terão levado os pobres emboabas.
— O diabo que os consuma!... Mas conta-me, Antônio, como é isso? Vocês levaram ontem o dia inteiro a chegar à tal furna, e como é que tu, saindo de lá hoje depois que amanheceu, chegas aqui tão cedo?...
— Ora, como!... Pois eu já não disse que o velhaco do bugre velho andou dando voltas à toa para embaçar os emboabas?... Eu mesmo, se não fosse traquejado, como sou, em toda esta redondeza, não sei como me havia de arranjar para voltar. Mas daqui lá terá pouco mais de légua.
— Pelo que vejo, Antônio, temos agora em nossas mãos a chave da prodigiosa mina de Irabussú!... Se ele e os emboabas que o acompanharam não aparecerem mais, nós que aqui estamos seremos os únicos depositários do segredo. Decididamente, Maurício, Deus não quer que esse ouro caia nas mãos de nossos perseguidores.
— Quem sabe, Gil?... eles podem ainda chegar; esperemos ainda; parece-me impossível que nenhum deles volte.
— Eu cá para mim, — acudiu Antônio, — penso que nunca mais hão de sair daquele buraco onde se enterraram em vida. O que me dá cuidado, — acrescentou suspirando, — é não saber o que será da pobre Judaíba.
— O que poderão fazer com ela!...— disse Maurício; — seria o último requinte da perversidade maltratar uma pobre criança que de nada tem culpa.
— Mas lembra-te, Maurício, — considerou Gil, — que ela ficou como penhor do desempenho da palavra de Irabussú; eles não largarão mais mão dela.
— Hão de largar, porque agora Antônio tem em suas mãos o meio seguro de resgatá-la.
— Eu, patrão? Qual é?
— Pois não tem o segredo da mina!
— Ah! meu branco, isso nunca! Antônio nunca há de entregar aos emboabas o ouro que Irabussú deu a Gil.
— Esse ouro não era meu, Antônio; — retorquiu Gil; — era de Irabussú; se não fosse Irabussú ninguém saberia dele, a ninguém aproveitaria. Se Irabussú morreu ou desapareceu, Judaíba é sua herdeira, e foi Deus, Antônio, que guiou teus passos para confiar-te o segredo do lugar onde existe essa mina, a fim de salvá-la das garras de seus opressores.
— O que Gil diz é verdade, Antônio, — acrescentou Maurício.
— Entretanto amanhã ou depois, quando não houver mais esperança da volta de Irabussú nem dos emboabas, eu irei ter com o capitão-mor e rogar-lhe que ponha em liberdade a tua Judaíba. Sei que aquele malvado Fernando há de se opor a isso com todas as forças; mas conto com um auxílio muito poderoso em favor dela; conto com D. Leonor. Leonor é um anjo de bondade e não há de permitir que uma pobre criança asilada em sua casa sofra maus-tratos. Nós já vimos o exemplo, e portanto por esse lado fica sossegado, meu Antônio. Entretanto, se por esses meios nada conseguirmos, não deves hesitar um só momento em mostrar a mina aos emboabas.
Antônio calou-se, abaixou tristemente a cabeça, e retirou-se a passos lentos.
— Ah! meu Deus! meu Deus! — ia ele murmurando; — se eles me roubam Judaíba, eu não serei mais Antônio, não; serei o jaguar, que hei de rasgar o coração e beber o sangue desses malditos. Esperou-se em vão ainda todo esse dia pela chegada de Irabussú com os emboabas. Os batedores, depois de terem andado todo o dia a correr montes e vales, brenhas e campinas vinham voltando desanimados sem trazerem a mínima nova dos perdidos. Era já sol posto quando chegou a última partida composta de três cavaleiros. Estes sim, traziam alguma coisa de novo: um deles conduzia um homem na garupa, mas que homem! Com as roupas e as carnes rasgadas e ensanguentadas, lívido e desfigurado parecia antes um cadáver, e era com custo que o seu condutor podia sustê-lo sobre as ancas do cavalo. Os membros pendiam-lhe inertes, e tinha os olhos baços e desvairados como os do epiléptico; parecia em estado de absoluto idiotismo.
Apearam-se no pátio, e o homem da garupa, tendo descido com dificuldade subiu quase carregado a peso para a varanda, onde o capitão-mor, Fernando, Afonso e várias outras pessoas acudiram pressurosos para vê-lo e interrogá-lo. Causou geral espanto e consternação o aspecto daquele homem que ainda na véspera saíra corado, vigoroso e animado, e em menos de dois dias se tornara como um cadáver ambulante. Foi a muito custo e a poder de muito interrogar que puderam obter dele alguns vagos e obscuros esclarecimentos sobre o que havia ocorrido. O homem tinha as ideias desordenadas, e o seu estado moral não estava menos transtornado do que o físico.
Além do que já sabemos coligiu-se das palavras vagas e desconexas do emboaba que, apenas apagou-se o facho e Irabussú os abandonou, os seus guardas perdidos nas trevas começaram a revolver-se por todos os lados entre as sinuosidades da gruta procurando a esmo e às apalpadelas uma saída qualquer. Era um horror pior que o dos túmulos; além da profunda escuridão, que os rodeava, temiam a cada momento serem vítimas de onças e serpentes de que sabiam estarem povoados aqueles antros medonhos, ou de escorregarem e serem engolidos por algum dos abismos insondáveis que tinham visto por aqueles socavões. Esbarrando a cada passo nos pilares de estalagmites, batendo com a fronte nas estalactites pontiagudas, que pendiam do teto, foram-se enredando e desorientando cada vez mais no intrincado labirinto de grutas. Por fim viu-se ele inteiramente segregado de seus companheiros; ouvia-lhes as falas, porém nunca mais lhe foi possível reunir-se a eles no meio daquele dédalo de compartimentos semelhantes às células de uma colmeia. Depois de muitas voltas e por um feliz acaso lobrigou finalmente uma escassa claridade; a sua boa estrela o guiara para o lado da entrada. Chegara ao grande salão de estalactites, que já descrevemos; a luz do céu entrava ali por largas fendas abertas na cúpula, que a luz fumacenta do facho não tinha deixado perceber quando entraram. O infeliz sentiu indefinível prazer ao ver por entre elas uma ou outra estrela sorrindo-se no céu límpido e profundo. A débil claridade que a noite sem luar por ali enfiava a furto, foi para aquele homem surgido do seio da mais impenetrável escuridão um dia radiante, uma aurora cheia de fulgores. Gritou por seus companheiros e esperou-os ali por algum tempo; estes, porém, nunca puderam atinar com um caminho, que os levasse ao ponto em que se achava, e pareceu-lhe que em vez de aproximarem-se iam cada vez se afastando mais; os ecos de sua voz refrangindo-se de cavidade em cavidade produziam estranha ilusão, que cada vez os desorientava mais.
Sem esperança de encontrá-los mais e aflito por se ver fora daquela fatal espelunca, não teve remédio senão abandoná-los à sua sorte. Fácil lhe foi então achar a saída da caverna.
Devia ser meia-noite quando depois de longas horas de treva sepulcral, de horrores e agonias saudou a luz ampla do firmamento e aspirou a largos tragos as livres auras do céu. Vagou a ermo o resto da noite e o dia que se lhe seguiu sem saber que rumo levava, até que por fortuna foi encontrado pelos cavaleiros que o trouxeram.
Perguntando-se-lhe se ele sabia indicar o rumo em que ficava a gruta, e se não lhe seria possível achá-la outra vez, respondeu que a esse respeito estava, como se lá fora com os olhos tapados, ou como se lá nunca tivesse ido; não sabia dizer se a gruta achava-se ao sul ou ao norte, a oriente ou poente; só se lembrava que era muito longe, a algumas oito ou dez léguas da povoação.
Eis o que a muito custo puderam inferir da exposição obscura e truncada do emboaba, cujo espírito alucinado parecia estar ainda debaixo do império do mais vivo terror, como quem ia acordando de um sinistro pesadelo. Mas foi quanto bastou para abater completamente o espírito do capitão-mor e encher de cólera e azedume o coração de Fernando.
— Esta mina que não quer produzir ouro, — refletia ele consigo, — queira Deus não tenha de produzir ainda muitas lágrimas, e mesmo sangue. Não se me burla assim impunemente!... Na noite desse mesmo dia o Minhoto reunia em sua casa alguns amigos mais do peito e esvaziava com eles bom número de garrafas de vinho velho em aplauso ao malogro das esperanças de Fernando.
Se não pôde conseguir a mina para si, o avaro e invejoso mineiro teve ao menos o prazer de ver que Gil a perdera para sempre, e Fernando nunca mais a poderia achar.
Portanto entre chufas e pilhérias faziam repetidas libações à saúde de Irabussú, o rei dos feiticeiros.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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