Universo da obra
Universo da obra
Mostrou-se o capitão-mor mui satisfeito com tudo quanto fizera Maurício, o qual, em verdade, lhe havia preparado uma vivenda a mais cômoda e agradável que o tempo de que dispunha e as circunstâncias do país permitiam. Além de outros acessórios que tornavam sumamente aprazível aquela habitação, Maurício tinha tido o cuidado de construir, do lado oposto à grande varanda de entrada que já conhecemos, um pequeno e formoso terraço de alvenaria, guarnecido de grandes vasos de barro para flores.
Desse terraço avistavam-se as lezírias e várzeas por onde corre o Rio das Mortes, e, aqui e ali, o veio do rio brilhando ao sol como a escama cintilante da jiboia que se esgueira por entre as moitas.
Embaixo do terraço estendia-se um bonito jardinzinho já todo coberto de flores. Maurício, que andava mostrando ao capitão-mor e à sua filha, um por um, todos os cômodos e compartimentos da casa, demorou-se com certa complacência no terraço. Leonor adivinhou o pensamento íntimo, antes o sentimento delicado, que tinha inspirado o mancebo na construção daquele gracioso acessório. Agradeceu-lhe com um olhar e com um leve sorriso que o capitão-mor não viu e que Maurício compreendeu perfeitamente, pois lhe penetraram até o íntimo da alma.
— A vista que daqui se goza — disse Maurício respeitosamente — talvez faça a senhora D. Leonor lembrar-se de São Paulo, das margens do Tietê e dos passeios e brinquedos de... O moço ia dizendo “de nossa”, mas reportou-se e concluiu: “de sua infância”.
— É verdade — suspirou Leonor —, não deixa de ter certos longes de parecença... Neste ponto compareceram no terraço Fernando e Afonso, que também andavam examinando a casa por todos os cantos. Maurício, que já votava ódio de morte ao primeiro e antipatia profunda ao segundo destes cavalheiros, tratou de ir-se retirando polidamente.
Passados alguns dias, durante os quais nenhum incidente ocorreu digno de menção, o capitão-mor, que era em extremo apaixonado pelas caçadas, ordenou uma grande correria de veados, antas, pacas, enfim, de tudo o que desse e viesse, pelas faldas da serra de São José, que diziam ser muito farta de caça de toda a qualidade.
No dia aprazado, ao romper d’alva, já se achava reunida no grande pátio toda a cavalgata que devia tomar parte na caçada.
Era uma caçada à fidalga que o capitão-mor queria, com certa regularidade e aparato, assim à guisa das grandes montarias a que tinha assistido em sua terra. Pretendia por essa forma ostentar-se aos olhos do povo que vinha governar, julgando ser esse um dos meios de fazer respeitar o seu poder e autoridade.
Além disso, como valente guerreiro daqueles bons tempos, compraziam-lhe todos os exercícios e divertimentos fragueiros e aventurosos, uma vez que neles reinasse certa ordem e disciplina. Mas foi em vão que ele e seus monteiros se esforçaram por manter alguma regularidade na disposição e marcha da turba dos caçadores.
Eram mais de quarenta cavaleiros, emboabas e paulistas, fora alguns índios, camaradas e escravos, uns a pé, outros montados, conduzindo provisões, armas e cães de seus senhores ou patrões. Era indizível a algazarra e o alvoroço que reinavam no pátio apinhado de homens, cães e cavalos. Os caçadores berrando, altercando, chamando os cães com gritos e assobios, escorvando suas armas; os cães, em número extraordinário, açulados pelos tiros, a ladrarem e ganirem desesperadamente; os cavalos relinchando e dando patadas faziam um alarido infernal.
No meio dessa balbúrdia e confusão, onde ninguém se entendia, como era possível introduzir ordem e disciplina?
À exceção do capitão-mor, Fernando e mais alguns poucos portugueses de melhor condição, que já tinham visto as caçadas europeias, a maior parte dos emboabas eram aldeões vindos havia pouco de Portugal, que nunca em dias de sua vida haviam caçado nem lá nem cá. Os paulistas e alguns forasteiros de outras capitanias eram, em geral, caçadores adestrados, mas à moda americana, e nada compreendiam da disciplina e etiqueta que o capitão-mor queria que se guardasse; caçadores rudes e incansáveis das montanhas e das florestas virgens, e não de préstitos aristocráticos.
No meio da confusão de pessoas e animais que inundavam o pátio, uma coisa havia que causava bastante estranheza aos circunstantes, e maior causará talvez ao leitor, porque ela não está nem nunca esteve em nossos usos. Era um lindo e garboso cavalo negro, um verdadeiro palafrém, com ricos e elegantes jaezes próprios para senhora, seguro pela rédea por engraçado pagenzinho negro todo agaloado.
Isto, em uma caçada pelas broncas e selváticas regiões da América, em um sertão apenas descoberto, era de feito caso para causar expectação e surpresa.
Quem seria a Diana ousada e aventureira? Que amazona gentil iria cavalgar o elegante ginete?
Era, sem mais nem menos, a jovem e formosa filha de Diogo Mendes; era Leonor!... Tinha ela forte predileção pelo exercício da caça, mania talvez herdada do pai. Já em sua terra natal tinha assistido com ele a algumas corridas de veado nas belas planícies de Piratininga. Vendo, portanto, os aprestos extraordinários daquela grande caçada, seu coração bateu de entusiasmo. Instou com o pai para que consentisse que ela também tomasse parte na caçada, não só para assistir a um divertimento de que tanto gostava, como para ver o país em derredor, que tinha muita vontade de conhecer.
— Minha Leonor — diz-lhe o pai —, pensas porventura que as caçadas por aqui são como aquelas em que estiveste nas campinas abertas e planas de Piratininga? Aquilo lá era um brinquedo; mas aqui temos de nos enfiar por meio de brenhas e lugares escabrosos e desconhecidos; isso não é para ti.
— Não é por quê, meu pai? — atalhou com vivacidade a moça.
— Pois quem viajou de São Paulo até aqui, com os trabalhos e perigos que meu pai bem sabe, pode mais ter medo de brenhas, barrancos, nem montanhas?...
— Mas em viagem, minha filha, caminha-se pausadamente e tem-se tempo de escolher caminho, e na caçada é preciso galopar...
— E porventura tenho eu medo de galopar?
— Sei que cavalgas admiravelmente; mas galopar por meio dessas matas e barranceiras, minha filha!... Oh! Não serei eu que o consinta.
— Não é preciso que me meta nesses perigos...
— Mas onde ficarás então? Sozinha, enquanto os caçadores se embrenham?...
— Ora, meu pai!... Ficarei em companhia de Afonso, do Sr. Maurício e de... mais alguém. Estou certa de que não se recusarão... Aqui a moça perturbou-se e corou; nomeando Maurício e não querendo falar em Fernando, viu que involuntariamente havia traído o segredo de seu coração. Mas o capitão-mor nem disso deu fé, de preocupado que andava com a sua grande caçada, e mesmo porque os olhos do pai não são tão perspicazes como os do amante. Ah! Se Fernando tivesse ouvido aquele colóquio!
— Eu sei, minha filha! — responde o pai, hesitando.
— Tenho medo...
— Medo de quê, meu pai? Mais medo tenho eu de ficar aqui sozinha neste casarão, apenas com alguns escravos, no meio de uma povoação onde, creia-me, meu pai, há alguns perversos que nos querem mal. Antes nas brenhas a seu lado e junto dos nossos do que aqui sozinha.
— Não tenhas susto... Mas, enfim, quero fazer-te a vontade, minha filha. Demais, vejo que, no meio de tão boa gente que nos acompanha, nenhum risco podes correr.
Além disso, o velho refletiu consigo que a companhia da menina contribuiria para dar maior realce e esplendor àquela caçada festival e lhe comunicaria certos ares das montarias dos antigos castelões de sua terra.
Estando tudo e todos prontos, o capitão-mor com sua filha, seguidos de Afonso e Fernando, apresentaram-se na varanda.
— Toca a montar a cavalo! — bradou o capitão-mor, debruçando-se sobre o parapeito.
E, saindo com sua filha ao lado pela cancela que Fernando abrira com toda a cortesia, foi descendo com ela vagarosamente a escada, parando de degrau em degrau para dar algumas ordens de que se havia esquecido. De repente, uma espantosa assuada de vaias e apupos veio-lhe ferir os ouvidos.
— Olhem o Minhoto! Ah! Ah! Ah!
— Lá caiu o Minhoto! Ó lé!
— Vejam que triste figura! Chiii!
— Olha a peruca!... Lá ficou no chão!
— O diabo montou de uma banda e caiu da outra... Ah! Ai!... Estas surriadas e outras muitas partiam de uma multidão de bocas quase ao mesmo tempo.
O capitão-mor olhou para o pátio; a princípio ficou surpreendido, depois indignado com a cena que viu e que vinha perturbar de modo tão cômico a gravidade de sua nobre caçada.
O caso é este.
Os paulistas, como excelentes cavaleiros que eram e são até hoje, à voz do capitão-mor, montaram a cavalo com toda a agilidade. Os emboabas, porém, dos quais uns raras vezes e outros nunca haviam montado a cavalo, viram-se bastante embaraçados naquele tumulto e deram aos paulistas, que os contemplavam, o mais risível espetáculo que se pode imaginar.
Um aqui quer montar pelo lado direito; o animal, que não está acostumado a isso, afasta-se, negando o estribo, e o traz por muito tempo atrapalhado.
Outro, que não soube apertar bem as cilhas, lá escorrega no chão com a sela, tendo levado desta um furioso sopapo no queixo.
Outro, mais adiante, monta sem se lembrar das rédeas, e lá vai o cavalo desgovernado, arrastando-as pelo chão e levando para onde quer o cavaleiro.
Outro lá enfia no estribo o pé direito e, quando dá fé de si, acha-se montado a cavalo com a cara para trás.
Quem souber que as bandeiras que varejavam e povoavam nossos sertões, à exceção de alguns chefes, viajavam a pé, e que na Europa as classes baixas não sabem o que é cavalgar, não estranhará que a maior parte dos emboabas que se achavam no pátio do capitão-mor não soubessem absolutamente montar a cavalo e representassem as cenas cômicas que acabamos de desenhar.
Os paulistas estouravam com vontade de rir; mas, em respeito ao capitão-mor e com medo de provocar alguma estralada, continham-se o mais que podiam, contentando-se em soltar alguns motejos em voz baixa, cochichando entre si e rindo-se à sorrelfa. Quando foi, porém, da vez do Minhoto, não puderam mais conter-se; as vaias e surriadas romperam com irresistível explosão.
Antes de contar como o caso foi, é bom saber quem era o Minhoto.
Davam-lhe este nome os seus patrícios por ser o único da terra do Minho que andava entre eles. Era um português de meia-idade, corpo grosso e baixo, pernas demasiadamente curtas em relação ao tronco, enorme carão pálido e comprido; como era de todo pelado, usava uma peruca muito mal arranjada, que lhe dava ao rosto, grosseiramente talhado, visos de um cepo coberto de capim.
Além destes dons corporais com que o dotara o céu, era de caráter baixo, aleivoso e intrigante e, portanto, o alvo do ódio dos paulistas, sem ser muito bem-quisto dos emboabas.
Em compensação de tão belas qualidades, tinha ele sabido adquirir por meio da usura e rapacidade alguns bens da fortuna, o que, a despeito de ser ele da mais baixa extração, dava-lhe entre seus patrícios posição algum tanto respeitável. O próprio capitão-mor, que já o conhecia de São Paulo, o tratava com alguma consideração.
Este Minhoto era, nem mais nem menos, aquele emboaba que já vimos conversando mui lépido e prazenteiro com o velho ferreiro mestre Bueno. Para tomar mais ridícula a cena, montava ele um magro murzelo lazarento, mal e andrajosamente arreado. Acontece que quando o pobre homem vai galgar a sela, sem que o animal fizesse o menor movimento, perde o equilíbrio e cai para o outro lado, e com tal infelicidade, que não sei como a escopeta que tinha na mão agarra-lhe o chapéu e a peruca, e os atira longe, deixando-lhe inteiramente à mostra o crânio amarelo e hediondo.
À vista de espetáculo tão eminentemente cômico, bem se vê que os paulistas tinham razão de prorromperem naquela estrondosa surriada, em que também desabafaram seu ódio.
O capitão-mor foi às nuvens de cólera e despeito. Fernando, espumando de raiva, sustentava que aquilo era um desacato solene e premeditado feito não só aos portugueses, como à pessoa e autoridade do capitão-mor ali presente.
O jovem Afonso, se bem que rindo-se a goela despregada à custa do cômico incidente, sustentava a mesma opinião, e pedia a seu pai severos castigos.
O capitão-mor bem queria punir o atentado; mas refletindo que a gargalhada era geral, não só de paulistas, como de portugueses, como o estava mostrando seu próprio filho, que ali pertinho dele soltava risadas homéricas, limitou-se em dirigir aos paulistas uma exemplar reprimenda, e como era a primeira, contentou-se em chamá-los de pícaros, desordeiros e malcriados.
Estes, posto que indignados ao último ponto, souberam conter-se sem fazerem manifestação alguma de revolta, mas ficaram compreendendo que o governo de um homem, que assim principiava, lhes seria pelo tempo adiante insuportável, e murmuravam entre si vozes surdas de descontentamento, de revolta e de vingança.
Abafado este incidente, e montados todos a cavalo, abriram-se de par em par os pesados batentes do grande portão de cangerana para dar passagem à cavalgata. Apenas esta começava a pôr-se em movimento, eis novos rumores se propagam entre os cavaleiros, e os gritos de - misericórdia! aqui d'el-rei! - chegam aos ouvidos do capitão-mor, que à frente dos cavaleiros já tinha transposto o portão. Este enfurecido volta as rédeas ao cavalo e torna a entrar a ver o que era.
Era ainda o mísero Minhoto, que de novo viera ao chão, mas desta vez de modo mais trágico, tão maltratado e contuso, que foi mister ajudarem-no a levantar-se.
O autor desta brincadeira afora o Gil aquele companheiro e amigo de Maurício, a quem já conhecemos. O Gil era um belo rapaz, de nobre e generoso coração, mas de gênio extremamente fogoso e assomado, a quem mais tarde conheceremos melhor.
Como ele se achasse por detrás do Minhoto no momento em que a cavalgata se abalava, e o cavalo deste, que lhe embargara o caminho, de maneira nenhuma quisesse mover-se, impaciente com isto e já de antemão altamente agastado com o atrevido repelão do capitão-mor, o moço lascou tão forte guascada nas ancas do animal do emboaba, que este deu um violento arranco para diante, e o atirou de costas no chão.
Desta vez não podia haver remissão: O atentado era mais grave, o delinquente um só e determinado indivíduo; a vítima o tinha indicado, e muitos outros emboabas, que tinham presenciado o caso, o denunciavam em altas vozes.
Em vão Maurício procurou interceder, alegando algumas razões em favor de seu amigo. O capitão-mor, cuja cólera ainda era açulada por seu filho e seu sobrinho, estava inexorável.
Leonor, a boa e compassiva Leonor, também tentou balbuciar algumas palavras em defesa do infeliz Gil.
Os gritos ásperos e atroadores do irmão e do primo abafaram-lhe a meiga voz.
Gil foi recolhido a um quarto forte da casa do capitão-mor, feito de propósito para servir de prisão a livres e escravos, e aí foi ele metido em um tronco. O Minhoto foi conduzido em braços para sua casa, e posto em sua cama, donde não pode sair por muitos dias.
Ambos ficaram presos.
Era um par de menos na funçonata venatória.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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