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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 32 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 2 — Capítulo VII — Turpe Senilis Amor

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O capitão-mor, apesar dos seus cinquenta e tantos anos, era ainda homem vigoroso e bem-disposto; o coração palpitava-lhe ainda quente e alvoroçado ao aspecto da mulher formosa, e era com bastante pesar seu que se resignava à insipidez e ao isolamento da vida celibatária. De há muito pensava em contrair segundas núpcias, e, se até então não o fizera, decerto não era porque lhe tivessem faltado noivas. Rico e ilustre de nascimento, tendo enviuvado ainda moço, não lhe faltariam vantajosas alianças; mas, à força de querer muito escolher, foi deixando correr o tempo e procrastinando a satisfação desta necessidade de seu coração até a idade em que o achamos, isto é, já um pouco tarde. No isolamento em que se achava colocado, em um país novo, bronco e sem sociedade, ainda mais triste se lhe tornava a solidão do lar doméstico, ao passo que lhe era impossível achar naquelas regiões um consórcio na altura de seu nome.

Nestas conjunturas, uma singular fantasia apoderou-se de seu espírito. Judaíba, como já vimos, era um dos tipos mais belos e regulares de sua raça; catequizada, doutrinada e enfeitada por Leonor, que cada vez mais se esmerava na educação da filha de Irabussú, ia-se transformando em gentil e engraçada rapariga. À força de vê-la todos os dias em companhia de sua filha, o capitão-mor foi pouco a pouco se deixando cativar pelos encantos de sua linda e voluptuosa figura, e ficou verdadeiramente enamorado de Judaíba.

Uma vez rendido o coração, todas as demais conveniências, todas as considerações, de qualquer ordem que sejam, cedem-lhe o passo e transigem facilmente com as exigências desse caprichoso tirano chamado amor. Diogo Mendes, que, enfatuado de sua fidalguia, fora até ali o mais difícil e escrupuloso na escolha de uma esposa para si ou para qualquer pessoa de sua família, sem grande relutância concebeu e afagou em seu espírito a ideia de desposar uma pobre selvagem, apanhada a laço no mato. Cumpre, todavia, notar que, para pô-lo de acordo com os seus preconceitos nobiliários, com a sua consciência de fidalgo, havia uma circunstância mui favorável e justificativa. Segundo muitas vezes tinha ouvido dizer a Antônio, Judaíba também era fidalga, senão de escudo e braça d'armas, ao menos de kanitar e tangapema. Irabussú, seu pai, era um ilustre pajé, o que era entre os indígenas um título da mais alta distinção; e, se quisessem bem esmerilhar-lhe a linhagem, talvez descobrissem que descendia dos troncos dos famosos Anhangueras e Tibiriçás. Diogo Mendes, além disso, tinha a seu favor o exemplo de seu conterrâneo, o Caramuru, um ilustre cavalheiro que não teve escrúpulos de desposar a gentil Paraguaçu.

Entretanto, o velho fidalgo, posto que estivesse inabalável no seu propósito, não ousava comunicá-lo nem a Fernando nem a seus filhos, receando que tentassem demovê-lo de sua ideia. Pretendia não lhes dar parte de coisa alguma senão depois que tudo estivesse concertado e preparado, e surpreendê-los com o fato consumado.

Estava em sua mente resolvido o problema de seu himeneu; só faltava comunicar à noiva esta sua resolução, e este passo, no seu espírito, estava em último lugar, porque não lhe passava pela cabeça que a índia recusasse a sua mão; e, mesmo quando mostrasse alguma repugnância, forçoso lhe seria obedecer à sua autoridade.

No dia, portanto, em que Judaíba, esbaforida, se apresentara em casa de mestre Bueno, ao cair da noite o capitão-mor, aproveitando uma ocasião oportuna, havia falado a sós com a índia e, com termos insinuantes e maneiras afagadoras, a fizera ciente de seu projeto. Custou muito a Judaíba entender a verdadeira intenção do capitão-mor, e só depois que este, pondo sua destra sobre a dela, fez-lhe sentir bem ao vivo que queria casar-se com ela, procurando abraçá-la, foi que ela compreendeu tudo e, fitando nele os olhos espantados, disse-lhe, abanando vivamente a cabeça:

— Não! não! não! Judaíba é de Antônio — e, voltando-lhe as costas, fugiu precipitadamente e foi refugiar-se, trêmula e assustada, junto de Leonor, como a tenra veadinha que, ouvindo rugir a pantera, corre a abrigar-se junto de sua mãe. Embalde Leonor, vendo-a assim ofegante e sobressaltada, interrogou-a com a maior insistência; a desconfiada e arisca caboclinha nada lhe quis responder; foi-se afastando sorrateiramente do lado de sua ama, e, daí a meia hora, quando a procuravam por toda a casa, tinha desaparecido.

Judaíba, aterrada com a proposta do capitão-mor, como se tivesse sido ameaçada de açoites, tinha fugido. A fuga lhe foi fácil; por sua docilidade e bom comportamento, gozava havia muito tempo da mais ampla liberdade em casa de Diogo Mendes, e também nenhum interesse tinha em fugir daquela casa, onde era tratada com toda a bondade e carinho, e onde via todos os dias o seu querido Antônio.

Judaíba, em primeiro lugar, dirigiu-se à casa de Gil, mas, encontrando-a deserta e trancada, correu à de Maurício; o mesmo dissabor ali a esperava. Refletiu um momento e lembrou-se de mestre Bueno, cuja casa, uma das raríssimas que lhe eram conhecidas na povoação, sabia que costumava ser frequentada por Antônio, Gil e Maurício, únicas pessoas a cuja sombra poderia encontrar algum amparo. Para lá correu, e lá a vimos chegar arquejante e extenuada de susto e de cansaço.

Antônio, sabendo da boca de sua amante as intenções do capitão-mor, ficou transido de espanto e de indignação e quase não podia dar crédito ao que ouvia.

— Deveras, Judaíba?! — exclamava ele.

— O capitão-mor, o senhor Diogo Mendes te disse isso?... Como pode ser isso!... Ouviste bem o que ele disse?... Ah! — continuou, voltando-se para os companheiros —, estão ouvindo, meus patrões?... Chegou também a vez de Antônio. O patrão velho quer também roubar-me Judaíba para casar-se com ela! Ah, perros! cães malditos!... Agora é com Antônio que vos haveis de haver!... De hoje em diante, meu amo, senhor Maurício, minha raiva não faz mais escolha de ninguém; minha primeira flecha é para o coração do maldito velho.

— E o meu primeiro tiro é para a cabeça de Afonso — disse Calixto.

— E o seu, patrão, e o seu? — perguntou vivamente Antônio.

— Todos os meus tiros não serão empregados senão contra nossos inimigos, mas... Nova tropelada de gente que se aproximava veio ainda uma vez interrompê-los; desta vez, porém, o rumor era mais intenso e ruidoso, e entremeado de vozes de homens que falavam entre si. Era uma escolta de esbirros que o capitão-mor, tendo dado pela falta de Judaíba, tinha expedido em procura dela. Depois de a terem procurado em vão por todo o povoado, enfim, por indicação de alguém que a tinha observado, vieram ter à casa de mestre Bueno. Quatro malsins completamente armados penetraram bruscamente na varanda do ferreiro, enquanto outros quatro cercavam a casa por todos os lados.

— É aqui, camaradas! — bradou um deles.

— É aqui que a lebre se amoitou.

— Cá está ela, se me não engano — gritou outro, lançando mão de Judaíba, que tinha lobrigado nas trevas —; é ela, não pode ser outra; toca a amarrá-la.

— Alto lá! - bradou Antônio avançando de um pulo e com um empurrão atirando para longe o esbirro, que segurava Judaíba.

— Quem é este atrevido?! - rosnou o alguazil arrancando a chavasca e atirando-se para Antônio.

— Sou eu, que não consentirei nunca, que vossas mercês. ponham as mãos nesta mulher, nem que me façam em postas, ouviu?...

— Oh! isso é o que vamos ver! como está valentão!

— Se sou valente ou não, cheguem-se e verão — replicou Antônio puxando a faca e colocando-se como um baluarte diante de Judaíba.

— Que vais fazer, Antônio! - disse Maurício em meia voz aproximando-se do índio.

— Por essa maneira te pões a perder a ti e a nós todos. Deixa-os levar Judaíba; eu te asseguro, que ela nunca será do capitão-mor.

— Oh! bem os estou conhecendo a vossas mercês todos, senhor Maurício, senhor Gil! - disse um esbirro.

— Foram vossas mercês, por certo, que desencaminharam esta cabocla, e a induziram a fugir; o senhor capitão-mor há de ser informado de tudo.

— Pouco me importa, senhores malsins — respondeu Gil com indignação — que o capitão-mor seja ou não informado do que está se passando; esta índia me pertence, e eu estaria em meu direito, se a tirasse da casa do capitão-mor. que me a roubou. Não tenho que lhes dar satisfações, mas sempre lhes direi, que ela aqui apareceu não há muito tempo sozinha e de seu moto próprio, e sem conhecimento nosso.

— Seja lá como for — replicou o esbirro — quer vossas mercês queiram, quer não, donde saiu, para Já têm de voltar neste momento. Anda, rapariga!... toca para a casa.

— Devagar com isso, senhores esbirros! - tomou Gil com ligeiro e sarcástico sorriso — olhem que essa menina não se toca assim como uma rez do campo; mais comedimento!... não sabem que ela é a mimosa de D. Leonor, e está para ser a esposa do.

— Nunca! nunca o será! - atalhou com um brado furioso Antônio, a quem o sarcasmo de Gil, que os esbirros não compreenderam, havia amargado cruelmente.

— Nunca o será; eu o juro por este punhal, e por Deus, que nos escuta. Depois de alguns instantes de silêncio acalmando-se e voltando-se para a índia: — Vamos, minha Judaíba — disse-lhe em voz baixa; volta para a casa de nossos patrões; ainda não é tempo de sair de lá. Antônio te vai acompanhar, para que estes malditos não maltratem contigo. Vamos; mas Antônio te jura, ou ele têm de morrer, ou em poucos dias ficaremos livres, livres para sempre deles... Vamos, camaradas — continuou em voz alta dirigindo-se aos esbirros — eu quero acompanhar esta menina, e ai daquele, que tentar maltratá-la.

— E eu também irei.

— E mais eu - disseram sucessivamente Maurício e Gil, e os três amigos seguindo a escolta desceram o Morro do Lenheiro, e acompanharam Judaíba até a porta da casa do capitão-mor.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

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