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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 16 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 1 — Capítulo XVI — Ir Buscar Lã e Sair Tosquiado

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Se o Minhoto trazia Gil atravessado na garganta, e só excogitava meios de aniquilá-lo, Fernando, que votava a Maurício ódio mais sério e mais profundo ainda, também de sua parte só aguardava um ensejo de vingar-se dele arrastando-o à última perdição. E não só aguardava, procurava mesmo provocar esse ensejo.

Com grande desespero seu, a povoação de São João del-Rei ia vivendo até ali com inalterável sossego. Maurício, como sabemos, tinha sumo interesse em manter a boa harmonia entre paulistas e emboabas. Gil também, depois que começara a enriquecer-se, sopeava quanto podia o seu gênio arrebatado, e punha o maior empenho em evitar qualquer conflito entre eles.

Graças aos conselhos e à influência desses dois homens, que por seu caráter e importância exerciam grande ascendente sobre o ânimo de seus patrícios, durante alguns meses não se dera o menor distúrbio, a menor querela entre os habitantes daquele povoado, e, com grande desgosto de Fernando, a palmatória pendia ociosa e os troncos cobriam-se de bolor à míngua de fregueses.

O capitão-mor, homem pacato e pouco avezado aos trabalhos administrativos, contentava-se com desfrutar as vantagens e honras inerentes ao seu cargo, e deixara a Fernando, seu secretário e confidente, o cuidado dos mais importantes negócios da governança.

Fernando, com efeito, além de possuir alguma instrução, era inteligente, dotado de espírito penetrante, de caráter enérgico e resoluto. Teria eficazmente auxiliado as boas intenções do capitão-mor, se as ruins paixões, a desmesurada cobiça e ambição não lhe frustrassem aqueles belos predicados, dando-lhes quase sempre funesta e maléfica direção.

Estudava mil planos para assanhar de novo os ódios mal extintos entre paulistas e portugueses, e não poupava meios para provocar uma explosão, um ato de rebeldia da parte daqueles. Fazia o capitão-mor expedir ordens arbitrárias e tirânicas, dar decisões injustas, e trazer os paulistas debaixo da mais humilhante e vexatória vigilância. Enfim, para levar ao extremo a longanimidade e paciência destes, não lhes foi permitido reunirem-se além de um número muito limitado, e foi-lhes proibido darem jantares, folguedos ou outras quaisquer festas sem expressa licença do capitão-mor.

Mas nem assim Fernando até ali havia conseguido ver realizados os seus perversos intentos. Os paulistas, aconselhados por Gil e Maurício, suportavam com a maior resignação todos os vexames de que eram vítimas; viam, sem articularem uma só queixa, o favor odioso com que eram tratados os emboabas; curvavam-se submissos a todas as ordens do capitão-mor, ainda as mais iníquas e vexatórias. Esperavam cobrir-se de razão para poderem reagir em tempo e sem precipitação contra a opressão, de qualquer modo que fosse. E, pois, contanto que lhes não tocassem na pele, por enquanto tudo iam suportando.

Às dez para as onze horas dessa mesma manhã, em que o Minhoto havia despedido tão grosseiramente seus patrícios por não terem podido servi-lo à medida de seus desejos, Fernando, pensativo e agitado, passeava sozinho, a passos largos, no salão do capitão-mor.

Poucos momentos antes, Maurício acabava de sair desse mesmo salão. Viera solicitar do capitão-mor licença para ir a uma caçada em companhia de dez ou doze patrícios seus. O capitão-mor estava disposto a conceder-lhe, sem a menor hesitação. Mas Fernando interpôs-se. Com mal disfarçada hipocrisia, declarou que nenhuma desconfiança nutria a respeito de Maurício; mas, como semelhante licença tinha sido recusada a outros paulistas igualmente importantes e dignos de conceito, estes de certo se magoariam com aquela exceção odiosa.

Alegou mais outras razões igualmente especiosas, às quais o capitão-mor, depois de breve hesitação, acedeu com a costumada facilidade.

— Maurício, não te enfades — disse o capitão-mor, como para consolar o mancebo e escusar-se de seu rigor para com ele —; é preciso acomodarmo-nos às circunstâncias; as coisas hão de melhorar, e em breve terás a liberdade de fazer o que quiseres.

— Com vossas mercês jamais me enfadarei — respondeu o moço em voz alta, e acrescentou mentalmente: — Se vossas mercês infelizmente não é quem governa!... Pobre velho!... Tu não vês que a esse perverso, que tens ao lado, convém manter-te o espírito em eterna desconfiança contra nós outros, os paulistas?... Não sei, não sei onde isto irá parar!... Mas soframos e esperemos um pouco ainda... Assim murmurando consigo, o paulista retirou-se; o capitão-mor recolheu-se ao interior da casa.

— E não é que estes perros, com a sua paciência, já vão cansando a minha! — resmungava Fernando, achando-se só no salão e passeando a largos passos, como já o vimos.

— Em Maurício, tão altaneiro e atrevido, parece-me agora um cordeiro!... Será medo?... Por certo que não; eu bem os conheço, estes tais paulistas! Indomáveis e manhosos como os seus burros de Sorocaba!... Tudo isto é manha, eu bem os compreendo!... Estão tramando alguma! Mas... comigo estão enganados.

Hei de desconcertar todos os seus planos, por ardilosos que sejam!... Entretanto o tempo passa; o tal Maurício vai cada vez mais ganhando consideração, e o Gil, riquezas, que eu não sei donde as tira!... Nada! Isto não vai bem!... É preciso abatê-los, calcá-los aos pés, e quanto antes.

Neste ponto, batem palmas à entrada da varanda, e Fernando ouve uma voz esganiçada:

— Dá licença, senhor capitão-mor?...

— Quem será mais este maldito importuno?... Quererão mais alguma licença?...— dizia consigo Fernando, indo ver quem era. Mal reconheceu o novo visitante.

— Ah! É o senhor Minhoto? — exclamou com afabilidade e cortesia.

— Muito bem aparecido!... Faça favor de entrar.

— Não está em casa o senhor capitão-mor? — pergunta o Minhoto, entrando.

— Está, meu amigo; mas... passou mal a noite; está ainda acomodado.

Fernando gostava de ir receber no topo da escada as pessoas que procuravam o capitão-mor, e, sempre que lhe era possível, o dava ou por ausente, ou por doente. O bom fidalgo queria livrar de inúteis importunações o seu velho parente, e sobretudo queria, primeiro do que ele, ser sabedor de todos os negócios, e para isso tinha boas razões.

— Sinto muito!... Isso é mau — tornou o Minhoto, coçando a peruca —; tinha a conversar com ele sobre um particular... coisa bem importante, senhor Fernando.

— Coisa importante! — exclamou o fidalgo, cujo interesse e curiosidade se estimularam.

— Mas, se não é segredo, por que não a diz a mim? Bem sabe que faço as vezes do Sr. capitão-mor.

— Sei disso, senhor meu, mas...

— Mas o quê, senhor Minhoto?

— Mas enfim — respondeu o emboaba, depois de um instante de hesitação —, o caso não é de segredo, ao menos para vossas mercês, que mais tarde ou mais cedo, enfim de contas, há de vir a saber de tudo.

— Muito bem! Nesse caso queira sentar-se, e vamos ao seu negócio importante.

Fernando recostou-se à cabeceira de um largo sofá de sola lavrada e, convidando o Minhoto a sentar-se em uma cadeira junto dele, pôs-se em atitude de escutá-lo com a maior atenção.

O Minhoto contou-lhe muito detida e circunstanciadamente a história que corria pela povoação a respeito de Gil e do seu índio; exagerou a crescente e misteriosa fortuna do paulista, e relatou com toda a minudência quanta historieta extraordinária e miraculosa circulava entre o povo acerca do bugre feiticeiro, e concluiu que, se todo aquele ouro não era adquirido por meio de malefícios diabólicos, então provinha de algum roubo ou de alguma mina escondida.

— Em todo caso — terminou ele —, semelhante negócio é mal permitido, e o senhor capitão-mor deve dar providências para que não continue.

— Sem dúvida, meu caro senhor Minhoto! — exclamou Fernando, levantando-se e esfregando as mãos com mostras de visível satisfação.

— Sem dúvida!... O negócio é importante, e mais do que vossas mercês pensa. Se é roubo — no que não creio —, deve ser descoberto e enforcado o ladrão. Se é mina oculta, é ainda um roubo que fazem a El-Rei, que tem direito ao quinto, e então também, ai do ladrão! Se é por malefício diabólico, também a lei do Reino pune com penas severas todos os que usam de mágica ou nigromancia, os que têm pacto com o diabo, e bem assim todos os que com eles se conluiam.

— Muito bem!... Eis aí o que é conversar com pessoas que entendem!... De maneira que, se eu há mais tempo tivesse a lembrança de cá vir, já há muito tempo o índio estaria agarrado!...

— De certo; e não só o índio, como o Gil, e todos os que com eles pacteiam. vossas mercês fez mal em não trazer há mais tempo ao nosso conhecimento um fato tão criminoso.

— Desculpe-me, senhor; eu sou um ignorante, que nada entendo dessas chicanas. Mas enfim ainda é tempo; tal melgueira não é para se perder. Dê vossas mercês as providências de concerto com o senhor capitão-mor, agarremos os bichos, obriguemo-los a descobrir a mina, e depois forca ou degredo com eles!... Oh! E nós três ficaremos donos de uma riqueza!... Oh! Meu nobre senhor! Que riqueza!... Ouro aos punhados!!!...

— Devagar com isso, meu caro senhor Minhoto! Devagar!... Então vossas mercês se julga com direito em todo ou em parte a essa mina, se for descoberta?... O Minhoto olhou embasbacado para Fernando, como quem não entendia a pergunta. Este repetiu-a.

— Como não?! — respondeu o emboaba, atordoado com semelhante pergunta.

— Pois quem descobriu a melgueira e a trouxe ao conhecimento de vossas mercês?... Se não fosse eu...

— Deixe-se disso, senhor Minhoto — interrompeu Fernando, rindo-se muito.

— Então quer que façamos o mesmo que está fazendo o Gil e o seu bugre, e que incorramos nas mesmas penas? Ora, senhor Minhoto!... Fernando continuou por algum tempo num frouxo de riso, que não lhe permitia falar. O Minhoto, que tinha menos vontade de rir do que de se enforcar, a princípio ficou vermelho como lacre; estava corrido de vergonha; depois foi voltando pouco a pouco à sua cor natural, a cor de defunto, que nessa ocasião o despeito e a raiva ainda tornavam mais lívida e hedionda.

— O que é isto, senhor? Então vossas mercês galhofa em coisas tão sérias?...

— Não galhofo, não — respondeu Fernando, conseguindo abafar o riso —; estou falando muito sério. A sua simplicidade é que me fez rir; desculpe-me.

— Mas então, por favor, queira dizer-me: se descobrirmos a tal mina oculta, a quem ficará ela pertencendo?

— A quem? Oh! Está claro... ao capitão-mor... Digo mal... Tal mina não pode ser explorada senão por um ato criminoso, com lesão dos direitos del-Rei. Portanto, punido o criminoso, deve ser confiscada em proveito dele.

— Dele quem?

— De El-Rei.

Fernando hesitava na resposta, porque também ele, por sua parte, desejaria subtrair aquele sonhado Eldorado à voracidade do erário real.

— De El-Rei?! Como assim?...— acudiu o Minhoto, consternado.

— E eu, que tive a fortuna de descobri-la...

— Que diz?... Pois já está descoberta?...

— Ainda não; mas fui eu quem lhe descobriu o rasto, e hei de achá-la, custe o que custar.

— Não se incomode; fica isso a meu cuidado; darei as providências, e, se tal mina existe, havemos de descobri-la...

— Para El-Rei, não é assim? — disse o Minhoto com voz lastimosa e quase chorando.

— E eu, que tinha o segredo da coisa, eu que me sujeitei a tantos riscos e trabalhos para saber donde vinha aquela enchente de ouro, que de um dia para outro ia enriquecendo o Gil, eu, que assim dei um canga-pé naquele maldito paulista e em todos os seus patrícios, que tanto mal nos querem, eu hei de ficar aí assim às moscas?!...

— Não se aflija, senhor Minhoto; El-Rei é justo e agradecido; vossas mercês, como delator, há de ter boas alvíssaras; alguma honra ou emprego... pode ser nomeado alcaide, por exemplo...

— Ora valha-me Deus, senhor meu!... Que quero eu fazer com honras e alcaidarias!... Não dera eu um punhado de ouro por todas essas bugigangas. Entretanto, eu já me contentava com um terço, um quarto mesmo do produto...

— Oh! Então vossas mercês quer ter mais que El-Rei, que se contenta com o quinto?...

— Pois seja como vossas mercês quiser — redarguiu o Minhoto, perdendo a paciência e no cúmulo do despeito —; mas eu tenho para mim que nem eu, nem vossas mercês, nem El-Rei, nem o diabo hão de enxergar nunca o ouro de semelhante mina.

— E por que não? — perguntou Fernando, sorrindo.

— É o que lhe eu digo, senhor meu; é mais fácil pegar uma enguia dentro d'água do que botar a mão no maldito bugre; e é ele, ele só, que sabe...

— Pois esse bugre não será de carne e osso?

— Eu sei lá!... Mas que o tratante é bruxo ou encantado, não resta a menor dúvida...

— Pois deixe-o estar, que eu me encarrego de quebrar-lhe o encanto. Vá sossegado para casa, senhor Minhoto, que de amanhã em diante todo esse ouro, se é que existe, deixará de correr para a algibeira do paulista...

— Nem para a de ninguém mais.

— Salvo se vossas mercês está me contando histórias da carochinha.

— Da carochinha ou não, vossas mercês há de ver.

O Minhoto despediu-se e saiu bruscamente, torcendo as mãos e trincando de raiva e desespero.

O infeliz viera em busca de lã e saía horrivelmente tosquiado. O seu sonho de ouro quebrou-se em um momento, como o pote da leiteira de La Fontaine, desfazendo em lama todas as suas risonhas esperanças.

— Asno! Asno que eu sou!... Ir descobrir tudo sem rebuço, e a quem?... Ao homem mais velhaco e ambicioso que há debaixo do sol!... Fui ensinar-lhe o caminho da mina; fui fazer-lhe dádiva de um tesouro, fui entregar-lhe a chave de uma burra, que seria minha se houvesse mais um bocadinho de tino nesta cachola, que para nada presta!... Eu devia ter dito simplesmente: — Senhor Fernando, sei que há por estes arredores uma mina de ouro de riqueza espantosa; é ela que está enriquecendo o Gil; mas ele mesmo não sabe onde ela existe; é mistério de que só eu tenho a chave... Mas que estou eu a dizer?!... A boas horas me lembro de ter juízo!... Ah! Minhoto! Minhoto! Merecias vestir uma camisola e ir para o hospital dos doidos!... Esta cabeça!... Esta cabeça de burro!... Dizendo isto, o Minhoto levou ambas as mãos à cabeça para arrancar os cabelos, mas, não os achando, amarrotou desapiedadamente a peruca.

Enquanto o emboaba assim voltava para casa, raivando e vomitando pragas contra si e contra todos, Fernando exultava, ébrio de orgulho e de contentamento.

— Se é verdade o que me diz este tonto do Minhoto, cá os tenho enfim presos ambos nas malhas de minha rede, o Maurício e o Gil, esses dois infernados e atrevidos paulistas... Se é dessa fonte que vem a riqueza do tal Gil, ela em breve há de secar-se... Ora, o Gil é o maior amigo de Maurício... São dois coelhos de uma cajadada, e que coelhos!... Cumpre dar providências... O caso é sério... Vejam lá como isto anda! Um mísero paulista com minas ocultas, enriquecendo-se às escondidas, e isto aqui às nossas barbas!... Ah! Deus te abençoe, meu bom Minhoto!... Não fazes ideia de quão boa nova me trouxeste!... Mas, se acaso me vieste embair com tuas toleimas, ai de ti!... Mas por que não há de ser verdade?... A coisa tem todo cabimento, e não só é possível, como muito provável... Como explicar por outra forma a súbita riqueza do Gil? Em todo caso, haja ou não haja mina, o ensejo não é para desprezar. Sempre é um pretexto, e dos melhores, para persegui-los e quebrar a proa a esses dois insolentes paulistas... Eia! Mãos à obra!... Vamos falar ao capitão-mor.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

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