Universo da obra
Universo da obra
No outro dia, ao levantar do sol, Maurício, debruçado à janela de seu quarto, olhava para a casa do capitão-mor com o espírito embebido em mil contrários pensamentos, ora risonhos, ora sinistros. Infelizmente estes predominavam. Se um ou outro ponto luminoso lhe sorria fugitivo no horizonte, para logo era abafado por um montão de nuvens espessas e tenebrosas.
Apesar do aparente sossego, que há algum tempo reinava na povoação, o futuro se lhe antolhava carregado e sombrio, e despertava-lhe na alma cruéis apreensões.
Ali bem perto, a uns duzentos passos de distância, sorria-lhe o éden, que era o alvo único de seus ardentes desejos; ele aspirava-lhe os perfumes, ouvia-lhe as harmonias e entrevia o anjo que de lá lhe acenava com a esperança de inefáveis venturas. Entretanto, à porta desse éden estava postado, não o arcanjo empunhando a espada chamejante, mas um gênio infernal brandindo o facho da discórdia, do ódio e da vingança.
Se por um lado laços de amor, de estima e gratidão recíproca prendiam estreitamente o jovem paulista ao solar de seu velho protetor, por outro via ir-se cavando um abismo cada vez mais fundo de cizânia e ódio, que ameaçava exilá-lo para sempre de seu éden querido. Ele bem via que a antiga e mal extinta animosidade entre paulistas e emboabas era como um imenso paiol de pólvora, que ele e Gil em vão se esforçariam por preservar do contato das inúmeras centelhas que em torno dele esvoaçavam. Fernando lá estava sacudindo o facho e espiando com satânica ansiedade o momento favorável para uma horrível e fatal explosão.
Outra circunstância contribuía ainda para abater o espírito do nobre e infeliz mancebo. À exceção do capitão-mor, que era sempre afável para com o seu antigo pupilo e protegido, e de Leonor, que tinha sempre para ele um gracioso sorriso e um olhar de amor mal disfarçado, Maurício era acolhido com frieza e, às vezes, com desdém em casa do capitão-mor. Era isto devido a ordens e insinuações de Fernando, o qual, não contente com ter em suas mãos a direção dos negócios governativos, ingeria-se também nos arranjos domésticos e se arrogara, por assim dizer, a mordomia da casa de seu velho parente. Maurício não se queixava e tragava em silêncio aquelas humilhações; para elas encontrava sobeja compensação na estima do capitão-mor e no amor de sua filha.
Mas esse mesmo amor, essa mesma estima, esses laços sagrados que, desde a infância, tão estreitamente o ligavam àquela família, estavam em perigo de serem despedaçados a cada momento pela mão de Fernando, esfinge fatal que entre eles se colocara com olhos vigilantes e afogueados de ciúme e sede de vingança.
— Oh! É preciso acabar com tantas incertezas e hesitações — murmurava Maurício, já com a cabeça fatigada de tanto cismar e refletir.
— É absolutamente preciso que eu morra ou que acabe com aquele maldito!... Mas como consegui-lo?... Eu, órfão, sem nome, sem fortuna, miserável peão, como nos chamam esses perros vis... Deveras que é difícil... Se ao menos a sorte me deparasse novas ocasiões de me sacrificar por eles!... De salvar-lhes a vida, a honra, a fortuna!... Oh!... Desta vez não deixaria de aceitar o foro de fidalgo com que o capitão-mor já me acenou... Tolo que eu fui em rejeitá-lo!... Então, de fronte erguida, iria reclamar a mão de Leonor... Ó Leonor!... Com que prazer tu me cederias, e com que ardor eu beijaria essa mão adorada, única recompensa que ambiciono e a que me julgo com o mais legítimo e sagrado dos direitos!... Mas... não é só fidalguia que me falta; falta-me coisa melhor ainda... falta-me ouro, muito ouro... talvez a mina do Gil... Nestas reflexões se perdia, quase desvairado, o espírito do mancebo, quando foi bruscamente interrompido por uma pessoa que, a passos precipitados, entrava familiarmente pela casa adentro. Quando Maurício, deixando a janela, voltava-se para ver quem era o indivíduo que vinha entrando, já este se achava no quarto. Era Gil.
Vinha muito agitado, os cabelos em desordem, os trajes em desalinho, e os olhos fuzilantes despediam relâmpagos de cólera.
— O que é isto, Gil? — perguntou Maurício, com surpresa.
— Ora!... O que há de ser!...— retrucou Gil, com voz ofegante de raiva e de cansaço, atirando o chapéu a um lado e deixando-se desabar sobre um tamborete.
— O que te diria eu, Maurício?!... É chegada a ocasião! Infâmia!... Desaforo!
— Mas enfim, Gil... conta-me... o que há de novo?... Gil respirou com força, exalando um gemido surdo, antes um rugido de raiva, que lhe empolou o largo e vigoroso peito, passou a mão convulsa pela testa, que, apesar do frescor da manhã, escorria suor em bagas, e levantou-se.
— Esta noite — começou ele a narrar com voz rápida e seca —, estava eu em casa de mestre Bueno com o Calixto e outros. Ali ficamos conversando, contando histórias e nos divertindo até alta noite. Quando voltei para casa, seria já talvez meia-noite. Quando vou chegando perto de casa, começo a ouvir falar em voz alta. Olho com atenção e vejo que lá se movia uma multidão de vultos, e que dentro e em roda de casa reinava uma confusão de mil diabos. Corro para lá, e o que havia eu de ver, meu amigo?!... A porta da rua tinha sido arrombada, e uma chusma de emboabas entrava e saía em uma berraria infernal. Entendi, e com razão, que estavam me roubando, e de fato era isso mesmo que estavam me fazendo.
— Alto lá!... Que é isso!... Olhem que lá vai o dono da casa!...— bradei com toda força.
— Nenhum caso fizeram de meus gritos; e que poderia eu fazer contra tanta gente?... Todavia, através da multidão, investi para a porta. Apenas dou o primeiro passo para dentro de minha casa, dou com os olhos em meu índio, o Irabussú, e em sua filha, que vinham saindo agarrados e arrastados por uma troça daqueles infames, entre insultos e gritarias.
— Agora hás de escorrupichar para ali o ouro que andas roubando, maldito bugre feiticeiro.
— Está quebrado o seu encanto, meu bruxo de uma figa. Quer queiras, quer não, hás de nos mostrar donde vem o teu ouro.
— Se tu podes, vira outra vez gato-do-mato; anda, ladrão!...
— Um dos que assim falavam tinha nas mãos uma corda, que me pareceu cordão de frade, e com a qual descarregava vigorosas lambadas nas costas do pobre índio. Irabussú quase não fazia resistência e deixava-se arrastar, roncando dentro do peito umas palavras surdas, que ninguém entendia. A menina, com a cabeça baixa, era levada aos empurrões por aquela corja de brutos. À vista daquele espetáculo revoltante, fiquei compreendendo tudo... Ah! Ladrões!... Ladrões!... Não querem ver nós outros guardarmos uma migalha de ouro na algibeira!... Querem tudo, tudo para si!... Gil calou-se, tomando fôlego por alguns instantes.
— Mas então que queria dizer todo esse barulho? — interrogou Maurício, impaciente por saber o resto.
— Tu bem sabes — continuou Gil — que o meu velho índio me é inteiramente dedicado; que ele me traz, de dois em dois dias, uma boa porção de ouro nativo, que eu mesmo não sei onde ele vai descobri-lo. Logo a princípio, querendo eu saber de onde ele o tirava, respondeu-me: — Foi Tupá que me mostrou esse ouro; Tupá não quer que ninguém, senão Irabussú, saiba de onde ele sai. Enquanto Irabussú for vivo, o patrão há de ter sempre ouro com fartura; mas, quando sentir que a luz vai morrer para sempre em seus olhos, Irabussú há de mostrar tudo.
— Não quis teimar com o bom do velho; mas bem vês quanto a existência desse índio é preciosa para mim. Às vezes me traz ele, em um canudo de taquara, mais de uma libra de ouro em pó. De ordinário, traz-me 6 ou 4 oitavas, muito misturado com areia e esmeril. Não sei onde ele apanha tanto ouro sem bateia, sem almocafre, sem nada; decerto o apanha aos punhados... É coisa que me tem maravilhado... Deve ser mina de espantosa riqueza. Ora, os emboabas já haviam farejado esse ouro, meu amigo!... E diabos me levem se não foi o velhaco e poltrão do Minhoto quem deu pela coisa. Verdade é que Irabussú já me havia avisado que os emboabas lhe andavam fazendo tocaias. Para não lhes cair nas unhas, o índio até ali fazia suas sortidas ao fechar da noite e voltava nos outros dias às mesmas horas, ficando assim vinte e quatro horas em casa e outras tantas no mato. Depois disso, começou a sair lá pela alta noite, voltando sempre no dia seguinte à mesma hora. Parece que, desanimados de poderem agarrá-lo, os emboabas recorreram ao capitão-mor; pois é preciso que saibas, Maurício, que aquele assalto à minha casa era feito por ordem dele e do tal seu infame secretário, que eu lá bem vi a um canto, todo embuçado em seu capote. Farás ideia de como fiquei eu quando vi aquele bando de malfeitores dentro de minha casa, arrastando para fora um velho e uma menina, duas pobres criaturas incapazes de fazerem mal a ninguém!... Perguntei-lhes, indignado, o que queria dizer aquele desacato em minha casa e se porventura existia ali algum criminoso.
— Não é de sua conta — responderam, galhofando.
— Vá perguntar ao senhor capitão-mor. Entre para sua casa, ou siga seu caminho, se não quer ir de companhia com os seus bugres!...
— Ah! Eu era sozinho contra tanta gente!... Calei-me para não ouvir mais desaforos, que me poriam a perder. Eu bem podia matar pelo menos três ou quatro daqueles perros vis, mas tinha de morrer também, e com isso nada remediava. No fim de muita algazarra, um deles gritou: — Vamos, minha gente! Para a casa do capitão-mor!...
— Vamos! Vamos! — acudiram todos e, formados em um bolo em roda dos dois infelizes prisioneiros, foram-nos levando em charola para a casa do capitão-mor. Corri depressa ao meu quarto de dormir, onde tinha o meu ouro e mais alguns efeitos de valor. Felizmente, achei-o fechado como o deixara; não me haviam tocado em nada. Saí de novo, curioso de saber em que daria tudo aquilo, e fui acompanhando, a certa distância, aquela troça de malfeitores. Chegados à casa do capitão-mor, entraram no pátio; quatro dentre eles subiram a escada, conduzindo os presos; iam decerto recolhê-los ao calabouço e talvez metê-los no tronco. Por fim, o farrancho foi-se dispersando, e retiraram-se em pequenos grupos, uns para aqui, outros para acolá, conversando misteriosamente entre si; e eu também, nada mais tendo que ver ali, recolhi-me para casa, onde estive até agora sem pregar olho, esperando ansioso pelo alvorecer do dia. E agora, Maurício, o que me dizes?... Havemos de poupar ainda aqueles algozes, aqueles infames perros!...
— Tens razão, Gil — acudiu Maurício, com acento grave e melancólico —; infelizmente tens razão de sobejo para te revoltares... Foste vítima do mais inqualificável desacato.
Desse jeito, as coisas vão tomar péssimo rumo, e por fim a paciência nos há de faltar...
— A mim já de todo me falta...
— Mas que pretendes tu fazer?...
— Eu sei lá!... Vingar-me, decerto... A uma desfeita responde-se com outra maior; a uma bofetada, com um tiro ou uma facada... Mas antes disso quero esperar ainda um pouco, para ver o que pretendem fazer com os meus pobres índios...
— É justo — atalhou Maurício, sôfrego por achar um meio de impedir, ou ao menos de adiar, o rompimento dos ódios.
— Iremos agora mesmo à casa do capitão-mor.
— Eu!... Eu ir lá!... Não esperes tal, Maurício; não quero pedir o mínimo favor a tão infame gente...
— Não é favor que vamos pedir, Gil; é justiça que vamos reclamar. Vamos saber por que razão prenderam de modo tão brutal os seus índios e o que querem fazer com eles...
— Boa coisa não pode ser, e demais, cedo ou tarde, nos havemos de vir a saber de tudo sem ser preciso lá ir.
— Escuta um pouco, Gil; não será mau irmos nós mesmos conversar com o capitão-mor. Ali, tu bem sabes, são todos nossos inimigos, à exceção dele, que é homem são, e de sua filha, que é um anjo de bondade. Se, porém, deixamos tudo correr à revelia, sem fazermos a menor tentativa em favor daquelas duas pobres vítimas, não teremos direito de nos queixar se elas forem imoladas à cobiça e ao rancor daqueles perversos, e o capitão-mor se justificará plenamente, dizendo-nos: — A culpa têm vocês, que nada me disseram.
— Por mais que digamos, nada conseguiremos daquela gente, eu te afianço, Maurício. São lobos que nos querem devorar...
— Talvez consigamos, senão tudo, ao menos alguma coisa. E demais, devemos nós ficar esperando de braços cruzados?... Não devemos nós, e tu principalmente, fazer todo o possível em favor daqueles desgraçados?
— Isso é verdade; tens razão, Maurício. Da minha parte, estou pronto a todo sacrifício em favor dos meus pobres bugres, a quem devo tanto...
— Pois bem, Gil; além disso — vou falar-te com franqueza de amigo —, além disso é preciso confessar que não é muito legítima a fortuna que vais adquirindo com ouro tirado às escondidas...
— Como não?! — bradou Gil, endireitando-se e pondo-se nas pontas dos pés.
— Sei eu lá de onde me vem esse ouro!... Só sei e juro que não é roubado a ninguém, e, se não é roubado, é o mesmo que se ele me caísse do céu.
— Não te alteres, meu Gil — retrucou Maurício, sorrindo-se com toda a calma —; no que eu te digo, não há a menor ofensa ao teu pundonor. Escuta: todo mineiro tem dever de pagar contribuição a El-Rei, e tu te furtas a esse dever...
— Ah!... É o quinto!... Estou pronto a pagá-lo...
— Mas, se a tua mineração é oculta e misteriosa, quem há de fiscalizar o ouro que tiras, para dele deduzir o quinto?...
— Creio que já te disse que o bugre, por modo nenhum, quer mostrar o lugar da lavra...
— Sim, mas, forçado pela gente do capitão-mor, não terá remédio senão descobri-la, e ficarás sem mina e sem bugre.
— Oh!... Lá isso não!... Eu conheço muito o Irabussú. Nem que o façam em pedaços, não é capaz de mostrar a mina a ninguém...
— Pois nem a ti!...
— Nem a mim, é o que te digo.
— E eu não sei o que te diga, Gil. Está me parecendo que o bugre, sendo o único sabedor da mina de onde tira tanto ouro e o único dono dela, pode, portanto, mostrá-la e dá-la a quem quiser, e decerto não a dará senão a ti.
— Não creias, Maurício; Irabussú é velhaco e desconfiado como um velho mono; não se fia de ninguém e é capaz de levar o seu segredo para a sepultura.
— Embora!... Sempre é bom tentar e, em todo caso, Deus sabe o que quererão fazer com os pobres índios. Devemos patrociná-los com todas as nossas forças.
— Por Deus, que dizes verdade; e não serei eu quem os deixe ao desamparo... Ainda que me cosam a facadas, até o extremo hei de pugnar pelo meu bom e leal Irabussú. Vamos, Maurício!
— Vamos!... Neste momento, são interrompidos por alguém que aparece inesperadamente no quarto.
Era Antônio.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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