Universo da obra
Universo da obra
— Precisa de mim hoje, patrão?...— perguntou Antônio ao entrar.
— Por que perguntas? — disse Maurício.
— Porque queria ir hoje ao mato, a ver se arranjo mais um couro de onça para o senhor velho; há que tempo ele me fez encomenda, e eu até hoje só pude aprontar três; não quero que ele se queixe de Antônio.
— Muito bem, meu Antônio, vais por bom caminho!...— disse Gil, com ironia cheia de azedume.
— Vai arranjando couros de onça para esse bom velho, até que venha o dia em que lhe dê na cabeça tirar-te também o teu...
— Como assim?! — exclamou o índio, olhando espantado para Gil.
— Que quer ele fazer com meu couro?...
— Talvez algum tambor, Antônio; se queres saber melhor, vai perguntar a Irabussú, mais Judaíba.
— Que têm Irabussú mais Judaíba?...
— Não sei, Antônio; vai ver em casa do capitão-mor; lá estão nas garras dele... O índio ficou pasmado e silencioso por algum tempo, interrogando com o olhar ora a Gil, ora a Maurício.
Maurício tratou logo de satisfazer a ansiosa curiosidade do caboclo e relatou, rápida e concisamente, o revoltante incidente que Gil, poucos momentos antes, acabava de contar-lhe. Depois de ter ouvido tudo com a maior atenção, em pé e de braços cruzados, Antônio, por alguns instantes, ficou pensativo, com os olhos em terra e abanando a cabeça. Depois, batendo com força o pé no chão, ergueu a fronte e soltou um rugido surdo, como o roncar do jaguar enfurecido.
— Não é nada, meus brancos!...— exclamou com voz firme e resoluta.
— Só aqui estão três que valem por dez. Não custa nada ajuntar mais alguns companheiros daqueles bons, daqueles que têm sede do sangue do emboaba. Não é Antônio que há de deixar mais nem um instante Judaíba nem Irabussú nas unhas daquela gente ruim... Vamos, meus brancos!... Que estão esperando?!... Vou chamar mais gente, se for preciso... Este súbito desgarro do índio não deixou de causar alguma surpresa aos dois jovens paulistas. Entretanto, era nele muito natural aquele impulso. O homem da natureza, ainda que tenha vivido por muito tempo no estado social, nunca perde de todo a nativa rudeza; tem sempre os mesmos arrojos selváticos e não conhece recurso contra a violência senão outra violência, a força contra a força.
— Alto lá, meu Antônio! — exclamou Maurício, procurando acomodar o seu índio.
— Nem tanto açodamento!... O caso ainda não é para isso; talvez possamos livrar teus irmãos sem recorrermos à valentia de nossos braços...
— Maurício tem razão, Antônio! — atalhou Gil, pondo a mão sobre o ombro do índio.
— Tenhamos ainda um pouco de paciência; mas em breve, tu verás, meu valente, em breve não teremos remédio senão alvejarmos nossas armas naqueles cachorros!... Antônio anuiu a estas palavras com um aceno e um olhar expressivo.
— Mas também não irás à caça — continuou Maurício, olhando atentamente para a casa do capitão-mor; entrevia talvez lá ao menos a sombra de Leonor.
— Hoje precisamos de ti.
Antônio não sabia replicar a seu patrão. Cruzou os braços e disse:
— Antônio aqui fica!... Quando for hora, chamem por ele!... Antes de irmos adiante com esta história, é mister informar o leitor sobre uma circunstância até aqui ignorada, mas que vem muito ao caso. E nem o leitor poderia adivinhá-la, pois era um segredo de que nem Gil nem Maurício mesmo eram sabedores. Desde muito tempo Antônio conhecia e queria bem a jovem Judaíba. Eis aí todo o segredo.
Gil, como sabemos, era o mais antigo e íntimo dos amigos de Maurício. Tinham ambos grande estima por muitos de seus patrícios, e por todos em geral suprema dedicação. Os trabalhos, os perigos, a opressão a que se viam sujeitos longe da terra natal formaram entre os paulistas liga estreita, inabalável. Se não os ligava a todos, e nem era possível, íntima afeição e estima recíproca, ao menos comungavam na mesma taça, a taça do ódio contra os opressores.
Maurício, porém, e Gil eram dois amigos no rigor da palavra, em tudo quanto tem de santo, belo e grandioso este nobre sentimento.
Levava Gil uma vida quase idêntica à de Maurício. Tinha uma casa a princípio muito pequena, mas que depois foi aumentando com desígnios que ele lá sabia. Nessa casa, situada em um recanto nas abas do Morro do Lenheiro, isolada do resto da povoação, ele, às mais das vezes, não entrava senão para dormir. Portanto, todos os seus amigos e conhecidos não iam lá procurá-lo, pois sabiam que era o melhor meio de não encontrá-lo.
Entretanto, Maurício e o seu caboclo tinham franca entrada naquela casa, uma vez que lá se achasse qualquer dos seus habitantes: Gil, Irabussú ou Judaíba.
Antônio lá ia muitas vezes conversar em língua túpica, que ainda não tinha de todo esquecido, com o velho Irabussú e com sua mimosa filha. Aí passavam eles horas esquecidas junto ao fogão, relembrando as cenas da vida selvática, da qual Antônio, aprisionado muito criança, apenas conservava uma vaga reminiscência.
A jovem carijó podia assinalar-se como beleza entre as filhas da floresta. Como todos de sua raça, sua tez não era de cor muito carregada. Os olhos pretos, um pouco levantados nas fontes, eram grandes e tinham muita meiguice. As feições não eram totalmente irregulares, e o corpo era esbelto e bem feito.
Quanto ao nosso aimoré, era ele um guapo rapagão, capaz de encantar os olhos da mais formosa entre as filhas de Tupá.
Tez cor de bronze bem carregada, fisionomia esperta e animada; como era botocudo, tinham-lhe furado as orelhas e o lábio inferior. Apanhado ainda em verde idade, esses furos ainda não se tinham distendido com o uso dos botoques, rodelas de pau. Pelo contrário, tinham quase desaparecido. Os furos das orelhas serviam-lhe para neles dependurar uns brinquinhos de ouro, e o furo do lábio inferior servia-lhe para soltar um assovio agudo e estridente como o da anta.
Tudo isto, reunido à sua fisionomia vivaz e inteligente e à meia civilização que possuía, dava-lhe muito prestígio no espírito dos dois bugres e o tornava encantador aos olhos de Judaíba.
Posto que de raça hostil, sua nova sorte e o cativeiro comum lhes faziam esquecer os ódios e rivalidades das duas tribos, para só se lembrarem de que eram todos três filhos das florestas americanas.
Nada faltava, portanto, para que os dois jovens indígenas se amassem extremosamente; e assim aconteceu. Eis aí o motivo do rugido de cólera que Antônio soltou e do ímpeto com que instantaneamente queria correr em socorro dos dois bugres, apenas soube do seu infortúnio.
— Vamos, Gil — disse Maurício, pondo o chapéu na cabeça.
— É preciso falar ao capitão-mor antes que a matilha dos perros se ajunte em redor dele.
E tu, Antônio, espera aqui até que nós voltemos.
— Por quem é, patrão — exclamou Antônio, com acento de extraordinária angústia, arrojando-se aos pés de Maurício.
— Pelo Deus que está pregado nesta cruz e que vossas mercês, desde pequeno, me ensinou a adorar — continuou, tirando do seio um pequeno crucifixo que trazia ao pescoço, pendente de um rosário —; pela sinhá Leonor, patrão!... Não deixe a minha Judaíba no poder daqueles homens... Senão — continuou, erguendo-se bruscamente, altivo, audaz e fremente como a palmeira do deserto batida pelo furacão —, senão... por Tupá, que é ainda o Deus de Judaíba, por Tupá eu juro: hei de vingar Judaíba!... Os dois paulistas ficaram atônitos a princípio com aquela veemente explosão que rompia dos lábios apaixonados do jovem selvagem; mas para logo compreenderam o que aquilo revelava e se entreolharam sorrindo.
— Então queres muito bem a Judaíba? — perguntou Maurício, com emoção.
— Oh! Muito, patrão! Muito! Judaíba é meu coração!...
— Pois não tenhas receio, meu Antônio; custe o que custar, Judaíba te há de ser restituída.
Os dois amigos saíram e juntos se dirigiram silenciosamente para a casa do capitão-mor, cada qual fazendo consigo reflexões diametralmente opostas sobre o que acabavam de presenciar.
— Bom! — dizia Gil consigo —, é mais um inimigo irreconciliável contra estes perros; mais um auxiliar que nos pode ser de sumo proveito.
— Mau! — pensava Maurício.
— No fim de contas, o capitão-mor não terá a seu favor senão a mim, a mim somente!...
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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