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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 34 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 2 — Capítulo IX — Rompimento

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No outro dia Maurício, apesar das ocorrências que sobrevieram, não faltou ao que havia prometido a seus amigos, e bem cedo apresentou-se em casa do capitão-mor. Ia resolvido, como se sabe, a expor-lhe sem o menor rebuço toda a verdade, pintar-lhe ao vivo todos os sofrimentos e o profundo descontentamento de seus patrícios, e mesmo dos indígenas, que trabalhavam nas lavras dos portugueses; dizer-lhe, que aqueles não podiam descobrir uma data um pouco abundante de ouro, que os portugueses não a cobiçassem, e não procurassem arrancar-lhes já alegando falsos direitos, que sempre eram atendidos, já provocando conflitos, que sempre traziam em resultado a perseguição e prisão dos paulistas; que os bugres, esses, coitados! não podiam guardar para si nem um grão do imenso ouro, que tiravam, e gemiam debaixo do mais atroz e vigilante cativeiro. Representar-lhe ia vivamente o perigo, a que se expunha oprimindo uma população inteira sem outra proteção, nem meios de defesa senão os que são inspirados pelo desespero. Queixar-se-ia do novo sistema de opressão mais doloroso e vexatório ainda, que se ia introduzindo, qual era o bárbaro costume, de arrancar as filhas a seus pais, e a seus protetores natos para as terem em custódia em casa sem se saber por que, nem para que. Dir-lhe-ia, que os paulistas eram dóceis, e que com muito prazer tinham aceitado o governo do capitão-mor esperando que os viesse proteger contra as violências e esbulhos, de que de longa data eram vítimas da parte dos portugueses; mas que o contrário ia acontecendo, e cada vez mais pesado e insuportável ia se tornando o jugo, que os oprimia. Enfim pretendia fazer-lhe ver, que tudo isto provinha da funesta e maléfica influência, que sobre o espírito dele capitão-mor exercia um homem embusteiro e perverso,. que para desgraça daquela terra tinha vindo em sua companhia; que esse homem, que caprichava em torná-lo odioso a toda a população, era Fernando, seu secretário. Por fim pediria em nome de todos os paulistas providências,. que pusessem termo à aquele deplorável e assustador estado de coisas, e declararia, que se as não obtivesse, ver-se-ia obrigado a retirar-se, porque não desejava envolver-se nem responsabilizar-se por futuras calamidades. Há mais tempo Maurício deveria ter tomado essa nobre e enérgica resolução; agora já vinha um pouco tarde. Sabemos em que disposições vinha encontrar o espírito do capitão-mor profundamente impressionado pelas falas de Fernando. Todavia solicitou e obteve ainda a honra de uma conversação com o seu velho protetor; mas foi recebido com tão inusitada frieza e altivez, que cortou-lhe todo o ensejo de desenrolar a longa série de queixas e acusações, que trazia na mente.

— Então, que pretende de nós, senhor Maurício? - perguntou secamente o capitão-mor. Este modo cerimonioso já começou a desconcertar a Maurício, não que este temesse o capitão-mor, mas estava acostumado a ser tratado por ele como um filho, com toda a lhanesa e afabilidade.

— Venho — respondeu Maurício algum tanto embaraçado — primeiramente cumprimentar à vossas mercês, e depois... também... representar-lhe contra os abusos, agravos e violências, de que meus patrícios têm sido vítimas...

— Ah! já sei, já sei — interrompeu bruscamente o capitão-mor; — é escusado ir por diante. Seus patrícios já tomaram o pulso à minha nimia bondade, ou antes à minha fraqueza, desde que deixei impune a afronta revoltante, que fizeram a meu filho. Não vejo de que se possam queixar senão de seu próprio gênio turbulento e rebelde a todo jugo e disciplina legal. Querem viver a lei da natureza como antes; isso não pode ser, porque não somos selvagens, e nem viemos aqui para tolerar a continuação de semelhante estado. Quer queiram, quer não, hão de submeter-se ao rigor de nossas leis.

— Engana-se vossas mercês — replicou Maurício com dignidade — estamos prontos a nos submeter ao império das leis; mas para nós outros paulistas não há lei, há só capricho e arbítrio para nos oprimir e vexar ao último ponto...

— Ah!... e é por isso que vossas mercês. se reúnem fora de horas a conchavar tramas e projetos de revolta!... O que fazia você senhor Maurício, ontem a horas mortas em casa de mestre Bueno com o Gil e outros amigalhões!...

— Pois será também um crime achar-se um homem em casa de seu amigo?

— Sem dúvida!... a tais horas e em tal companhia, si ainda não é um crime, pelo menos faz desconfiar. A noite foi feita para o descanso, e quem a tais horas se acha em uma reunião dessas, a não ser em algum folguedo, dá muito que entender de si.

— Pode ser, senhor capitão-mor, mas eu protesto...

— Não tem que protestar... proíbo-lhe de hoje em diante toda e qualquer convivência com os seus patrícios, se quiser vir ainda aqui, e gozar de minhas boas graças. Também ordeno-lhe, que me entregue o índio Antônio, que está ficando perdido no meio desse bando de aventureiros, com quem você anda. Vê-se que o capitão-mor, apesar de nesta ocasião procurar formalizar-se, tratava a Maurício como um fâmulo, ou como criança criada em sua casa.

— Quanto a Antônio — respondeu Maurício — dar-lhe-hei a ordem de vossas mercês. Quanto porém ao que exige de mim, com pesar lhe digo, senhor capitão-mor, me é impossível obedecer-lhe. Não posso, não quero, e nem devo renegar meus patrícios. Vivo no meio deles, me procuram, me estimam, me rodeiam..

— Queres então ficar no meio de meus inimigos, e por conseguinte ser um deles?...

— De modo nenhum; eles não são seus inimigos; são perseguidos e queixam-se; são oprimidos e gemem, porque dói-lhes o jugo, que o senhor seu sobrinho faz pesar sobre eles mui de propósito para os atormentar e levá-los ao extremo a fim de melhor poder persegui-los de novo e exterminá-los.

— Demos de barato, que assim seja; mas tu, Maurício, tu o que sofres?... não tem sido sempre estimado e considerado por mim? quem te persegue? quem te ameaça?...

— Por certo não é vossas mercês, senhor capitão-mor; porém seus patrícios e principalmente o senhor seu sobrinho me consagram ódio maior do que a nenhum dos meus, e eu não serei de certo poupado mais que os outros no dia da vingança e do extermínio; oh l estou bem certo disso!...

— E porque te envolves no meio deles?...

— Porque entendo que é meu dever; porque entendo que devo protegê-los e ampará-los nas conjunturas, em que se acham; porque entendo, que seria uma infâmia abandoná-los.

— Pois então, senhor Maurício, haja-se lá com eles, e não conte mais comigo — replicou asperamente o capitão-mor enfadado com a linguagem altiva e independente de Maurício.

— Quem é por eles, é contra mim. O jovem paulista respeitava ainda e estimava muito o seu velho benfeitor, e sentiu-se profundamente magoado com aquelas ríspidas e duras palavras, quais nunca as havia ouvido de sua boca. Vinham elas lançar sinistras sombras em todo o seu porvir, onde via eclipsarem-se todas as suas esperanças em carregada escuridão. Maurício porém sumamente altivo e nobre, leal a toda prova era incapaz de comprar sua futura felicidade a troca de uma infâmia. Não se quis humilhar, e com voz comovida, mas sonora e resoluta.

— Senhor capitão-mor — replicou — sinto bastante, que me retire a sua amizade e confiança; mas nunca me resolverei a conservá-la à custa de uma baixeza, abandonando e atraiçoando meus patrícios no infortúnio. Si não sou contra vossas mercês, também não posso ser contra eles. Nesta horrível conjuntura não sei o que faça; mas espero, que Deus me inspirará o que for de dever e de honra. E sem esperar resposta cumprimentou e saiu. Ao passar pela varanda encontrou-se com Fernando, que o saudou com um sorriso de maligno e pungente escárnio, como quem lhe dizia: vai-te, que de hoje em diante aqui nada vales. Maurício retirou-se com o coração oprimido de despeito e de dolorosas e sinistras previsões. Começava a convencer-se de que tudo estava perdido, e que não restava meio algum regular e pacífico de conjurar a sua desgraça e a de todos os seus patrícios. Em casa encontrou Gil e Antônio, que o esperavam em ansiosa curiosidade.

— Não há remédio — disse-lhes ao entrar; — é-me impossível de ora em diante deter a lava, que ameaça devorar-nos; deixo-os livres e entregues às inspirações de seu justo ódio; não há de ser mais Maurício, que os estorvará na carreira da vingança; façam o que entenderem.

— Por essa já esperava eu! - exclamou Gil; — mas tu, Maurício, o que pretendes tu fazer?...

— Não sei, não sei, meu amigo — murmurou o moço com voz angustiada lançando-se sobre um assento e escondendo a cabeça entre as mãos. Tenho a cabeça em brasa, e parece que se me rebenta o coração.

— Entretanto é preciso tomar uma resolução...

— Mas... que devo eu fazer, Gil!... neste momento tenho o coração tão angustiado, e a cabeça tão perturbada, que não sei deliberar...

— Pois bem, já que não te decides, vou declarar-te o que temos resolvido. Hoje depois das dez horas da noite na caverna de Irabussú, que bem conheces, estaremos reunidos eu, Bueno, Calixto e outros amigos a fim de concordarmos nos meios que devemos empregar para sacudir o odioso jugo, que nos vexa. Comparecerás aí, Maurício?...

— Lá estarei — respondeu resolutamente Maurício levantando-se depois de alguns instantes de silêncio.

— Em todo o caso é esse o meu dever, e o meu posto de honra.

— Muito bem! - disse Gil abraçando-o; — muito bem, meu amigo!... nem era de esperar de ti outro procedimento.

— E Antônio também lá se achará a seu lado, patrão — exclamou o índio.

— Sem dúvida, Antônio; nunca me abandonaste no perigo... Mas agora me lembro que o capitão-mor exige de mim que eu te entregue a ele, e bem sabes que não me pertences...

— Deveras!... e o patrão quer que eu seja entregue?...

— Eu não Antônio; bem sabes, que nunca te considerei escravo, como nenhuma criatura humana o pode ser. És livre, como eu e como ele; faze o que quiseres.

— Nesse caso Antônio breve lá irá, não para entregar-se, mas com o joelho cravado sobre o peito e o punhal alçado sobre o coração desse velho estonteado lhe irá bradar aos ouvidos: Entrega-me a minha Judaíba!

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

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