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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 36 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 2 — Capítulo XI — Fatal Irresolução

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Maurício tinha ido ao conciliábulo da gruta, como tomado de vertigem, como quem se deixa arrastar por torrente fatal, que o vai despenhar por abismos pavorosos.

O tratamento seco e ríspido que recebera da parte do capitão-mor não havia posto fim senão momentaneamente a suas cruéis perplexidades. Ainda não se resolvera, nunca se resolveria a levar o ferro e fogo à habitação do benfeitor, que lhe amparara a infância desvalida, o asilo do anjo puro, de quem dependia sua felicidade na terra. Também não lhe era permitido declarar-se contra seus caros compatriotas oprimidos, que nele depositavam tanta confiança, que tantas provas de extrema dedicação até ali lhe tinham dado. Abandoná-los somente naquelas graves conjunturas seria uma covardia, uma deslealdade, senão uma traição. Fugir para longe do teatro de tão deploráveis dissensões e abandonar as duas facções ao seu destino, lavando as mãos sobre as consequências de qualquer conflito, era o único alvitre que lhe restava entre os dois terríveis extremos em que o destino lhe prendia o espírito, em angustiosa perplexidade, como entre as garras de tenaz ardente. Mas esse alvitre, se é possível, ainda repugnava mais a seu coração do que qualquer dos outros dois. Só a ideia de abandonar o capitão-mor e Leonor expostos ao furor e canibalismo daqueles homens sedentos de sangue e de vingança lhe gelava o coração e arrepiava-lhe os cabelos; seu espírito não ousava deter-se na consideração de tão horríveis calamidades.

— Não, não; eu nunca a desampararei — refletia consigo; — velarei noite e dia à sua porta como o cão fiel; não me reunirei a seus inimigos, nem irei ao encontro deles; meu posto é aqui, e ai daquele que ousar tocá-la, paulista ou índio, negro ou forasteiro!... Mas, ah! meu Deus!... terei talvez de brandir o ferro contra os meus mais caros amigos!... Deus! como é possível achar-se um homem em tão horríveis conjunturas!... Não posso dar um passo que não encontre um abismo diante de mim!... Leonor! ó Leonor!... inspira-me, anjo do céu! Vem me mostrar o caminho por onde eu possa sair deste infernal labirinto em que me vejo fatalmente enredado pela mão do destino! Assim cismava Maurício, debruçado à janela de seu aposento, olhando tristemente para a casa do capitão-mor. Era na manhã que se seguiu à noite da reunião na caverna de Irabussú.

— Em que pensas, Maurício? — veio interrompê-lo uma voz conhecida, enquanto mão amiga lhe pousava sobre o ombro.

— É tempo de pôr-se a gente em atividade, e não de ficar aí assim pensativo e a ver moscas voarem.

Maurício, a quem a presença de Gil causava sempre vivo prazer, desta vez sentiu um terrível abalo e estremeceu desde os pés até a cabeça. Sabia que seu amigo vinha exprobrar-lhe suas eternas hesitações e emprazá-lo ainda uma vez para a reunião na gruta de Irabussú. Pálido e abatido, olhou para Gil sem ousar responder-lhe coisa alguma. Dir-se-ia que Gil era um carrasco que vinha conduzi-lo ao patíbulo.

— Maurício, ou estar conosco ou fugir — insistiu Gil com voz grave e severa —, não te resta outro recurso.

— Fugir!... isso nunca! — replicou Maurício, estremecendo.

— Bem; pois fica sabendo que esta noite nos reuniremos outra vez no lugar que bem conheces. Comparecerás ainda? Ficarás outra vez mudo e quedo como um estafermo?... Olha que o teu silêncio pode inspirar desconfianças.

— Não tenhas receio... comparecerei e exporei francamente tudo o que sinto.

Maurício tinha ido àquela reunião noturna, como já dissemos, como que arrastado pelo ascendente fatal que a voz de Gil e a força das circunstâncias iam tomando sobre o seu espírito. Bruxuleava-lhe também no fundo da alma um pensamento confuso, uma inspiração vaga, que o impelia a tomar parte ativa na revolta. Esse pensamento ainda não tomara forma distinta em seu espírito e não era mais que um pressentimento, um palpite, a que cedia cegamente. Quando, porém, no seio da espelunca sinistra contemplou os torvos e sanhudos semblantes dos conspiradores e ouviu-lhes a linguagem exaltada e feroz, e a sede de vingança e de sangue que lhes estuava no peito e reluzia nos olhos em medonhos lampejos, seu coração gelou-se de pavor, antolhando as horríveis consequências daquela sanguinolenta revolta. Muitas vezes tentou erguer a voz, não para acompanhá-los em suas furibundas execrações e brados de vingança, mas para moderar-lhes a sanha e propor planos menos sanguinolentos. Um embaraço inexplicável, porém, um terror insensível o detinha a pesar seu, e Maurício saiu daquele lúgubre subterrâneo ainda mais desanimado, inquieto e abatido que nunca.

Todavia, a voz de Maurício vibrou-lhe na alma, despertando nela um pensamento vago que a dominava.

Na noite antecedente, como ela já ia adiantada e convinha que o dia os não surpreendesse na gruta, os insurgentes tinham marcado nova reunião para a noite seguinte, a fim de tomarem uma decisão final e decisiva sobre o dia e o modo de levarem a efeito sua terrível empresa.

A noite seguinte viu, pois, de novo reunidos debaixo daquelas broncas e gigantescas abóbadas esses homens sinistros, meditando vingança e carnagem, como um bando de lobos esfaimados esperando com impaciência o dia para se arrojarem pelos campos a saciarem sua fome voraz.

Como devia suceder em uma assembleia composta de elementos tão heterogêneos, logo se manifestou a divergência de opiniões e, após ela, a confusão e a discórdia. Queriam uns — e esses eram mais numerosos — que desde já dessem assalto à casa do capitão-mor, levando tudo sem piedade a ferro e fogo, tomassem conta da povoação e, apoderando-se de todas as riquezas e bens dos emboabas, se fortificassem ali, reunindo mais gente, que não faltaria, pois que em Caeté, Sabará e Ouro Preto sobejavam descontentes que só aguardavam ocasião oportuna para se sublevarem. Entendiam que só assim, por um levantamento geral, enérgico e vigoroso, poderiam quebrar o jugo ignominioso a que viviam sujeitos.

Estes planos grandiosos, já se vê, não podiam partir senão de alguns paulistas mais inteligentes e nimiamente exaltados, que já pensavam talvez na emancipação da terra natal; os bugres e negros boçais os aplaudiam de todo o coração.

Outros, mais modestos e moderados, formando, porém, um grupo insignificante, opinavam que se devia poupar o sangue o mais que fosse possível, porque as atrocidades e massacres tornariam odiosa a sua causa; que, formando um levantamento imponente pelo número, escudados como se achavam pela boa razão, eles imporiam a lei aos emboabas, que não eram em grande número, e conseguiriam completa reparação das injustiças, vexames e danos sofridos, e se fariam respeitar mais eficazmente de então em diante. Para esse fim, convinha dilatar por mais alguns dias a execução do plano, até que se reunisse mais gente; Itabajuna podia ainda reforçar o seu contingente, e pelas imediações havia ainda grande número de paulistas e escravos fugidos prontos a se insurgirem, mas que não eram sabedores daquele plano de sublevação.

Este alvitre, porém, era repelido pela maioria com clamores de reprovação e até com vaias. Julgavam-no perigoso, e com razão, porque os portugueses, que já andavam algum tanto ressabiados, poderiam desconfiar da sublevação ou mesmo serem dela informados por algum traidor; entendiam que deixar para mais tarde o rebentamento da insurreição era o mesmo que preparar o pescoço para uma corda.

Maurício, todavia, acoroçoado pelas manifestações daquela pequena fração que aconselhava prudência e moderação, animou-se enfim a pronunciar-se.

Exagerando as tendências de moderação, disse que era possível fazer-se uma resistência eficaz e respeitável sem violência alguma e sem derramar uma só gota de sangue; que o único autor das desgraças que sobre eles pesavam era Fernando, o homem mais tredo e perverso que pisava sobre a terra. Procurou justificar o capitão-mor, fazendo um lisonjeiro retrato de seu caráter e afiançando suas boas intenções. O algoz era Fernando; era sobre este somente que chamava os ódios e vinganças. Removido este gênio do mal, as coisas por si mesmas entrariam no seu estado normal; todos gozariam de paz e liberdade, e cessariam todos os vexames de que até ali tinham sido vítimas. Era de parecer, pois, que, reunidos em número suficiente que pudesse impor, cercassem a casa do capitão-mor e lhe intimassem, com as armas na mão, a expulsão de Fernando. Terminou dizendo que um assalto inopinado e traiçoeiro aos emboabas para cometer barbaridades e depredações seria um crime revoltante, um ato de canibalismo, só próprio de selvagem ou de feras bravias, para o qual nunca deveriam contar com ele.

Um sinistro sussurro de desaprovação acolheu estas palavras.

— Estamos perdidos! — murmurava um dali.

— Este homem quer nos entregar amarrados de pés e mãos em poder do capitão-mor.

— Fernando é o braço — dizia outro dacolá —, o outro é a cabeça; corte-se a cabeça, que não haverá mais braço para nos ferir.

— Abaixo a cabeça do capitão-mor, de Fernando e de tudo quanto é emboaba! — bradavam todos.

— Nada de contemplações! Morra tudo quanto é emboaba! Morra o velho das lantejoulas e da casaca vermelha!

— Morra!!

— Morra! Morra! — repetiam os ecos das cavernas com medonhas repercussões.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

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