Universo da obra
Universo da obra
Maurício parou um instante embaixo da janela, não sabendo para onde encaminhasse seus passos. Felizmente para ele, ninguém o vira saltar senão Gil e Antônio, que, como sabemos, escondidos em um canto, tinham ficado de espreita, esperando-o. Apenas o viram, em um instante se acharam ao pé dele.
— Que faremos, meus amigos? — perguntou Maurício.
Achava-se, na verdade, em uma situação estranha e inextricável. O futuro, mesmo o mais próximo, era para ele um enigma, cuja decifração só podia esperar do acaso. Exceto aos dois amigos que ali se achavam ao pé dele, a ninguém podia inspirar daí em diante senão ódio e desprezo; todos os corações se lhe fechariam, e todos os braços se levantariam contra ele.
Entretanto, no meio de tão horrível desolação, dois pensamentos lhe davam algum conforto e consolação: tinha salvado Leonor e tinha visto subjugado e abatido a seus pés seu pérfido e insolente rival.
— Fugir, meu amo — disse Antônio, respondendo à pergunta de Maurício.
— Fugir, e já.
— Sim, foge, Maurício — disse-lhe Gil também —, foge, enquanto é tempo. Bem estás vendo: à exceção de mim e de Antônio, todos são contra ti; a morte cerca-te por todos os lados.
Efetivamente, à esquerda, grande número de emboabas se aglomeraram junto ao portão, vociferando imprecações e pedindo em altos brados a morte de todos os paulistas e a cabeça de Maurício. À direita, os paulistas, negros e bugres que haviam escapado à matança, retirando-se para o lado do Rio das Mortes, iam-se reunindo a distância, erguendo brados furiosos não tanto contra os emboabas como contra Maurício.
— Morra! — gritavam eles.
— Morra hoje mesmo esse traidor infame, causa de todas as nossas desgraças!... Morra o carrasco que nos chamou ao matadouro para nos degolar com suas mãos.
Por esse mesmo lado, um vivo e medonho clarão começou a iluminar de repente toda a estrada. Era a casa de Maurício que começava a arder; os insurgentes fugitivos tinham-lhe lançado fogo e sumiam-se em fuga acelerada pelas trevas de além.
— Bem estás vendo e ouvindo tudo, Maurício — disse Gil — foge, foge enquanto é tempo.
— Deixem-me, deixem-me morrer — murmurou Maurício tomado do mais amargo e profundo desalento.
— Não te deixaremos enquanto não te virmos livre de perigo; quando não, morreremos contigo. Maurício não insistiu mais; entregou seu destino à mercê de seus amigos. Como os insurgentes em sua fuga já iam longe, os três cozendo-se às sombras do morro da quinta, que se estendia até quase a casa de Maurício, encaminharam-se para esse lado, que por ser deserto lhes proporcionava mais facilidade para a fuga.
— Não me resta mais abrigo sobre a terra; só debaixo dela poderei achar descanso!...- murmurou tristemente Maurício ao passar pela frente dessa casa, que havia construído com tanto amor e embalado por tão lisonjeiras esperanças, e que agora via com elas esvaecer-se para sempre em chamas, fumo e cinzas!... Seguiram sem encontrar obstáculo algum pela estrada adiante até um estreito trilho, que, desviando-se dela cortava à direita um espesso matagal. Aí Maurício parou.
— Adeus, Gil! — disse com acento da mais pungente emoção; — estou fora de perigo; não quero, que participes mais de minhas desgraças. Aqui perto tenho meu cavalo arreado; eu e Antônio saberemos pôr-nos a salvo. Cuida em salvar-te também. Adeus!... E sem esperar resposta enfiou-se rapidamente pelo trilho, e acompanhado por Antônio sumiu-se no matagal. Na manhã do dia seguinte os habitantes de São João del-Rei cavavam a terra não para extrair dela o ouro que tanto cobiçavam, mas para depositar em seu seio uma multidão de cadáveres, que eram conduzidos por dezenas em carros de bois. Logo depois do horrível e sanguinolento conflito Fernando apesar de ferido e extenuado de fadiga sempre ativo em sua odiosa perseguição expediu patrulhas a pé e a cavalo por todos os arredores em perseguição de Maurício e de todos os insurgentes, que encontrassem. Uma dessas patrulhas, já o sol ia alto — seguindo um rastilho de sangue encontrou à margem do Rio das Mortes pouco acima da ponte, que conhecemos, uma cova aberta de fresco; sobre essa cova estavam um chapéu e armas, que reconheceram ser de Maurício. Mão piedosa, decerto a de Antônio, tinha plantado sobre essa cova uma cruz de madeira toscamente lavrada, e nos braços dela em falta de outra tinta tinha escrito com sangue estas palavras:
— Orai por ele!
Quase todos entenderam, que Maurício havia morrido em consequência de golpes, que recebera em combate. Mas os poucos, que o conheceram de perto, e sabiam a história íntima de seu coração, julgavam mais provável, que ele tivesse posto fim a seus dias por suas próprias mãos. Entretanto a infeliz Leonor, treda e insidiosamente informada por Fernando sobre o procedimento de Maurício e sobre a morte por ele dada a seu irmão Afonso, não tinha senão maldições para a memória de seu desditoso amante. Nesse mesmo dia, que se seguiu à temerosa noite, sentada à cabeceira de seu pai ferido e prostrado no leito, confessava-lhe cheia de vergonha e remorso o louco amor, que concebera pelo jovem paulista, e pela alma de seu irmão cujo cadáver ia ser dado à sepultura, implorava-lhe perdão abjurando para sempre tão funesta paixão. Por fim rogava-lhe com as lágrimas nos olhos, que para expiação de sua fatal fraqueza a fizesse professar freira no convento de Nossa Senhora da Luz em São Paulo.
— Veremos depois, minha filha — respondia o bom e honrado pai; — estou muito fraco e tu muito magoada para podermos pensar nisso agora. O leitor, que até aqui tem acompanhado benigna e pacientemente esta tosca narração, se deseja saber qual foi realmente o fim de Maurício, e qual a sorte de seus companheiros de infortúnio e outros personagens, que nela figuram, deve ler outra história, que servirá de seguimento a esta com o título de Bandido do Rio das Mortes. FIM
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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