Universo da obra
Universo da obra
Maurício ficou transido de horror e indignação com essas vociferações de feroz canibalismo e, de braços cruzados e olhos fitos no chão, esperava que se amainasse a tormenta que o ameaçava. Foi em vão; a fúria recrudescia, e Maurício amaldiçoava a hora em que se lembrou de abrir a boca para falar àquela gente bárbara e desvairada pelo ódio. Debalde Gil, Antônio e alguns paulistas mais ajuizados e prudentes procuraram acalmar os ânimos; a repressão cada vez mais os irritava. Os negros, vociferando, brandiam por cima da cabeça suas facas reluzentes, e os arcos dos indígenas, em contínua agitação, chocavam-se uns nos outros, como em suas danças selváticas, com estrépito medonho. A todo este tumulto mesclavam-se gritos imprudentes e doestos provocadores contra os moderados, e principalmente contra Maurício.
— Como em casa do capitão-mor, louvado seja Deus, não tenho ninguém que me queira bem — bradou uma voz dentre a multidão —, a primeira cabeça que peço é a do capitão-mor.
— Nem eu — respondeu outra voz —, não tenho lá nenhuma Leonor... Este terrível doesto foi certeiro ferir o coração de Maurício como uma seta envenenada. O mancebo ficou hirto, pálido e trêmulo de cólera, de indignação e de asco. Não quisera por coisa nenhuma que a lembrança somente de sua idolatrada Leonor pairasse pelo horror daquelas espeluncas malditas, e muito menos que seu nome fosse profanado por esses lábios satânicos sedentos de sangue. Vibrou olhares ardentes e lampejantes de cólera pela multidão, mas não lhe era possível reconhecer donde partira aquele brado insolente; soubesse quem o soltara, que no mesmo instante se teria arrojado a ele como a hiena e o teria cosido a punhaladas.
— Saiba o infame que acabou de me achincalhar e que não tem ânimo de apresentar-se — bradou com acento de furor concentrado — que é verdade que existe em casa do capitão-mor uma pessoa a quem idolatro de todo o meu coração; não tenho escrúpulo nem receio algum de o declarar alto e bom som diante de todos que aqui se acham, e ai daquele que em minha presença ousar, já não digo tocar-lhe as mãos, mas somente proferir-lhe o nome com menos respeito.
— Está tudo perdido! — murmurou Gil consternado, e depois, achegando-se a Maurício e tomando-lhe o braço:
— Maurício — disse-lhe em meia voz e com acento angustiado —, tua imprudência nos perde!...
— Oh! Gil — respondeu-lhe Maurício no mesmo tom, voltando do terrível assomo que lhe perturbava o espírito —, que hei de eu fazer?... Estes covardes me insultam; não, não posso acompanhar-te com esta turba de feras indomáveis... Não pôde continuar; suas palavras imprudentes tinham levado ao cúmulo a exaltação e o furor que já lavravam no meio daquela horda ingovernável. Nem a autoridade e o prestígio de Gil, nem as diligências de Antônio, nem a intervenção de mais alguns paulistas conseguiram aplacar-lhes a sanha, que cada vez mais recrudescia.
Assim, quando o caçador, ao partir para a caça, embocando a buzina chama os cães e, disparando um tiro, dá o sinal da partida, não há mais contê-los na impaciência de sair, nem gritos, ordens ou pancadas que imponham termo ao alarido infernal de seus uivos, ganidos e incessante ladrar.
— Traidor! Traidor! Morra o traidor! — vociferava uma multidão de vozes, e alguns já avançavam sobre Maurício, ameaçadores e de arma feita. Gil, Antônio, Bueno e Calixto rodearam Maurício, que, imóvel e de braços cruzados, se oferecia calmo e resignado ao furor selvático de seus agressores, como quem desejava ali acabar aos golpes daquela turba desvairada, para pôr fim à sua tão cruel e angustiosa situação.
Mas eram poucos contra a multidão, que se arrojava furiosa contra Maurício, continuando a bradar:
— Morra! Morra o traidor!... Gil, vendo que aquele fatal incidente ia levar ao mais desastrado malogro a empresa começada com tão felizes auspícios, reassumiu uma energia suprema. Torvo e imponente, vibrando olhares imperiosos e chamejantes sobre a turba que o rodeava, alçou-se sobre ela em toda a altura de seu soberbo porte. Dois impulsos, cada qual mais poderoso, a amizade, que lhe mandava salvar o amigo do furor brutal daquela horda enfurecida, e o receio do malogro em que via prestes a naufragar a causa da insurreição, davam à sua fisionomia um ar terrível, e à sua alma uma energia e um denodo irresistíveis.
— Calem-se! Calem-se! Calem-se! — bradou três vezes com voz estrugidora, ferindo rijamente o chão com o pé. A esse brado, o revolutear dos vultos e a vociferação frenética cessaram como por encanto.
— Loucos — continuou Gil —, o que pretendem com semelhantes motinarias?! Se estamos aqui para empregar nossas armas uns contra os outros, adeus! Eu e todas as pessoas de algum siso vamos deixá-los entregues a si mesmos. O capitão-mor terá pouco ou nada que fazer, porque, antes de se apresentarem diante dele, já todos aqui se terão estrafegado uns aos outros. Eu desejo saber: quem manda aqui? Temos ou não um chefe?...
— Temos, sim! — bradaram todos.
— És tu, Gil, és tu...
— Nesse caso, obedeçam-me. Ai daquele que levantar a mão contra Maurício!... Fiquem tranquilos a respeito de sua lealdade. Maurício tem motivos nobres para querer poupar o capitão-mor e sua família, mas é incapaz de ser contra nós e de atraiçoar-nos. Sim, é incapaz, eu vos afianço, e dou-vos em penhor a minha cabeça.
— E Antônio também oferece a sua — acudiu o índio.
— Cortem-me esta cabeça como a um vil, se algum dia meu amo nos atraiçoar. Mas, por Deus, não o ofendam; ele não irá dizer nada ao capitão-mor, não; mas saltará sobre vós como o canguçu, e Antônio estará com ele. Dominados pelo tom e pela atitude imponente e prestigiosa de Gil, secundado pelos esforços de Antônio e de alguns paulistas dispostos a aplacar ou rebater um conflito iminente, os revoltosos se acalmaram por instantes.
Mas a questão que dividia os ânimos não estava ainda decidida, e era mister tomar uma deliberação. Continuaram a altercar viva e calorosamente sobre se deviam ou não assaltar in continenti a povoação, ou esperar que se reforçassem com maior número. Novas cenas tumultuosas prorromperam, já não provocadas por Maurício, que, cheio de angústia e inquietação, se recolhera de novo ao silêncio, mas pelos outros, que se exaltavam cada vez mais.
Foi Antônio quem, dessa vez, tentou aplacar as procelas intermináveis e sempre renascentes, com sua linguagem tosca e sua exaltação selvática, mas enérgica e pitoresca.
— Que é isto, minha gente?! — bradou ele do alto de um pilar quebrado de estalagmita, que galgara de um salto.
— Que é isto?!... Se foi só para fazer esta berreira e matinada que aqui viemos, Antônio vai-se embora; não contem mais com ele. Tenham mais respeito a este lugar; esta é a caverna de Irabussú, meu tio do mato, pajé sagrado, que conversava com Tupã. Irabussú falava pouco e não gostava que berrassem a seus ouvidos. No entanto, ele era o terror dos emboabas; por artes de Irabussú, cinco deles aqui morreram por estas buracadas, e aí ficaram para sempre sepultados; suas ossadas ainda por aí andam espalhadas pelo chão; suas carnes foram comidas pelas onças e outros bichos do mato. Irabussú também quis aqui morrer.
Seu espírito decerto volteia por essas sombras a pedir vingança; vingança por ele e por sua filha, que lá está gemendo na escravidão em poder do emboaba! Se Irabussú fosse vivo, ele apareceria entre nós e nos viria ensinar o que devemos fazer para dar cabo de nossos opressores.
— Ó Irabussú! Irabussú! — bradou com toda a força o jovem índio, voltando-se para o fundo da caverna, como pitonisa inspirada sobre a trípode evocando as sombras dos mortos.
— Irabussú! — respondeu uma voz longínqua e surda das profundidades da caverna. Todos cuidaram ser um desses ecos a que já estavam habituados, e que, do seio das cavidades, repercutia a última palavra de Antônio.
— Irabussú! — reboou de novo a mesma voz, como o rugido surdo da pantera, porém já mais vizinha e mais distinta. Todos volveram olhos espantados para o lado de onde partia aquela voz estranha. Daí a instantes, por entre as sombras do limbo tenebroso, foram-se desenhando as formas confusas de um fantasma colossal, esguio e pavoroso, que avançava lentamente para eles.
— Aqui está Irabussú!... Que querem dele?...— rosnou o espectro com voz fúnebre e gutural.
Ninguém duvidou de que era a sombra ou o espírito de Irabussú que surgia daqueles túmulos cavados pela natureza, e todos, espavoridos, com os cabelos hirtos e o coração gelado de pavor, encaravam o temeroso fantasma, sem que ninguém ousasse dirigir-lhe a palavra. O próprio Antônio, que nunca pensara que o velho bugre acudisse à sua evocação, estava oprimido de assombro. Gil, Maurício e outros, que nunca haviam tremido diante de coisa alguma deste mundo, estavam transidos de pavor até a medula dos ossos. Foi, entretanto, o próprio Antônio quem se abalançou a falar ao medonho fantasma.
— Já que nos apareces, Irabussú — balbuciou o índio com voz trêmula e apavorada —, estejas vivo ou morto, diz-nos o que devemos fazer para nos vingarmos de nossos tiranos e revela-nos também o segredo dessa mina que contigo guardavas e que levaste contigo para a sepultura. Não temos sede de ouro, como esses malditos emboabas, tu bem sabes; mas precisamos dele para vingarmos a ti, a nós todos, e livrarmos a tua Judaíba, que até hoje lá geme na escravidão.
— Quando os filhos da terra de Tupã tiverem derramado a última gota do sangue do emboaba, Irabussú lhes dará ouro aos montões — disse pausada e solenemente o espectro, e de novo embrenhou-se pelas lôbregas sombras de onde surgira e onde ninguém ousaria penetrar.
Repassados de assombro, os insurgentes ficaram por largo tempo silenciosos, entreolhando-se espantados. O pavoroso fantasma viera lançar-lhes nos ânimos mais um novo e poderoso incentivo para excitar a fúria da vingança.
Esse ouro, que lhes prometia aos montões, tornou ainda mais ardente a sede que tinham do sangue do emboaba. Recresceram o tumulto e a gritaria, e muitos queriam, naquele mesmo instante, abalar-se para assaltar a povoação.
O assombro, porém, e a consternação que a fatal aparição lançou sobre o espírito de Maurício é o que a custo se poderia imaginar. Tudo se lhe afigurou então com as cores mais lúgubres e sinistras. Não era mais possível conter a lava impetuosa que brotava daquela cratera incandescente. Pintava-se-lhe na imaginação aquela horda feroz e desenfreada, sedenta de sangue e de ouro, caindo de chofre sobre a povoação, massacrando tudo sem piedade, entrando furiosa em casa do capitão-mor com os pés cobertos de lama sanguenta, penetrando nos recatados aposentos de Leonor, ultrajando-a, traspassando-a de punhaladas, ou talvez pior ainda... talvez, com brutal cinismo, violando-lhe a pureza imaculada!
Entre tão horríveis imagens, o sangue lhe afluía à cabeça, sentia calafrios, um suor gélido lhe porejava da fronte, e os objetos se lhe apresentavam aos olhos desvairados como cingidos de uma auréola de sangue. Não pôde mais conter-se; soltou um grito de alucinação:
— Tirem-me daqui!... Tirem-me daqui, ou matem-me! — bradou com o acento do terror e do desespero.
— Que tem, Maurício, que tem? — exclamou Gil, acudindo inquieto e pressuroso ao seu amigo.
— Oh! Arranquem-me daqui, por piedade. Não; não serei eu nunca quem manchará minhas mãos no sangue dos...
— Cala-te, Maurício — atalhou sofregamente Gil —, cala-te, por piedade, também te peço... mais um pouco de paciência... Não puderam continuar; uma grita enorme abafou-lhes as falas.
A exclamação de Maurício tinha de novo despertado todas as desconfianças dos insurgentes.
— Morra! Morra o traidor! — bradaram de novo.
— Já disse — gritou Gil — que respondo por ele com minha cabeça; serei também traidor?... O dia não pode tardar; é tempo de nos dispersarmos; na noite próxima veremos o que se deve fazer...
— Sim! Sim! — responderam muitas vozes.
— Mas esse homem ou deve morrer, ou daqui não há de sair enquanto não acabarmos a nossa empreitada. Fiarmo-nos nele, oh!... nunca! nunca mais...
— Nunca! Nunca mais!...— repetiram muitas vozes.
— Matem-me ou deixem-me sair! — bradou Maurício em desespero.
— Sair, nunca!... Morra! Morra! — vociferaram alguns, já avançando para Maurício de punhal alçado.
— Não morrerá enquanto Antônio viver! — exclamou o índio, saltando em defesa de Maurício e colocando-se diante dele.
— Pois então aqui ficará preso até levarmos a cabo a obra de nossa vingança...
— Nunca! — rugiu Maurício como tigre enfurecido.
— Ou hão de matar-me, ou hão de deixar-me sair livremente.
— Nesse caso, morra!...
— Não há de morrer! — replicou Antônio com voz firme e imperiosa.
— Deixem-no sair; eu ficarei por ele aqui nesta gruta, bem guardado e vigiado, sem comer nem beber, amarrado de pés e mãos, se o quiserem. Eu aqui ficarei, e, no momento em que souberem que meu patrão Maurício nos atraiçoou, cortem imediatamente a cabeça de Antônio.
— Que fazes, meu bom amigo! — disse-lhe Maurício.
— Deixa-os que me matem; eu sou um desgraçado que para nada mais pode ser útil neste mundo; a vida, de hoje em diante, é para mim um peso insuportável. Deixa que me matem.
— Vá-se embora, patrão; vá, eu ficarei por vossas mercês.
— Vamos, vamos, Maurício — disse Gil, travando-lhe fortemente do braço e arrastando-o quase à força para fora da caverna.
Os insurgentes, atônitos e comovidos com a dedicação do generoso índio, aceitaram-no como refém e fiador da lealdade de seu patrão, e não ousaram mais opor-se à saída deste.
Assim, pois, debandou-se ainda anarquicamente a reunião daquela noite, sem nada ter sido resolvido definitivamente.
Distando a gruta cerca de légua e meia do povoado, os paulistas que nele residiam precisavam entrar ainda com as sombras da noite, um por um e com todas as precauções, a fim de não despertar suspeitas. Os índios e negros fugidos embrenharam-se pelas matas, procurando seus coutos conhecidos. Se bem que o refúgio daquela espelunca fosse até ali completamente ignorado dos emboabas, Gil todavia julgou prudente estacionar ali alguns vigias permanentes, a fim de que, se por acaso alguém viesse a descobri-la, os insurgentes pudessem ter aviso e tomar as medidas convenientes.
Era ali, pois, o quartel e o depósito de armamentos e munições. A essa escolta ficou entregue Antônio, não amarrado de pés e mãos, porém guardado com a mais severa vigilância.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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