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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 47 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 2 — Capítulo XXII — Combate Pro e Contra

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Maurício, depois de ter depositado em seu leito Leonor desfalecida, enfiou-se de novo pelo caminho subterrâneo, por onde viera, e logo que surgiu fora dele e saltou para fora dos muros da quinta, e em vez de ir para o sítio retirado, onde escondera o seu animal, dirigiu-se para o centro da povoação.

A única resolução que lhe restava na difícil e terrível conjuntura em que o vinha colocar o precipitado assalto dos insurgentes tinha sido instantânea e definitivamente tomada em seu espírito. Não podia deixar Leonor e seu pai entregues à sanha daquela horda infrene e sedenta de sangue, que tudo levaria a ferro e fogo sem distinção de sexo nem de idade. Leonor seria vítima do mais feroz canibalismo, e era seu dever imprescindível voar em seu socorro.

Mas apresentar-se só era imprudência e temeridade que nenhum resultado produziria. Já tinha ouvido no meio das vozerias seu nome pronunciado com rancor entre epítetos afrontosos; não o reconheceriam mais como chefe, nem mesmo como camarada, e em vez de obedecer-lhe voltariam suas armas contra ele. Prevendo todas estas coisas, na cruel ansiedade em que se achava, lançou mão do único expediente que lhe restava. Percorreu com a rapidez do relâmpago as ruas mais habitadas, bateu à porta de diversos portugueses, os quais, com os gritos e o arruído do assalto, se achavam quase todos despertados, informou-os do que havia, animou-os e fê-los pegar em armas e correr em auxílio do capitão-mor e sua família... Logo que se viu rodeado de doze ou quatorze companheiros, correu com eles direito ao lugar do conflito. Ao chegar viu logo que os insurgentes levavam tudo de vencida; tremeu-lhe o coração ao pensar que, um só momento mais que se demorasse, tudo estaria perdido, e do íntimo d’alma rendeu graças ao céu, que lhe guiara e acelerara os passos para chegar a tempo de salvar um anjo puro e inocente das garras de inimigos brutais e furiosos. Já achou o pátio abandonado e alastrado de cadáveres e de gente ferida. Sem mais demora subiu afoitamente as escadas da varanda à testa de seus companheiros. Tentou ainda com sua voz e autoridade conter a fúria dos assaltantes.

— Basta, camaradas! — bradou-lhes.

— Basta de tanta carnagem! Estão vencidos e entregues; basta!... Basta de matança!... A estes brados os paulistas, índios e negros, que se atropelavam na varanda pisando sobre cadáveres, volveram o rosto e, reconhecendo Maurício pela figura e pela voz no meio daquela troça de emboabas:

— Morra!... Morra o traidor! — gritaram, arremessando-se furiosos contra o paulista e seus companheiros.

É impossível descrever a luta medonha, furiosa e desatinada que então se travou naquele estreito recinto. O atracamento de dois navios de guerra não oferece cena mais horrorosa. Os agressores, vendo-se abandonados pelos companheiros da retaguarda, que foram forçados a voltar-se contra Maurício, apertados por Fernando viram-se obrigados a abandonar o salão e saírem de novo para a varanda, a qual, ainda que larga e espaçosa, era arena muito estreita para tantos combatentes. Brigava-se a estocadas, cutiladas, punhaladas, a golpes de coronha e de tacapes, e, na perturbação e entrevelamento que reinava entre os combatentes, vibravam-se golpes às cegas contra amigos e inimigos. Maurício bradava ainda em vão a seus patrícios e camaradas, querendo pôr termo a tão desastrada carnificina; nada os podia conter: arrastava-os a furiosa embriaguez do sangue e da carnagem. Viu-se, pois, na dura necessidade de precipitar-se sobre eles como um leão indignado sobre uma alcateia de lobos famulentos. Os assaltantes já estavam extenuados de fadiga e, pela maior parte, feridos e cutilados. Maurício, em poucos instantes, brandindo a espada, abriu através deles um claro imenso; seus companheiros o seguiram e, a estocadas, empurrões e coronhadas, expeliram os que não morreram para fora da varanda e os arrojaram no pátio. Restavam, porém, os da frente, que se digladiavam furiosamente contra Fernando, Afonso e seus poucos companheiros.

Entre aqueles achava-se Calixto, o jovem e impetuoso paulista que, por sua imprudência e sofreguidão, era uma das principais causas daquela horrível e inútil carnificina. Coberto de golpes e esvaindo-se em sangue, já mal podia amparar-se dos botes vigorosos de seus adversários. Mas, mesmo assim, avançando sempre, esforçava-se a todo transe por abrir caminho até o interior da casa; queria ainda uma vez ver a sua Helena e, aos pés dela, exalar o alento derradeiro. Ao ver esse belo e altivo mancebo em tão deplorável situação, Maurício sentiu a mais pungente e amarga comoção.

— Foge, Calixto; salva-te enquanto é tempo — disse-lhe a meia voz, avizinhando-se dele o mais que lhe foi possível.

Ao som daquela voz, que logo reconheceu, o mancebo voltou-se rapidamente e, vendo Maurício, arrojou-se a ele furioso e de espada alçada.

— Não tens pejo de falar-me, vil traidor?! — foram as únicas palavras que proferiu, desfechando uma cutilada com todas as forças que lhe restavam.

Maurício, porém, apercebido, desviou-lhe o golpe e, dando-lhe imediatamente no braço direito uma forte pranchada, fez-lhe saltar a espada da mão. Os olhos do mancebo se turvaram, os braços desfaleceram, as pernas cambalearam, e ele caiu exangue sobre o pavimento. O coração de Maurício confrangeu-se de dor e comiseração à vista de tão lastimoso espetáculo; não era, porém, a ocasião de verter lágrimas sobre os mortos, mas sim de tratar de salvar os vivos.

Maurício investiu imediatamente sobre os outros assaltantes, que se batiam com Fernando, e, auxiliado pelos emboabas que o acompanhavam, em breves instantes afugentou uns e pôs outros fora de combate. Neste momento um súbito e imenso clarão veio iluminar toda a varanda e a cena sanguinolenta que nela se passava. Os insurgentes tinham posto fogo às senzalas que rodeavam o pátio, e o incêndio, que até então lavrara oculto, começava a erguer ao céu suas rubras e crepitantes espadanas de fogo. À luz daquele clarão sinistro todos se podiam reconhecer pela fisionomia. Maurício achou-se face a face com Fernando e Afonso, que, ao reconhecê-lo, lançaram-se a ele bramindo de raiva, atirando-lhe golpes incessantes e bradando-lhe:

— Morre!... Morre, infame! Morre, vil traidor!

Ainda desta vez Maurício, obedecendo mais aos generosos impulsos do seu coração do que aos sentimentos de justo rancor que votava a Fernando, tentou poupar sangue e pôr termo à matança.

— Senhores — bradou ele, sempre aparando os botes que choviam encarniçados sobre sua cabeça —, bem estão vendo que venho defendê-los; embainhem essas espadas; estão salvos, e a mim o devem.

— Não precisamos de tua defesa, perro vil!... Defende-te a ti mesmo, se podes — retrucou Fernando, a espumar e atirando-se cada vez mais furioso contra o paulista, que, sem querer ofender, continuava a defender-se galharda e vigorosamente.

Afonso, porém, em seu cego e desvairado ímpeto, arrojou-se por tal sorte sobre Maurício, que este, sem o querer, cravou-lhe a espada na garganta e o estendeu morto no pavimento.

O jovem fidalgo caiu junto ao corpo de Calixto, e, ao cair, seu braço estendido enlaçou-se ao colo daquele que fora seu rival. Dir-se-ia que, ao morrer, implorava perdão e procurava congraçar-se com aquele a quem na vida tinha tão dolorosamente ofendido na fibra mais sensível do coração. Estavam ali prostrados esses dois jovens, iguais na idade, na beleza e na pujança, ambos cheios de vida e de risonhas esperanças, que decerto se teriam realizado se suas próprias paixões e desatinos não os tivessem arrastado a tão prematuro e desastroso fim. Estavam ali como duas palmeiras que ainda há pouco se balançavam ufanas e garbosas defronte uma da outra, emulando qual em ostentar mais viço e louçania e querendo cada uma roubar para si só toda a seiva da terra, todos os beijos da brisa e todo o orvalho do céu. Veio um mesmo tufão e as derribou uma sobre a outra, sobre o pó da terra, e as enlaçou em piedoso e fúnebre amplexo. Na morte esqueceram seus ódios e seus amores e congraçaram-se para sempre no seio do universal e infinito amor.

Os emboabas que tinham vindo com Maurício, surpreendidos com a nova luta que se travava entre ele e os donos da casa, não sabiam o que pensar; não podiam compreender por que motivo o combate se renovava ainda mais renhido entre Fernando e aquele que tão valente e generosamente tinha corrido a salvá-lo de um desastre inevitável. Vendo, enfim, o filho do capitão-mor cair trespassado pela espada do paulista, começaram a convencer-se de que ele não podia ser a favor dos portugueses e, cessando de coadjuvá-lo, ficaram por alguns instantes atônitos e perplexos, sem saberem o que fizessem.

— Que fazeis, patrícios?! — bradou-lhes Fernando.

— Por que acompanhais esse vil traidor, que jurou trazer a morte e a desonra a esta casa e a ruína de todos os portugueses?... Há uma vítima ilustre; ali jaz à espera de vingança. A ele, camaradas!... Ele é o pior de nossos inimigos; a ele!... Os portugueses não hesitaram mais; o cadáver de Afonso ali estava, denunciando-o como inimigo dos emboabas; arrojaram-se sobre ele e o atacaram por todos os lados. Maurício estava perdido; achava-se só, tendo pela frente Fernando com mais dois companheiros que ainda lhe restavam, e por detrás ainda uns seis ou sete emboabas daqueles que ainda há pouco combatiam a seu lado. Encostou-se à parede e ali se defendeu por alguns instantes com incrível vigor e agilidade, aparando e desviando um chuveiro de cutiladas e estocadas. O número, a cegueira e o açodamento dos agressores, que se abalroavam e atrapalhavam uns aos outros na fúria do combate, favoreciam a defesa de Maurício, o qual, com alguns golpes vibrados com a rapidez do relâmpago, ainda conseguiu pôr fora de combate uns dois adversários. Mesmo assim, porém, por mais um instante que se prolongasse tão desigual combate, sua morte seria inevitável. Já não restava ao valente paulista a mínima esperança de salvação; disposto a morrer, depois de ter dirigido mentalmente uma súplica extrema ao Deus de misericórdia, enviava a Leonor seu último e angustiado pensamento, quando subitamente viu surgir sobre o peitoril da varanda e saltar para dentro um vulto, e logo após este um outro ainda. Maurício logo os reconheceu; eram Gil e Antônio.

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

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