Universo da obra
Universo da obra
Não podemos prosseguir nesta narrativa sem nos demorarmos um momento a fim de darmos a conhecer ao leitor quem era Irabussú e sua filha.
Gil havia chegado a São João del-Rei em companhia de Maurício um ano antes da vinda do capitão-mor. Era um amigo dedicado, e um excelente auxiliar que Maurício associava a si na comissão, de que fora encarregado por seu protetor.
Viera muito pobre, mas sempre alentado pela esperança de em breve enriquecer-se por meio da mineração. Sempre, porém, malfadado, tentou ali algumas explorações e serviços, que não lhe surtiram senão trabalho e prejuízo. Desanimado de encontrar fortuna em São João, resolveu separar-se temporariamente de Maurício, agregando-se a uma turma de aventureiros, seus patrícios, que, pobres também como ele e animados do mesmo desejo de descobrir ouro, partiam para as minas de Ouro Preto e Ribeirão do Carmo, que começavam então a gozar de grande reputação. Gil, já conhecedor desses lugares, que alguns anos antes havia percorrido com Maurício, era ótimo companheiro, e por sua intrepidez, inteligência e traquejo da vida sertaneja devia ser o chefe natural do bando.
Nas excursões que faziam pelos socalcos da serra do Itacolumim em procura de jazidas auríferas, um dia estes aventureiros, em número de quinze a vinte, bordejando um ribeiro, que corria por leito escarpado, profundo e pedregoso, foram-se entranhando por estreito vale coberto de espessa mata. Depois de se haverem internado bastante pelas brenhas, foram surpreendidos por uma vozeria estranha, que partia do seio da floresta. Era uma orquestra horrenda de gritos selváticos e guturais, de uivos lamentosos, de bramidos de raiva e de poçamas pavorosas. Aos primeiros sons que lhes chegaram aos ouvidos, os paulistas sentiram arrepiarem-se-lhes os cabelos, e estacaram por momentos.
— São os botocudos, que por aí andam — murmurou um deles, transido de terror.
— Melhor é voltarmos.
— Voltemos mesmo — acudiu outro.
— Estes bugres são terríveis, e andam em bandos que não têm conta. São dos comedores de gente, e não viemos cá para irmos parar no bucho de semelhante caterva!... Melhor sorte nos dê Deus!...
— Voltar por quê, minha gente?!...— bradou Gil.
— Vocês estão com medo sem ver de quê. Bugre é bicho mole e espantadiço: um só de nós basta para dez deles; e basta um tiro de nossas escopetas para os espalhar todos por esse mato. Nada de voltar! Vamos ver o que significa esta berreira. Vamos! Vamos! Vamos espiá-los. Devemos saber ao menos de que fugimos.
— Vamos! Vamos a isso! Prontos! — exclamaram quase todos, reanimados pela voz de Gil.
— Talvez não sejam muitos — continuou Gil —, e, visto não termos achado ouro por hoje, talvez possamos agarrar ao menos uma dúzia desses perros, que venderemos por bom dinheiro aos mineiros de Ouro Preto, e assim não perderemos de toda a jornada. Vamos adiante, minha gente!... Mas não façam rumor; é preciso que não nos pressintam.
Os paulistas se puseram em movimento e foram avançando com a maior precaução e silêncio possível para o lugar donde partia a estranha vozeria, acompanhando o curso do córrego, e rompendo a mata com a sutileza do jaguar que rastreia a presa. Teriam andado cerca de uns mil passos, quando, através dos ramos, por uma aberta da floresta, puderam descortinar distintamente uma das mais pavorosas e revoltantes cenas do canibalismo selvático.
Era em um sítio em que o ribeiro, saindo do leito profundo e solapado em que rolava, se expandia mais desafogado ao longo de uma larga praia arenosa, formando, pelo lado em que se achavam os paulistas, uma espaçosa clareira. Derramado por essa praia, via-se agitando um numeroso bando de selvagens de todas as idades e sexos, em número talvez de oitenta a cem. Uns, porém, moviam-se alegres e remoinhavam, gritando e saltando daqui para ali, enquanto outros, de mãos atadas, sentados sobre a areia, estendidos no chão ou amarrados aos troncos pelas bordas da floresta, imóveis, torvos e cabisbaixos, soltavam de quando em quando bramidos de furor, vibrando olhares de fogo e sangue sobre os que em torno deles giravam livremente. Estes — homens, mulheres e meninos — rodopiavam em torno das míseras presas, entoando poçamas pavorosas, fazendo-lhes horrendos esgares e caramunhas, atirando-lhes bofetadas e pontapés, e cobrindo-os de maus-tratos e afrontas de toda sorte. Viam-se também aqui e acolá, sobre a areia, alguns guerreiros mortos e horrivelmente mutilados, e sobre eles se debruçavam alguns vultos em pleno vigor, que se ocupavam com açodamento em arrancar os dentes e cortar as orelhas aos cadáveres, que, depois de esquartejados e feitos em postas, eram arrastados pela areia por mulheres e meninos, e arrojados na torrente, que os ia rolando nas águas ensanguentadas.
No meio, porém, desse bárbaro e hediondo tripúdio, passava-se uma cena, se é possível, talvez mais sinistra e revoltante ainda. Na extremidade da clareira, do lado em que se achavam os paulistas, sete velhos indígenas, com as mãos atadas por detrás das costas com fortes muçuranas, com os joelhos cravados na areia, e o dorso alquebrado e pendido para adiante, esperavam o golpe fatal, que os devia roubar para sempre ao mundo e à sanha de seus inimigos.
Quando chegaram os paulistas, iam esses míseros velhos sendo garroteados um por um, e horrivelmente massacrados a golpes de tacape por dois jovens e robustos guerreiros, que desempenhavam alegremente tão abominável tarefa, cantando e escarnecendo das miserandas vítimas.
Os paulistas logo compreenderam que era uma horda de botocudos que acabavam de vencer e aprisionar uma porção de seus inimigos, os Carijós, com quem andavam em contínuas hostilidades. Era costume entre aqueles selvagens matar os prisioneiros que a idade tornava imprestáveis, reservando os moços para vendê-los aos brancos, com os quais já se comunicavam e mantinham algum comércio, a troco de qualquer arma, droga ou quinquilharia.
Já seis dos infelizes velhos jaziam imóveis, ou estrebuchavam na areia entre as últimas vascas da morte. Dois truculentos tacapes já se erguiam sobre a cabeça do derradeiro, quando uma súbita descarga de mosquetes retumbou como uma trovoada ao longo dos grotões.
Os dois executores e grande parte dos botocudos, mortos ou gravemente feridos, ficaram estendidos no chão, estortegando-se de envolta com as suas vítimas de há pouco. Os que escaparam fugiram espavoridos, soltando medonhos alaridos, e embarafustaram-se atropeladamente pelo mato, deixando aos paulistas a arena inteiramente livre. Estes correram imediatamente ao teatro daquela cena atroz, e, sem se importarem com os fugitivos, trataram logo de se apoderar dos prisioneiros carijós, que distribuíram amigavelmente entre si como escravos, que lhes não tinham custado mais que algumas cargas de pólvora e chumbo.
Compadecido do pobre velho que escapara, e que ninguém queria para si, mostrando-se os outros paulistas resolvidos a abandoná-lo no mato, exposto de novo à barbaridade de seus inimigos, Gil o tomou para si. Mas entre os outros prisioneiros havia uma filha do velho bugre, linda cabocla, da qual um dos companheiros de Gil se tinha avidamente apoderado. O velho, porém, lastimava-se, e rogava instantemente a Gil, fazendo-se entender do modo o mais suplicante que lhe era possível, que não o separassem de sua filha, e forçoso foi, portanto, que também esta fosse adjudicada a Gil. Esse velho e essa menina eram Irabussú e Judaíba.
O velho indígena e sua filha nunca mais quiseram deixar a companhia de Gil. Quando, depois de algumas explorações sem resultado pelas serranias de Ouro Preto, Gil resolveu voltar de novo para São João del-Rei, deixou-lhes a liberdade de ficarem ou de irem para onde lhes parecesse. Mas eles obstinaram-se em acompanhá-lo sempre.
— O resto dos dias de Irabussú — dizia este — pertencem ao branco que os salvou; eu devo nunca mais deixá-lo. Irabussú está velho, mas suas pernas ainda sabem andar muito, e seus olhos enxergam no escuro como os da jaguatirica. Quem sabe! Talvez um dia ainda Irabussú possa ser útil ao branco.
Irabussú acompanhava Gil com a fidelidade do cão, obedecia-lhe como servo submisso, e tinha por ele a solicitude e dedicação do mais extremoso amigo. Instalado em São João com seu amo, raras vezes aparecia entre a gente do povoado; mesmo em casa de seu senhor bem poucos tinham ocasião de vê-lo. Andava sempre sozinho pelos matos com seu arco e flechas, procurando a caça de que se sustentava, e sumia-se às vezes dias e dias, sem que ninguém, nem mesmo seu amo e sua filha, soubessem que rumo levara. Gil não se inquietava com estas ausências, pois estava certo de que, no fim delas, voltava o seu velho bugre, trazendo-lhe punhados de ouro em pó e em folhetas.
Aquele viver misterioso do bugre dava que cismar ao espírito supersticioso do povo, que o tinha já em conta de um grande feiticeiro; e, se alguém acaso o encontrava pelos ermos, benzia-se uma e duas vezes, e acelerava o passo o mais que podia, afastando-se dele. Se o povo dele fugia, também ele, por seu lado, o evitava quanto podia, de modo que bem poucos o conheciam em pessoa, ao passo que o seu nome andava de boca em boca, e sua sombra pairava como um duende sinistro sobre o espírito do povo, que, na imaginação supersticiosa, já havia inventado por conta dele um sem-número de bruxarias e coisas estupendas.
A jovem cabocla poucas vezes acompanhava o pai em suas excursões pelo mato; ficava quase sempre em casa, moqueando a caça que este lhe trazia, tecendo esteiras e cabazes, ou entregue à indolência nativa de sua raça. Como a casa de Gil era algum tanto retirada do núcleo principal da povoação, bem poucos também a conheciam; e, não só em respeito a Gil, que gozava no povoado de grande estima e consideração, como também por medo do velho bruxo, ninguém se atreveria a lá ir inquietá-la.
Resguardado na reserva de sua vida particular, que não tinha por testemunhas senão o velho índio e sua filha, duas criaturas algum tanto misteriosas, mas inofensivas, o jovem paulista via com íntima e tranquila satisfação ir crescendo a sua fortuna, sem que incidente nenhum viesse comprometê-lo, e cada vez se esforçava mais por se coibir e comportar-se com a maior sisudez e moderação.
Mas os ódios abafados, como os materiais vulcânicos comprimidos nas entranhas da terra, têm extraordinária força de expansão, e acabam tarde ou cedo por achar uma válvula, por onde rebentem, fazendo fatal e assoladora irrupção.
Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.
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