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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

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Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Capítulo 44 · Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Volume 2 — Capítulo XIX — Horroroso Despertar de Um Sonho de Delícias

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O capitão-mor e Fernando tinham tido o maior cuidado em ocultar a Leonor as graves e sinistras ocorrências daquele dia, não só para não inquietá-la, como também para evitar a intervenção, que não deixaria de querer exercer em negócios e resoluções, que reclamavam a maior firmeza e energia. Já por mais de uma vez, — pensavam eles, — a intercessão de Leonor os tinha embaraçado no emprego de medidas rigorosas, que talvez tivessem obstado a que as coisas chegassem ao estado crítico e melindroso, em que agora se achavam. Apesar dessa precaução bem longe estava ela de ter o espírito tranquilo, não podia deixar de notar certa agitação e surdo murmurinho, que fazia como que arquejar aquela habitação à semelhança do enfermo, a quem falta a respiração. A morte do Minhoto, e as diligências, a que se procedeu para descobrir os assassinos, não eram a seus olhos motivo bastante para explicar o contínuo e mal disfarçado alvoroto e revolutear de gente, que impossível era se lhe ocultar, e a grave e sombria preocupação, que via estampada no semblante de seu pai.

Há muitos dias via Maurício arredado da casa do capitão-mor; a última vez, que o avistara, lia-se-lhe na fronte a expressão da mais angustiosa inquietação. Na noite anterior lhe aparecera misteriosamente como um espectro quebrando a lápide do sepulcro, e quando ia talvez fazer-lhe importantes revelações, um lúgubre e fatal incidente viera interromper suas confidências. Esse mesmo arrojo, a que até ali nunca se abalançara, de procurar falar-lhe a sós, bem indicava, que as circunstâncias eram críticas. Tudo isto a enchia de sustos e das mais cruéis e sombrias apreensões.

Debalde procurava distrair-se com a companhia de Helena e Judaíba; suas duas prisioneiras não se achavam em muito melhores condições de espírito. Helena tremia por seu pai e por Calixto, foragido e perseguido por causa do assassinato do Minhoto, e retraída em obstinado silêncio não fazia mais que soluçar. Judaíba não vendo mais o seu Antônio, andava também taciturna e amuada como rola prisioneira, ferida na asa pelo chumbo do caçador. Assim sozinha, sem ter a quem comunicar suas cruéis inquietações, lembrou-se de dirigir-se a Afonso. Este, a quem também em razão de sua indiscrição e pouca idade coisa nenhuma tinham ainda revelado a respeito da denúncia dada por Tiago, nada soube responder-lhe.

— Eu sei lá, minha irmã, — respondeu-lhe com a mais fria indiferença; — creio que se trata de enforcar o Calixto, e há de ser bem feito.

Dirigiu-se depois timidamente a seu pai.

— Que há de novo, meu pai, que vejo hoje vossa mercê agitado, e mais ativo e preocupado que de costume?

— Oh! minha filha!... pois podemos deixar de estar inquietos depois do lamentoso sucesso desta noite?... É nosso dever vingar a morte do infeliz Minhoto, e fazer tudo por descobrir o assassino para puni-lo com todo o rigor da lei.

— Será só isso, meu pai?

— Tranquiliza-te, minha filha; nada mais há do que isto.

Tais respostas não podiam acalmar o espírito de Leonor profundamente abalado e apavorado como pelo pressentimento íntimo de alguma catástrofe iminente.

Acompanhemos agora a Maurício, o qual, depois que Gil desesperado de o arrancar dali o deixou abandonado ao seu destino, disse a Antônio:

— Arreia o meu cavalo, e fica-te por aí por ora; mas toma cuidado de ocultar-te. Daqui a pouco também irás para a gruta.

Maurício conservou-se em casa até o cair da noite. Interrompido na entrevista da véspera não tivera tempo de explicar-se com Leonor, e não havia consideração alguma, que o pudesse resolver a retirar-se talvez para sempre da presença de sua amada sem dizer-lhe um extremo adeus, sem protestar-lhe seu amor, revelar-lhe as fatais circunstâncias, que o forçavam a desaparecer, e procurar banir do espírito dela toda e qualquer suspeita, que porventura nutrisse a respeito de sua lealdade para com ela e para com seu pai. Era difícil sua posição em face de Leonor, a quem nada podia revelar do que havia de real e positivo na resolução fatal, que havia tomado. Não sabia e nem mesmo pensava no que devia lhe dizer; esperava que em presença dela o amor o inspiraria. Meia hora, um quarto de hora mesmo de entrevista lhe seria suficiente; depois voaria a reunir-se a seus companheiros, e a entregar-se a todas as contingências da melindrosa situação, em que o destino o havia colocado.

Antes que as trevas de todo se cerrassem, depois de ter feito um pacote de alguns artigos de valor e de objetos de primeira necessidade, fechou as portas de sua modesta habitação, e com o coração oprimido e repleto de amargura:

— Toma, Antônio, estes objetos, — disse ao índio; — talvez nos sejam necessários, pois não sabemos se voltaremos ainda a esta casa. Daqui em diante as selvas serão talvez nosso único abrigo. Corre à gruta, onde nossa gente deve já achar-se reunida. À meia-noite ao mais tardar, lá me acharei.

— Oh! meu amo, por que não iremos juntos?...

— Não é possível; é de absoluta necessidade demorar-me ainda algumas horas.

— Nesse caso o esperarei aqui.

— Não, Antônio; é preciso que partas já, para tranquilizar nossos companheiros a respeito de minha demora. Só tu e Gil poderão conter esses homens impacientes e sedentos de vingança. Dize-lhes, que o sol de amanhã nos encontrará vingados ou mortos.

Antônio não replicou mais; saiu, e daí a instantes Maurício também montou a cavalo, saiu cautelosamente e entranhou-se por uma vereda estreita e tortuosa, que através de um matagal espesso ia ter às margens do Rio das Mortes. Depois de ter-se afastado cerca de um quarto de légua do povoado deixou o trilho por onde avançava, embrenhou-se no mato e aí conservou-se amoitado à espera, que a noite se adiantasse algum tanto para poder levar a efeito seu projeto. Teria decorrido meia hora depois que ali se achava, quando ouviu passos e vozes de pessoas, que avançavam pela mesma estreita vereda, por onde ele viera.

— Mil dobras! — exclamava um deles; — já fiz a conta; anda por coisa de trinta mil cruzados!...

— Trinta mil cruzados!... já não é para desprezar-se! — ponderava outro; — e isto pela cabeça de um perro de paulista!... dois proveitos em um saco; temos a pitança, e ficamos livres do chefe desses malditos.

— Mas dize-me; estás bem certo, que ele veio por aqui mesmo?

— Sem dúvida; foi por aqui que ele se meteu; vi enfiar-se por este caminho um cavaleiro, e juro que não é outro senão o Maurício.

— Não!... se vai a cavalo, não nos será tão fácil apanhá-lo.

— Não há dificuldade; ele vai muito devagar e descuidado; decerto ainda nada sabe da sorte, que o espera. O ponto é apertarmos o passo, que agora mesmo o pilharemos.

— Foi bom, quando a escolta deu-lhe em casa, já não encontrá-lo; senão já lá estaria trancado, e nós sem esta soberba empreitada.

— Caluda, meus amigos!... arre com tanto palrar!... o que convém agora é olho vivo, pé ligeiro e boca calada!... Apenas dermos com os olhos nele, é escusado querer prendê-lo; nada de contemplações; é descarregar-lhe na cabeça todas as nossas escopetas, se é que querem que as mil dobras sejam nossas.

Os sujeitos passaram adiante deixando Maurício ciente de que se achava condenado e sua cabeça posta a prêmio.

— Miseráveis! — pensou ele; — por um pouco de ouro não hesitam em tirar a vida a quem nunca os ofendeu, e antes muitas vezes lhes tem servido de amparo contra a sanha de meus patrícios justamente indignados. Talvez no meio daquela perrada vá mais de um, a quem eu tenha valido. Corja vil!... e como julgam fácil cortar-me a cabeça?... mal sabem, que mais cedo talvez a deles terá de rolar a meus pés!... oh! é preciso, é indispensável, que nesta noite mesmo vibre-se o golpe, que vai decidir do meu destino. Mas antes cumpre-me a todo o risco ir ter com ela, dizer-lhe um adeus... o derradeiro?... ah! meu Deus! quem sabe!... Maurício depois de ter esperado ainda algum tempo engolfado em suas tristes reflexões, deixou seu cavalo atado a um tronco no mato, em que se escondera, e cortando cautelosamente por matagões e desvios não batidos transportou-se para as imediações da quinta do capitão-mor.

Leonor por seu lado tinha também o espírito agitado da mais cruel inquietação. Eram mais de nove horas, e em vão procurava no leito um pouco de repouso para seu coração atribulado. Com a cabeça a arder veio ao terraço pedir às auras da noite algum refrigério à sua fronte fatigada de tão longo e penoso cismar, ou quem sabe talvez, seu coração adivinhava, que seu amante não deixaria de surgir de novo de por baixo da pedra do jardim para continuar a confidência, que um funesto incidente viera na noite antecedente bruscamente interromper. Mas o céu estava tão triste, pesado e lúgubre como o seu coração; nem estrelas, nem luar; nem brisas, nem rumores. A terra como o céu era um limbo silencioso. O torvo dorso das serras e colinas não se distinguia da abóbada tenebrosa. Debruçada ao peitoril Leonor mal divisava embaixo de seus olhos os canteiros e ruelas alinhadas de seu pequeno jardim. Enfim depois de ali ter estado a cismar por algum tempo, viu elevar-se do chão o vulto de Maurício como fantasma evocado do sepulcro pelo condão de um nigromante. A emoção de Leonor foi extrema; se bem que já esperada ou presentida a aparição misteriosa de Maurício naquela ocasião produziu nela mais violento e profundo abalo do que na noite anterior. Parecia-lhe, que aquela sombra surgida do seio vinha revelar os terríveis segredos de um futuro de lágrimas e infortúnio. Apesar de todo o seu amor, de toda confiança, que depositava no mancebo, quando o viu envolto em seu largo manto, o chapéu calcado sobre os olhos, subir um por um a passos lentos e cautelosos os degraus da escadinha, que do jardim galgava ao terraço, e parar silencioso ao lado dela, o coração gelou-se-lhe de terror, fez um gesto de medo, e recuou espavorida. Maurício percebeu o terror da donzela.

— De que se arreceia, D. Leonor? — disse-lhe com voz meiga pousando-lhe brandamente a mão sobre o braço; — já não conhece Maurício?...

— Ah! senhor Maurício, bem o estou conhecendo... mas que estranho motivo o faz assim procurar-me às escondidas por duas noites, arriscando-se a si, expondo-nos a ambos a consequências funestas?...

— Pode estar tranquila, senhora; não é por certo nem um pensamento criminoso, nem uma esperança de felicidade, que me traz a seus pés por este modo estranho...

— O que pretende então?...

— Dizer-lhe adeus, senhora, e vê-la talvez pela última vez.

— Pela última vez!!... meu Deus!... e por quê?...

— Por quê?... porque não quer o meu destino, que eu viva junto da senhora...; porque hoje tudo aqui conspira contra mim, até mesmo vosso pai... ah! D. Leonor! hoje nesta casa só me resta o seu afeto, e esse mesmo quem sabe se amanhã me faltará... oh! talvez!... talvez amanhã D. Leonor também me amaldiçoará!...

— Eu amaldiçoá-lo!? nunca! nunca! que razão haverá para isso?...

— É que eu vejo minha vida em iminente perigo... Esse infame Fernando, que vosso pai para aqui trouxe, põe tudo em conflagração, e eu vejo um vulcão prestes a estourar debaixo de vossos pés e dos meus.

— Oh! meu Deus! meu Deus!... não era em vão, que meu coração se enchia de inquietação e de amargura... e é nesta ocasião, que pretende deixar-me tão sozinha e desamparada?

— De que posso eu valer-te, Leonor?!...

— Oh! de muito, de muito, como já tantas vezes me tem valido.

— Como? se nem me é dado aparecer?...

— Por que motivo?

— Ah! não sabe ainda!? não sabe os riscos, que aqui mesmo às ocultas estou correndo!... Pois saiba, D. Leonor, que agora mesmo procuram-me por todos os cantos para cortar-me a cabeça a troco de algumas moedas.

— Oh! que horror!... que infâmia!... será possível, meu Deus!... por que razão assim te perseguem?...

— Não sabes, Leonor, que Fernando e eu não podemos existir ao lado um do outro? Que um de nós deve morrer impreterivelmente para sossego e felicidade do outro?...

— Desgraçadamente assim é; mas que crime cometeste? Que fizeste para merecer a morte?...

— Meu crime, ah!... meu crime é amar-te, Leonor; meu crime é ter merecido o teu amor. É essa felicidade suprema que me invejam e que não me podem perdoar. Devo morrer porque tu me fizeste o mais feliz dos homens.

— Nesse caso eu participo do teu crime; a culpa é minha também, também eu devo morrer... Mas não; não pode ser só isso; para te votarem à morte, é preciso que te imputem algum crime, verdadeiro ou falso... falso por certo; jamais eu amaria um homem capaz de ação criminosa... A morte do Minhoto... quem sabe se te é atribuída?...

— A mim, Leonor?!... Que necessidade tinha eu do sangue desse miserável!? Não; é de outro que tenho sede, e esse... Maurício, num transporte de indignação, ia quase trair-se; ia terminar: — Bem cedo será vertido até a última gota.

— Estas palavras, porém, morreram-lhe na garganta como um murmúrio surdo, que Leonor não pôde compreender.

Ela contemplava com terror o amante, que, por seu lado, ao mesmo tempo que desejava tranquilizá-la, não sabia como explicar-lhe sua cruel situação e a custo sopeava a explosão das tormentas que lhe estuavam na alma.

— Falas em sede de sangue!... Oh! meu Deus! que palavras horríveis!... Ah! Maurício, tu tens algum pensamento sinistro que procuras esconder-me?...

— Nenhum, Leonor. Já o disse, não querem que eu viva; pois bem, irei morrer, mas não às mãos desses miseráveis algozes; não quero dar-lhes esse prazer; irei morrer bem longe, de saudade, de dor e desespero. Eu bem vejo que este meu amor é um amor sem esperança, um sonho de loucura; mas não posso extingui-lo em meu coração; só a morte poderá arrancá-lo daqui.

— Não fales assim, Maurício; se nenhum ato cometeste indigno e criminoso que te faça perder a estima de meu pai, por que desesperar?... Eu, eu mesma irei falar-lhe, irei pedir justiça e desmascarar esse homem funesto, que nos acompanha para nosso flagelo; tudo declararei sem medo e sem rebuço; direi a meu pai que te amo tanto quanto detesto esse miserável Fernando...

— Não, por quem és, Leonor, não faças nada disso — atalhou Maurício.

— Assim, em vez de ser eu só a vítima, seremos duas, e eu jamais consentirei que sofras por amor de mim.

— Tudo sofrerei com firmeza e coragem. Se não me é dado gozar contigo da felicidade, seja-me ao menos permitido partilhar o infortúnio da pessoa a quem amo.

— Não, Leonor; com isso não faràs mais do que tornar-nos mais infelizes e perder-me para sempre, irremediavelmente. Deixa-me entregue ao meu cruel destino... esperemos: talvez o céu nos conceda melhores tempos; talvez um dia, quem sabe se bem cedo, desapareça o odioso obstáculo que se opõe à nossa felicidade.

— Mas que pretendes fazer?... ainda não me disseste...

— Já te disse, Leonor; vou sumir-me não sei onde. Dentro em pouco saberás notícias minhas; e ou seremos felizes, ou estarei perdido para sempre. Antes, porém, de arrojar-me a uma resolução desesperada, quis vir arrojar-me a teus pés, protestar-te meu amor, minha lealdade e dedicação, pedir-te perdão... Oh! eu te suplico, Leonor, pelo nosso amor, pelo nosso passado tão saudoso, pelas suaves recordações de nossa infância, não dês crédito às calúnias com que queiram infamar o meu nome e tornar-me odioso a ti e a teu pai!... E, se eu morrer, oh! por piedade, Leonor, não amaldiçoes minha memória...

— Não te compreendo, Maurício. De que pedes perdão? Quem quer amaldiçoar-te? Quem pôs em dúvida a tua lealdade?...

— Quem?... ainda perguntas!... Quem pôs a prêmio a minha cabeça?...

— Ah!...

— A noite se adianta, Leonor; procuram-me por toda parte para matar-me; preciso fugir. Ai de mim e ai de ti, se somos aqui surpreendidos!... Leonor, adeus! Tem compaixão do infeliz Maurício, que tanto te adora!... Adeus, Leonor!... adeus talvez para sempre!

Falando assim, o mancebo beijava a mão de Leonor, onde deixou cair uma lágrima de fogo.

— Para sempre?!... Ah! não! não! — soluçou a donzela.

— Não pronuncies mais semelhante palavra, se não queres matar-me.

Leonor sentia-se desfalecer ao embate de tão pungentes emoções; seus olhos se turvavam, a voz a custo lhe rompia do peito, e seu corpo esmorecia e dobrava-se vacilante como a haste do lírio açoitada pelo tufão. Pousou as mãos sobre os ombros de Maurício e debruçou a fronte sobre seu peito.

O mancebo cingiu-lhe o corpo com o braço; a fronte da moça tombou-lhe para trás, e os cabelos soltos e em desordem desceram ondeando a beijar o pavimento. Estava ali como a frágil palmeira, a quem o temporal, depois de ter-lhe rompido e derriçado os donosos leques, debruçou sobre os galhos robustos do cedro secular.

Por largo tempo conservou-se Maurício naquela posição e, como embebido em um êxtase celeste, esqueceu-se de si, da gruta, dos amigos que o esperavam, do tempo que rápido se escoava, dos perigos que o rodeavam, e só vivia para sentir a inefável voluptuosidade de ter pela primeira vez cingida em seus braços a amante idolatrada, que neles se lançara. Mas Leonor conservava-se imóvel, pálida, a boca entreaberta, os olhos cerrados e presa a respiração. Maurício assustou-se.

— Leonor! Leonor! — murmurou, agitando-a brandamente.

Leonor não se moveu nem respondeu.

— Oh! desmaiada!... desmaiada, meu Deus!... que transe! — pensou o angustiado mancebo.

— Deixá-la aqui neste estado, não... não é possível... Esperar aqui a pé quedo, rodeado de perigos para mim e para ela?! Meu Deus! que devo eu fazer!? Esperam por mim... já talvez me tenha demorado mais do que devia... Leonor!... Leonor!...— repetiu o moço, agitando-a de novo; mas Leonor permanecia muda e imóvel, pendente de seus braços como o cecém que se debruça, esmorecido, à borda do vaso que o contém.

Maurício refletiu um instante, contemplando aquele busto angélico então frouxamente iluminado por uma fraca luz que se escoava do céu através de nuvens entreabertas; inclinou seu rosto sobre o dela como para reanimá-la com seu hálito, e seus lábios roçaram pelos de Leonor em um primeiro e tímido beijo de amor. Àquele contato, a virgem estremeceu ligeiramente; Maurício estreitou-a contra o coração na ânsia de uma emoção pungente e voluptuosa a um tempo.

— Ah! Maurício!... Maurício! — murmurou a moça, reanimando-se, lançando um braço ao colo de Maurício e unindo estreitamente a linda cabeça ao peito do mancebo, como quem lhe queria falar ao coração.

— Tens ânimo de me deixar assim sozinha e desamparada em transe tão apertado?... Não sei... mas parece-me que tudo anuncia uma grande desgraça... Sem ti para me valer, não sei o que será de mim!... Mas... que estou a dizer?... já me esquecia do risco em que te achas... perdoa-me, Maurício... Leonor, esquecendo nesse momento todo o seu recato e timidez virginal, abandonava-se sem reserva aos transportes de seu terno e ardente amor. Por seu lado, também Maurício, deslembrado de todas as suas inquietações e amarguras, com o peito arquejante de emoção, entregava-se ao enlevo daqueles momentos de inefável ventura, vendo reclinada em seu seio a fronte da virgem idolatrada, que tão meiga e confiante se entregava em seus braços, procurando não só amor como abrigo e proteção, qual a tenra trepadeira se enlaça ao tronco que a sustém contra a fúria dos vendavais, e cuidava ver abrir-se diante de seus olhos um céu de delícias senfim.

— Ah! não, meu anjo, não creias que eu jamais possa resolver-me a deixar-te — replicou Maurício com o acento do mais apaixonado transporte.

— Embora mil mortes me rodeiem, nunca me afastarei ao pé de ti. Ainda que não me vejas, fica tranquila e certa de que não estou longe, que velo solícito e sempre alerta em volta de tua habitação, pronto a todo instante a correr em teu auxílio e a desfazer as ciladas de nosso perseguidor, e que o mais leve ai que exalares chegará a meus ouvidos. Ainda que não me vejas, estarei sempre junto de ti, afrontando todos os perigos para te amparar e defender, porque te adoro com todas as forças de minha alma, porque em ti consiste toda a minha vida, todo o meu futuro, toda a minha esperança de felicidade neste mundo.

— Os céus te paguem, meu bom, meu generoso Maurício, os céus te paguem tanto amor e dedicação. Eu, fraca e infeliz donzela, que mais posso oferecer-te senão este coração, que há muito tempo já é teu, senão este meu puro, meu constante, meu eterno amor?...

— Oh! Leonor!... Só essas tuas doces palavras bastariam para recompensar um século de trabalhos, de perigos, de sofrimentos... Mas como voam rápidos estes momentos!... Leonor, repete-me ainda uma vez que me amas, e... adeus!...

— Sim, eu te amo, repeti-lo-ei mil vezes; eu te amo... nosso amor é puro, Deus o protegerá...; um dia seremos felizes.

— Seremos felizes!... sim, meu Deus!... és tu quem falas pela boca de um de teus anjos. Sim, Leonor, seremos felizes... adeus!... Os braços dos dois amantes enlaçaram-se em apertado amplexo... Neste momento, um pavoroso estrondo, que partia do lado oposto do edifício por entre uma gritaria infernal, veio de chofre ferir-lhes os ouvidos. Os insurgentes assaltavam a casa do capitão-mor e, entre gritos furiosos, tratavam de arrombar o grande portão do pátio a golpes de machado. Os brados de “morram os emboabas!... morra Fernando! morra o capitão-mor!” chegavam distintamente a seus ouvidos. Maurício ouvia também, às vezes, o seu nome entre pragas e epítetos afrontosos. Compreendeu no mesmo instante todo o horror de sua situação. Acordava do mais puro e suave sonho de amor para achar-se a braços com a mais tremenda realidade. Leonor não pudera resistir a esse novo e terrível abalo e tornara a desfalecer. Maurício tomou-a nos braços, entrou afoitamente até a sua câmara de dormir, depô-la cuidadosamente sobre o leito, imprimiu-lhe um beijo na fronte e, com a velocidade do relâmpago, desapareceu de novo por onde havia entrado. Que irá ele fazer?...

Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei

Sinopse

Leia gratuitamente Maurício ou Os Paulistas em São João del-Rei, romance histórico de Bernardo Guimarães publicado originalmente em 1877. Em dois volumes e 50 capítulos, a narrativa acompanha os conflitos entre paulistas e emboabas no início do século XVIII. Esta edição integral do Literunico foi restaurada a partir do fac-símile de 1877, conferida e normalizada em português brasileiro moderno para publicação no Aurora.

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