Primeira Parte: Linda Nebulosas · Capítulo 4 de 44
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Primeira Parte: Linda

Vem, tímida criança,

Rosada, loura e mansa

Qual chama matutina

De tíbio resplendor;

Vem, quero a tez rubente

Da face transparente,

E a boca peregrina,

Beijar-te com fervor!

Teus mádidos cabelos,

Undosos, finos, belos,

Em áurea e doce teia

Enlaçam-me o olhar;

Da primavera os lumes

Em lúcidos cardumes,

No anel que solto ondeia

Vão ternos cintilar!

Teu colo alvinitente

Se encurva levemente,

Qual pende na ribeira

O lótus de cetim;

Se a lua além se inflama

De vaga e breve flama,

Resvalas mais ligeira

Na relva do jardim!

Escuta: à beira-d’água

A flor vinga entre a frágua,

E a tela delicada

Se tinge à luz do sol;

O mágico perfume

Que o cálice resume,

A pétala petla nacarada,

Inveja-lhe o arrebol.

Mas vem da treda enchente

A férvida torrente

Em turbilhão raivoso

Ao longe a rouquejar,

E a rubra flor da margem —

Pendida na voragem,

No pego tenebroso

Fanada vai rolar!

Ai! zela a rosa pura

De tua formosura

Que o lábio mercenário

Do mundo, não manchou;

Sê como a sensitiva

Que se retrai esquiva

Se o vento louco e vário

As folhas lhe osculou.

Porém, essa beleza

Que deu-te a natureza,

Desmaiará um dia

Aos gelos hibernais;

E uma vez perdida

Nos vendavais da vida,

A flux da fantasia

Não surgirá jamais!

Oh! zela mais ainda

A flor celeste e linda

De tua alma de virgem,

— Teu primitivo amor!

Da divinal bondade

A meiga potestade,

Se acolhe da vertigem

Nas mãos do Criador!

Atende: a mão mimosa

Dirige pressurosa

Ao pobre, agonizante,

À sombra do hospital!

Ao mesto encarcerado

Do olhar do sol privado,

Abranda um só instante,

O agror da lei fatal!

Prossegue, etérea lira,

Nas cordas de safira

As harmonias cérulas

Dos risos infantis!

E ao desgraçado em prantos

Dá mil colares santos,

Não de mundanas pérolas,

De lágrimas gentis!...

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