Primeira Parte: Linda
Vem, tímida criança,
Rosada, loura e mansa
Qual chama matutina
De tíbio resplendor;
Vem, quero a tez rubente
Da face transparente,
E a boca peregrina,
Beijar-te com fervor!
Teus mádidos cabelos,
Undosos, finos, belos,
Em áurea e doce teia
Enlaçam-me o olhar;
Da primavera os lumes
Em lúcidos cardumes,
No anel que solto ondeia
Vão ternos cintilar!
Teu colo alvinitente
Se encurva levemente,
Qual pende na ribeira
O lótus de cetim;
Se a lua além se inflama
De vaga e breve flama,
Resvalas mais ligeira
Na relva do jardim!
Escuta: à beira-d’água
A flor vinga entre a frágua,
E a tela delicada
Se tinge à luz do sol;
O mágico perfume
Que o cálice resume,
A pétala petla nacarada,
Inveja-lhe o arrebol.
Mas vem da treda enchente
A férvida torrente
Em turbilhão raivoso
Ao longe a rouquejar,
E a rubra flor da margem —
Pendida na voragem,
No pego tenebroso
Fanada vai rolar!
Ai! zela a rosa pura
De tua formosura
Que o lábio mercenário
Do mundo, não manchou;
Sê como a sensitiva
Que se retrai esquiva
Se o vento louco e vário
As folhas lhe osculou.
Porém, essa beleza
Que deu-te a natureza,
Desmaiará um dia
Aos gelos hibernais;
E uma vez perdida
Nos vendavais da vida,
A flux da fantasia
Não surgirá jamais!
Oh! zela mais ainda
A flor celeste e linda
De tua alma de virgem,
— Teu primitivo amor!
Da divinal bondade
A meiga potestade,
Se acolhe da vertigem
Nas mãos do Criador!
Atende: a mão mimosa
Dirige pressurosa
Ao pobre, agonizante,
À sombra do hospital!
Ao mesto encarcerado
Do olhar do sol privado,
Abranda um só instante,
O agror da lei fatal!
Prossegue, etérea lira,
Nas cordas de safira
As harmonias cérulas
Dos risos infantis!
E ao desgraçado em prantos
Dá mil colares santos,
Não de mundanas pérolas,
De lágrimas gentis!...