Terceira Parte: O Sacerdote
Ente sagrado que sereno calcas
Os bravos cardos do terreno horto,
Erguendo os fracos que chorando prostram-se,
Entre a miséria a derramar conforto;
Dizei, que arcanjo te sustenta, oculto,
Do mundo falso sobre as cruéis paixões?
Quem deu-te a crença que a sorrir espalhas
Às multidões?
Quem deu-te aos olhos a celeste chama
Que alenta a vida e purifica a alma,
E o lábio ungiu-te do melífluo verbo
Que tanta ardência, tanta sede acalma?...
Símbolo do Cristo, tu entornas bálsamos
Do peito aflito sobre o chão revel;
Quanta nobreza não disfarça avaro
Negro burel!
Teu doce império se revela exímio
Onde do déspota o poder falece,
Ao céu teu ser em sacrifício sobe
Nas brancas asas da singela prece.
Banha-se o crente, a teu suave acento,
Nas ondas loiras da caudal da fé;
Caem por terra mil errôneas seitas
Ontem de pé!
O braço inerme protetor estendes
Da virgem pura à candidez sublime,
Enquanto ao seio piedoso apertas
O réu, remido do negror do crime!
Após teus passos vão seguindo as bênçãos
Do pobre enfermo que estendeu-te a mão;
Ao ímpio mesmo que blasfema, atiras
Doce perdão!
E quando exausto, para o vil patíbulo,
Caminha um homem que a justiça esmaga,
Sustendo a fronte que o terror desvaira
Ainda lhe mostras a sideral plaga:
Contrito escuta o condenado a lenda
Das longas dores que sofreu Jesus,
E quando pende-lhe a cabeça, expira
Beijando a Cruz!
Prossegue sempre nessa trilha augusta;
Para onde adeja a funeral desgraça!
Mas não te afastes dos festivos grupos,
Quebra-se em breve do prazer a taça!
Se o frio cético ao rolar no abismo
Fitar sombrios os tristes olhos teus,
Verá rasgar-se do sepulcro as sombras,
Julgar-te-á Deus!...
Tais são, ó mártir de uma ideia, as luzes
Que opões à treva tumular do mundo;
Ai! nunca invejes o bulício inglório
Das loucas turbas no labor profundo!
Embora o gênio da desdita envolva
Nosso destino em funerário véu,
Por entre os prantos te veremos sempre
Próximo ao céu!...