Segunda Parte: Manhã De Maio
Querida, a estrela-d’alva ao mar se inclina;
Solta a calhandra o canto da matina
Na coma ingente da giesta em flor!
A natureza é uma ode imensa:
Eleva-se de cada moita densa
Um hino ao Criador!
Deixemos a cidade: além, a veiga
Nos guarda a olência apaixonada e meiga
Dos corimbos que agita a viração.
Vês? Desponta uma rosa em cada galho,
E das rosas trêmulo o doce orvalho
No rubro coração!
Pelas espáduas ásperas do monte,
— Gigante das legendas do horizonte,
Rola a espuma de luz e alaga o val';
Ao mole influxo de teu riso mago
Desperta o euro e frisa em doido afago
Das linfas o cristal!
E o nenúfar nenufar "diástole"> , a estremecer de frio,
Levanta a fronte cérula do rio
Expondo ao raio a face de cetim;
As borboletas dançam como wilis;
Esquece a louca abelha as amarílis
No seio do jasmim!
Da selva secular, nas verdes naves,
Perdem-se ao longe os cânticos suaves
Dos voláteis salmistas do sertão;
Ouves? A queixa túrbida das matas,
E o múrmur merencório das cascatas
Reboam na amplidão!...
Rasgando a profundeza flutuante
Das nuvens, a pilastra cintilante
Sustenta do infinito a concha azul.
E a concha do infinito é o quente ninho,
Donde a estrela, dourado passarinho,
Voara para o sul! —
Na terra — plena paz! plena harmonia!
Rolam cantos de amor, de poesia,
No val', na serra, na extensão do mar!...
No firmamento — fogos peregrinos,
E a névoa a gotejar prantos divinos
De Deus ao terno olhar!...
É a hora em que a prece da serrana
Vai fervente da plácida cabana
As plantas expirar do Redentor!
Em que a loira criança acorda rindo!
E corta o dorso do oceano infindo
O pobre pescador!
E a fantasia arroja-se no espaço,
Da caligem quebrando o frio laço
Para ondular no pélago de anil!...
E Deus desprende para ti, formosa,
A essência virginal da tuberosa,
Que se embala no hastil!
Em nosso seio brinca a primavera,
Em nossa fronte a lúcida quimera
Verte a flama voraz da inspiração;
Pois bem! Que o vento leve à divindade
Do puro altar de nossa mocidade
O incenso da oração!...