Segunda Parte: Manhã De Maio Nebulosas · Capítulo 20 de 44
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Segunda Parte: Manhã De Maio

Querida, a estrela-d’alva ao mar se inclina;

Solta a calhandra o canto da matina

Na coma ingente da giesta em flor!

A natureza é uma ode imensa:

Eleva-se de cada moita densa

Um hino ao Criador!

Deixemos a cidade: além, a veiga

Nos guarda a olência apaixonada e meiga

Dos corimbos que agita a viração.

Vês? Desponta uma rosa em cada galho,

E das rosas trêmulo o doce orvalho

No rubro coração!

Pelas espáduas ásperas do monte,

— Gigante das legendas do horizonte,

Rola a espuma de luz e alaga o val';

Ao mole influxo de teu riso mago

Desperta o euro e frisa em doido afago

Das linfas o cristal!

E o nenúfar nenufar "diástole"> , a estremecer de frio,

Levanta a fronte cérula do rio

Expondo ao raio a face de cetim;

As borboletas dançam como wilis;

Esquece a louca abelha as amarílis

No seio do jasmim!

Da selva secular, nas verdes naves,

Perdem-se ao longe os cânticos suaves

Dos voláteis salmistas do sertão;

Ouves? A queixa túrbida das matas,

E o múrmur merencório das cascatas

Reboam na amplidão!...

Rasgando a profundeza flutuante

Das nuvens, a pilastra cintilante

Sustenta do infinito a concha azul.

E a concha do infinito é o quente ninho,

Donde a estrela, dourado passarinho,

Voara para o sul! —

Na terra — plena paz! plena harmonia!

Rolam cantos de amor, de poesia,

No val', na serra, na extensão do mar!...

No firmamento — fogos peregrinos,

E a névoa a gotejar prantos divinos

De Deus ao terno olhar!...

É a hora em que a prece da serrana

Vai fervente da plácida cabana

As plantas expirar do Redentor!

Em que a loira criança acorda rindo!

E corta o dorso do oceano infindo

O pobre pescador!

E a fantasia arroja-se no espaço,

Da caligem quebrando o frio laço

Para ondular no pélago de anil!...

E Deus desprende para ti, formosa,

A essência virginal da tuberosa,

Que se embala no hastil!

Em nosso seio brinca a primavera,

Em nossa fronte a lúcida quimera

Verte a flama voraz da inspiração;

Pois bem! Que o vento leve à divindade

Do puro altar de nossa mocidade

O incenso da oração!...

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