Terceira Parte: Castro Alves
Por que convulso geme o pátrio solo,
Dos montes despertando os ecos lúgubres?
Por que emudece o férvido oceano
E à terra, erma da luz, chorando atira
Mil turbilhões de lágrimas amargas?
Por que de sombras tétricas se vela
O firmamento azul? Que mágoa imensa
Enluta os corações e arranca o pranto?!...
É que o sono final cerrara os olhos
De um filho das soidões americanas!
O sol que avivara a chama augusta
No peito dos titãs do Dois de Julho,
Iluminara o berço vaporoso
Do pálido cantor da liberdade!
As dulcinosas brisas lá do Norte,
Ao ensaio dos passos vacilantes,
Traziam-lhe os queixumes, despertando
Um mundo de harmonias em sua alma!
E a dileta criança estremecia
Sentindo em si a seiva do futuro.
Mais tarde a fronte nobre, cismadora,
Volvia ao céu para escutar-lhe os votos
E muda, à terra, revolvia pávida
Como o profeta que a missão sublime
Das mãos de Deus recebe; desmaiava
Como desmaia a flor da magnólia
Aos ardores do estio. E radiosa
A pátria contemplou-o embevecida!
Já não era a criança temerosa
Do confuso murmúrio das florestas;
Era o poeta cuja lira de ouro
Erguia do sepulcro o vulto ingente
Do apóstolo Pedro Ivo; cujos trenos
Derramavam lampejos fulgurantes
De um róseo amanhecer: ora risonhos
Como as límpidas pérolas que entorna
A rorida alvorada, ora profundos
Como os cavos rugidos do Oceano!
Estranha confusão de riso e pranto,
De luz e sombra, mocidade e morte!
Depois, cisne de amor, deixou os lares
Demandando as campinas rociadas,
Onde ecoara o brado altipotente
De Independência ou Morte. Ali desdenha
As três irmãs que lhe apontavam gélidas
O porvir do poeta; vê o gênio
A marchar, a marchar no itinerário
Sem termo do existir, morto de inveja!
"E o mísero de glória em glória corre
Buscando a sombra de uns frondosos álamos."
"E queria viver, beber perfumes
Na flor silvestre que embalsama o éter;
Ver sua alma adejar pelo infinito
Qual branca vela na amplidão dos mares;
Sentia a voraz febre do talento,
Entrevia um esplêndido futuro
Entre as bênçãos do povo; tinha na alma
De amor ardente um universo inteiro!"
"Mas uma voz lhe respondeu sombria:
— Terás o sono sob a laje tosca!"
E nessas regiões sempre formosas
Onde acenava-lhe o fanal da ciência,
O louco sonhador dos Três Amores
Colheu o fatal germe destrutível
Que minou-lhe a existência; quebrantado
Volveu às plagas que deixara outrora
Por pressentir, como única esperança,
Um túmulo entre os seus, no pátrio ninho.
E as almejadas palmas do triunfo
Converteram-se em lousa mortuária!
Mas... não morreste, não, condor brasíleo,
Que nunca morrerão teus puros versos!
Não, não morreste, que não morrem Goethes Guete ,
Não morrem Dantes, Lamartines, Tassos,
Garrets Garrés , Camões, Gonçalves Dias, Miltons Míltons ,
Azevedos e Abreus. Teus belos cantos
Cortarão as caligens das idades
Como de Homero os divinais poemas!
E lá da eternidade onde repousas,
Acolhe o canto meu que o pranto orvalha!...