Terceira Parte: Castro Alves Nebulosas · Capítulo 29 de 44
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Terceira Parte: Castro Alves

Por que convulso geme o pátrio solo,

Dos montes despertando os ecos lúgubres?

Por que emudece o férvido oceano

E à terra, erma da luz, chorando atira

Mil turbilhões de lágrimas amargas?

Por que de sombras tétricas se vela

O firmamento azul? Que mágoa imensa

Enluta os corações e arranca o pranto?!...

É que o sono final cerrara os olhos

De um filho das soidões americanas!

O sol que avivara a chama augusta

No peito dos titãs do Dois de Julho,

Iluminara o berço vaporoso

Do pálido cantor da liberdade!

As dulcinosas brisas lá do Norte,

Ao ensaio dos passos vacilantes,

Traziam-lhe os queixumes, despertando

Um mundo de harmonias em sua alma!

E a dileta criança estremecia

Sentindo em si a seiva do futuro.

Mais tarde a fronte nobre, cismadora,

Volvia ao céu para escutar-lhe os votos

E muda, à terra, revolvia pávida

Como o profeta que a missão sublime

Das mãos de Deus recebe; desmaiava

Como desmaia a flor da magnólia

Aos ardores do estio. E radiosa

A pátria contemplou-o embevecida!

Já não era a criança temerosa

Do confuso murmúrio das florestas;

Era o poeta cuja lira de ouro

Erguia do sepulcro o vulto ingente

Do apóstolo Pedro Ivo; cujos trenos

Derramavam lampejos fulgurantes

De um róseo amanhecer: ora risonhos

Como as límpidas pérolas que entorna

A rorida alvorada, ora profundos

Como os cavos rugidos do Oceano!

Estranha confusão de riso e pranto,

De luz e sombra, mocidade e morte!

Depois, cisne de amor, deixou os lares

Demandando as campinas rociadas,

Onde ecoara o brado altipotente

De Independência ou Morte. Ali desdenha

As três irmãs que lhe apontavam gélidas

O porvir do poeta; vê o gênio

A marchar, a marchar no itinerário

Sem termo do existir, morto de inveja!

"E o mísero de glória em glória corre

Buscando a sombra de uns frondosos álamos."

"E queria viver, beber perfumes

Na flor silvestre que embalsama o éter;

Ver sua alma adejar pelo infinito

Qual branca vela na amplidão dos mares;

Sentia a voraz febre do talento,

Entrevia um esplêndido futuro

Entre as bênçãos do povo; tinha na alma

De amor ardente um universo inteiro!"

"Mas uma voz lhe respondeu sombria:

— Terás o sono sob a laje tosca!"

E nessas regiões sempre formosas

Onde acenava-lhe o fanal da ciência,

O louco sonhador dos Três Amores

Colheu o fatal germe destrutível

Que minou-lhe a existência; quebrantado

Volveu às plagas que deixara outrora

Por pressentir, como única esperança,

Um túmulo entre os seus, no pátrio ninho.

E as almejadas palmas do triunfo

Converteram-se em lousa mortuária!

Mas... não morreste, não, condor brasíleo,

Que nunca morrerão teus puros versos!

Não, não morreste, que não morrem Goethes Guete ,

Não morrem Dantes, Lamartines, Tassos,

Garrets Garrés , Camões, Gonçalves Dias, Miltons Míltons ,

Azevedos e Abreus. Teus belos cantos

Cortarão as caligens das idades

Como de Homero os divinais poemas!

E lá da eternidade onde repousas,

Acolhe o canto meu que o pranto orvalha!...

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