Terceira Parte: A Festa De S. João
RECORDAÇÃO DA FAZENDA ESPERANÇA
I
Ó noite plena de celeste encanto,
Fonte sagrada de abusões suaves,
Deixa que eu prenda a teu cendal meu canto;
Deixa que eu libe teus harpejos graves,
Ó noite plena de celeste encanto!
Quando do empíreo te debruças linda
Que doce paz no coração entornas!
Com a flor mimosa da saudade infinda
O peito enfermo do proscrito adornas,
Quando do empíreo te debruças linda!
De teu bafejo ao perfumoso afago
O cacto abre a virginal corola
E a ondina paira sobre o azul do lago!
Da brisa o treno no infinito rola
De teu bafejo ao perfumoso afago!
E tudo, tudo quanto vive ama
Bebendo as lendas que teu manto espalha;
De Vênus brinca a vaporosa flama
Com o facho humilde do casal de palha,
E tudo, tudo quanto vive ama!
Em derredor de uma fogueira ardente,
Qual tribo inquieta de falenas loucas,
Dançam moças sobre a gleba algente;
E o riso entreabre coralíneas bocas
Em derredor de uma fogueira ardente.!
No chão resvalam como orvalho de ouro
Fátuas centelhas recortando o espaço;
Da laranjeira o doce fruto louro
Da luz cedendo ao languescido abraço,
No chão resvala como orvalho de ouro!
Corre o tambor a extravagante escala
Seguindo o canto que murmura o escravo;
Negra crioula a castanhola estala,
E à voz robusta que levanta um — bravo!
Corre o tambor a extravagante escala.
Ó noite plena de celeste encanto,
Fonte sagrada de abusões suaves,
Deixa que eu prenda a teu cendal meu canto
Deixa que eu libe teus harpejos graves,
Ó noite plena de celeste encanto!
II
Rasgou-se a faixa noturna
Que a natureza envolvia,
E a aurora rubra derrama
Torrentes de poesia;
Das cascatas, da floresta
Ergue-se um hino de festa
Nas harpas da viração;
E o sol — Vesúvio sublime —
Nos crânios vastos imprime
A lava da inspiração!
Erguendo ao Senhor hosanas,
Curva-se na ara o levita,
E a bênção concede à turba
Que genuflexa palpita.
Da fé, à chama divina,
Cada cabeça s'inclina
Banhada de etérea luz;
De cada lábio rubente
A prece voa fervente
Ungindo o pé da cruz!
A criancinha dileta
Rindo recebe o batismo
E isenta de culpas, entra
No templo do cristianismo!
A celeste unção é gládio
Que vence o crime, paládio
Contra a heresia infernal;
Abate as seitas erguidas
E leva as almas rendidas
À pátria celestial!
Sim! quando em berço de infante —
Ninho de crenças mimosas —
Onde o amor brota em ondas,
Onde rebentam mil rosas,
Resvala a gota sagrada
Que verte na fronte amada
A luz das constelações,
O povo abraça a esperança
E a Deus eleva a criança
Nas asas das saudações!...
Por isso da célia estância
Num raio de caridade
À terra baixou radioso
O anjo da liberdade;
Que a fortes pulsos escuros
Unindo seus lábios puros
Partiu um grilhão atroz;
E de infelizes escravos
Fez talvez dez homens bravos,
Talvez dez outros heróis!
Oh! bendita a mão femínea
Que o empíreo entreabre ao precito,
Que ao cego aponta um caminho,
E à pátria leva o proscrito!...
Oh! bendita a mãe formosa
Que, olhando o filho ditosa,
Manda o cadáver viver!
A oração do liberto,
Subindo no vento incerto,
Faz o céu graças chover!
. . . . . . . . . . . . . . . . . .
III
É noite, é noite de magia e enleio!
Buscando asilo em palpitante seio
Voa o pólen da flor!
Do ar sereno as vibrações eólias
Perfumam-se nas alvas magnólias maguinólias ,
Que languescem de amor!
Na sala festiva pelas janelas
Céleres rolam catadupas belas
De fulgidos clarões;
Vênus surpreende, da azulada esfera,
Um raio de langor verte severa
Por entre as cerrações.
Os perfumes sutis causam vertigens;
Transborda de fulgor o olhar das virgens,
Da madona ideal;
Como a planta a boiar sobre a corrente,
Adeja do mancebo o sonho ardente
Num colo de vestal!
E cada riso anima uma esperança!
Aos sons da tentadora contradança
Esquece-se o sofrer...
O hálito da bela o ar aroma,
E o rubor que na face nívea assoma
Traz íntimo prazer.
Dos lábios de uma loura formosura,
Enchendo o espaço de harmonia pura,
Desata-se a canção:
Para ouvir-lhe a fala maviosa, a lua
Que no páramo intérmino flutua
Penetra no salão!...
Canta, canta, formosa peregrina,
Que a tua merencória cavatina
Acalma anseios meus!
O mundo é vário, pérfido oceano...
Quando o deixares, cisne soberano,
Gorjearás nos céus!
O turbilhão da valsa o moço arrasta,
E à tez rubente da donzela engasta
A baga de suor...
Só eu, meio à turba que doudeja,
Sou como a Esfinge que o Atbára beija
Sem vida... sem calor...
Ó noite divinal, plena de odores,
Que estendes sobre a terra um véu de flores
Abertas ao luar,
Verteste em meu sombrio pensamento
O orvalho sideral do esquecimento!
Oh! deixa-me te amar!...