Terceira Parte: A Festa De S. João Nebulosas · Capítulo 32 de 44
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Terceira Parte: A Festa De S. João

RECORDAÇÃO DA FAZENDA ESPERANÇA

I

Ó noite plena de celeste encanto,

Fonte sagrada de abusões suaves,

Deixa que eu prenda a teu cendal meu canto;

Deixa que eu libe teus harpejos graves,

Ó noite plena de celeste encanto!

Quando do empíreo te debruças linda

Que doce paz no coração entornas!

Com a flor mimosa da saudade infinda

O peito enfermo do proscrito adornas,

Quando do empíreo te debruças linda!

De teu bafejo ao perfumoso afago

O cacto abre a virginal corola

E a ondina paira sobre o azul do lago!

Da brisa o treno no infinito rola

De teu bafejo ao perfumoso afago!

E tudo, tudo quanto vive ama

Bebendo as lendas que teu manto espalha;

De Vênus brinca a vaporosa flama

Com o facho humilde do casal de palha,

E tudo, tudo quanto vive ama!

Em derredor de uma fogueira ardente,

Qual tribo inquieta de falenas loucas,

Dançam moças sobre a gleba algente;

E o riso entreabre coralíneas bocas

Em derredor de uma fogueira ardente.!

No chão resvalam como orvalho de ouro

Fátuas centelhas recortando o espaço;

Da laranjeira o doce fruto louro

Da luz cedendo ao languescido abraço,

No chão resvala como orvalho de ouro!

Corre o tambor a extravagante escala

Seguindo o canto que murmura o escravo;

Negra crioula a castanhola estala,

E à voz robusta que levanta um — bravo!

Corre o tambor a extravagante escala.

Ó noite plena de celeste encanto,

Fonte sagrada de abusões suaves,

Deixa que eu prenda a teu cendal meu canto

Deixa que eu libe teus harpejos graves,

Ó noite plena de celeste encanto!

II

Rasgou-se a faixa noturna

Que a natureza envolvia,

E a aurora rubra derrama

Torrentes de poesia;

Das cascatas, da floresta

Ergue-se um hino de festa

Nas harpas da viração;

E o sol — Vesúvio sublime —

Nos crânios vastos imprime

A lava da inspiração!

Erguendo ao Senhor hosanas,

Curva-se na ara o levita,

E a bênção concede à turba

Que genuflexa palpita.

Da fé, à chama divina,

Cada cabeça s'inclina

Banhada de etérea luz;

De cada lábio rubente

A prece voa fervente

Ungindo o pé da cruz!

A criancinha dileta

Rindo recebe o batismo

E isenta de culpas, entra

No templo do cristianismo!

A celeste unção é gládio

Que vence o crime, paládio

Contra a heresia infernal;

Abate as seitas erguidas

E leva as almas rendidas

À pátria celestial!

Sim! quando em berço de infante —

Ninho de crenças mimosas —

Onde o amor brota em ondas,

Onde rebentam mil rosas,

Resvala a gota sagrada

Que verte na fronte amada

A luz das constelações,

O povo abraça a esperança

E a Deus eleva a criança

Nas asas das saudações!...

Por isso da célia estância

Num raio de caridade

À terra baixou radioso

O anjo da liberdade;

Que a fortes pulsos escuros

Unindo seus lábios puros

Partiu um grilhão atroz;

E de infelizes escravos

Fez talvez dez homens bravos,

Talvez dez outros heróis!

Oh! bendita a mão femínea

Que o empíreo entreabre ao precito,

Que ao cego aponta um caminho,

E à pátria leva o proscrito!...

Oh! bendita a mãe formosa

Que, olhando o filho ditosa,

Manda o cadáver viver!

A oração do liberto,

Subindo no vento incerto,

Faz o céu graças chover!

. . . . . . . . . . . . . . . . . .

III

É noite, é noite de magia e enleio!

Buscando asilo em palpitante seio

Voa o pólen da flor!

Do ar sereno as vibrações eólias

Perfumam-se nas alvas magnólias maguinólias ,

Que languescem de amor!

Na sala festiva pelas janelas

Céleres rolam catadupas belas

De fulgidos clarões;

Vênus surpreende, da azulada esfera,

Um raio de langor verte severa

Por entre as cerrações.

Os perfumes sutis causam vertigens;

Transborda de fulgor o olhar das virgens,

Da madona ideal;

Como a planta a boiar sobre a corrente,

Adeja do mancebo o sonho ardente

Num colo de vestal!

E cada riso anima uma esperança!

Aos sons da tentadora contradança

Esquece-se o sofrer...

O hálito da bela o ar aroma,

E o rubor que na face nívea assoma

Traz íntimo prazer.

Dos lábios de uma loura formosura,

Enchendo o espaço de harmonia pura,

Desata-se a canção:

Para ouvir-lhe a fala maviosa, a lua

Que no páramo intérmino flutua

Penetra no salão!...

Canta, canta, formosa peregrina,

Que a tua merencória cavatina

Acalma anseios meus!

O mundo é vário, pérfido oceano...

Quando o deixares, cisne soberano,

Gorjearás nos céus!

O turbilhão da valsa o moço arrasta,

E à tez rubente da donzela engasta

A baga de suor...

Só eu, meio à turba que doudeja,

Sou como a Esfinge que o Atbára beija

Sem vida... sem calor...

Ó noite divinal, plena de odores,

Que estendes sobre a terra um véu de flores

Abertas ao luar,

Verteste em meu sombrio pensamento

O orvalho sideral do esquecimento!

Oh! deixa-me te amar!...

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