Segunda Parte: Miragem
Senhor, o calmo oceano
Do verão nas quentes noites,
Se revolta sobranceiro
Da tempestade aos açoites!
Encrespa o dorso potente
Dilacerando, fremente,
As asas do vendaval;
Faz cintilar a ardentia,
E arroja à nuvem sombria
Diademas de cristal!
Envolta em flocos de neve
Se levanta a cordilheira;
Sonha um raio ardente, ígneo,
Que lhe doire a cabeleira!
Fita audaz o vasto espaço,
Despedaça o tíbio laço
Dos nevoeiros do sul;
Solta a coma de granito,
Vai devassar o infinito
Rasgando o cendal azul!
No espelho em que o sol se mira
A tarambola, em delírios,
Corta com as plumas de prata
Da espuma os nítidos lírios;
De sobre o escarcéu, ignota,
Num voo imenso a gaivota
Sonda os páramos do ar;
E dos paços encantados
Surgem peixinhos dourados
Que saltam à flor do mar!
Oh! tudo, tudo se expande
Às auras da liberdade!
A treva calcando às plantas,
Demandando a imensidade!
Do incenso a loura neblina...
O som da voz argentina
Que canta idílios de amores...
Do Nuttall nutal o pó ardente...
Da mata a cúpula virente...
Do rio os tênues vapores!
E sob o céu sempre belo
Da mais sedutora plaga,
Beija — o rei — da natureza
O ferro que o pulso esmaga?!
Que importa que os saxêos montes —
Atalaias de horizontes —
Clamem do ar na amplidão:
“Levanta-te, ó povo bravo,
Quebra as algemas de escravo
Que aviltam-te o coração”?!
Rompem-se esforços insanos,
Esmaga o flagício lento;
Mas a verdade sublime
Não aclara o firmamento.
Descera a mortalha fria
Que do mais formoso dia
Enturvava o alvorecer,
E não transborda ruidoso
O vagalhão luminoso
Que o cetro deve sorver!?
Meu Deus, quando há de esta raça,
Que genuflexa rebrama,
Erguer-se de pé, ungida,
Das crenças livres na chama?
Quando há de o tufão bendito
Trazer, das turbas ao grito,
O verbo de Mirabeau?
E a luz da moderna idade
Ao crânio da mocidade
Os sonhos de Vergniaud Vernhiô ?!...
Oh! dá que em breve eu contemple
Aos puros raios da glória
O feito altivo gravado
Nos fastos da pátria história!
Dá que deste sono amargo,
Deste pélago em letargo
Que nos envolve no pó,
Surja a vaga triunfante
Que anime no túmulo ovante
As cinzas de Badaró!