Segunda Parte: Miragem Nebulosas · Capítulo 22 de 44
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Segunda Parte: Miragem

Senhor, o calmo oceano

Do verão nas quentes noites,

Se revolta sobranceiro

Da tempestade aos açoites!

Encrespa o dorso potente

Dilacerando, fremente,

As asas do vendaval;

Faz cintilar a ardentia,

E arroja à nuvem sombria

Diademas de cristal!

Envolta em flocos de neve

Se levanta a cordilheira;

Sonha um raio ardente, ígneo,

Que lhe doire a cabeleira!

Fita audaz o vasto espaço,

Despedaça o tíbio laço

Dos nevoeiros do sul;

Solta a coma de granito,

Vai devassar o infinito

Rasgando o cendal azul!

No espelho em que o sol se mira

A tarambola, em delírios,

Corta com as plumas de prata

Da espuma os nítidos lírios;

De sobre o escarcéu, ignota,

Num voo imenso a gaivota

Sonda os páramos do ar;

E dos paços encantados

Surgem peixinhos dourados

Que saltam à flor do mar!

Oh! tudo, tudo se expande

Às auras da liberdade!

A treva calcando às plantas,

Demandando a imensidade!

Do incenso a loura neblina...

O som da voz argentina

Que canta idílios de amores...

Do Nuttall nutal o pó ardente...

Da mata a cúpula virente...

Do rio os tênues vapores!

E sob o céu sempre belo

Da mais sedutora plaga,

Beija — o rei — da natureza

O ferro que o pulso esmaga?!

Que importa que os saxêos montes —

Atalaias de horizontes —

Clamem do ar na amplidão:

“Levanta-te, ó povo bravo,

Quebra as algemas de escravo

Que aviltam-te o coração”?!

Rompem-se esforços insanos,

Esmaga o flagício lento;

Mas a verdade sublime

Não aclara o firmamento.

Descera a mortalha fria

Que do mais formoso dia

Enturvava o alvorecer,

E não transborda ruidoso

O vagalhão luminoso

Que o cetro deve sorver!?

Meu Deus, quando há de esta raça,

Que genuflexa rebrama,

Erguer-se de pé, ungida,

Das crenças livres na chama?

Quando há de o tufão bendito

Trazer, das turbas ao grito,

O verbo de Mirabeau?

E a luz da moderna idade

Ao crânio da mocidade

Os sonhos de Vergniaud Vernhiô ?!...

Oh! dá que em breve eu contemple

Aos puros raios da glória

O feito altivo gravado

Nos fastos da pátria história!

Dá que deste sono amargo,

Deste pélago em letargo

Que nos envolve no pó,

Surja a vaga triunfante

Que anime no túmulo ovante

As cinzas de Badaró!

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