Primeira Parte: Aflita
Desde a hora fatal em que partiste,
Turbou-se para mim o azul do céu!
Velei-me na mantilha da tristeza,
Como Safo na espuma do escarcéu!
Até então o arcanjo da procela
Não enlutara o lago das quimeras,
Onde minh’alma, garça langorosa,
Brincava à luz de etéreas primaveras.
Mas um dia, atraindo ao vasto peito
Minha pálida fronte de criança,
Murmuraste, tremendo: — “Parto em breve;
Mas não te aflijas, voltarei, descansa!”
Ai! Que epopeia túrgida de lágrimas
Na comoção daquela despedida!
Eu soluçava envolta em véu de prantos:
“Quando voltares, já serei sem vida!”
Desde então, comprimindo atras angústias,
Vou te esperar à beira do caminho;
Voltam cantando ao sol as andorinhas,
Só tu não volves ao deserto ninho!...
Quando a tribo inquieta das falenas
Liba filtros nas clícias da campina,
Busco da redenção o augusto símbolo,
E faleço de amor como Corina!
Pois bem! Se enfim voltares desse exílio,
Ave errante, fugindo à quadra hiberna,
Vem à sombra do val': sob os ciprestes
Comigo fruirás ventura eterna!