Primeira Parte: Amargura Nebulosas · Capítulo 12 de 44
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Primeira Parte: Amargura

Ao desmaiar do sol, além, nas cordilheiras,

Ao badalar dos sinos dobrando — Ave Maria!

Ai! desprende um gemido, acorde doloroso,

Minha alma na agonia!

Que importa o ledo riso de um tempo já volvido?

Que importa o beijo frio da cerração do sul?...

O sofrimento extingue anelos de ventura,

— Flor virgem num paul! —

Já tive, como todos, meus enlevados sonhos,

Senti tingir-me a face a púrpura do enleio;

E o coração pulsou-me um dia entre delícias

Fazendo arfar o seio.

E a flor, vendo-me a furto, fulgia mais contente!

E as lâmpadas do céu brilhavam mais gentis!

E os cânticos das aves mais ternos se elevavam

Nas viragens sutis!

E a lua me enviava um raio de tristeza;

A luz, beijo de fogo — ardente, fulgurante!

A nuvem vaporosa, ao perpassar no espaço,

Olhava-me um instante!

Ai! cedo esvaeceu-se a frívola miragem,

E fugitiva, rápida, desfez-se essa ilusão;

Apenas hoje sangra e estua-me sem vida,

O gélido gel'do coração.

Não mais se expandem lírios, nem luzem mais estrelas,

Emudeceram lentos os mágicos cantores;

Não mais me envolve a luz entre amorosos laços

E límpidos fulgores.

Porque não sou a rola que deixa além o ninho,

E estende as leves asas, e voa na amplidão?

Porque não chego ao menos a fronte à imensidade

Por sobre a criação?!...

Porque não sou o íris que arqueia-se no éter?

Porque não sou a nuvem dos páramos sidéreos?

Porque não sou a onda azul que além desmaia

A revelar mistérios?...

O mundo que me vê passar sem um sorriso,

Não vê do meu tormento o horrendo vendaval!

Ele que acolhe e afaga o venturoso, entrega

O triste à lei fatal!

Só resta hoje à minha alma os campos do infinito;

Aquece-se a tristinha ao sol da eternidade;

E se à lembrança traz as lendas que se foram,

São laivos de piedade!

Meu Deus! porque embalar-me o quedo pensamento

Se amor é passageiro, se as glórias são de pó?!

Poetisa — tomo a lira às lufas da descrença,

E a ti me volto só.

Bondoso, abre-me os braços, reúne-me aos teus anjos,

A eterna ventura almejo palpitante;

Contemplarei o — nada — do seio das estrelas,

Das dores triunfante!

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