Segunda Parte: No Ermo Nebulosas · Capítulo 17 de 44
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Segunda Parte: No Ermo

Salve! Florestas virgens, majestosas,

Aos céus alçando as comas verdejantes

Em perenes louvores!

Salve! Berço de brisas suspirosas,

Onde pendem coroas flutuantes

Aos lúcidos vapores!

Eu que esgotei do sofrimento a taça,

Que pendo para a campa úmida e fria

No alvorecer da vida;

Que na longa vigília da desgraça

Não vejo luz... nem tenho na agonia

Consolação querida;

Eu que sinto na fronte erma de sonhos

A centelha voraz, a febre ardente

Que o viver me consome;

Que já não creio num porvir risonho...

Que só busco olvidar num ai plangente

O martírio sem nome...

Oh! Eu quero, meu Deus, sorver sedenta

Os virgíneos eflúvios desta selva,

Gozar beleza e sombra!

Molhar meus pés na vaga sonolenta...

E desmaiar depois da mole relva

Na balsâmica alfombra!...

Aqui, entre estes troncos seculares,

Sob a cúpula ingente que flutua

Num mar de luz serena,

Não penetra a paixão com seus esgares;

Mais lânguido fulgor esparge a lua

Nas asas da falena.

Na mística penumbra entrelaçadas

Vicejam longas palmas espinhosas

De rastejantes cardos;

E do âmago das árvores lascadas,

Em fios brotam bagas preciosas

De cristalinos nardos.

Ao brando embate da amorosa aragem

Desprendem-se das longas trepadeiras

Mil pétalas pet'las purpurinas;

E dos terrais a tépida bafagem

Derrama o grato odor das caneleiras

No cálix das boninas.

Nas folhas de sereno gotejantes,

Balouça-se o inseto de esmeralda

À luz dourada e pura;

A serpente de tintas cambiantes

Desprende-se da florida grinalda,

E roja na espessura!

Além, recorta o vale aveludado,

Entre moitas gentis de violetas

O arroio preguiçoso;

E das flores aladas namorado,

Retrata as ondejantes borboletas

No leito pedregoso.

Em floridos festões cria a liana,

Sobre a linfa que rola murmurando,

Mil pontes graciosas,

Ou coliga-se à hercúlea canjerana,

E eleva-se, brandícias derramando,

Às nuvens luminosas.

O povo dos cerúleos passarinhos

Que há pouco em doces hinos de alegria

Cantava seus amores,

Voleia em busca dos macios ninhos

Saciado de gozo, a fantasia

Repleta de esplendores.

Pouco a pouco derramam-se nos ares

Mais doces murmúrios. Já se esvaem

No remanso da noite

Os harpejos dos trêmulos pilares;

Já não bafeja os lotos, que descaem,

Das auras o açoite.

Agora que repousa a turba estulta,

Que a lua brinca nos vergéis fulgentes,

E os silfos se embevecem,

O primeiro cantor brasíleo exulta;

E os gorjeios sonoros, estridentes,

Num gemido falecem!

De novo a voz se alteia palpitante

Ao capricho indolente, langoroso,

Da garganta canora;

Varia o poeta a escala delirante...

Dir-se-ia o murmurar langue saudoso,

Da onda que se explora!...

Eu amo estes risonhos alcaçares,

Quer a pino dardeje o rei dos astros

Seus raios queimadores,

Quer a névoa que ondeia entre os palmares

Deixe os noturnos, luminosos rastros,

Com gélidos palores.

Aqui aos ternos cânticos das aves,

Ao refulgir das lágrimas da aurora

Nos campesinos véus,

minh'alma minha alma pousa de emoções suaves

Desdenha a mágoa insana que a devora,

E remonta-se aos céus!

Salve! Florestas virgens, majestosas,

Aos céus alçando as comas verdejantes

Em perenes louvores!

Salve! Berço de brisas suspirosas,

Onde pendem coroas flutuantes

Aos lúcidos vapores!

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