Segunda Parte: Vem!
Lírio mimoso dos jardins cerúleos,
Plácido arcanjo de brilhantes vestes,
Vem, Sono, e com teu cetro fúlgido
Fecha-me os olhos.
Não vês que as sombras se desdobram tétricas?
Que Éolo geme sem já ter um silvo?
Não vês que os gênios do oceano indômito
Lânguidos choram?
Vem, que a fragrância dos junquilhos cândidos
Se casa ao múrmur da fugaz corrente;
Há na folhagem das sombrias árvores
Túrbida queixa.
Se ao leito foges em que rola o cético
Turbando a noite com a blasfêmia ímpia,
Tu vens da virgem deferir a súplica
Tímida e pura!
E quando baixas, belo ser notívago,
Vertendo orvalhos, mitigando dores,
As magnólias que se alteiam pálidas
Curvam-se na haste.
O pobre escravo num langor benéfico
Recobra forças para a luta insana;
Lasso proscrito, todo o horror do exílio
Mísero! — esquece.
A branca pomba, da doçura símbolo,
Oculta a fronte sob as níveas asas;
E o rei das feras nas cavernas líbicas,
Flácido tomba!...
O cafre exausto sobre a areia tórrida
Busca a palmeira no Saara erguida;
E goza ao sopro de teu meigo hálito,
Mágico encanto!
Oh! mais não tardes, vem ungir-me as pálpebras
Meu ser embala num dourado sonho!
Rasga o véu denso que limita o vácuo,
Mostra-me a pátria!...