Segunda Parte: Pesadelo Nebulosas · Capítulo 28 de 44
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Segunda Parte: Pesadelo

I

Quando nas horas mortas da noite que se esvai

Me empalidece a face e a fronte me decai,

Eu dessa vastidão sem fim do mar do mundo

Colho as raras pérolas per'las que dormem lá no fundo

E vejo a luz mostrar-se a custo, fugitiva,

Por entre densas trevas a cintilar cativa.

Da velha idade ao sol... Na Grécia florescente

Caindo o persa audaz, não vê a lava ardente

Que lavra desses peitos nos férvidos vulcões,

Da pátria a queixa rasga os gregos corações:

Levanta-se Milcíades e nas guerreiras lides

Abraça o gênio másculo do integro Aristides!

Além folgava Roma em seus festins ruidosos

Berço da ímpia Túlia e régios criminosos, -

E a sanha do Soberbo - rugia sob os véus

De fulgidos zimbórios e lindos coruchéus:

Mas a honra de Lucrécia, por um prum príncipe ultrajada,

No sangue dos senhores por Bruto foi vingada.

Nessas montanhas ínvias, nos alcantis virentes,

Na limpidez dos lagos de ondulações trementes;

No seio desse ninho formado de mil flores,

Onde cantam idílios os tímidos pastores,

Eu vejo fulminadas as águias poderosas

Que de Tell Tel desafiaram as iras belicosas.

No chão da confusão arquejam parlamentos;

Trêmulo trelo de ardor, reúne esparsos regimentos

E à frente das falanges intrépidas, luzidas,

"Vingança!" brada Cromwell Crômel às raças oprimidas.

Com rapidez terrível o gládio soberano

Atira ao pó a fronte do plácido tirano!

E vejo um lidador com santo entusiasmo

Tentar roubar a Itália a seu servil marasmo;

Reavivar a chama — a chama amortecida

Na mesa do banquete, na morbidez da vida...

Mas ai! de um fero papa, ao mando assassinado,

Rienzi o invencível caiu sacrificado!

E lá quando a Polônia nas garras de seus erros

Se estorce, enchendo em vão de lágrimas os cerros,

Encélado sublime, em frente às invasões,

Destaca-se Kosciuszko Cociusco erguendo as multidões!...

Escrita estava a sorte: devasta a Prússia a plaga,

E o esforço sobre-humano a Rússia fria esmaga.

A filha de Albion ativa repousava

Além do vasto mar, ante a mãe pátria - escrava;

Quebra o patriotismo o leito em que dormia,

Ergue-se o povo herói e a luta acaricia:

Silvando voam balas, o eco acorda os montes,

Livre surge a nação enchendo os horizontes!...

II

Salve! Oh! Salve Oitenta-e-Nove,

Que os obstáculos remove!

Em que o heroísmo envolve

O horror da maldição!

Rolam frontes laureadas,

Tombam testas coroadas

Pelo povo condenadas

Ao grito — revolução!

Caem velhos privilégios

De envolta D’envolta com os sacrilégios;

São troféus — os céticos régios,

Mitra, burel e brasão!

E os três esquivos estados

Fundem-se em laços sagrados,

Que prendem os libertados

Aos pés da revolução!

No pedestal da igualdade,

Firma o povo a liberdade;

Um canto à fraternidade

Entoa a voz da nação,

Que em delírio violento

Fita altiva o firmamento,

E adora por um momento

A deusa — Revolução!

Os ódios secam o pranto,

A ira tem mago encanto,

E a morte sacode o manto

Lançando crânios no chão!

Aqui — são longos gemidos

Desses que tombam feridos;

Ouve-se além — os rugidos

Da fera — revolução.

Treme a humana potestade

Ante tanta mortandade!

Proclama que a sociedade

Agoniza em convulsão!

Erguem-se estranhas fileiras,

Vão devassar as fronteiras,

Bradando às hostes guerreiras:

— Abaixo a revolução!

O nobre povo oprimido

Supõem fraco e vencido;

Medem-lhe o sangue espargido

Nas vestes da confusão.

Não sabem que é mais veemente

Dos livres o grito ingente,

Quando reboa fremente

À luz da revolução!

Levanta-se hirta a falange,

E a louca marcha constrange;

Rindo-se aguça o alfange

Tendo por guia a razão!

Ao sibilar da metralha

O obus gemendo estraçalha,

E o vasto campo amortalha

Quem fere a revolução!

Cobre a bandeira sagrada

A multidão lacerada,

E da França ensanguentada

Assoma Napoleão;

Surge da borda do abismo

O gênio do cristianismo,

E dos mártires o civismo

Confirma a revolução.

III

Contempla, minha pátria, sobranceira,

Dessas hostes os louros refulgentes;

E procurando a glória em teus altares

Entrelaça uma coroa a Tiradentes.

Viste marchar ao exílio acorrentados

Quais feras que teu seio rejeitava,

Os mais que desprender-te o pulso tentam,

E dormiste sorrindo — sempre escrava!...

E quando retumbou no espaço um brado

Tentando sacudir-te a negra coma,

Curvaste-te ao flagício fratricida

E deste ao cadafalso o — Padre Roma!

E não contente, após a exímia aurora

De tua amesquinhada independência,

Mais vítimas votaste em holocausto

Sufocando outra nobre Inconfidência.

Não bastavam, porém, tantos horrores

Que enegrecem as brumas do passado;

Foi preciso que às mãos de um assassino

Caísse o grande herói — Nunes Machado!

Foi preciso que em nome da justiça

De prisão em prisão vagando esquivo,

Acabasse afinal sem glória e nome,

Em martírio latente — Pedro Ivo!...

Mas se um dia o porvir abrir-te o livro

Que o presente te oculta temeroso;

Se com a vista medires a estacada

Em que o falso poder se ostenta umbroso;

Então, ó minha pátria, num lampejo

Os erros surgirão da majestade;

E arrojarás ao pó cetros e tronos

Bradando ao mundo inteiro — Liberdade!

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