Terceira Parte: Visão
Uma noite em que a febre da vigília
Escaldava-me o crânio e a fantasia,
Das regiões da luz e da harmonia
Eu vi baixar uma gentil visão;
Tinha na fronte ebúrnea, em vez de pâmpanos,
Grinalda de virgíneas tuberosas,
E trazia nas alvas mãos mimosas
O sagrado penhor da redenção.
E perguntei: - Quem és, arcanjo fúlgido,
Que vens iluminar-me a noite escura?
Quem és, tu que derramas a frescura
No pudibundo cálice da flor?...
Serás acaso a ondina teutônica
Envolta das espumas no sudário?
Serás um raio vindo do Calvário
Para trazer-me vida e crença, e amor?...
"Vida... Não tentes, querubim empírico,
Reanimar a chama extinta hoje!
Sinto que o círio da razão me foge
Da treva eterna no assombroso mar!
Crença... Em vão a pedi com longas lágrimas!
Em vão a clama meu sofrer profundo,
Como clamava Goethe moribundo
Luz! Às sombras silentes de Weimar!...
Amor... Límpido aljôfar que das pálpebras
De Cristo rola fecundando o solo!
Amor... Suave bálsamo, consolo
Que implora a humanidade ao pé da cruz!...
Oh! Sim, aponta-me a miragem cândida
Que mostra ao crente o paraíso aberto;
Estrela de Israel, que do deserto
Aos braços da Vitória nos conduz!...
Mas quem és, tu que vens erguer do pélago
A aurora funeral de meu futuro?
Fala! Quem és, que um ósculo tão puro
Depões em minha fronte de mulher?!"
"Sou a Esperança, disse; em minha túnica
Brilha serena a lágrima do aflito;
Tenho um sólio no seio do infinito,
E banha-me o clarão do rosicler!
Abre-me o coração pleno de angústias,
Conforto encontrarás em meu regaço;
Criarei para ti mundos no espaço
Onde segrede amor aura sutil!
Onde em lagos azuis de areias áureas
Se embalem redivivas tuas crenças,
E à meiga sombra das lianas densas
Vibres cismando as notas do arrabil."
"Curvo-me, ó anjo, a teu acento plácido:
Já nem me punge tanto o sofrimento!
Sinto em meu peito o divinal alento
Que verte na alma teu cerúleo olhar!
A meus olhos se rasga atro sudário,
Fito o incerto porvir mais calma e forte:
Já tenho forças pra lutar com a sorte
E voto a minha lira em teu altar!"