Terceira Parte: Visão Nebulosas · Capítulo 31 de 44
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Terceira Parte: Visão

Uma noite em que a febre da vigília

Escaldava-me o crânio e a fantasia,

Das regiões da luz e da harmonia

Eu vi baixar uma gentil visão;

Tinha na fronte ebúrnea, em vez de pâmpanos,

Grinalda de virgíneas tuberosas,

E trazia nas alvas mãos mimosas

O sagrado penhor da redenção.

E perguntei: - Quem és, arcanjo fúlgido,

Que vens iluminar-me a noite escura?

Quem és, tu que derramas a frescura

No pudibundo cálice da flor?...

Serás acaso a ondina teutônica

Envolta das espumas no sudário?

Serás um raio vindo do Calvário

Para trazer-me vida e crença, e amor?...

"Vida... Não tentes, querubim empírico,

Reanimar a chama extinta hoje!

Sinto que o círio da razão me foge

Da treva eterna no assombroso mar!

Crença... Em vão a pedi com longas lágrimas!

Em vão a clama meu sofrer profundo,

Como clamava Goethe moribundo

Luz! Às sombras silentes de Weimar!...

Amor... Límpido aljôfar que das pálpebras

De Cristo rola fecundando o solo!

Amor... Suave bálsamo, consolo

Que implora a humanidade ao pé da cruz!...

Oh! Sim, aponta-me a miragem cândida

Que mostra ao crente o paraíso aberto;

Estrela de Israel, que do deserto

Aos braços da Vitória nos conduz!...

Mas quem és, tu que vens erguer do pélago

A aurora funeral de meu futuro?

Fala! Quem és, que um ósculo tão puro

Depões em minha fronte de mulher?!"

"Sou a Esperança, disse; em minha túnica

Brilha serena a lágrima do aflito;

Tenho um sólio no seio do infinito,

E banha-me o clarão do rosicler!

Abre-me o coração pleno de angústias,

Conforto encontrarás em meu regaço;

Criarei para ti mundos no espaço

Onde segrede amor aura sutil!

Onde em lagos azuis de areias áureas

Se embalem redivivas tuas crenças,

E à meiga sombra das lianas densas

Vibres cismando as notas do arrabil."

"Curvo-me, ó anjo, a teu acento plácido:

Já nem me punge tanto o sofrimento!

Sinto em meu peito o divinal alento

Que verte na alma teu cerúleo olhar!

A meus olhos se rasga atro sudário,

Fito o incerto porvir mais calma e forte:

Já tenho forças pra lutar com a sorte

E voto a minha lira em teu altar!"

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