Primeira Parte: Desengano Nebulosas · Capítulo 8 de 44
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Primeira Parte: Desengano

Quando resvala a tarde na alfombra do poente

E o manto do crepúsculo se estende molemente;

Na hora dos mistérios, dos gozos divinais,

Despedaçam-me o peito martírios infernais;

E sinto que, seguindo uma ilusão perdida,

Me arqueja, treme e expira a lâmpada da vida!

Feriu-me os olhos tímidos o brilho da esperança;

A luz do amor crestou-me o riso de criança;

E quando procurei — sedenta — uma ventura,

Aberta vi a fauce voraz da sepultura!...

Dilacerou-me o seio, matou-me a crença bela,

O tufão mirrador de hórrida procela!

Então pálida e triste, alcei a fronte altiva

Onde se estampa a dor tenaz que me cativa;

Sorvi na taça amarga o fel do sofrimento,

E a voz queixosa ergui num último lamento:

Era o cantar do cisne, o brado da agonia...

E a multidão passou soberba, muda, fria!

Desprezo as pompas loucas, desprezo os esplendores,

Trilhar quero um caminho orlado só de dores;

E além, nas solidões, à sombra dos palmares,

Ao derivar da linfa por entre os nenúfares nenufares ,

Quero ver palpitar, como em meu crânio a ideia,

O inseto friorento na lânguida ninfeia!

E quando o ardor latente que cresta minha fronte

Ceder à neve algente que touca o negro monte;

Quando a etérea asa da brisa fugitiva

Trouxer-me os castos trenos da terna patativa,

Elevarei meus carmes ao Ser que criou tudo,

E dormirei sorrindo num leito ignoto e mudo.

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