Primeira Parte: Desengano
Quando resvala a tarde na alfombra do poente
E o manto do crepúsculo se estende molemente;
Na hora dos mistérios, dos gozos divinais,
Despedaçam-me o peito martírios infernais;
E sinto que, seguindo uma ilusão perdida,
Me arqueja, treme e expira a lâmpada da vida!
Feriu-me os olhos tímidos o brilho da esperança;
A luz do amor crestou-me o riso de criança;
E quando procurei — sedenta — uma ventura,
Aberta vi a fauce voraz da sepultura!...
Dilacerou-me o seio, matou-me a crença bela,
O tufão mirrador de hórrida procela!
Então pálida e triste, alcei a fronte altiva
Onde se estampa a dor tenaz que me cativa;
Sorvi na taça amarga o fel do sofrimento,
E a voz queixosa ergui num último lamento:
Era o cantar do cisne, o brado da agonia...
E a multidão passou soberba, muda, fria!
Desprezo as pompas loucas, desprezo os esplendores,
Trilhar quero um caminho orlado só de dores;
E além, nas solidões, à sombra dos palmares,
Ao derivar da linfa por entre os nenúfares nenufares ,
Quero ver palpitar, como em meu crânio a ideia,
O inseto friorento na lânguida ninfeia!
E quando o ardor latente que cresta minha fronte
Ceder à neve algente que touca o negro monte;
Quando a etérea asa da brisa fugitiva
Trouxer-me os castos trenos da terna patativa,
Elevarei meus carmes ao Ser que criou tudo,
E dormirei sorrindo num leito ignoto e mudo.