Segunda Parte: Invocação Nebulosas · Capítulo 16 de 44
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Segunda Parte: Invocação

Quando a noite destende seu manto,

Quando a Deus faz subir rude canto

Da lagoa o audaz pescador;

Quando rolam no éter mil mundos,

— Quando eleva, plangentes, profundos,

Seus poemas, feliz trovador;

Quando a aragem, perdida, faceira,

Beija a flor do amaranto, e ligeira

Os olores lhe rouba, tremente;

Quando a linfa se enrosca e murmura

Na macia, relvosa espessura,

Qual argêntea, travessa serpente;

Quando fulge a rainha dos mares,

Desdobrando, entornando nos ares

Suavíssima e plácida luz,

E descansa, chorando, na lousa

Onde a virgem dormente repousa,

Acolhendo-se à sombra da cruz;

Quando ao som das gentis cachoeiras

Mil ondinas a flux, feiticeiras,

Cortam rolos de espuma de prata;

E desperta do abismo os mistérios,

E ressoa nos campos aéreos

O gemido tenaz da cascata;

Sinto n’alma pungir-me um espinho!

Sinto o vácuo embargar o caminho

Que procuram meus trenos de amor!

Deste sol que dá luz e ventura,

Desses pampas de eterna verdura,

Ai! não vejo a beleza, o esplendor!

Se eu pudesse, qual cisne mimoso,

Que nas águas campeia orgulhoso,

Demandar minha pátria adorada...

Ou condor, em um voo gigante,

Contemplar sob o céu — palpitante —

Esses lagos de areia dourada...

Mas, ó pátria, são frágeis as asas!

E se aos bardos mil vezes abrasas,

Não me ofertas um mirto sequer!

Quando intento librar-me no espaço,

As rajadas, em tétrico abraço,

Me arremessam à frase — mulher!...

Seja embora! Se em leves harpejos

Vem a brisa cercar-te de beijos

E dormir sobre tuas campinas,

Dá-me um trilo dos plúmeos cantores!

Dá-me um só dos ardentes fulgores

De teu cálido céu sem neblinas!

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