Segunda Parte: Invocação
Quando a noite destende seu manto,
Quando a Deus faz subir rude canto
Da lagoa o audaz pescador;
Quando rolam no éter mil mundos,
— Quando eleva, plangentes, profundos,
Seus poemas, feliz trovador;
Quando a aragem, perdida, faceira,
Beija a flor do amaranto, e ligeira
Os olores lhe rouba, tremente;
Quando a linfa se enrosca e murmura
Na macia, relvosa espessura,
Qual argêntea, travessa serpente;
Quando fulge a rainha dos mares,
Desdobrando, entornando nos ares
Suavíssima e plácida luz,
E descansa, chorando, na lousa
Onde a virgem dormente repousa,
Acolhendo-se à sombra da cruz;
Quando ao som das gentis cachoeiras
Mil ondinas a flux, feiticeiras,
Cortam rolos de espuma de prata;
E desperta do abismo os mistérios,
E ressoa nos campos aéreos
O gemido tenaz da cascata;
Sinto n’alma pungir-me um espinho!
Sinto o vácuo embargar o caminho
Que procuram meus trenos de amor!
Deste sol que dá luz e ventura,
Desses pampas de eterna verdura,
Ai! não vejo a beleza, o esplendor!
Se eu pudesse, qual cisne mimoso,
Que nas águas campeia orgulhoso,
Demandar minha pátria adorada...
Ou condor, em um voo gigante,
Contemplar sob o céu — palpitante —
Esses lagos de areia dourada...
Mas, ó pátria, são frágeis as asas!
E se aos bardos mil vezes abrasas,
Não me ofertas um mirto sequer!
Quando intento librar-me no espaço,
As rajadas, em tétrico abraço,
Me arremessam à frase — mulher!...
Seja embora! Se em leves harpejos
Vem a brisa cercar-te de beijos
E dormir sobre tuas campinas,
Dá-me um trilo dos plúmeos cantores!
Dá-me um só dos ardentes fulgores
De teu cálido céu sem neblinas!