Segunda Parte: Lembras-Te? Nebulosas · Capítulo 23 de 44
Obra Menu

Segunda Parte: Lembras-Te?

Era à tardinha: a luz no monte debruçada

Nos enviava o — adeus — com tépido langor;

Brincava em nossas tranças a brisa embalsamada,

Tudo ante nós sorria, desde a gramínea à flor.

E tu me perguntaste com essa fala aérea,

Tomando minha mão nas tuas mãos mimosas:

— “Por que cismando fitas a vastidão sidérea?

Por que contemplas muda as tênues nebulosas?”

Escuta: a terra sagra ao sol mil harmonias!

A fonte ondula trêmula a superfície azul;

Vagam no espaço — errantes — celestes melodias,

E róseas nuvens cingem a amplidão do sul.

No ar brincam as sombras com seus fulgores pálidos,

As dríades desdobram as asas transparentes;

Esquece a magnólia do dia os raios cálidos,

E os alvos nenúfares se ocultam nas correntes.

Ao longe, o busto negro de imensa serrania

Campeia majestoso ao lânguido clarão...

Esvai-se lá nas selvas o som da Ave-Maria...

E a trepadeira rubra alastra o mole chão.

Argênteas cataratas, rolando pelas fráguas,

Sacodem catadupas de lindos diamantes;

Na face dos arroios, na candidez das águas,

Perfumam mariposas os corpos cambiantes.

Além soluça a rola um cântico saudoso...

Entorna-se a poesia do firmamento a flux;

Gemem eólias harpas, e o manto luminoso

Do céu desvenda as loiras palhetas que produz!

Não me perguntes mais com essa fala aérea

Por que muda contemplo as tênues nebulosas,

Por que cismando fito a vastidão sidérea,

Ó sílfide embalada em névoas vaporosas!

Vejo no lago azul, na flor, nos verdes montes,

O Ser que cria a brisa, e doura o arrebol;

Que impele a nuvem túmida por sobre os horizontes,

Que, fazendo-nos de pó, vestiu de luz o sol!...

1/1
Menu

Fazer anotação