Segunda Parte: Lembras-Te?
Era à tardinha: a luz no monte debruçada
Nos enviava o — adeus — com tépido langor;
Brincava em nossas tranças a brisa embalsamada,
Tudo ante nós sorria, desde a gramínea à flor.
E tu me perguntaste com essa fala aérea,
Tomando minha mão nas tuas mãos mimosas:
— “Por que cismando fitas a vastidão sidérea?
Por que contemplas muda as tênues nebulosas?”
Escuta: a terra sagra ao sol mil harmonias!
A fonte ondula trêmula a superfície azul;
Vagam no espaço — errantes — celestes melodias,
E róseas nuvens cingem a amplidão do sul.
No ar brincam as sombras com seus fulgores pálidos,
As dríades desdobram as asas transparentes;
Esquece a magnólia do dia os raios cálidos,
E os alvos nenúfares se ocultam nas correntes.
Ao longe, o busto negro de imensa serrania
Campeia majestoso ao lânguido clarão...
Esvai-se lá nas selvas o som da Ave-Maria...
E a trepadeira rubra alastra o mole chão.
Argênteas cataratas, rolando pelas fráguas,
Sacodem catadupas de lindos diamantes;
Na face dos arroios, na candidez das águas,
Perfumam mariposas os corpos cambiantes.
Além soluça a rola um cântico saudoso...
Entorna-se a poesia do firmamento a flux;
Gemem eólias harpas, e o manto luminoso
Do céu desvenda as loiras palhetas que produz!
Não me perguntes mais com essa fala aérea
Por que muda contemplo as tênues nebulosas,
Por que cismando fito a vastidão sidérea,
Ó sílfide embalada em névoas vaporosas!
Vejo no lago azul, na flor, nos verdes montes,
O Ser que cria a brisa, e doura o arrebol;
Que impele a nuvem túmida por sobre os horizontes,
Que, fazendo-nos de pó, vestiu de luz o sol!...